domingo, 10 de maio de 2020

101 Álbuns Essenciais do FREE JAZZ






Próximo do seminal álbum de Ornette Coleman, que nomeou um novo gênero, completar 60 anos, o FreeForm, FreeJazz apresenta 101 álbuns imperdíveis da free music...








Por Fabricio Vieira


Em dezembro de 1960, Ornette Coleman entrou em um estúdio com outros sete músicos. Um duplo quarteto. Saíram de lá com uma única peça de 37 minutos. E a música nunca mais seria a mesma. Passadas seis décadas deste evento revolucionário, decidimos fazer uma lista de discos imperdíveis, referenciais, essenciais, herdeiros daquela semente plantada por Coleman lá atrás. Tal linhagem musical teve muitos desdobramentos e influências, gestou artistas mundo afora e criou uma história própria. Free jazz, new thing, out jazz, free music, fire music, free improvisation, creative music, por muitos rótulos essa arte se subdividiu, mas sempre mantendo sua dívida com os pioneiros – chamamos nossa lista de "free jazz", mas olhamos para todas essas dimensões.

Para estruturar esse "Top 101 do Free Jazz", partimos de algumas premissas: focamos álbuns que ajudaram a estruturar essa música ou abriram novos caminhos; discos que a definem estética e expressivamente; registros históricos que chacoalharam as bases vigentes ou levaram à perfeição as propostas que norteiam a free music. Algumas regras regeram o levantamento: a escolha se restringiu a, no máximo, 2 discos em que o/a artista seja líder ou colíder; foram desconsiderados coletâneas, boxes, edições especiais, dando-se ênfase a álbuns propriamente; consideramos a abrangência temporal e estética do material destacado, indo de discos pioneiros que ainda carregam mais elementos jazzísticos (como "Iron Man") a aqueles que já começam a mergulhar mais profundamente em outros campos (como o noise em "Mass Projection") – vale aqui ter o livro "Free Jazz and Free Improvisation: An Encyclopeia" como referência do alcance proposto.
O mais desafiador foi fazer um balanço de seis décadas, abordando álbuns editados em todo esse período (seria muito mais fácil fazer uma lista apenas com discos dos anos 60 e 70). Mas a ideia era mostrar que essa música se mantém viva e ativa nesse tempo todo. A amplitude alcançada pelo free jazz, mesmo que em essência permaneça underground, é ilustrada pelo número de lugares contemplados na lista, que alcança todos os continentes, com representantes de cerca de 20 países; grande parte dos Estados Unidos, claro, mas com expressivo destaque também para Alemanha, Japão, Reino Unido e Escandinávia.
Diria que algo como metade dessa lista parece indiscutível: são discos que formam e definem tal seara musical. Já outra parte exibe mais uma visão particular, a forma como vejo os grandes momentos, os pontos luminosos que fazem a free music. O que importa, em última instância, é seguir ouvindo, explorando e divulgando essa música em todas suas roupagens. Que essa lista ajude os leitores a descobrirem coisas novas, revisitarem algo pouco ouvido ou relembrarem que a free music segue firme e viva, após seis décadas de história. Free The Jazz!




*101 Álbuns Essenciais do FREE JAZZ*




101- Voyage From Jericho (1975)
Charles Tyler
AK-BA Records


Charles Tyler (1941-1992) foi um dos grandes que não tiveram a atenção que mereciam. O saxofonista (alto e barítono), que começou tocando no grupo de Albert Ayler, deixou alguns álbuns que bem atestam a força de sua arte. Voyage From Jericho é um desses. Acompanhado de Earl Cross (trompete) e Steve Reid (bateria), apresenta aqui cinco peças geniais – Just for Two e a faixa-título são espetaculares. O álbum conta com a participação especial do saxofonista  Arthur Blyte.






100- Mouthfull of Ecstasy (1996)
Phil Minton Quartet
Les Disques Victo

Curiosamente Phil Minton é um dos artistas da free music que mais esteve no Brasil (se não for o que mais veio ao país). Minton, que desenvolve um trabalho vocal improvisativo único, está acompanhado aqui de outros três artistas britânicos, Roger Turner (percussão), Veryan Weston (piano) e John Butcher (saxes). A proposta do quarteto é adentrar o universo do Finnegans Wake, de James Joyce, a partir de composições e improvisações, em um incrível diálogo interartes.






99- Our Meanings and Our Feelings (1969)
Michel Portal
Pathé

O saxofonista e clarinetista francês Michel Portal é um dos mais complexos artistas de seu país. Um dos fundadores do New Phonic Art, se envolveu com música erudita contemporânea e foi um dos pioneiros do free jazz na França. Este álbum é um de seus primeiros registros no gênero e chega destilando uma sonoridade explosiva como pouco faria depois, energy music apoiada por um quarteto transeuropeu que contava com o baterista italiano Aldo Romano e o pianista alemão Joachim Kühn.






98- Let Peremsky Dream (1997)
Moscow Composers Orchestra
Leo Records


Somente na década de 1980, e muito pelo esforço de Leo Feigin, o free russo (ou melhor, soviético) começou a chegar ao ocidente. A Moscow Composers Orchestra, comandada pelo pianista Vladimir Miller, veio nessa onda e reuniu figuras como o baixista Vladimir Volkov e o trompetista Vyacheslav Guyvoronsky. Este Let Peremsky Dream, captado ao vivo em 1996 no Unsung Music Festival, contou com um reforço especial, a vocalista Sainkho Namchylak (que cria atmosferas únicas em "Two Tone Tuva II").





97- Chamber 4 (2015)
Luís Vicente/ Marcelo dos Reis/ Théo Ceccaldi/ Valentin Ceccaldi
FMR

Com um free camerístico, o quarteto Chamber 4 reúne os portugueses Luís Vicente (trompete) e Marcelo dos Reis (guitarra acústica) aos irmãos franceses Théo Ceccaldi (violino) e Valentin Ceccaldi (violoncelo). Com a improvisação no cerne do conjunto, vemos momentos de elevada voltagem avant-garde (“Some Trees”) dividindo espaço com tempos de sufocante lirismo (“Wooden Floor”) e temas que soam mais como um free jazz de câmara (“Lumber Voices”). Uma estreia de grande impacto.





96- All The Ghosts At Once (2015)
Mette Rasmussen / Chris Corsano
Relative Pitch

A Escandinávia provavelmente seja a regição com mais mulheres saxofonistas. E é daquela área que vem a dinamarquesa Mette Rasmussen. Voz de extensa inventividade improvisativa, como mostrou em apresentações no Brasil em 2019, Rasmussen, que se foca no sax alto, tem no duo com o baterista norte-americano Chris Corsano um de seus projetos mais representativos. Neste álbum de estreia da dupla, nove temas para mostrar até onde podem ir.






95- Berlin Skyscraper (1996)
Butch Morris
FMP

Lawrence 'Butch' Morris (1947-2013), não satisfeito em ser apenas um dos grandes cornetistas da história do free jazz, passou a desenvolver cada vez mais profundamente seu trabalho de compositor e regente, que culminou em um método de improvisação conduzida chamado de "Conduction". Com uma big band, fez alguns concertos no Total Music Meeting, em Berlim, em 95, que resultaram neste exemplar com cerca de três horas de música nas quais apresenta toda a complexidade de seu inovador método. 





94- Twet (1974)
Tomasz Stánko
Polskie Nagrania Muza

Pioneiro da cena free na Polônia, o trompetista Tomasz Stánko (1942-2018) teve neste quarteto, com o qual gravou alguns belos álbuns à época, alguns de seus melhores momentos. A seu lado estavam o incensado baterista finlandês Edward Vesala (1945-1999) e o baixista Peter Warren. Junta-se a eles o saxofonista Tomasz Szukalski (que também toca clarinete-baixo). São cinco peças, em que se alternam situações mais climáticas e picos enérgicos.






