FREE JAZZ UNDERGROUND (1966-1979)


Em suas mais de seis décadas de história, o free jazz sedimentou os seus ícones, estabeleceu seus clássicos, influenciou músicos de diversas vertentes e se espalhou pelo mundo. Mas nessa longa jornada, muitos importantes artistas e discos ficaram para trás, ainda mais profundamente soterrados no underground...

 


Por Fabricio Vieira


Pode soar estranho falar de free jazz underground, sendo que essa música é underground em sua essência. Mas há uma porção mais obscura e ignorada dentro do próprio universo do free jazz. Não são poucos os álbuns esquecidos gestados no território da free music. Nessa seara musical, também há extratos, com muitos ouvintes e entusiastas permanecendo mais na superfície, rondando os ídolos maiores do gênero, as gravações clássicas, os selos de culto, sendo que muitos inventivos músicos e álbuns acabam por ficar em certo limbo. Vasto material editado nas décadas de 1960, 70 e 80 de forma independente ou por pequenos selos de vida breve jamais recebeu reedição. 

Não fosse o trabalho de divulgação por meio virtual (blogs, arquivos compartilhados, Youtube), estariam presos à estante e audição de raros colecionadores ou antigos entusiastas que puderam adquirir tais exemplares quando estes apareceram. Afora os selos de culto (Impulse, FMP, ESP-Disk, BYG/Actuel, Incus, Hat Hut, Leo, Cadence...), que têm buscado reeditar seu arquivo mais antigo desde o advento do CD, uma infinidade de discos jamais recebeu uma nova prensagem ou mesmo chegou às plataformas (Bandcamp, Spotify...). Há alguns felizes casos de resgate recente de material histórico underground, como a reedição de Al-Fatihah, do Black Unity Trio, ou a caprichada versão em CD de Bäbi, de Milford Graves, pela Corbett vs. Dempsey. Ou mesmo Peace In The World, de Michael Cosmic  cuja versão original tem gente vendendo por inacreditáveis US$ 13 mil , que reapareceu em 2017. Mas grande parte do material underground provavelmente nunca retornará em nova edição, quer seja pelos músicos já terem morrido, os selos e as masters desaparecido ou apenas pela falta de viabilidade comercial inerente ao free jazz.

Pensando nisso, trazemos essa série de álbuns de interesse estético e histórico, todos fora de catálogo, lançados em algo mais que uma década (não adentramos os anos 80 para não tornar a lista infinita; quem sabe de uma próxima vez...). A ideia foi destacar apenas álbuns que jamais receberam uma nova edição (é capaz que um ou outro título tenha entrado em uma coletânea ou aparecido em uma versão não autorizada, um CDr, mas com certeza mesmo isso é raro). Deixamos de fora títulos dos mais importantes selos ligados ao free jazz (ESP-Disk, FMP, BYG, Incus etc...), que todos conhecem e acabam fuçando vez ou outra, e artistas que tiveram mais oportunidades de apresentar sua música, mesmo que sejam, strictu sensu, também representantes da arte independente e underground: a ideia foi ir mais às margens ainda. Aqui estão discos de diferentes cantos do mundo, com sonoridades amplas, que  mostram como o free jazz foi amplificando suas propostas, passando por títulos com mais elementos jazzísticos a outros mergulhados na free improvisation. Boas descobertas. Free the Jazz!

 


*FREE JAZZ UNDERGROUND (1966-1979)*

 

1- Musik

Bengt Ernryd

Magnum (1966)

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A cena free escandinava, uma das mais potentes, tem aqui um exemplar de seus tempos iniciais. O sexteto comandado pelo trompetista sueco Bengt Ernryd trazia uma formação com dois saxes (Chris Holmström, Wage Finér), trombone (Lars Olovsson), baixo (Gösta Wälivaara) e bateria (Ivan Oscarsson). A música vai de improvisação coletiva enérgica a pontos mais marcadamente jazzísticos. Uma curiosidade: o piano na abertura do disco é tocado pelo menino da capa, filho de Ernryd. 

 


2- White Field

The Fourth Stream

Pioneer Records (1967)

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Difícil encontrar informações sobre este registro. O The Fourth Stream trazia uma formação com sonoridade bastante interessante, com Bob Fritz (clarinete), o baixista Jay Jarolasv, o pianista Jeff Furst e Mike Marbury na bateria. A sessão, praticamente a única coisa que se encontra deles, foi editada por um tal de Pioneer Records, de Detroit. Segundo citado em uma entrevista, Bob Fritz seria de Boston, foi para NY nos anos 60 e voltou para sua cidade, onde virou professor.

 


3- Space Swell

Luna

Arhoolie Records (1967)

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A região de San Francisco tinha nos anos 60 diferentes músicos buscando seu próprio rumo no avant-garde jazz. Este grupo comandado pelo pianista Lee Cronbach reuniu alguns desses nomes. O Luna criou um trabalho algo spiritual, algo space jazz, com uma formação que contava com três saxes e clarinete baixo. Deixou apenas este registro. Para a maioria dos integrantes do Luna, esta foi praticamente a única gravação que tiveram a oportunidade de fazer (o saxofonista Ed Epstein fez carreira na Europa).

  

4- Fog-Hat Ramble

Phil Yost

Takoma (1968)

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Misterioso multi-instrumentista da Califórnia, Phil Yost gravou três discos solistas no fim dos anos 60 e depois sumiu. Tocando sax soprano, flauta, guitarra e baixo, Yost criou peças de inegável tempero psicodélico nas quais improvisa em todos os instrumentos, editando-os juntos depois, sempre abusando de ecos e efeitos. Com sua música de inegável estranhamento, mais viajante que enérgica, Yost deixa no ar a curiosidade sobre o que teria  feito ao lado de outros improvisadores.       

 

5- Natural Music

Bengt Nordstrom

Bird Notes (1968)

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O saxofonista Bengt ‘Frippe’ Nordstrom (1936-2000) é um dos pais do free jazz na Suécia. Depois de tocar com Don Cherry, em 63, Nordstrom preparou este que seria seu primeiro álbum como líder, editado pelo seu próprio selo. O disco traz duas longas improvisações; no lado A, um duo de sax alto e contrabaixo (a cargo de Sven Hessle); no B, uma longa peça (“Spontaneous Creation”) para tenor solo – ele foi um dos pioneiros nas gravações para sax solo no universo do free. 

