sexta-feira, 9 de novembro de 2018

MATTHEW SHIPP: “Ao Vivo Jazz na Fábrica”







LANÇAMENTOS  Série “Ao Vivo Jazz na Fábrica” traz concerto de Matthew Shipp em seu último lançamento...


 






Por Fabricio Vieira


Soa estranho falar do Jazz na Fábrica no passado, mas oficialmente o festival deixou de existir neste ano, tendo sido substituído pela Sesc Jazz que, apesar de ocorrer no mesmo local e manter o mesmo perfil, é considerado pela produção como um novo evento. A multiplicidade de expressões jazzísticas marcou o Jazz na Fábrica desde sua estreia, em 2011, característica distintiva do evento que fez dele, em suas sete edições, o mais importante festival dedicado ao jazz do país. E para quem se interessa pelo free, pelas vias mais experimentais do gênero, esse foi o mais importante festival que já houve no Brasil, que já teve (e tem) inúmeros festivais com “jazz” em seu nome ao menos desde meados dos anos 1980. No futuro, o festival promovido pelo Sesc será celebrado por sido o primeiro a trazer ao país com seus grupos e/ou em versão solista nomes como Anthony Braxton, Mats Gustafsson, Muhal Richard Abrams, GUO, Matthew Shipp, Annette Peacock, William Parker, Henry Threadgill, Roscoe Mitchell, Nate Wooley e outros tantos.

Como fruto do festival fica também uma pequena coleção de CDS editados nos últimos anos a partir de gravações realizadas no evento. Chamada de “Ao Vivo Jazz na Fábrica”, a série de discos de capa vermelha ofereceu aos brasileiros a oportunidade de ter pela primeira vez um álbum de alguns dos maiores nomes da free music em versão nacional, a preços baixos. Aos discos de Anthony Braxton, William Parker Quartet e Roscoe Mitchell (solo), junta-se agora um novo título, que traz apresentação do pianista Matthew Shipp. Este deve ser o título derradeiro da série (que contou ainda com um disco do brasileiro Grupo UM). Espera-se que no ano que vem apareça uma nova série, em consonância com o novo festival Sesc Jazz.

O álbum dedicado a Matthew Shipp oferece o concerto único que o pianista realizou no dia 19 de agosto de 2016, no Teatro do Sesc Pompeia (que resenhamos aqui). É interessante que o disco saia agora, dois anos depois: ao ouvi-lo, temos a sensação de se deparar com algo fresco, em meio a rememorações sutis que vão emergindo daquela fantástica noite. Shipp é um nome central do piano desde a década de 1990 e está em sua plenitude, fazendo sua música cósmica, que nos toma de assalto, encanta e arrebata. Shipp já teve diferentes etapas em seu trabalho solista, do foco na improvisação livre à exploração de temas próprios, chegando ao formato atual de suas apresentações ao piano: um fluxo no qual vão surgindo, em fragmentos ou desenvolvidas, peças de sua autoria, standards e muita improvisação. 

O álbum agora editado traz 11 temas, em cerca de uma hora de música. Nesse percurso, quem não está afeito à música de Shipp, mas conhece jazz, não fica de todo desamparado, podendo reconhecer acordes de clássicos como “Angel Eyes”, “Summertime” e “Yesterdays”; para os que já desbravaram sua música, surgem aqui algumas de suas melhores peças: “Patmos” e “Gamma Ray”, extraídas de “One”, absurdo álbum de 2006; a complexa “Symbol Systems”, de álbum homônimo dos anos 90; e “Wholetone” (que aparece rebatizada como “Whole Movement”), uma das peças centrais do primoroso álbum “Art of the Improviser” (2011). Um passeio por um pouco do que de mais impressionante tem sido criado no piano contemporâneo.

Com este disco de Matthew Shipp, a coleção “Ao Vivo Jazz na Fábrica” encerra (?) seu breve mas representativo percurso. Esses álbuns deveriam estar sendo bem divulgados lá fora – ao menos algumas resenhas no exterior têm aparecido – onde esses artistas têm um público mais amplo e atento, o que poderia propiciar maior repercussão. São registros de grande importância, testemunhos de um momento único para a free music em nosso país.





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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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