93- Live In Allentown (1986)
Borbetomagus
Agaric/Low Life

Dois saxes (Jim Sauter e Don Dietrich) e uma guitarra (Donald Miller). Foi disso que este trio fundado em Nova York em 1979 precisou para criar um dos projetos de free-noise mais demolidores já registrados. Levando às últimas consequências as propostas iniciadas uma década antes por Kaoru Abe e Masayuki Takayanagi, o Borbetomagus trabalhou com diferentes artistas da free music. Este explosivo registro ao vivo, com duas extensas faixas, saiu só em K7 à época, levando duas décadas para aparecer em CD.





92- The Third World (1970)
Gato Barbieri
Flying Dutchman

Durante cerca de uma década, o saxofonista argentino Leandro “Gato” Barbieri (1932-2016) foi um dos mais inventivos nomes do free jazz – até que, a partir de meados dos anos 70, passou a se perder fazendo algo mais suave e dançante. Barbieri uniu o free a elementos latino-americanos de forma poderosa na virada dos anos 60 e 70, criando peças de sonoridades únicas, como atesta The Third World, para o qual convocou Roswell Rudd, Charlie Haden e Beaver Harris.






91- Was Da Ist (1995)
Peter Kowald
FMP


Mais conhecido baixista de seu país e um dos nomes centrais do gênero, o alemão Peter Kowald (1944-2002) deixou uma extensa discografia como líder e sideman, tendo participado de alguns dos discos seminais do free europeu. Toda a complexidade de sua arte pode ser apreciada neste difícil álbum de baixo acústico solo. São 23 peças relativamente breves, entre 1 e 5 minutos, que captam sua genialidade no auge.






90- Test (1999)
Test
AUM Fidelity

Nascido no Canadá e radicado em NY, o baterista Tom Bruno (1932-2012) se tornou uma conhecida figura nos anos 80 tocando nas estações de metrô. Foi por lá que conheceu os saxofonistas Sabir Mateen e Daniel Carter e decidiram montar, após várias gigs no subsolo, isso já em meados da década de 90, o quarteto Test. Para o baixo, chamaram um então jovem aluno de William Parker, Matthew Heyner. E criaram um dos mais excitantes conjuntos do período.






89- Alien Huddle (2009)
Lotte Anker/ Ikue Mori/ Sylvie Courvoiser
Intakt Records

Uma música inebriante e hipnótica é o que nos oferece este encontro entre três das maiores artistas da free music. A dinamarquesa Lotte Anker (sax), a japonesa Ikue Mori (eletrônicos) e a suíça Sylvie Courvoiser (piano) se encontraram em dezembro de 2006, em um estúdio em NY, para criar as 11 faixas do álbum. A interação entre essas vozes distintas, com percursos tão diferentes na free music, é perfeita. Texturas, ruidagens sutis, técnicas expandidas e algo melódico aqui e ali fazem a singularidade do registro. 





88- First Feeding (1977)
Ensemble Muntu
Muntu Records

Comandado pelo sax alto Jemeel Moondoc, o Ensemble Muntu foi montado no começo dos anos 70. Depois de algumas mudanças, chegou a um desenho (podendo ser trio, quarteto) já com William Parker no baixo, tocando nos lofts que formavam a cena nova-iorquina de então. Quando gravaram este primeiro registro, em abril de 77, o grupo era Moondoc, Parker, Arthur Williams (trompete), Mark Hennen (piano) e Rashid Bakr (bateria). Em 2009, o selo NoBusiness reuniu esta e outras duas gravações do período em um box.






87- The Freedom Principle (2014)
Rodrigo Amado Motion Trio e Peter Evans
NoBusiness

O português Motion Trio é um dos mais finos exemplares da potente cena de Lisboa. Comandado pelo saxofonista Rodrigo Amado, traz ainda o violoncelista Miguel Mira e o baterista Gabriel Ferrandini. Para esta sessão, receberam o trompetista Peter Evans, de Nova York. E o resultado foi incrível, com improvisação coletiva de altíssima inventividade apresentada em três longas faixas. O grupo gravou também à época um registro ao vivo, tão bom quanto.






86- ONJQ  Live (2002)
Otomo Yoshihide’s New Jazz Quintet
DIW

Otomo Yoshihide está entre os mais conhecidos da free music. O artista japonês, que passeia por eletrônicos, turntables e é um ácido guitarrista, nunca escondeu sua conexão com o jazz, tendo comandado grupos com um pé no gênero – claro que à sua forma desconstrutiva. Essas experiências estão destacadas no projeto Otomo Yoshihide’s New Jazz Quintet (ONJQ), com suas versões Ensemble e Orchestra. Aqui vemos seu melhor, indo de peças de Otomo a versões de Dolphy ("Hat & Beard") e Shorter ("Swee Pea").






85- Saxophone Diplomacy (1985)
Rova
hatArt

O Rova é um pioneiro, ao lado do WSQ, quarteto de saxofones, formato que teve muitos rebentos depois. Formado em 1977 em San Franciso por Larry Ochs, Jon Raskin, Andrew Voigt e Bruce Ackley,  juntou a família dos saxes (tenor, alto, barítono e soprano) para explorar  contrastes e harmonias desconcertantes. Este histórico disco ao vivo, captado atrás da Cortina de Ferro durante a Guerra Fria, traz sua formação original (que teria mudanças com o tempo) e exibe temas clássicos como "Flamingo Horizons", que abre o disco duplo.





84- Tooth And Nail (2010)
Joe Morris / Nate Wooley
Clean Feed

Neste encontro entre dois dos maiores nomes de seus instrumentos na atualidade, Joe Morris (guitarra) e Nate Wooley (trompete) levam os ouvintes a um labirinto de sons abstratos e intrigantes. A guitarra limpa de Morris traça uma conversa íntima e inquietante com o sopro de Wooley, em um processo que pode parecer difícil ao ouvinte em muitos momentos, mas que recompensa quem aceita entrar nesse universo. Os temas nem são tão longos, oito minutos no máximo, mas, de tão detalhistas, parecem por vezes não rumar para um fim.






83- The Finnish/Swiss Tour (1991)
Hal Russell NRG Ensemble
ECM

Hal Russell (1926-1992) foi uma daquelas figuras que demorou muito para ter seu espaço na cena. Saxofonista, baterista, trompetista, iniciou a carreira ainda nos anos 60, mas apenas conseguiu mostrar seu trabalho de fato na década de 1980, quando criou o NRG Ensemble. Este registro traz seu grupo no auge, em uma de suas últimas passagens pela Europa, em novembro de 1990; a seu lado então estavam nomes como Mars Williams (saxes) e Kent Kesller (baixo). 







82- Creative Music Orchestra (1997)
Marco Eneidi / Glenn Spearman
Music and Arts

Marco Eneidi (1956-2016) e Glenn Spearman (1947-1998) foram dois músicos fundamentais das cenas dos anos 80 e 90. Juntaram forças em alguns projetos, sendo este Creative Music Orchestra o mais complexo. Com um grupo de mais de uma dúzia de instrumentistas, os dois saxofonistas criaram esta ousada obra, que une composição e improvisação em uma roupagem free jazzística de grande intensidade. Talvez pela falta de "estrelas" a obra tenha tido uma repercussão inferior à sua potencialidade.  






81- Guetto Music (1968)
Eddie Gale
Blue Note


Eddie Gale poderia ter sido apenas mais um músico lembrado por ter tocado com Cecil Taylor e Sun Ra. Mas o trompetista produziu sua própria música e deixou como legado este clássico underground. É curioso que o disco tenha saído pela Blue Note (conta-se que o chefão do selo pirou no som e resolveu bancá-lo); não à toa, só seria reeditado nos anos 2000. Aqui Gale explora não só suas raízes free jazzísticas, mas blues, soul, gospel, com coros inclusive, criando um painel inebriante.    