 


6- Elysa

The Ed Curran Quartet

Savoy (1968)

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O saxofonista Ed Curran deixou apenas este registro em seu nome. O disco foi captado em março de 67, época em que Curran vivia em Nova York e se aproximou do pessoal do Jazz Composers Guild. Ele deixaria a cidade poucos anos depois com a intenção de voltar, mas acabou se afastando da música e virando bancário. Nesta gravação, feita para a New Jazz Series, com produção de Bill Dixon, Curran está ao lado de Marc Levin (corneta), Kiyoshi Tokunaga (baixo) e Cleve Pozar (bateria).

 


7- Now

Now Creative Arts Jazz Ensemble

Arhoolie Records (1968)

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Outro exemplar da cena de San Francisco, o Now Creative Arts Jazz Ensemble reuniu muitos músicos que acabaram por desaparecer (ou não deixar rastros) com o tempo. Os mais conhecidos aqui talvez sejam o baterista Smiley Winters, o saxofonista Bert Wilson e o baixista Chris Amberger, sendo que o Ensemble contava com quase uma dúzia de pessoas. A música tem momentos mais free, com potentes solos de sax, mas sem ignorar a herança jazzística. Não se sabe quanto tempo durou o grupo, mas deixou apenas este registro.

 

8- The Third World

Abdul Hannan

Third World (1968/71)

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Este é um disco que bem representa o espírito DIY que sempre acompanhou o universo do free jazz. Liderado pelo obscuro saxofonista Abdul Hannan (nascido Joel Hannah), foi editado de forma independente, tendo sido gravado na casa dele. São três temas, registrados em duas ocasiões, em 68 e 71. O núcleo do álbum é a peça “Awareness” executada por um sexteto com saxes, piano, violino, baixo e percussão. É a primeira gravação em que David S. Ware aparece.

 


9- Free Music & Orgel

Free Music Quartett +1 / Oskar Gottlieb Blarr

Schwann AMS Studio (1969)

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Aqui temos uma gravação no mínimo inusitada. O baterista holandês Pierre Courbois, que comandava o Free Music Quartett, se uniu ao organista alemão Oskar Gottlieb Blarr para criar esta obra que buscava um diálogo entre o free e a música sacra. O disco abre com um narrador (texto do padre nicaraguense Ernesto Cardenal), seguido por solo de órgão, depois a entrada fulminante do quinteto (com sax, trompete, vibrafone e baixo), esquema que vai se alternando.

 


10- Nature’s Consort

Nature’s Consort

Otic Records (1969)

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Quinteto do qual há apenas este registro, o Nature’s Consort faz parte das gravações iniciais de seus integrantes. Daqui saíram nomes que se consolidariam na cena à frente, a destacar o saxofonista Mark Whitecage e o baixista Mario Pavone, ambos falecidos no ano passado. Completavam o time James Duboise (metais), Laurence Cook (bateria) e o vibrafonista e pianista Bobby Naughton (principal compositor e criador do selo que editou o disco). Gravado em concerto ao ar livre.

 


11- Various

2 To 10 / Saxophone Adventure

Philips (1970)

Um dos discos mais raros do free jazz, é um registro ao vivo feito no Yamaha Hall, Tokyo, em abril de 1970. No lado A, um duo de sax e bateria, com Mototeru Takagi e Sabu Toyozumi (que iniciava sua carreira à época). No lado B, um noneto comandado pelo pianista Masabumi Kikuchi. Apesar de ter saído por um selo grande, nunca foi reeditado. As cópias, raríssimas, têm preços absurdos (há uma à venda por US$ 8.500). Chegou-se a anunciar uma reedição em LP no Japão em 2021, mas nada até agora. 

 

12- Vallankumouksen Analyysi

Seppo I. Laine/ Jouni Kesti

Eteenpän! (1970)

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Este pioneiro duo de sax e bateria vem da Finlândia. Ao que parece, foi registrado em 1969 e editado no ano seguinte em um mini-LP, com cerca de 10 minutos de cada lado. Traz energy music conduzida pelo saxofonista Seppo I. Laine e o baterista Jouni Kesti. Eles não são músicos que seguiram deixando suas marcas no free jazz (talvez tenham seguido tocando apenas localmente): de Laine, não se encontra mais nada publicado; já Kesti aparece em alguns discos, a maioria ao lado de artistas de gêneros diferentes.   

 


13- The Alan Davie Music Workshop

Alan Davie

ADMN Records (1970)

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Músico e pintor escocês, Alan Davie (1920-2014) gravou pouco e editou a maior parte de sua música de forma independente e artesanal. Este álbum, por exemplo, saiu com apenas 99 cópias. Davie, que tocava principalmente saxofone, mas também flauta, xilofone e piano, gravou aqui em quinteto, com músicos em sua maioria pouco conhecidos. Free impro captado de forma direta, em registro bastante cru. Ele seria mais lembrado como artista plástico do que como músico.   

 


14- 4. Januar 1970

Nicole van den Plas/ Afred Harth/ Thomas Cremer

Record-Ton (1970)

Este grupo europeu de free impro tinha como nome mais conhecido o saxofonista alemão Afred Harth. A seu lado estavam a belga Nicole van den Plas (voz e piano), Franz Volhard (violoncelo), Peter Stock (baixo) e o baterista Thomas Cremer. Esses músicos estariam presentes em dois importantes projetos de Harth da época, o Just Music e o E.M.T. Clássico representante da free improvisation europeia do período, o disco saiu em edição limitada de 300 cópias.

 


15- Love Cry and Super Mimbus

Loek Dikker

Stichting Jazz Werkgroep (1970)

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Neste seu primeiro registro, o pianista holandês Loek Dikker reuniu um quinteto com seus conterrâneos Wim Essed (baixo), Erik Jan Kromshout (violino), Ralph de Jong e Pierre Courbois (percussão). O resultado é uma música bastante diversa. O disco abre com o som de uma antiga canção em um velho toca-discos e daí adentrarmos o inusitado universo sonoro proposto, podendo soar ora mais camerístico, ora provocativo, sendo estranhamente melódico por vezes. 

