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domingo, 21 de agosto de 2016

O homem, o piano e o cosmos





O pianista de NY Matthew Shipp se apresentou pela primeira vez no Brasil na noite de sexta-feira e mostrou o porquê de sua música ser um dos momentos maiores da Arte de hoje.




Por Fabricio Vieira

Matthew Shipp adentrou o palco em passos ligeiros. Uma breve pausa, um cumprimento rápido e, sem perder tempo com palavras, iniciou a apresentação única que fez no festival Jazz na Fábrica, na noite de sexta-feira em um Teatro do Sesc Pompeia que, se não plenamente ocupado, contou com um grande público. O que se viu dali em diante foi um pouco do que de mais significativo tem sido criado no piano contemporâneo.
A experiência oferecida ao público pelo pianista de Nova York se estendeu por uma hora e cinco minutos, mas poderia ter sido apenas 30 minutos ou talvez duas horas: esse é o tipo de concerto no qual a temporalidade ganha outra dimensão, em que, ininterruptamente, vemos o artista tecer sua obra pelo tempo que for necessário, nada a mais ou a menos: a apresentação dura o tempo em que se mantém a conexão entre o instrumentista e as energias cósmicas que capta e transforma em música. “Eu sou um pianista cósmico”, diz Shipp. “Tudo é vibração. Eu olho para qualquer criação do universo como ondas se unindo, e é o que tento fazer na música, que seja um canal aberto para as ondas cósmicas, tento trazê-las para o piano.”   
Nesse processo, composições próprias, standards e improvisação livre se juntam para formar um todo; nessa noite, uma peça de exata 1 hora, que concentrou o núcleo do concerto (houve ainda um pequeno bis), sendo apresentada como um fluxo contínuo de ideias e expressões que se desenvolvem sequencialmente e de forma imbricada: nada ali é supérfluo ou pode ser extraído; sem uma daquelas peças, o todo perderia sua unidade. Infelizmente pudemos ver apenas um concerto de Shipp: uma outra apresentação traria soluções diversas, com escolhas e combinações outras, compondo um distinto (apesar de pertencer à mesma linguagem) universo expressivo, uma outra obra, em suma: cada show se estrutura como uma peça única em que, mesmo que certos temas retornem, tal acontece em um diversificado contexto criacional. É como se o pianista nos conduzisse por uma estrada que conhecemos vagamente, em que a surpresa nos espreita de tempos em tempos; mesmo quando nos sentimos confortáveis pelo reconhecimento de um tema dedilhado, logo somos conduzidos a experiências novas, engolfados pela improvisação e a imaginação sem limites do pianista.
Esse esquema atual difere de sua postura de meados da década de 1990, quando começou a gravar e se apresentar em formato solista; dentro de uma linhagem mais claramente ligada ao universo tayloriano, a improvisação livre era nuclear naquele tempo, como atestam registros como o pioneiro “Before the World”. Já o processo que vimos, armado por meio de composição própria–standard–improvisação livre, tem marcado seus últimos trabalhos de piano solo, como “Creation out of Nothing” e “I’ve been to many Places”.
Infelizmente nem todos que foram ao Teatro do Sesc na noite de sexta-feira pareciam saber o que esperar, o que acabou se convertendo em pessoas deixando a sala antes do término do concerto, provavelmente desconectadas da beleza única que emanava do palco.

Quem conhece as composições de Shipp teve a alegria de ouvir algumas delas ali, ao vivo. Foi arrepiante se deparar logo com a intensa “Wholetone”, isso com menos de 15 minutos de concerto. Para quem não conhecia as peças de Shipp, houve talvez o prazer de identificar algum standard ecoando ora ou outra (um senhor na plateia, que se dizia pianista, não se conteve e cantarolou um tema que reconheceu, sendo logo repreendido por quem estava próximo dele). De qualquer forma, o surgimento de um tema próprio ou clássico sempre ocorre dentre desse contexto criacional de Shipp, sendo reinterpretado por sua linguagem particular, de forma a gestar um conjunto coeso e perfeitamente equilibrado. Interessante notar que Shipp saiu de cena rapidamente assim que encerrou a apresentação (que durou exata 1 hora) para retornar pouquíssimo depois (segundos?) para o bis, como se não pudesse deixar o fluxo comunicativo que estabeleceu se romper. Difícil afirmar que o melhor ficou para os últimos 15 minutos, mas a sequência final ofertada foi excepcional: de uma intensa improvisação se abriu o standard “Yesterdays”, que não tardou em desaguar na arrebatadora “Patmos”, com seu tema mínimo repetitivo que inebria os sentidos; breve respiro e o bis, de cinco minutos, aberto com nada menos que “Gamma Ray”, outra de suas composições maiores extraída do álbum “One”.
Se podemos dizer que faltou algo à noite, faltou “Module”, a mais encantatória e embriagante peça que Shipp já compôs. Mas talvez o tema não estivesse circulando pelas vibrações do teatro naquela noite, pelas ondas captadas durante o transe criacional de Shipp. Essa fica guardada para uma próxima visita do pianista, que esperamos não tarde tanto...




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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)