80- Exit (2013)
Fire! Orchestra
Rune Grammofon

Não contente com o incrível trio Fire!, Mats Gustafsson ampliou o projeto para uma Orchestra. E conseguiu fazer algo ainda mais impactante. Com vozes,  muitos instrumentistas, partindo de composições suas, o saxofonista sueco mostrou por que é realmente um dos nomes centrais de sua geração (se é que alguém ainda duvidava disso). As vozes de Mariam Wallentin e Sofia Jernberg na primeira parte da obra são deleite à parte. 






79- Full Blast (2006)
Peter Brötzmann/ Marino Pliakas/ Michael Wertmüller
Jazzwerkstatt


É até estranho pensar que o Full Blast tenha vindo três vezes no Brasil na última década, inclusive gravando disco no Audio Rebel. Esse trio que colocou ao lado do lendário saxofonista alemão Peter Brötzmann o suíço Marino Pliakas (baixo elétrico, dono de linhas geniais) e o baterista Michael Wertmüller reincendiou (como se isso fosse necessário) sua música, trazendo elementos rocker e alta potência, em improvisações demolidoras.






78- Ammmusic (1967)
AMM
Elektra

Quinteto de improvisação livre mais ligado às linhagens eruditas que jazzísticas, o britânico AMM reuniu nesta sua estreia nada menos que Cornelius Cardew (piano), Keith Rowe (guitarra), Eddie Prévost (percussão), Lou Gare (saxes) e Lawrence Sheaff (eletrônicos). A revolucionária experiência captada em junho de 66, em Londres, foi editada apenas com duas faixas, uma de cada lado do vinil (a futura versão em CD recebeu sobras de estúdio). Uma outra forma de encarar a improvisação em seu limite.





77- Double Take (2000)
Satoko Fujii Orchestra
EWE Records

Satoko Fujii talvez seja o maior nome de seu país na atualidade. A pianista japonesa, muito ativa desde os anos 90, tem desenvolvido trabalhos que vão de solista à orquestra, como compositora e improvisadora.  Double Take é um de seus mais ousados trabalhos: duplo, traz primeiramente uma big band "ocidental" tocando peças suas. No segundo disco, as peças (algumas as mesmas) são tocadas por uma orquestra de instrumentistas japoneses, mostrando o quanto interpretações e improvisações podem variar.   






76- Sad Life (1997)
Ivo Perelman
Leo Records

O saxofonista paulistano Ivo Perelman, radicado em NY, começava nesta etapa de sua trajetória a mergulhar mais intensamente na improvisação livre. Para isso, nada melhor que um trio completado por William Parker e Rashied Ali. Algum traço de sua primeira fase, quando trouxe brasilidades ao free jazz, ainda ecoa em temas como “Alagoana”. Mas peças como a explosiva “Urgencia” já mostram toda sua liberdade de improvisação, por meio de um sopro em ebulição, algo que marcava fortemente sua forma de tocar à época.






75- Aorta (1971)
Paul Van Gysegem Sextet  
Futura Records

Este fino exemplar vindo da Bélgica é uma daquelas maravilhas relativamente obscuras. O explosivo álbum, com improvisação coletiva de muita energia, só foi reeditado quatro décadas após seu lançamento. O sexteto comandado pelo baixista belga Paul Van Gysegem tinha um forte time, mas de músicos menos lembrados. Os mais rodados aqui são o pianista Jasper Van't Hof e o baterista Pierre Courbois, estes holandeses. O excelente saxofonista Nolle Neels, o trompetista Patrick De Groote e o vibrafonista Ronald Lecourte completam o grupo.





74- In Holland (1981)
Willem Breuker Kollektief
BV Haast Records

O holandês Willem Breuker (1944-2010) formou a Kollektief, uma semi-big-band, em 1973 e manteve o grupo como seu principal projeto nas décadas seguintes. Improvisando normalmente a partir de composições do saxofonista, a Kollektief, formada por piano, baixo, bateria e vários sopros, unia elementos de free jazz a música popular e erudita para criar uma sonoridade de muitos coloridos e certo humor, sem deixar a fúria de lado. Neste álbum duplo, está uma boa apresentação do envolvente trabalho que desenvolveram. 






73- Away with You (2016)
Mary Halvorson Octet
Firehouse 12 Records

A inventividade da guitarrista Mary Halvorson parece inesgotável, sempre ressurgindo com um novo projeto desconcertante. Com este octeto, que conta com expressivos nomes de sua geração, como Ingrid Laubrock (sax), Jonathan Finlayson (trompete) e Ches Smith (bateria), a guitarrista apresenta oito temas de sensível complexidade harmônica e beleza ímpar. Halvorson tem levado a composição e a improvisação à guitarra a outros campos, apontando novos e complexos rumos.






72- Seasons (1971)
Alan Silva
BYG Records
Baixista nascido nas Ilhas Bermudas, Alan Silva é um dos nomes do free mais múltiplos surgidos nos anos 60. Silva não tardou a expandir suas experiências, indo de NY para Paris e tocando outros instrumentos, como violino, violoncelo e sintetizador. Além disso, se tornou importante compositor avant-garde, como demonstra esta ambiciosa obra do início dos anos 70. Aqui ele reuniu alguns dois maiores músicos europeus e norte-americanos da época para interpretar suas "Seasons", que resultaram em um incrível disco triplo. 





71- Black Woman (1969)
Sonny Sharrock
Vortex


O guitarrista Sonny Sharrock (1940-1994) levou um forte time ao A&R Recordings Studios, em Nova York, que contava com Sirone, Milford Graves e Dave Burrell, para registrar as seis peças que compõem este seu álbum de estreia. O diálogo entre a guitarra e as vocalizações de Linda Sharrock são momentos de inspiração maior. A faixa-título e “Portrait of Linda in Three Colors, All Black” são desconcertantes, com Linda iluminada.








70- Pulverize The Sound (2015)
Peter Evans/ Tim Dahl /Mike Pride
Relative Pitch


Se Peter Evans não é uma unanimidade (não sei) deveria ser: ninguém levou o trompete a outros extremos como ele no século XXI. Não apenas um virtuoso do instrumento, tem criado projetos diferenciados e empolgantes, como seu Quintet ou o Zebulon Trio (isso sem falar em sua obra solista). Evans se uniu aqui a Tim Dahl (baixo elétrico) e Mike Pride (bateria) e criou nova explosiva música. Obrigatório para entender os diferentes rumos dessa música hoje.    






69- The Black Ark (1972)
Noah Howard
Freedom/Polydor

Mais um saxofonista com menos estrelas do que merece, Noah Howard (1943-2010) chegou na cena nova-iorquina em meados dos anos 60, ainda muito jovem, para logo estar estreando pelo mítico ESP-Disk. Sua música continuou chamando atenção até chegar a essa preciosidade. Howard chamou ao estúdio figuras maiores como Sirone (baixo), Muhammad Ali (bateria), Arthur Doyle (sax) e Earl Cross (trompete) para interpretarem quatro temas seus. Energy music com elementos melódicos em sintonia perfeita. 






68- Orangutang! (1970)
G.L. Unit
Odeon

Esse clássico do free sueco traz uma big band comandada pelo saxofonista Gunnar Lindqvist (1937-2003). Estão aqui presentes alguns dos nomes mais expressivos do país à época, como o percussionista Sven-Ake Johansson e os saxofonistas Bernt Rosengren e Bengt ‘Frippe’ Nordstrom. A criação coletiva é o que dá o tom do trabalho. O jogo entre os vários sopros (saxes alto, tenor, soprano, barítono, trompete, clarinete, flauta) é o forte dessa música, assumidamente ligada às concepções estéticas de Don Cherry.






67- Garage (2004)
The Thing
Smalltown Superjazzz


Criado em 2000 inicialmente para revisitar a obra de Don Cherry (uma peça sua nomeia o trio), o escandinavo The Thing se manteve ativo por quase 20 anos (deu uma pausa recentemente) e buscou novos rumos, sempre tendo o free jazz mais energy e o rock como bases inspiradoras. Reunindo Mats Gustafsson (sax), Ingebrigt Haker Flaten (baixo) e Paal Nilssen-Love (bateria), mostram aqui um ar garageiro, cru, perfeito à música que ofereciam. Destaque entre vários grandes títulos editados pelo trio.