 


16- The Sun Is Coming Up

Ric Colbeck

Fontana (1970)

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Única gravação deixada pelo trompetista britânico Ric Colbeck, este álbum de tempos em tempos parece que vai ser reeditado, mas isso nunca se concretizou. Colbeck, morto no início dos anos 80, é mais lembrado por alguns por ter tocado no grupo do saxofonista Noah Howard. Neste já lendário registro, feito em Londres em janeiro de 70, contou com nomes locais, como o baixista J.-F. Jenny-Clark e o saxofonista Mike Osborne.

 



17- At Different Times

Peter van der Locht/ Raayamakers

Group-Music Productions (1970)


O saxofonista alemão Peter van der Locht e o trompetista holandês Boy Raayamakers (1944-2018) comandam esta gravação extraída de dois concertos, realizados em agosto e setembro de 1970. São duas longas improvisações coletivas, uma de cada lado do vinil. Além de baixo (Robert Scholer) e bateria (Noel Mc Ghie), há a participação do pianista Burton Greene no lado B do álbum.

 


18- Explosion

Giorgio Buratti

Durium (1971)

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O baixista italiano Giorgio Buratti apresenta neste álbum duas sessões distintas, apesar de gravadas proximamente. O lado A do disco, Explosion, foi captado em estúdio e traz um free jazz enérgico, com guitarra, piano, bateria, sax (o intenso Guerrino Allifranchini, que pouco gravou) e trombone. O lado B foi captado ao vivo e tem uma vibe algo free fusion, com uma guitarra mais grooveada e piano elétrico. Interessante testemunho de músicos italianos menos conhecidos.

 

19- Live

Wiebelfetzer

Bazillus (1971)

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Este álbum traz uma apresentação que reuniu músicos de diferentes origens na Suíça, em abril de 71. A união de nomes conhecidos da free music e outros menos lembrados resultou em uma música de grande intensidade, colorido amplo, algo dançante. Participaram da big band, que reuniu cerca de uma dúzia de artistas, John Tchicai, Irène Schweizer, o pianista suíço Ole Thilo (que assina duas das quatro peças) e a vocalista Anne Christiansen, responsável pela arte da capa.

 



20 - What Was, What Is, What Will Be

Kenny Gill

Raccoon  (1971)

O pianista Kenny Gill (1944-1981), da Filadélfia, apareceu em poucos registros, até por ter tido uma breve carreira. Neste seu único álbum como líder, Gill mostra um free com elementos modal e spiritual jazz, acompanhado pelos competentes Stafford James (baixista que tocou com Rashied Ali e Albert Ayler) e Norman Connors na bateria. São quatro composições suas, com participações decisivas dos saxes de Carlos Garnett e Bob Berg.

 


21- Vienna Jazz Avantgarde

Masters of Unorthodox Jazz/ Reform Art Unit

WM Produktion (1971)

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Este álbum duplo reuniu dois grupos fundamentais da primeira leva do free austríaco. O primeiro disco traz o Masters of Unorthodox Jazz, quinteto que durou pouco e tinha à frente o saxofonista Harun Ghulan Barabbas (há uma história de que esta gravação deles ia ser editada pelo ESP-Disk, mas o selo acabou dando para trás). O segundo disco fica com o Reform Art Unit, comandado pelo saxofonista Fritz Novotny. O RAU sobreviveu bastante, deixando outros registros.

 


22- Ofamfa

Children of the Sun

Universal Justice (1972)

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Como parte das atividades do coletivo Black Artists' Group (BAG), de St. Louis, surgiu esta rara gravação. Reunindo nomes que se tornariam conhecidos depois a outros esquecidos, o Children of the Sun foi um dos muitos grupos criados nas franjas do BAG. Aqui estão presentes Oliver Lake, Charles Bobo Shaw, Floyd LeFlore, o esquecido trompetista Ishac Rajab e o poeta Ajule Rutin, em um efervescente misto de spoken word e elementos mais enérgicos do free jazz.

 


23- Blue Freedom's New Art Transformation

Milo Fine

Shih Shih Wu Ai (1972)

Milo Fine, de Mineápolis, começou sua trajetória cedo no mundo da free music e sempre esteve ligado à cultura DIY. Este Blue Freedom's New Art Transformation é um de seus primeiros projetos e traz Fine (bateria, violoncelo, theremin) em sessão de improvisação coletiva na Minnesota's KSJN Radio. Para a maioria dos músicos do sexteto do álbum (com baixo, voz, sax, trombone), esta seria a única gravação que fariam. Com capas artesanais e arte feita à mão.

 


24- Universal Expressions

Roach Om

United Sound Records (1972)

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Este é um daqueles trabalhos dos quais não se encontra praticamente nenhuma informação. Centrado no spoken word, na melhor tradição de Amiri Baraka, traz a poeta Roach Om (da qual não se acha outro registro) acompanhada de um grupo de free jazz anônimo com instrumentos como sax, flauta, baixo elétrico e bateria. Dizem que, ao menos do lado A do disco, seriam os músicos do Juju. Interessante documento, pena que feito sem nenhum cuidado informativo.

 


25- The Indigo Mirror and The Ivory Dot

Ron Pittner

Angelus Records (1972)

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Ron Pittner foi um baterista de Los Angeles que migrou para a França no começo dos anos 1970. Deixou uma discografia enxuta, mas com interessantes registros. Morto em meados dos anos 2000, Pittner não desenvolveu uma carreira profissional sólida, apesar de sempre ter seguido envolvido com música. Nesta gravação feita em Orly, ele se une ao baixista Kent Carter e aos músicos franceses Claude Bernard (sax) e Gilles Tinayre (piano).

 


26- Penselmann Hits Vol.2765

Tuohi Klang

UFO (1972)

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Esse sexteto vindo da Finlândia conta com a participação do baterista Edward Vesala (1945-1999), junto a nomes menos conhecidos, munidos de saxes, trombone, trompete e baixo. Não se trata propriamente de improvisação livre; apesar da liberdade improvisativa, há temas que regem a música gestada, com curiosidades como o ar marcial-circense de “Marssi for Keinonen”. Destaque para os potentes saxofonistas Pekka Poyry e Seppo Paakkunainen.

