segunda-feira, 27 de agosto de 2018

FRED FRITH: uma abordagem diferente para o instrumento





ENTREVISTA  O guitarrista britânico Fred Frith, que traz seu trio ao Brasil para três apresentações no Sesc Jazz nesta semana, conversou com o FreeForm, FreeJazz






Por Fabricio Vieira


O percurso de Fred Frith não tem um início diretamente ligado ao universo do free impro. O músico britânico, nascido em fevereiro de 1949, começou a tocar guitarra na adolescência, em meio à cena do folk rock de meados dos anos 1960. Ainda naquela década começaria a colocar em pé um projeto que marcaria toda sua vida: a mítica banda de avant-rock Henry Cow, que cofundaria em 1968 ao lado de Tim Hodgkinson. Só o trabalho com o Henry Cow seria suficiente para Frith ser uma figura celebrada até os dias de hoje, mas havia muito mais para ele fazer. A improvisação sempre esteve em seu caminho e não tardou para que mostrasse outras facetas suas. 
Era ainda 1974 quando entrou em estúdio para explorar possibilidades múltiplas em seu instrumento, que resultariam no disco "Guitar Solos", indicando novos rumos que viriam a marcar sua obra. Alguns anos depois, em 1979, com o Henry Cow já dissolvido, Frith mudaria para Nova York, o que significaria uma grande nova etapa em sua trajetória. Envolvido com a nascente downtown scene, entra para o Naked City de John Zorn e se envolve como nunca com o universo da free music. “Havia muitos tipos de música convergindo, muitas cenas se sobrepondo, e seja o que for, nós criamos, aquilo não existia da mesma forma antes de nós”, disse Frith por e-mail ao FreeForm, FreeJazz. Parcerias com nomes tão distintos como Bill Laswell (com quem montou o trio Massacre), Brian Eno, Ikue Mori, Alvin Curran, The Residents, Zeena Parkins, Evan Parker, Lotte Anker e tantos outros, além de criações para cinema e dança, colocam seu nome em cerca de 400 álbuns. Dentre seus projetos contemporâneos está o trio que mantém ao lado de Jason Hoopes (baixo) e Jordan Glenn (bateria), com quem editou “Another Day in Fucking Paradise” (2016) e está para soltar o novo “Closer to the Ground”, ambos pela Intakt Records. É com este trio que Frith virá ao Brasil, reforçado pelas participações da artista visual alemã Heike Liss, com quem é casado, e da trompetista portuguesa Susana Santos Silva.




Você vai tocar em São Paulo, no Sesc Jazz, com o seu trio. O que o público pode esperar?


"Será a primeira vez com este grupo no Brasil. Como somos improvisadores, o público pode contar que estaremos 'present and alive' o tempo todo."

E o repertório do concerto? Veremos algo dos álbuns do trio ou apenas free impro?

"Eu não gosto da palavra 'apenas' – e afinal, nos álbuns também se trata de improvisação! E o que significa 'free'? Livre do quê?"





Que novas possibilidades a participação de Susana Santos Silva traz à sonoridade do trio?

"Tenho trabalhado com a Susana há alguns anos e ela traz novas possibilidades para qualquer contexto em que se encontre, é claro. Ela sempre toca com apaixonada
autoridade e com compromisso absoluto, assim como Jason [Hoopes, baixista] e Jordan [Glenn, baterista]."

 

Como o trabalho visual da Heike Liss dialoga e impacta a música que irão apresentar?

"Heike também é uma improvisadora e o que ela faz flui naturalmente do que fazemos. O trabalho dela também tem a ver com o lugar onde nos encontramos, incluindo vídeos gravados nos dias imediatamente anteriores ao concerto, o que significa que não temos ideia de como será a apresentação!"


Em 1974, você lançou seu primeiro álbum solo, “Guitar Solos”, um marco na sua obra. Qual era o conceito por trás daquele projeto? Considera este álbum uma mudança de rumo no que vinha fazendo com o Henry Cow?

"Isso foi há mais de 40 anos. Eu estava preocupado em encontrar uma abordagem diferente para o instrumento. Isto era também improvisado, enquanto o Henry Cow abarcava searas musicais muito abrangentes. Mas eu acho que [o álbum] foi influenciado pela abordagem muito aberta e eclética do Henry Cow em relação à música de um modo geral – e como não poderia ser?"