66- Coming Down The Montain (1997)
Joe Maneri Quartet
hatOLOGY
O saxofonista e clarinetista Joe Maneri (1927-2009) foi um pioneiro que passou muito tempo afastado de palcos e estúdios. Nos anos 90, após retomar a carreira, já tinha um filho na estrada, o violinista Mat Maneri. E ao lado dele gestou brilhantes trabalhos, como este, feito junto a Ed Schuller (baixo) e Randy Peterson (bateria). Toda a técnica e inventividade de Maneri – importante explorador do microtonalismo – estão aqui. Um crítico escreveu que os menos de 2 minutos que compõem a faixa solo “Joe’s Alto” valem mais que dois anos de música de muito saxofonista por aí...




65- The Snake Decides (1986)
Evan Parker
Incus/Psi


Mestre maior dos saxes soprano e tenor, Evan Parker se dedica neste álbum apenas ao primeiro. São quatro improvisações solistas ao soprano, captadas na St. Paul’s Church, Oxford. O trabalho técnico de Michael Gerzon nesta gravação sempre foi muito elogiado, tendo permitido que toda a técnica de Parker fosse exibida em sua plenitude. Difícil não sair perturbado após ouvir o lado A, com os quase 20 minutos da faixa-título. Experiência única. 







64- Burn Baby Burn (1968)
Norman Howard / Joe Phillips
ESP-Disk

O trompetista Norman Howard desapareceu da cena musical há muito, em meados da década de 1970. Ao lado do saxofonista Joe Phillips entrou em estúdio para registrar sua estreia no comando em novembro de 1968. O rebento se tornaria lendário: “Burn Baby Burn”. Mas a crise que afetou o selo ESP fez com que o disco acabasse engavetado. Apenas em 2007, após circular como raro K7 nos anos 80, o álbum apareceu em versão definitiva. Howard e Phillips já estavam distantes da música e sabe-se lá se tiveram o prazer de ver sua incrível criação sendo reconhecida. 





63- Alabama Feeling (1978)
Arthur Doyle
AK-BA Records

Alabama Feeling foi captado no fim de 1977, no loft Brook, que era comandado pelo saxofonista Charles Tyler. O disco, recheado de referências e reminiscências pessoais, como indica o título, saiu em tiragem limitada e ficou fora de catálogo por umas duas décadas. Para compô-lo, Arthur Doyle estava acompanhado de músicos menos conhecidos, como o baterista Rashied Sinan e o trombonista Charles Stephens. Álbum explosivo e intenso, mostra toda a potência de Doyle, agarrando o ouvinte logo em sua faixa de abertura.





62- Blue Notes for Mongezi (1976)
The Blue Notes
Ogun


Em meados dos anos 60, Dudu Pukwana (sax), Johnny Dyani (baixo), Chris McGregor (piano), Louis Moholo (bateria) e o trompetista Mongezi Feza (1945-1975), que tinham formado ainda na África do Sul o grupo The Blue Notes, desembarcaram na Europa. Por lá, mergulharam na cena free e se espalharam por diferentes projetos. Em 75, em Londres, se reuniram para celebrar a memória de Mongezi, em um show que se tornou um registro histórico, com o melhor do que o Blue Notes (que oficialmente não existia mais) podia oferecer.






61- Conspiracy (1975)
Jeanne Lee
Earthforms Records


Jeanne Lee (1939-2000) foi uma vocalista pioneira do free. Tocando inicialmente com o pianista Ran Blake, logo se enturmou com a cena free de NY, indo depois para a Europa, onde gravou importantes registros, muitos em parceria com Gunter Hampel. Esta gravação feita já na era loft nova-iorquina é uma de suas mais finas, tendo reunido Sam Rivers, Steve McCall, Hampell e Perry Robinson, em oito temas em que mostra toda a potência e profundidade de seu canto.







60- It’s Nation Time (1972)
Imamu Amiri Baraka
Black Forum

Imamu Amiri Baraka (1934-2014), batizado Leroy Jones, foi poeta, dramaturgo e ativista. Muito próximo da cena free jazzística, gravou alguns discos, onde entrava com composições e seu feroz spoken word. Partindo de textos de seu livro “It’s Nation Time”, criou esse álbum denso e musicalmente contagiante. Com a participação de percussão, vozes e de jazzistas como Gary Bartz e Reggie Workman, gestou uma peça ritualística intensa, resgatando elementos de blues, soul, spirituals e jazz vários, em uma viagem sonora de sedutor apelo rítmico.





59- Last Exit (1986)
Last Exit
Enemy Records

Em 1986, Sonny Sharrock, Bill Laswell, Ronald Shannon Jackson e Peter Brötzmann se uniram para formar um quarteto matador. O Last Exit trazia elementos do metal, do free jazz, uma pitada de funk/blues (via Jackson) para criar um som de potencialidade única até então. A música do Last Exit deve ter atraído os olhares de não pouca gente do rock. O álbum, captado em fevereiro de 86 em um estúdio em Paris, abre ("Discharge") com demolidora bateria, logo cortada por guitarra e sax, mostrando a que veio sem rodeios. O grupo acabou em 94 com a morte de Sharrock. 






58- The Multiplication Table (1998)
Matthew Shipp
hatOlogy

Matthew Shipp desenvolveu nas últimas três décadas uma linguagem única ao piano, com destaque para seus trabalhos solo e em trio. No formato de piano-baixo-bateria gravou cerca de uma dúzia de títulos e aí está muito do melhor que fez. Em The Multiplication Table o vemos ao lado de William Parker e da genial percussionista filipina Susie Ibarra. Este álbum bem define a linguagem que tem explorado desde então, com releituras demolidoras de clássicos ("Autumn Leaves" e "Take The A Train") em meio a peças suas. 





57- Escalator Over The Hill (1971)
Carla Bley
JCOA Records

Uma ópera free jazzística. Assim poderia ser descrito Escalator Over The Hill. Neste ambicioso trabalho, Carla Bley se uniu ao poeta e letrista canadense Paul Haines para criar uma peça de ousadia e inventividade unindo linguagens musicais e teatrais em um disco triplo repleto de estrelas do free. Estão aqui Don Cherry, Dewey Redman, Jimmy Lions, Gato Barbieri, Paul Motian, Leroy Jenkins, Karl Berger, Enrico Rava, várias vozes e outros instrumentistas. Peça para ser degustada com tempo, acompanhando as letras.





56- Willisau Quartet (1991)
Anthony Braxton
hatART/ Hat Hut


Anthony Braxton comandou um incrível quarteto durante quase uma década, a partir de 1985, que contava com Marilyn Crispell (piano), Mark Dresser (baixo) e Gerry Hemingway (bateria). Nesse encontro em Willisau, na Suíça, o grupo fez gravações em estúdio (4 e 5 de junho de 91) e ao vivo (2 de junho), que resultaram em quatro CDs com alguns dos momentos mais geniais do quarteto. Há quem considere esse o maior grupo fixo que Braxton já teve.







55- Liberation Music Orchestra (1970)
Charlie Haden
Impulse!

Liberation Music Orchestra foi uma big band organizada pelo baixista Charlie Haden (1937-2014) no fim dos anos 60, formada por um grupo representado por alguns dos melhores nomes do período, Don Cherry, Dewey Redman, Gato Barbieri, Roswell Rudd, Andrew Cyrille. A incrível primeira gravação do grupo tinha como ponto de inspiração inicial a Guerra Civil Espanhola e daí apontando para a Guerra do Vietnã e a América Latina – há até uma homenagem a Guevara (“Song for Ché”)  –, em um painel adensado pelos arranjos de Carla Bley.