 


27- Communications Network

Clifford Thornton

Third World Records (1972)

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O trompetista Clifford Thornton (1936-1989) deixou poucos registros em seu nome. Em sua não tão longa carreira, centrada nas décadas de 60 e 70, tocou com Archie Shepp e Sun Ra, gravando mais como sideman que como líder. Neste interessante Communications Network, apresenta duas longas peças com convidados distintos: enquanto na faixa-título há as participações de Sanker (violino) e Sirone, na outra o destaque fica por conta da voz de Jayne Cortez. 

 


28- Four Dialogues with Conscience

Sesja 72/ Iga Cembrzynska

Apollo Sound (1973)

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O Sesja 72 foi um grupo de free jazz polonês fundado pelo baterista Wladyslaw Jagiello. Quarteto, contava também com o baixista Helmet Nadolski, o trompetista Andrzej Przbielski e o pianista Andrzej Biezan. Para esta gravação, receberam o reforço da voz de Iga Cembrzynska. Resultado: uma música sombria, com instrumentos trabalhando a espacialidade, dialogando com a voz de Iga, que alterna sussurros, declamações e ataques. Encontro singular que não rendeu mais frutos. 

 


29- Formation

Formation

FORM (1973)

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Quarteto formado na Suíça no início da década de 70, o Formation deixou apenas esta gravação, feita de forma independente. Os mais conhecidos aqui são o pianista Urs Voerkel (1949-1999) e o baterista Herb Hartmann, que formariam à época outro grupo de free jazz que deixou um registro só também, o Antithesis. Peter Frey (baixo) e Markus Geiger (saxes, clarinete baixo, flauta) completam a banda. 

 


30- Double Album

The Artists' Jazz Band

Music Gallery Editions (1973)

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O coletivo The Artists' Jazz Band (AJB) foi um dos pioneiros do free jazz no Canadá. Formado em meados da década de 1960, começou com  artistas ligados ao expressionismo abstrato, músicos não profissionais, contando com o passar do tempo com nomes que seriam importantes para o desenvolvimento futuro da cena canadense, como o pianista Michael Snow e o saxofonista Nobuo Kubota. Primeira gravação oficial deles.  

 


31- Interaction

Interaction

LST (1973)

Quarteto alemão comandado pelo saxofonista Dieter Scherf, o Interaction deixou apenas este disco. O grupo trazia integrantes que não fizeram muitos registros, nem se associaram aos mais famosos da cena alemã: o baixista Gerhard Bitter, o baterista Mano Weisss e o pianista Jochen Flinner. O próprio Scherf, mais lembrado por um outro projeto anterior, o Free Jazz Group Wiesbade, acabou se afastando da música profissional, se dedicando à carreira de engenheiro.

 


32- Solos

Richard Landry

Chatam Square Productions (1973)

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Saxofonista vindo da Louisiana, Richard Landry começou se dividindo entre o jazz e a música erudita: enquanto gravava este álbum entrava para um grupo comandado por Philip Glass, ao qual foi associado por bastante tempo. Neste disco captado em fevereiro de 72 no Castelli Gallery, vemos Landry com um potente grupo (apesar do nomes do disco ser Solos), destilando um free jazz por vezes furioso. Quatro longas improvisações com três saxes, trompete, baixo e bateria.  

 


33- Signals From Wrath

Pygmy Unit

Independent/Self-released (1974)

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Difícil encontrar informação sobre esta gravação independente feita em San Francisco. Com muita percussão e sopros, traça algum diálogo com o que Pharoah Sanders vinha fazendo no período. Entre músicos dos quais não se encontra outros registros, estão nomes que seguiram carreira, não necessariamente no free, como o saxofonista Jim Pepper, John Celona (sax, eletrônicos) e Darrel De Vore, flautista, pianista e percussionista. Os LPs têm várias capas diferentes feitas à mão.   

 


34- Communion Structures

Free Music Communion

Fremuco Records (1974)

O Free Music Communion foi um grupo criado no fim dos anos 60 pelo pianista alemão Udo Bergner. Tinha uma formação bastante peculiar, com piano, guitarra, violino e trombone (após este disco, o violoncelista Torsten Müller entrou no grupo). Com seu free impro europeu clássico, não teve muita repercussão fora de seu país, apesar de ter durado mais de uma década e editado, sempre pelo selo que criaram, ao menos três álbuns.

 


35- Poum!

The Composers Collective

Composers Collective (1974)

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O pianista belga John Fischer (1930-2016) chegou a Nova York nos anos 70, atraído pela cena loft que então se formava. Fischer logo abriu em NY seu próprio espaço, o Environ, local importante para músicos e artistas na época. É nesse cenário que reúne este grupo, com o clarinetista Perry Robinson, Mark Whitecage, Mario Pavone e Laurence Cook, para explorar seis peças suas. Aqui temos a semente do grupo Interface, que Fisher criaria nos anos seguintes.

 


36- Mother Africa

Clint Jackson III / Byard Lancaster

Palm (1974)

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Este potente álbum traz uma sessão comandada por dois músicos norte-americanos (então vivendo em Paris) que deveriam ser mais celebrados: o trompetista Clint Jackson III (muito pouco registrado) e o saxofonista Byard Lancaster. Em quinteto, o álbum apresenta duas longas faixas, com um free jazz contagiante, em grandes picos de energia embalados pelo robusto baixo conduzido pelo francês Jean-François Catoire.

 


37- Motivations

Dane Belany

Sahara (1975)

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De ascendência senegalesa e tunisiana, Dane Belany se tornou cantora de jazz na França, enquanto se envolvia com a efervescente cena político-artística de Paris da virada dos anos 60 e 70. Isso foi vital para chegar a este seu singular e poderoso registro. Dedicado a Frantz Fanon e inspirado na poesia de Aimé Césaire, Belany convocou dois nomes pesados do free, Sirone e Dewey Redman, mais Errol Parker na percussão, para o projeto. Sempre em francês, seu poético canto-recitativo traz tocante intensidade. 