 
Por volta de 1979 você se mudou para Nova York. A cidade teve um grande impacto em você e sua obra? A cena era muito maior para o tipo de música que vinha fazendo?

"Era uma questão de estar no lugar certo na hora certa. Tudo estava se abrindo, todos pareciam estar se mudando para Nova York, então sim, foi uma grande fonte de energia e inspiração e eu conheci muitos dos músicos com os quais ainda estou trabalhando agora – Bob Ostertag e Zeena Parkins, por exemplo. Quanto a saber se a cena era maior para 'o meu tipo de música', acho que é uma maneira de ver as coisas. Havia muitos tipos de música convergindo, muitas cenas se sobrepondo, e seja o que for, nós criamos, aquilo não existia da mesma forma antes de nós..."



Em Nova York, você se juntou ao Naked City de John Zorn. Como descreveria seu envolvimento com o grupo, onde passou a tocar baixo, e Zorn? Você tocou no Brasil, em 1989, exatamente com o Naked City, em um festival que contou também com Cecil Taylor. O que lembra daquilo?

"Zorn estava procurando um baixista que conseguisse ler música, mas que estivesse vindo do mundo do rock ao invés do jazz como todo mundo do grupo. Nós tínhamos que ser capazes de qualquer virada, tocar uma enorme variedade de gêneros e estilos. Foi estimulante e desafiador e para mim um grande prazer ouvir esses gênios criando todas as noites. Eu estava ciente de que tocava meu segundo instrumento, o que me colocava em uma posição ligeiramente diferente de todos os outros, mas eles eram muito tolerantes!
"Quanto ao Brasil, tenho muitas lembranças. Lembro-me de ter chegado em um voo noturno com Cecil Taylor e, quando saímos do aeroporto, Zorn e Cecil não estavam, digamos, com a melhor aparência, e foram emboscados por fotógrafos da imprensa. A manchete do jornal no dia seguinte era 'A música deles é tão deselegante quanto sua aparência' [ele se refere a uma reportagem de O Globo, publicada em 22 de agosto de 89, assunto que tratamos aqui], que eu achava que era ao mesmo tempo maldosa e indicativa de uma completa falta de compreensão ou simpatia pela nossa música. Isso também afetou Zorn, como se sentiu, o que é compreensível! Então a música [que apresentamos] foi, mesmo para os nossos padrões, bem provocativa! Me lembro ainda de vários membros da banda de Count Basie sendo roubados em frente ao nosso hotel…"
 
Photo: Heike Liss
 

Ao longo de sua carreira, você tocou com uma grande variedade de músicos: Zorn, Joelle Léandre, John Butcher, Aki Takase, Bill Laswell, Brian Eno, Chris Cutler, The Residents etc., em uma discografia com cerca de 400 álbuns. Você muda sua visão e a forma de tocar quando trabalha com músicos tão diferentes?

"Eu tento fazer o que parece certo em qualquer contexto em que me encontre. É um equilíbrio entre fazer o que a situação exige e permanecer fiel a você mesmo. Isso é tudo."

Com o que mais está envolvido no momento, fora seu trio, e quais são seus próximos planos?

"Estou compondo para vários grupos, me apresentando com vários grupos e ensinando, como sempre. A escola de música que ajudei a criar em Valdivia, no Chile, abriu e está indo muito bem. O trio tem uma grande turnê europeia no ano que vem. Sempre há muito o que ser feito..."







*FRED FRITH Trio com Susana Santos Silva e Heike Liss*


Quando: 30 (qui) e 31/8 (sex), às 21h
Onde: Sesc Pompeia (Teatro)
Quanto: R$ 12 a R$ 40

Quando: 1/9 (sab), às 20h
Onde: Sesc Araraquara
Quanto: R$ 15 a R$ 50


*Masterclass com Fred Frith*
Quando: 29/8 (qua), às 16h
Onde: Sesc Consolação
Quanto: R$ 5 a R$ 17






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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi também correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista on-line portuguesa Jazz.pt. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)


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