54- Karyobin (1968)
The Spontaneous Music Ensemble
Island Records/Hexagram

Comandado pelo percussionista britânico John Stevens (1940-1994), o Spontaneous Music Ensemble teve algumas formações desde seu aparecimento em 66, reunindo diferentes destacados músicos especialmente do Reino Unido. Nesta sessão captada em fevereiro de 68 estava um quinteto com Stevens, Derek Bailey, Evan Parker, Dave Holland e o trompetista canadense radicado em Londres Kenny Wheeler. Obra de improvisação livre por vezes atmosférica, sem arroubos de energy music, ficou fora de catálogo por muito tempo.






53- Overlapping Hands: Eight Segments (1991)
Marilyn Crispell / Iréne Schweizer
FMP


Duas das maiores pianistas vivas uniram forças e ideias nesta inebriante apresentação. A norte-americana Marilyn Crispell e a suíça Iréne Schweizer se encontraram para este concerto de dois pianos em Berlim, em junho de 1990. Daí saíram as oito peças que formam o disco. Conversa telepática, onde duas vozes se tornam uma, é difícil saber muitas vezes de onde vêm os sons, tão perfeitamente encaixados, mesmo com cada uma tendo uma técnica distinta, em improvisações certeiras.



 


52- Duo Exchange (1973)
Rashied Ali / Frank Lowe
Survival Records


Rashied Ali (1935-2009) viveu com Coltrane o nascimento de um quase subgênenro no free jazz: os duos de bateria e sax. Nesta sua segunda experiência registrada no formato, Ali se aliou ao saxofonista Frank Lowe (1943-2003). E deixou mais um clássico pelo caminho. Registrado em 1972 no Watts Studios (NYC), este duo marcou ainda o nascimento do Survival Records. Ganhou recentemente nova e ampliada edição – a versão original contava com menos de 30 minutos de música.





51- Chiasma (1976)
Yosuke Yamashita Trio
MPS/Basf


Pioneiro do free jazz no Japão, o pianista Yosuke Yamashita montou um trio seminal com sax e bateria no fim dos anos 60. Depois de alguns anos, uma mudança colocou no grupo nada menos que Akira Sakata – e o trio gestou alguns de seus mais explosivos registros. Este Chiasma foi captado em junho de 75 no Heidelberger Jazztage, com Yamashita, Sakata e Takeo Moriyama na bateria. Temas como “Horse Trip” e a faixa-título são demolidoras.





50- The Shape of Jazz to Come (1959)
Ornette Coleman
Atlantic

Ornette Coleman (1930-2015) apareceu pela primeira vez com seu revolucionário quarteto – com Don Cherry, Charlie Haden e Billy Higgins – aqui. O free jazz nascia e com ele trazia já alguns clássicos: “Lonely Woman”, a faixa de abertura, se tornaria a peça mais conhecida e regravada de Coleman. A gravação, feita em maio de 1959 em um estúdio em Los Angeles, trazia aos ouvidos de então temas desconcertantes como “Focus on Sanity” e anunciava o que estava por vir em breve.






49- Burn The Incline (2000)
The Vandermark 5
Atavistic

Ken Vandermark é um dos nomes centrais da música free jazzística feita dos anos 90 para cá. O saxofonista radicado em Chicago esteve envolvido com muitos projetos de destaque, mas talvez o The Vandermark 5 seja seu trabalho mais pessoal. Com mais de uma dúzia de títulos editados, o quinteto tem vários momentos incríveis, a destacar este Burn The Incline, que contava com Vandermark (tenor, clarinete), Dave Rempis (alto, tenor), Jeb Bishop (trombone), Kent Kesller (baixo) e Tim Mulvenna (bateria). 





48- Raps (1977)
Steve Lacy
Adelphi Records

Um dos poucos músicos dedicados exclusivamente ao sax soprano, Steve Lacy (1934-2004) teve nos grupos que comandou ao lado do também saxofonista Steve Potts (alto e soprano) nos anos 70 e 80 alguns de seus momentos mais memoráveis. Apoiados por baixo e bateria, os dois saxofonistas traçam duelos incríveis, que chegam a seu máximo quando estão os dois ao soprano, como em “No Baby” e na faixa-título. Ao que parece, este brilhante registro nunca foi reeditado.






47- Intergalactic Beings (2014)
Nicole Mitchell
FPE Records
Nicole Mitchell, integrante da AACM, tem conseguido, sendo uma artista central da free music, chamar a atenção também de olhares mais interessados em outros veios jazzísticos (tanto que ganhou em diferentes oportunidades o “Critcs Pool” da conservadora Downbeat). Fantástica flautista, Mitchell também é destacada compositora, como bem atestam os trabalhos da Black Earth Ensemble, repletos de intensidade expressiva, liberdade improvisativa e elementos afrofuturistas, trazendo este Intergalactic Beings alguns de seus momentos mais criativos.





46- Afrodisiaca (1969)
John Tchicai and Cadentia Nova Danica
MPS Records

John Tchicai (1932-2012), saxofonista que nasceu na Dinamarca de pai congolês, se mudou para os EUA no início dos anos 60. Por lá, logo se enturmou na cena free nascente, participando da criação do seminal “New York Art Quartet”. De volta a seu país de origem, montou seu próprio grupo, o “Cadentia Nova Danica”, do qual chegaram a participar 30 músicos. Foi nesse contexto que editou seu mais importante registro, este Afrodisiaca, com sua sonoridade singular, fresca e sedutora.






45- Sound (1966)
Roscoe Mitchell
Delmark



O álbum de estreia de Roscoe Mitchell foi também o primeiro a ser editado oficialmente por membros do então novo coletivo AACM. Da mais free jazzística e direta “Ornette” à extensa e contemplativa faixa-título, Sound se tornou um marco dos novos rumos que a música livre tomava nas mãos dessa nova geração. O sexteto contava com Lester Bowie e Malachi Favors, que em breve formariam o AEOC com Mitchell.





44- Live in Greenwich Village (1967)
Albert Ayler
Impulse!

O grupo comandado por Albert Ayler (1936-1970) entre 65 e 67, que contava com seu irmão trompetista Don Ayler, fez uma música incrível em que explorava ferozmente ritmos marciais, marcações de bandas de rua de New Orleans e marchas fúnebres, de onde brotavam incendiários solos. Este álbum, com diferentes datas ao vivo no Greenwich Village, registra tal momento em seu esplendor, com clássicos como “Truth Is Marching In” e “Our Prayer”. O disco apareceu em versão estendida, CD duplo, nos anos 90.




43- The Dark Tree (1990)
Horace Tapscott
hatART


Este registro feito em dezembro de 1989, em Hollywood, marca o encontro de dois nomes maiores e pioneiros da cena free da West Coast: o pianista Horace Tapscott (1934-1999) e o clarinetista John Carter (1929-1991). Para fechar a conta, se juntam a eles Cecil McBee (baixo) e Andrew Cyrille (bateria). Das quatro noites que tocaram no Catalina Bar & Grill, saíram as nove faixas que estão neste disco, em dois volumes imperdíveis.






42- Live in Sevilla (2000)
Masada
Tzadik


O Masada surgiu em meados da década de 90 e se tornou, em diferentes aspectos, o principal projeto de John Zorn. O Masada faz parte da cena “radical new jewish music” e tem em seu estímulo primeiro o encontro entre o klezmer (gênero musical judaico não litúrgico de caráter festivo) e o jazz mais livre. Com seu quarteto clássico, formado por Zorn, Dave Douglas (trompete), Joey Baron (bateria) e Greg Cohen (baixo acústico), deixou este disco ao vivo que mostra o grupo em sua plenitude, síntese perfeita do projeto.




41- Synopsis (1974)
Synopsis
Amiga

O free jazz na Alemanha Oriental (“DDR”) demorou um pouco mais para aparecer e chegar ao ocidente do que a produção realizada do outro lado do muro de Berlim. Essa cena já estava relativamente ativa no começo dos anos 70. E o quarteto Synopsis (depois Zentralquartett) foi um dos primeiros a fazer algo de grande potência. Formado pelo saxofonista Ernst-Ludwig Petrowsky ao lado de Conrad Bauer (trombone), Ulrich Gumpert (piano) e Gunter Sommer (bateria), este disco de estreia do grupo é um marco de como o free não tinha fronteiras.