 

38- Five Pieces Of Cake

Keiki Midorikawa

Offbeat Records (1975)

O baixista e violoncelista japonês Keiki Midorikawa está ativo desde os primeiros tempos do free em seu país (gravou com nomes como Masahiko Togashi e Itaru Oki), mas deixou poucos registros como líder. Este Five Pieces Of Cake foi o primeiro álbum que assinou e traz Midorikawa em diferentes formações (solo, duo e quarteto), se alternando entre baixo e violoncelo, acompanhado por bateria (Shoji Nakayama) e saxes (Yoshiaki Fujikawa e Hiroaki Katayama).

 


39- Milk Teeth

A Touch Of The Sun

Bead Records (1975)

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Duo britânico de vida efêmera, A Touch Of The Sun uniu o clarinetista Simon Mayo e o guitarrista Peter Cusack. Representantes da segunda geração da cena free britânica, oferecem aqui uma típica sessão de free impro. A contracapa traz um terceiro nome, da dançarina Shelley Lee, que devia estar improvisando junto enquanto gravavam. Mayo aparece apenas em uma ou outra gravação feita à época; Cusack se manteve mais ativo, lançando esporadicamente algo até os anos 2000.

 


40- Winds Of Change

Jothan Callins

Triumph Records (1975)

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O trompetista Jothan Callins (1942-2005) deixou apenas esta gravação como líder. Callins talvez seja mais lembrado por ter feito parte da Sun Ra Arkestra, mas este disco mostra um inventivo músico, com uma linguagem própria, que não renega algum tempero pós-bop. O disco apresenta cinco peças suas, acompanhado dos experimentados Cecil McBee (baixo) e Norman Connors (bateria), aos quais se juntam Roland Duval (percussão) e o pianista Joseph Bonner.

 


41- Full Moon

The Full Moon Trio

Dwarf (1975)

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O saxofonista holandês, radicado na Bélgica, André Goudbeek comanda este interessante trio que teve vida efêmera. Completado por Pol Feyaerts (baixo) e o baterista Ronny Dusoir, o The Full Moon Trio adiciona diferentes músicos em alguns temas, ampliando as possibilidades sonoras com harpa, guitarra, piano, gongo chinês, sinos... O resultado é uma instigante variedade discursiva, indo do free mais direto, quando o trio está em ação, a temas mais viajantes.

 


42- Hitana

Walter Zuber Armstrong

World Artists (1975)

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O flautista e clarinetista Walter Zuber Armstrong lançou praticamente todos seus trabalhos (não muitos) pelo selo que criou. Músico de West Coast, começou a gravar nos anos 70 e se manteve ativo até sua morte, em 1998. Estabelecido em um local distante, na cidade de Bellingham (Washington), costumava, além de onde morava, tocar regularmente em Vancouver. Excursionou pouco, mas chegou a se apresentar na Europa e tocar com Steve Lacy. Neste álbum, vemos Armstrong tocando também clarinete baixo, seu segundo instrumento.

 



43- Sound Craft 75 – Fantasy for Orchestra

The Universal Jazz Symphonette

Anima (1975)

A The Universal Jazz Symphonette foi um grupo organizado pelo baixista Earl Freeman para a exibição deste projeto. A orquestra montada para aquela noite de fevereiro de 75, na Washington Square Methodist Church, em Nova York, trazia jovens que depois se tornariam referência na free music, a destacar William Parker, Daniel Carter e Billy Bang. Registrado ao vivo, Sound Craft 75 apresenta três composições de Freeman, contando com mais de 20 instrumentistas.

 


44- Unicorn Dream

Noah Young

Laughing Angel Records (1975)

Noah Young (ou Richard Youngstein) foi um baixista de relativamente breve carreira, centrada na década de 1970. Tocou com Roswell Rudd, Paul Bley e Carla Bley, e realizou este solitário Unicorn Dream antes de se afastar da música para virar psicoterapeuta. Este álbum é centrado em peças suas, de diferentes sabores, para as quais colaboram alguns músicos conhecidos do avant-garde, a destacar Perry Robinson, Mark Whitecage e o baterista Cleve Pozar.

 


45- Kara Suite

David Wertman

Mustevic Sound Inc (1976)

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O baixista David Wertman (1952-2013) despontou na cena jazzística de NY nos anos 70, quando fundou o Sun Ensemble. Em seu nome, ficaram poucas gravações e, dentre essas, merece destaque este Kara Suite, que traz Charles Tyler (sax alto), Richard Schatzberg (french horn), Ken Simon (tenor) e Steve Reid na bateria. Um registro com momentos realmente geniais, free jazz de grande potência, que nasce de temas contagiantes.

 



46- Quetzalcoatl

Manuel Villarroel - Machi Oul

Palm (1976)

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O pianista chileno Manuel Villarroel chegou na Europa no começo dos anos 70. Em Santiago, já vinha adentrando as searas mais radicais do jazz, mas buscava um lugar que melhor acolhesse suas ideias. Estabelecido na França, criou o grupo Machi Oul, septeto que depois virou uma big band, com quem gravou este Quetzalcoatl, em uma época em que quase nada havia de free jazz feito por latino-americanos. Seu irmão Patricio, pianista e percussionista, participa do álbum, ao lado de músicos franceses.

 


47- Only Change Is Unchanging

Percussive Unity Live

Sue Music Group (1977)

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O Percussive Unity Live, apesar do nome, não se tratava de um trio exclusivamente de percussionistas. Susumu Obata era o percussionista do grupo. Já Masayuki Nakai (guitarra elétrica) e Yasushi Ozawa (baixo elétrico, o único aqui que seguiria carreira, fazendo parte do Fushitsusha) até tocavam percussão, mas tinha seus instrumentos principais. O disco tem uma pegada em cada face: no lado A, algo mais contemplativo e focado na percussão; no lado B, furioso free impro com guitarra e baixo fulminantes.

 


48- Incident

Louis Armfield/ Glenn Spearman/ Elstak/ Piller

Coreco (1977)

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Interessante quarteto que reuniu, em Amsterdã, músicos dos EUA e da Europa em um encontro que não se repetiria. Estão aqui os saxofonistas Louis Armfield e Glenn Spearman (1947-1998), o trompetista holandês Nedley Elstak (1931-1989) e o baterista Harry Piller. O disco é realmente poderoso, com os três sopros criando momentos de intensa energia. Spearman é o único aqui que fez de fato uma trajetória no free jazz; Elstak gravou mais alguns discos, mas de Piller, por exemplo, nada mais se encontra.

