Coraje Buenos Aires: resgatando uma obra lendária


BREVEs
Aguardada há décadas pelos entusiastas do jazz argentino mais criativo, finalmente é possível degustar essa fina obra composta pelo genial Jorge López Ruiz...  



Por Fabricio Vieira

Quem se interessa pelo jazz vanguardista feito na América Latina com certeza teve um grande sobressalto ao se deparar com a notícia de que finalmente se encontrou uma cópia e ia se editar comercialmente a obra Coraje Buenos Aires. Continuação da obra-prima Bronca Buenos Aires (1971), do mestre argentino Jorge López Ruiz (1935-2018), este álbum era lendário: sabia-se, por declarações do próprio Ruiz, que o disco existia e foi devidamente gravado, mas “jogado fora” pela RCA em meio às repressões ditatoriais que assolavam a Argentina (e a América Latina) no período. Poder ouvir a obra agora, em um período em que negacionistas dos horrores das ditaduras na América Latina ganham cada vez mais espaço e poder, é especialmente marcante – profundamente sintomático que o álbum abra com a faixa Pido perdón por los muertos...

Coraje Buenos Aires, que grabé como continuación de Bronca... no salió del estudio. La borraron”, disse Ruiz em entrevista em 2015 (triste ele não poder ver o resgate dessa sua obra). Coraje Buenos Aires tem muitas semelhanças estruturais com a obra anterior de Ruiz –um par mesmo. Mais uma vez, estamos diante de uma suíte em quatro movimentos, com um grupo de jazz, coro e recitativo. O poeta Jorge Tcherkaski retorna com a parceria dos textos (recitados novamente por sua própria voz). A banda é formada por alguns bem conhecidos nomes da cena jazzística argentina: Santiago Giacobbe (piano), Ricardo Lew (guitarra), Hugo Pierre (sax alto), Jaime Prats (sax tenor) e Carlos Pocho Lapouble (bateria). A faixa-título, que fecha o álbum, é o melhor do conjunto. Infelizmente não aproveitaram para fazer um encarte com informações e críticas que a obra merecia; o modelo de edição do disco é básico (ao menos as letras/poesias estão ali) e mesmo a data de gravação não é precisa (vem marcado apenas 1972/1973). De qualquer forma, este lançamento é um evento histórico. Editado por RP Music/RGS Music, sai em CD, LP e já nas plataformas de streaming.