40- Homage to Charles Parker (1979)
George Lewis
Black Saint


O então jovem trombonista da AACM George Lewis criou essa gema pós-moderna, em que uma linguagem contemporânea é utilizada para celebrar o mestre do bebop. Para a empreitada, chamou Douglas Ewart (bass clarinet), Anthony Davis (piano) e Richard Teitelbaum (sintetizador, moog). A inusual formação do quarteto executa apenas duas longas intrigantes peças, com os eletrônicos criando atmosferas densas e obscuras, por entre as quais sopros e piano transitam.





39- Dogon A.D. (1972)
Julius Hemphill
Mbari


Disco clássico do free jazz vindo de St. Louis, do pessoal envolvido com o coletivo "Black Artists’ Group" (BAG). Sob o comando do saxofonista Julius Hemphill, está aqui um quarteto excepcional, com Baikida Carroll (trompete), Phillip Wilson (bateria) e o incrível violoncelista Abdul Wadud. Editado de forma independente, limitado a 500 cópias, se tornou um item de colecionador, recebendo novas edições no futuro.







38- En Corps (2012)
Eve Risser/ Benjamin Duboc/ Edward Perraud
Dark Tree


Uma das experiências mais fascinantes no clássico formato de trio, En Corps teve grande repercussão quando lançado. A pianista francesa Eve Risser, ao lado de Benjamin Duboc (baixo) e Edward Perraud (bateria), mostrou novas possibilidades usando técnicas expandidas e uma noção de tempo hipnótica para desenvolver apenas dois extensos temas, "Trans" e "Chant D'Entre". Risser lançaria alguns anos depois um tão impactante quanto álbum solista, "Des Pas Sur La Neige".






37- European Echoes (1969)
Manfred Schoof
FMP

O trompetista alemão Manfred Schoof não poupou esforços na construção deste seu primeiro clássico. Reunindo 15 músicos, com uma formação que incluía três baixos, três pianos e duas baterias, juntou alguns dos nomes mais possantes que vinham despontando na cena europeia – Irène Schweizer, Peter Kowald, Enrico Rava, Derek Bailey, além de Brötzmann, Schlippenbach, Bennink, dentre outros – em junho de 69 para uma apresentação radiofônica. A reunião da free big band rendeu explosão pura, música que reverbera no peito.




36- Naked City (1990)
John Zorn
Nonesuch

Conquistando entusiastas tanto do free jazz quanto do rock, este projeto desenvolvido por John Zorn no fim dos anos 1980 trazia em suas fileiras instrumentistas do calibre de Bill Frisell (guitarra), Fred Frith (aqui, no baixo), Joey Baron (bateria) e Wayne Horvitz (teclados), além da participação de Yamatsuka Eye (voz). No Naked City, Zorn aprofunda sua conexão com o mundo do rock, se alimentando tanto do hardcore/grindcore quanto da surf music para colocar em pé, em meio a improvisações, um som direto e impactante.





35- Vietnam (1972)
Revolutionary Ensemble
ESP-Disk

Leroy Jenkins (violino), Sirone (baixo) e Jerome Cooper (bateria) criaram esse excepcional trio de cordas e percussão no início dos anos 70. Com esse primeiro registro oficial, trouxeram à improvisação livre uma nova perspectiva sonora, em que o camerístico se embebia de energy music para investigar um campo ainda pouco explorado. As duas longas divagações (o álbum conta com apenas duas faixas, Vietnam I e II) demandam uma recompensadora escuta atenta e ininterrupta. 





34- Iron Man (1963)
Eric Dolphy
Douglas

Se "Out to Lunch" é o clássico indiscutível de Eric Dolphy (1928-1964), Iron Man é seu registro mais adentrado no universo do free. Dolphy morreu cedo demais, em um momento limítrofe, para sabermos se mergulharia no free jazz ou daria um passo atrás. Nesta sessão registrada em julho de 1963, mostra seus solos mais intensos e ariscos (como na faixa-título), acompanhado de um time que contava com Sonny Simmons (alto), Prince Lasha (flauta) e Bobby Hutcherson (vibrafone).





33- Ming (1980)
David Murray Octet
Black Saint


O octeto montado por David Murray é para dar inveja a qualquer um: Henry Threadgill (alto), Butch Morris (corneta), George Lewis (trombone), Olu Dara (trompete), Anthony Davis (piano), Wilber Morris (baixo) e Steve McCall (bateria). "The Fast Life" abre o disco de forma muito potente, não deixando dúvidas sobre o alcance do grupo – potência que retorna em "Jasvan". Murray fez alguns de seus melhores registros neste formato.





32- Crystals (1974)
Sam Rivers
ABC/ Impulse!

Sam Rivers (1923-2011) fez seu nome por diferentes motivos. Saxofonista de primeira linha (que incendiou inclusive o quinteto de Miles Davis), compositor e líder cultural (fez história com o loft RivBea nos anos 70), tocou até o fim da vida e deixou discos memoráveis. Crystals exibe um pouco disso tudo. Trabalhando com uma big band, executou seis temas seus compostos entre 58 e 72 em um painel vibrante, captado em estúdio em 4 de março de 1974, deixando um registro que bem mostra a amplitude de sua genialidade.






31- Silent Tongues (1974)
Cecil Taylor
Arista/Freedom


Cecil Taylor (1929-2018), pioneiro do free jazz, é também quem começou e sedimentou o formato de piano solo em um concerto de improvisação livre. Na década de 70, o músico passou a circular sozinho de forma mais constante, deixando vários registros de testemunho. Silent Tongues, captado em julho de 74 no Festival de Montreux, se tornou seu registro mais famoso no formato, trazendo toda sua técnica única.






30- Intents and Purposes (1967)
Bill Dixon
RCA


Bill Dixon (1925-2010) surgiu na cena free de NY nos anos 60 como um músico já experiente e formado, se tornando uma referência para os novatos. O trompetista foi um dos organizadores do seminal festival independente “The October Revolution in Jazz” e um dos criadores do coletivo “Jazz Composers Guild”.  Em discos, parece mais discreto que suas várias atividades, mas gravou até os anos 2000 e deixou preciosidades pelo caminho como este álbum, do qual participaram Jimmy Garrison e Byard Lancaster.




29- Consecration (1993)
Charles Gayle
Black Saint

Quem conhece free jazz sabe que o saxofonista Charles Gayle, sem teto durante muitos anos, gravou seu primeiro álbum quando tinha já 49 anos de idade, em abril de 1988. Mas a partir daí, não parou de registrar sua música, ao lado de artistas fundamentais da cena. Como que fazendo um elo com free jazz clássico dos anos 60, apresentou de cara uma sonoridade altamente corrosiva e urgente, que tem neste Consecration, gravado em trio, um de seus momentos mais inspirados.






28- Bäbi (1977)
Milford Graves
IPS

O gênio do percussionista Milford Graves voltou a ser celebrado com o lançamento do documentário Full Mantis (2018). Graves é um dos maiores das baquetas no free desde os anos 60 e participou de diferentes momentos históricos do gênero. Dentre os diversos registros que fez como líder, inclusive solistas, impossível não se impressionar com a explosão de Bäbi. Show em trio com os saxofonistas Arthur Doyle e Hugh Glover, realizado em março de 76 no WBAI-FM/Free Music Store (NY), Bäbi foi reeditado com extras em 2018.






27 - Live At The Bastille (1982)
Maggie Nicols/ Lindsay Cooper/ Jöelle Léandre
FMP

Injustamente este é um álbum meio que deixado em segundo plano na discografia das artistas, fora de catálogo há muito. Aqui Maggie Nicols (voz), Lindsay Cooper (fagote, ex-integrante do Henry Cow) e Jöelle Léandre (baixo acústico) mostram um pouco do que de melhor podem fazer, com temas de improvisação sem amarras e pitadas de ácido humor crítico, em linha com projetos fundamentais com as quais estariam envolvidas antes e depois, como o FIG/WIG e o Les Diaboliques. Este disco merecia uma nova edição à altura de sua relevância expressiva.