 


49- Esprits de Sel

Armonicord

L'Électrobande (1977)

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O saxofonista francês Jouk Minor criou o quinteto Armonicord em 1973. O grupo durou alguns anos e deixou este registro único. A seu lado estão o trombonista austríaco Joseph Traindl, Jean Querlier (saxes), Odile Bailleux (cravo) e Christian Lété. Além da poderosa sessão de sopros, chama a atenção a participação do cravo, raramente ouvido no mundo do jazz (Bailleux é uma especialista em música barroca). O quinteto apresenta momentos realmente instigantes, pena não ter rendido outros frutos.

 


50- Jazz Of The Seventies

Earl Cross Sextet/ Tuba Trio

Circle Records (1977)

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O trompetista Earl Cross (1933-1987), de St. Louis, foi um dos grandes artistas injustiçados dos anos 70, que infelizmente não teve espaço para registrar sua música. Na verdade, este seu único álbum deveria ser creditado, de fato, a ele: com seu sexteto, que contava com Juma Sultan e Ronnie Boykins, domina o LP com duas longas peças; já o Tuba Trio de Sam Rivers, com quem divide os créditos, aparece somente com um tema menor.     

 


51- Tidal Wave

Takao Haga/ Osamu Yamaguchi

Mide Records (1977)

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Encontro entre dois instrumentistas japoneses pouco conhecidos, Tidal Wave apresenta um clássico duo de sax alto (Takao Haga) e bateria (Osamu Yamaguchi). São apenas duas peças, uma de cada lado do vinil, em que temos energy music, direta e crua, em mais de 50 minutos em que o vigor se mantém em nível constantemente elevado. De Yamaguchi, só se encontra esta gravação; Takao Haga gravou mais alguma coisa no começo dos anos 1980, antes de desaparecer. 

 


52- By Myself

Abdul Wadud

Bisharra Records (1977)

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Abdul Wadud (nascido Ronald DeVaughn, em Cleveland, em 1941) é um pioneiro violoncelista no mundo do free jazz. Tendo participado de projetos lendários como o Black Unity Trio e gravado com figuras como Julius Hemphill e Arthur Blythe, Wadud fez este registro seminal para violoncelo solo no Blank Tape Studios (NYC), em 77, no qual apresenta seis peças suas. By Myself, que deveria ser a parte 1 de uma trilogia que nunca foi para frente, foi produzido, editado e lançado pelo próprio músico.

 

53- Deido

Dou

Corelia (1977)

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Neste seu pulsante disco de estreia, o vocalista e multi-instrumentista Dou Kaya mostra uma música na qual a herança percussiva africana é central. Dou toca balafon, tuba, sax alto, sendo acompanhado por um quinteto com Jean-Claude Broche (bateria, percussão), José Palmer (guitarra, trompete, percussão), o saxofonista Sulliman Hakim e o trombonista Alfonse Leboucher. 

 


54- Duo Infinity

Jamil Shabaka/ Alex Cline

Aten (1977)

Um interessante exemplar do início da carreira do baterista Alex Cline. A seu lado estava o saxofonista Jamil Shabaka, que deixou apenas este registro no mundo do free jazz (já assinando como Jamaiel nos anos 80, reapareceu com projetos de reggae e dub). O duo se reuniu em maio de 77 no Balch Hall, Scripps College (Califórnia), de onde saíram as sete peças que formam o disco. A variedade de instrumentos usados por Shabaka (saxes tenor, alto, soprano e flauta) é um destaque. 

 


55- Manzara

The Sea Ensemble

Red Record (1977)

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The Sea Ensemble foi um duo formado por Donald Rafael Garrett (1932-1989) e Kali Z. Fasteau (1947-2020) na década de 1970. Ambos multi-instrumentistas, levavam ao projeto um arsenal de instrumentos, flautas, clarinete, percussão, baixo, violoncelo, criando uma experiência improvisativa que tinha sabor free world, em sintonia com o que Don Cherry vinha fazendo. Este disco (e seu par "After Nature") foi gravado pelo casal na Itália.

 


56- Eight Intimate Poses

Leo Coomans/ Vinck/ Denhaene

Stichting Vrijere Muziek (1978)

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Comandado pelo saxofonista belga Leo Coomans, este trio apresentava uma sonoridade bastante particular. Completavam o grupo o trombonista Kris Vinck e Marc Denhaene, tocando guitarra e acordeón. O registro foi feito em dezembro de 77 no espaço King Kong, um importante centro cultural na Antuérpia à época, e traz  oito peças de improvisação livre, indo de temas mais exploratórios a momentos mais ariscos e enérgicos.  

 


57- Armed Forces' Day

The Blue Denim Deals

Say Day-Bew Records (1978)

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Este grupo comandado pelo trombonista Craig Nutt é um importante testemunho da cena free impro que surgiu na região do Alabama na década de 1970. Contando com nomes destacados do underground daquela área, como o guitarrista/saxofonista Davey Williams (1952-2019) e a violinista LaDonna Smith, o The Blue Denim Deals foi mais uma banda de ocasião, sem uma formação fixa, com as faixas do álbum sendo executadas por agrupações de quinteto a noneto. 

 


58- Drumythm

Toshi Tsuchitori

D.Y.M. Records (1978)

O percussionista japonês Toshi Tsuchitori iniciou sua carreira na década de 70, ligado à cena free jazzística, tendo tocado e gravado com Kaoru Abe e Mototeru Takagi. Aos poucos foi desenvolvendo um projeto solista, no qual explorava percussão e voz. Drumythm é um testemunho exatamente dessa investigação solo. Com o passar do tempo, Tsuchitori se tornou um explorador/investigador de percussão antiga e tradicional, trabalhando muito com teatro.

 


59- Castor Fiber

Olle Bäver

Amigo (1978)

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Grupo sueco formado em meados dos anos 70 em Göteborg, o Olle Bäver tinha uma forte linha de sopros, com nomes como Per-Anders Nilsson (sax barítono), Bo Andersson (sax, clarinete) e Jan Amnehäll (tenor), além de piano (Susanna Lindeborg), baixo (Kjell Thorbjörnson), bateria e convidados em algumas faixas. Neste disco de estreia (parece que gravaram só mais um), mostram seu free jazz que também sabia ser algo melódico quando necessário.

 


60- Elvira Madigan... And Others Dances

Michael J. Smith

Horo Records (1978)

O pianista Michael J. Smith, vindo do Kentucky, se radicou na Europa na década de 70 e foi por lá que desenvolveu o principal de seus projetos. Apesar de ter tocado com Steve Lacy e Anthony Braxton, permaneceu meio à sombra. Editou seus não muitos discos especialmente nos anos 70, começo dos 80 – depois, se afastou do free jazz e foi fazer outras coisas. Este sensacional álbum duplo traz Smith solo em metade do registro; no restante, recebe a parceria do saxofonista norueguês Knut Riisnaes.

 

61- The Last Battle

Ken Hyder's Talisker

Vinyl Tecords (1978)

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O percussionista e compositor escocês Ken Hyder teve no Talisker seu mais importante projeto. A ideia aqui era juntar free impro com música folclórica. O interessante resultado foi explorado em alguns diferentes álbuns (a maioria nunca reeditado), com formações variáveis de um a outro. Para The Last Battle reuniu um quarteto com dois saxes (Davie Webster e John Rangecroft) e baixo. Um projeto de sabor realmente singular. 

 


62- Accents

Neighbours

Musicians Record (1978)

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Trio austríaco comandado pelo pianista Dieter Glawisching, o Neighbours fazia sua estreia com uma conexão com a cena de Chicago. Contando com Ewald Oberlietner (baixo) e Joe Preininger (bateria), o Neighbours chamou Fred Anderson (tenor) e Bill Brimfield (trompete), que estavam pela primeira vez na Europa, para participarem deste registro, feito em Hamburgo em 1977. O trio se manteria ativo por mais de uma década, lançando alguns álbuns e se reunindo em algumas ocasiões especiais depois.

 


63- In The Beginning

New Jazz Syndicate

Independent/Self-released (1978)


Comandando pelo trompetista Jiro Shoda, o New Jazz Syndicate foi uma big band que surgiu em meados dos anos 70. Lançou quatro discos de forma independente, sendo este sua estreia, gravado na Hosei University, Tóquio, no fim de 77. Dentre muitos instrumentistas pouco lembrados, trazia alguns mais ativos como Keizo Inoue (sax) e Ryo Hara (piano, responsável pelos arranjos). Free que sabe ser potente sem ignorar a herança jazzística.

 


64- I Virtuosi Di Cave

I Virtuosi Di Cave

Red Record (1978)

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Pioneiro quarteto de saxofones italiano, que surgiu em paralelo ao WSQ e ao Rova, o I Virtuosi Di Cave teve breve vida. Este seminal registro foi realizado em dezembro de 1977. O grupo trazia Roberto Mancini, Alberto Mariani, Tommaso Vittorini e Eugenio Colombo, o mais conhecido deles. As liner notes explicam que o free jazz do quarteto era recheado de elementos do folclore mediterrâneo e tinha influências do avant-garde europeu.

 


65- The River

Bill Lewis/ Khan Jamal

Philly Jazz (1978)

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Esta etérea sessão de free impro uniu Bill Lewis (marimba) e seu aluno Khan Jamal (vibrafone). Lewis, morto em 1994, se dedicou mais à carreira de professor, não deixando quase nada registrado. Já Jamal, recém falecido, se tornaria um dos nomes fundamentais de seu instrumento no mundo da free music. A inusual gravação foi realizada em agosto de 77 na St. Mary's Churh, Filadélfia, e traz o duo em duas longas ecantatórias peças.

 


66- Marron Dingue

Arcane V

Exit Records (1978)

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Interessante quarteto francês free jazzístico de vida efêmera, o Arcane V era formado por Nano Peylet (sax, clarinete), Michel Saulnier (baixo), Philippe Gumplowicz (guitarra) e Youval Micenmacher (percussão). Parte de seus membros fazia parte do Sonorch, grupo de "experimental ethnic fusion", e isso não passa despercebido neste único registro que deixaram. 

 



67- 11th Street Fire Suite

Luther Thomas

Creative Consciousness (1978)

O saxofonista Luther Thomas (1950-2009) é um dos artistas que saiu do núcleo de St.Louis, BAG. Tendo participado do seminal Human Arts Ensemble, tocou até o fim de sua vida, mas não gravou muito como líder. Neste singular registro, para sax alto acompanhado de flauta e "small instruments", Thomas oferece uma suíte em cinco partes, na qual apresenta toda sua inventividade expressiva e composicional.   

 


68- GAP

GAP

Alm Records (1978)

Liderado por Kiyohiko Sano, o GAP (Ground Apple Practice) trazia também os instrumentistas Masaru Soga e Masami Tada (que fez parte da icônica banda experimental japonesa dos anos 70 East Bionic Symphonia). Grupo dedicado ao free impro, usavam diferentes elementos percussivos não convencionais (inclusive instrumentos criados) para desenvolver sua música. Tiveram vida efêmera, sempre focados na liberdade improvisativa oferecida pelos palcos. 

 



69- Feminist Improvising Group 

Feminist Improvising Group

Independent/Self-released (1979)

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Pioneiro grupo de free improvisation formado apenas por mulheres, o Feminist Improvising Group (FIG) reuniu artistas destacadas na cena – Irène Schweizer, Lindsay Cooper e Maggie Nicols – a outras envolvidas em diferentes graus com o free, como Angele Veltmeijer (sax), Anne-Marie Roelofs (trombone) e Georgie Born (violoncelo). Raro testemunho do grupo, editado em K7, com apresentações ao vivo. O FIG se desdobraria no Women’s Improvising Group (WIG). 