26- Ancora da Capo (1982)
Ganelin Trio
Leo Records 

O Ganelin Trio se tornou o mais conhecido e cultuado grupo free jazzístico vindo da URSS. O trio iniciou as atividades em meados dos anos 70 sob o nome “G-T-Ch Trio”, em referência a seus membros: o pianista Vyacheslav Ganelin, o baterista Vladimir Tarasov e o saxofonista Vladimir Chekasin. Em 1976, após tocarem no Warsaw Jazz Jamboree, começaram a gravar seus primeiros álbuns. Este Ancora da Capo, um de seus mais representativos registros, traz gravação feita em Leningrado em novembro de 1980, tendo sido editado em dois volumes.





25- Mass Projection (1970)
Kaoru Abe / Masayuki Takayanagi
DIW

Antes de se falar em noise como estilo independente, o saxofonista Kaoru Abe e o guitarrista Masayuki Takayanagi se juntaram para algumas gigs e deram os rumos do que viria depois. O ano era 1970 e, dos encontros, nasceram três discos: “Kaitaiteki Koukan”, “Gradually Projection” e a peça mais radical de todas: Mass Projection. Em duas faixas, munidos apenas de sax e guitarra, os dois músicos japoneses criaram alguns dos momentos musicais mais sujos realizados até então. Seminal, Mass Projection anunciava um cosmo sonoro sem concessões.





24- Compassion Seizes Bed-Stuy (1996)
William Parker
Homestead Records

Primeira gravação do quarteto In Order to Survive, comandado por William Parker (baixo) e trazendo Susie Ibarra (bateria), Rob Brown (sax alto) e Cooper-Moore (piano), este disco realizado em dezembro de 95 exibe denso lirismo e sufocantes melodias, que culminam com a coltraneana “The Eye of the Window”. Ideal para ouvir o brilhantismo do Parker instrumentista, também responsável aqui pelas composições – é incrível como seu baixo está no centro das peças; basta escutar os primeiros minutos do tema de abertura para comprovar sua genialidade.





23-  Levels and Degrees of Light (1968)
Muhal Richard Abrams
Delmark


Mentor da AACM, Muhal Richard Abrams (1930-2017) criou uma peça realmente única com este Levels and Degrees of Light. São três temas, diferentes entre si, com momentos de improvisação intensa dividindo espaço com lentas divagações sonoras, um poeta recitando (na faixa “The Bird Song”) e uma cantora em modo “lírico” (Penelope Taylor), além das participações de Anthony Braxton e Leroy Jenkins. Esse álbum ilustra bem a amplitude dos interesses artísticos da AACM desde seus tempos primeiros.





22- Ten Freedom Summers (2012)
Wadada Leo Smith
Cuneiform Records

O trompetista Wadada Leo Smith quis com esse trabalho criar um painel sonoro em homenagem à luta pelos direitos civis, destacando passagens e personagens centrais nessa história ainda não concluída. São quase quatro horas de música divididas em 19 temas, em uma viagem crítica que começa com “Dred Scott: 1857” e segue desvendando outros capítulos nesse percurso, em títulos como "Rosa Parks and the Montgomery Bus Boycott" e “Martin Luther King, Jr.: Memphis, the Prophecy”.




21- Air Raid (1976)
Air
PJL

Buscando uma visada menos explosiva e atenta ao lado composicional, o trio Air se tornou um grupo icônico do free setentista. Ao lado do percussionista fundador da AACM Steve McCall estavam o saxofonista Henry Threadgill e o baixista Fred Hopkins (1947-1999). Esta é a segunda gravação do Air, com os instrumentistas no auge, o que faz com que o disco soe preciso e sem arestas. A gravação mostra bem a filosofia do trio, onde não havia protagonistas: a música só existia a partir da conexão entre os três.





20- Pakistani Pomade (1973)
Alexander von Schilippenbach Trio
FMP

O pianista alemão Alexander von Schilippenbach comanda este que é um dos mais antigos trios em atividade. Formado ao lado de Evan Parker (sax) e Paul Loves (bateria), o trio fez esta gravação inicial em Bremen, em novembro de 72, e não parou de desenvolver sua técnica e expressividade desde então. Compostos por oito potentes temas (com faixas extras na versão CD), mostra o quanto o free europeu já havia conquistado uma gramática própria. Poucos viram, mas o trio tocou no Brasil em 1997.







19- Coin Coin: Chapters I, II, III, IV (2011-2019)
Matana Roberts
Constellation

Nesta altura, o projeto Coin Coin, da saxofonista e compositora Matana Roberts, deve ser encarado em sua totalidade, avaliado a partir de todas suas peças já existentes. O work in progress, iniciado em 2011 com a promessa de ter 12 capítulos (há 4 até o momento), é um dos trabalhos mais ambiciosos e fascinantes da contemporaneidade. Unindo free jazz, soul, blues, gospel, improvisação e composição, Matana tem construído uma música sem limites, mas de extrema coerência estética, que vai se revelando deslumbrante a cada capítulo. 






18- Live at the Donaueschingen Music Festival (1967)
Archie Shepp
Saba

Três meses após a morte de John Coltrane, Archie Shepp subiu ao palco do Donaueschingen Music Festival com um grupo realmente potente: Roswell Rudd e Grachan Moncur (trombones), Jimmy Garrison (baixo) e Beaver Harris (bateria). No set list, apenas improvisação livre, cerca de 44 minutos de música contínua, chamada de "One For The Trane", energy music em homenagem à memória do gênio recém-partido. Shepp em alta voltagem como em poucas vezes.






17- Journey in Satchidananda (1971)
Alice Coltrane  
Impulse!


A pianista e harpista Alice Coltrane (1937-2007) foi quem melhor fez a conexão entre o free jazz e a espiritualidade oriental que a muitos fascinava nos anos 60 e 70. Este Journey in Satchidananda é seu mais profundo e tocante registro, para o qual contou com a participação certeira de Pharoah Sanders, Cecil McBee e Rashied Ali. Álbum hipnótico e deslumbrante, mostra Alice em seu esplendor como compositora e intérprete.  





16- Nation Time (1971)
Joe McPhee
CjRecord Productions

Joe McPhee, saxofonista nascido na Flórida, tinha um percurso ainda tímido na cena quando gravou este potente registro. Nation Time trazia McPhee no sax tenor e trompete ao lado de músicos menos conhecidos, como o baixista Tyrone Crabb e o pianista Mike Kull. Mas aquela música gravada em dezembro de 1970, no Chicago Hall, tinha algo de especial, com seu furioso free jazz salpicado de funk/soul, swingante às vezes até. E se tornaria objeto de culto no meio, com sua faixa-título ao centro, na qual ao grito de McPhee, What Time Is It?, vem a resposta em coro: Nation Time!




15- Cryptology (1994)
David S. Ware
Homestead 

David S. Ware (1949-2012) é um músico que, apesar de conhecido, ainda não tem o espaço que merece no panteão do free jazz. Tendo iniciado a carreira nos anos 70, quase desapareceu pela falta de oportunidades, virando taxista e retornando a um estúdio apenas em 1988, após quase uma década sem gravar um trabalho seu. Daí, veio com tudo: montou talvez o mais importante quarteto dos anos 90, com Matthew Shipp, William Parker e aqui Whit Dickey nas baquetas, e deixou preciosidades como este incendiário Cryptology. Gênio maior desta música.    





14- Church Number Nine (1971)
Frank Wright
Calumet

Frank Wright (1935-1990), outro sax tenor de inventividade maior pouco reconhecido, teve uma fase de esplendor quando montou um quarteto, no fim dos anos 60, que contava com o também saxofonista Noah Howard, o baterista Muhammad Ali e o pianista Bob Few. Eles se estabeleceram na França à época e por lá gravaram esta obra-prima em março de 1970. Com apenas duas longas peças, uma de cada lado do vinil (que saiu em edição limitada, fora de catálogo por muito tempo), o quarteto criou um dos álbuns imperdíveis do free.  






13- Conference of the Birds (1973)
Dave Holland Quartet
ECM

O baixista britânico Dave Holland é um dos mais conhecidos nomes do instrumento. Circulando por várias linhagens do jazz, esteve com o pessoal do free em diferentes momentos. Aqui, junto a Sam Rivers, Anthony Braxton e Barry Altschul (com estes dois tocou no Circle, ao lado de Chick Corea), gestou este verdadeiro clássico. Com os diálogos cortantes dos dois sopros, a destacar "Interception" e "Four Winds", Holland conseguiu extrair o máximo de suas peças.  







12- Complete Communion (1966)
Don Cherry
Blue Note


Após se afastar de Ornete Coleman, Don Cherry (1936-1995) foi desenvolvendo seus cada vez mais pessoais projetos. Em parceria com Gato Barbieri, Henry Grimes e Ed Blackwell, concebeu este fascinante Complete Communion, com temas incríveis (como o que abre o lado A do disco, que tinha uma peça com vários subdivisões em cada face) servindo de base para improvisações ariscas e intensas. Gravado no Van Gelder Studio em dezembro de 65.





11- Interstellar Space (1967)
John Coltrane / Rashied Ali
Impulse!

Revolução é a palavra chave para entender o papel desta obra na história do free jazz. John Coltrane (1926-1967) e Rashied Ali (1935-2009) entraram em estúdio em 22 de fevereiro de 1967, com Trane em seus últimos meses de vida, para uma sessão de sax e bateria. Seis temas (conhecidos todos apenas muito tempo depois, na versão em CD) saíram da sessão, que foi lançada apenas em 1974. Não sei o impacto imediato da gravação quando finalmente saiu, mas o formato sax-bateria acabou se tornando praticamente obrigatório para quem toca esses instrumentos.   





10- The Topography of the Lungs (1970)
Derek Bailey/ Evan Parker/ Han Bennink
Incus


Dois britânicos e um holandês entraram em um estúdio em Londres, em julho de 1970, e saíram de lá com uma obra devastadora, que definitivamente mostrava como a free improvisation era, já sem precisar mais da sombra jazzística que rondava a Europa (kill the fathers!). Guitarra (Derek Bailey), sax (Evan Parker), percussão (Han Bennink), liberdade absoluta e uma música realmente nova.



   

9- For Alto (1969)
Anthony Braxton
Delmark

Gravado por Anthony Braxton quando contava com apenas 23 anos de idade, foi um álbum pioneiro ao ser dedicado inteiramente ao saxofone solo, formato que se tornou um marco na free music e praticamente obrigatório a todo saxofonista dessa seara. Editado como vinil duplo, mostra toda potencialidade inventiva do instrumentista, em oito composições próprias registradas no verão de 69, que fariam parte, em sua catalogação posterior, da série “8 a/b/c/d...”. Um belo registro da amplitude de sua genialidade nascente.






8- Fanfare For The Warriors (1974)
The Art Ensemble of Chicago
Atlantic


Achei importante destacar um disco do Art Ensemble of Chicago que tivesse o quinteto todo em ação, após a entrada de Don Moye e antes da saída de Joseph Jarman. Dentre vários clássicos que gestaram, Fanfare for the Warriors ocupa um lugar central. Com participação especial de Muhal Richard Abrams no piano, o álbum bem representa a multifacetada criação do conjunto, trazendo como destaques “Nonaah” e a fantástica faixa-título, talvez a peça mais explosiva criada por eles.





7- The Magic City (1966)
Sun Ra
Saturn Research


Ainda nos anos 50, Sun Ra (1914-1993) começou a desenvolver seu space jazz. Aos poucos, foi adentrando na década seguinte o universo do free jazz, sempre à sua maneira, claro. Em The Magic City, já amparado pelos seus principais escudeiros  John Gilmore, Marshall Allen e Pat Patrick  leva seu free aos extremos da improvisação e da ruidosidade. Nesta sessão registrada em duas diferentes datas em 65, Sun Ra exibe toda sua amplitude criativa tocando piano, celesta, harpa, dragon drum...





6- Karma (1969)
Pharoah Sanders
Impulse!

Pharoah Sanders adentrava à época seu mais criativo período. Karma traz sua mais conhecida peça, “The Creator Has A Master Plan”, que se tornou verdadeiro hino do spiritual free jazz. O cântico entoado por Leon Thomas ecoa infinitamente na mente de quem adentra essa música, inebriando com sua melodia hipnótica. Para a gravação, chamou artistas de matizes diversos, como James Spaulding (flauta), Reggie Workman (baixo) e Lonnie Liston Smith (piano), alcançando um resultado único.





5- Student Studies (1966)
Cecil Taylor
BYG/Freedom

Gravado ao vivo em novembro de 66, no mesmo ano dos mais conhecidos "Unit Structures" e "Conquistador", este álbum mostra as ideias de Taylor em seu esplendor. Acompanhado por Alan Silva (baixo), Andrew Cyrille (bateria) e seu fiel escudeiro Jimmy Lions (sax alto), Taylor mostra toda a amplitude da música que levaria a seus limites nas décadas seguintes. A abertura do álbum, com Lyons sombriamente chamando o grupo com o sax, é arrepiante. O disco também foi editado como "Great Paris Concert".






4- Spiritual Unity (1965)
Albert Ayler
ESP-Disk

Em 10 de julho de 64, um jovem saxofonista de 27 anos, que começava a chamar atenção, entrou em um estúdio em Nova York com um punhado de temas que compôs. Albert Ayler (1936-1970) gravaria ali uma das obras mais marcantes do universo jazzístico. A seu lado estavam o baixo de Gary Peacock e Sunny Murray (para muitos, o primeiro baterista a tocar realmente free). Temas como "Ghosts" e "Spirits" seriam regravados dezenas de vezes e seu jeito inovador de tocar, com seu “silent scream”, influenciaria gerações de saxofonistas. 





3- Machine Gun (1968)
Peter Brötzmann 
BRO/FMP
Provavelmente Peter Brötzmann, então com apenas 27 anos, não imaginava que levava um dream team ao Lila Eule, em Bremen (Alemanha), em meados de maio de 1968: estava acompanhado de alguns dos futuros mais importantes nomes do free europeu para gravar sua nova peça. A seu lado estavam: Evan Parker, Willem Breuker, Han Bennink, Sven-Ake Johansson, Peter Kowald, Buschi Niebergall e Fred Van Hove. O resultado: um hino de fúria anticonformista, uma explosão de sopros, como metralhadoras, a sacudir os tímpanos até hoje.





2- Ascension (1965)
John Coltrane
Impulse!

A música de John Coltrane foi se radicalizando com o passar do tempo e quando registrou Ascension, em 28 de junho de 1965, estava pronto para levá-la a outro patamar. Com um conjunto de onze músicos, gravou o tema duas vezes, tendo como resultado uma peça de 38 minutos e outra de 40 minutos. Junto a seu quarteto estavam novatos promissores que davam corpo à cena free nascente, como Marion Brown, Archie Shepp, Pharoah Sanders e John Tchicai. Daqueles discos que já nascem clássicos.


  

1- Free Jazz (1961)
Ornette Coleman
Atlantic

Com o subtítulo A Collective Improvisation, este álbum levou a música jazzística a um ponto nunca antes experimentado até então. Com um duplo quarteto, formado por Coleman, Cherry, Scott LaFaro e Billy Higgins, de um lado, e Eric Dolphy, Freddie Hubbard, Charlie Haden e Ed Blackwell de outro, executaram uma peça de 37 minutos, no dia 21 de dezembro de 1960 no A&R Studios (NY), focada na improvisação coletiva, apenas com alguns breves temas puxando o grupo cá e lá. Pedra angular de um gênero que não para de se reinventar seis décadas depois. Free The Jazz!







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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