 


70- Berliner Improvisations-Quartett

Berliner Improvisations-Quartett

Amiga (1979)

Singular grupo vindo da Alemanha Oriental, o Berliner Improvisations-Quartett surgiu em meados dos anos 70 e não durou muito tempo. O quarteto reunia uma instrumentação bastante particular, a partir da qual trabalhava com a improvisação livre, com Manfred Schulze (barítono, clarinete), Hermann Keller (piano, voz), Andreas Altenfelder (trompete) e Wilfried Staufenbiel (violoncelo). Uma daquelas preciosidades do selo Amiga que muito dificilmente voltará a catálogo algum dia.

 


71- The Unpredictability Of Predictability

Jerome Cooper

About Time Records (1979)

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O percussionista Jerome Cooper (1946-2015) apresenta toda a amplitude de sua arte neste álbum solista captado ao vivo no Soundscape, em Nova York, em julho de 79. Cooper, além de todo o aparato percussivo que domina, toca flauta, balafon, whistle, criando peças de resultados sonoros incrivelmente abertos, amplos e envolventes. Mais conhecido como membro do trio Revolutionary Ensemble, Cooper mostra aqui que tinha muitas ideias e concepções próprias do fazer musical.

 


72- Encounters

Saheb Sarbib/ Jorge Lima Barreto

Alvorada (1979)

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Este é um pioneiro registro da free music em Portugal. O baixista luso-francês Saheb Sarbib, que vinha desenvolvendo seus projetos na França, retornou a Lisboa onde se uniu a Jorge Lima Barreto (1949-2011), saindo daí este instigante álbum. O duo apresenta uma sessão de free impro com uma grande variedade sonora. Sarbib toca, além do baixo, oboé, flauta e clarinete baixo; Barreto explora Fender Rhodes e sintetizador. Já vivendo nos EUA, Sarbib se afastaria  da música nos anos 90.   

 


73- Synchro-Incity

Dave Sewelson

Theatre For Your Mother (1979)

Nascido na Califórnia, o saxofonista Dave Sewelson chegou a NY em 77. Talvez mais lembrado por fazer parte da The Little Huey Creative Music Orchestra, de William Parker, Sewelson não tardou para lançar este seu primeiro álbum, mas depois teve mais oportunidades como sideman mesmo. Aqui o vemos com o grupo The 25 O'Clock Band, que contava com nomes conhecidos, a destacar como Wayne Horvitz (tocando baixo), e outros esquecidos, como a saxofonista Carolyn Romberg.

 


74- Wind and Fingers

Will Menter

Zyzzle Records (1979)

O saxofonista britânico Will Menter iniciava aqui sua carreira trazendo um septeto com uma formação bastante potente, com três saxes, trombone, piano, baixo e percussão. Registrado em julho de 77, Wind and Fingers trazia músicos desconhecidos, que pouco gravariam, exceção do baterista Roy Dodds. Editado apenas em K7, marca a primeira etapa da carreira de Menter. Ainda ativo, tem se dedicado há um tempo mais a sound sculptures, instalações e outros experimentalismos.  

 


75- Wooley The Newt

Stephen McCraven

Sweet Earth Records (1979)

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O baterista Stephen McCraven, que gravou muito com Archie Shepp, estreou com este  projeto trazendo um spiritual free jazz de grande inventividade. Bem amparado pelos saxofonistas Sulaiman Hakim e Richard Raux, trabalhou com composições suas (como a genial Allah) e dos parceiros, alternando momentos mais ariscos com vitais passagens de maior melodismo, em meio a solos precisos.  

 



76- If Looks Could Kill

Jim French

Metalanguage (1979)

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Este disco de estreia do saxofonista Jim French se tornou lendário (a ponto de circular em versões piratas/não autorizadas) por um motivo particular: foi a primeira gravação de Diamánda Galás. O álbum de French é dividido em duas partes: no lado A, vemos ele improvisando (soprano, sopranino) sozinho; no lado B, entram em cena dois convidados que, ironia, se tornariam muito mais conhecidos que ele: Galás e o guitarrista Henry Kaiser. Interessante sessão de free impro.

 


77- A Mere Finger Pointing At The Moon

Colin Offord/ Peter Kelly

Fringe Benefit Records (1979)

Este trabalho editado na Austrália mostra um duo formado pelos multi-instrumentistas Colin Offord e Peter Kelly. Fruto de duas sessões de improvisação livre captadas em maio e junho de 78, o álbum traz Offord tocando vários tipos de flautas, gongo, sinos e ukulele, enquanto Kelly vai por marimba, vibrafone, berimbau e vários tipos de percussão - por aí dá para ter uma ideia do que oferecem. Kelly fez apenas algumas gravações à época; Offord seguiu tocando, apesar de não ter deixado muitos registros.    

 


78- Gostritzer 92

A.R. Penck

Weltmelodie (1979)

A.R. Penck (1939-2017) foi um artista plástico alemão que se envolveu com o free jazz. Isso começou ainda na Alemanha Oriental, em Dresden, quando fez este seu primeiro registro. Penck nunca foi um instrumentista afiado, tocava bateria, piano, guitarra, mas nada com muita técnica. Desenvolveria o projeto T.T.T. (Triple Trip Touch), com o qual gravou uma série de álbuns dos quais participaram músicos tarimbados, como Peter Kowald e Frank Lowe, lançando tudo sempre de forma artesanal.

 


79- Solo Violin Improvisations

Polly Bradfield

Parachute (1979)

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A violinista Polly Bradfield teve uma relativamente breve carreira - tocou por cerca de uma década. Mas deixou importantes marcas em sua passagem pela cena nova-iorquina do final da década de 1970, tendo gravado com John Zorn, William Parker e Frank Lowe. O mais relevante em sua trajetória foi este seminal registro de improvisações para violino solista. Em algum momento nos anos 80, ela se mudou para a Califórnia e deixou a música para trás.    

 


80- Debut

Groupoid

Groupoid Records (1980)

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Encerramos nossa viagem pelo free underground com mais um título da incrível cena japonesa. Formado no alvorecer da década de 1980, o Groupoid era um octeto de desconhecidos músicos que fez seu debut (e único registro) no estúdio Duck Studio em junho de 80. O grupo trazia saxes, tuba, trombone, trompete, violoncelo, baixo e bateria, armando um enérgico free jazz. Apenas duas longas faixas, uma em cada face do vinil, sintomaticamente chamadas "Old Fashioned New Thing".

 

 


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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)