PLAY IT AGAIN... (Made In Portugal - II)


LANÇAMENTOs Em destaque, mais discos de músicos portugueses. Experiências variadas, possibilidades múltiplas. Ouça, divulgue, compre os discos... 



Por Fabricio Vieira

 

Directions  ****(*)

Space Quartet

Clean Feed

O Space Quartet, comandado por Rafael Toral, chega a um novo título mantendo sua exitosa proposta de unir elementos eletrônicos e acústicos, mas agora com uma mudança sensível. Ao lado de Toral (feedback eletrônico e acústico, amplificadores) estão Hugo Antunes (baixo acústico), Nuno Morão (bateria e percussão) e o saxofonista Nuno Torres. A participação de Torres merece destaque: a adição do sax ao som do quarteto  pós-free jazz, como já disseram  amplia suas possibilidades exploratórias, além de dar um tempero mais jazzístico ao som do grupo, como fica bem demarcado logo na faixa-título, que abre o disco. Quem conhece o trabalho de Toral sabe que sua particular investigação de elementos eletrônicos tem indicado novos rumos à música improvisada ao menos desde "Space", de 2006; em Directions, vemos o artista levando suas pesquisas a extremos, da fúria de "Such a hungry yearning burning inside of me" à hipnótica "Moonlight Through the Pines", em um registro que mostra que essa música sempre pode encontrar amplas vias a serem ainda exploradas. "Not to interrupt someone who is talking, is giving space. To stand aside and not in the doorway is creating space. To refrain from judging too fast is leaving space. We need space more than ever now. To back off. To slow down. To be quiet. Anything that happens in open space, happens in a more positive way. More vulnerable, hopefully more grounded", diz Toral.

 


Hair of The Dog  ****

Gabriel Ferrandini

Canto

Na última década, o baterista Gabriel Ferrandini passou de "uma revelação da cena portuguesa" a um dos mais sólidos e inventivos bateristas da free music contemporânea. Nos últimos tempos temos visto também ele surgir como um criador de uma obra própria. Após a elogiada estreia com "Volúpias", em 2019, onde sua herança jazzística esta mais demarcada, Ferrandini chega agora a um novo projeto, adentrando novos territórios. Hair of The Dog traz o músico em instigante processo exploratório solista, ampliando em muito o repertório discursivo que conhecíamos dele. Indo além da bateria, além do aparato percussivo expandido, Ferrandini trabalha com amplificação, sampler (surpreendente escolha da música de Carlo Gesualdo), pós-produção, efeitos eletrônicos (aqui, com a colaboração de Pedro Tavares), criando três peças que funcionam como um grande painel sonoro de complexa fatura, que nos leva a uma viagem por campos onde as surpresas não são poucas. Álbum para ser ouvido em sua totalidade, os 40 minutos sem interrupção, deve poder dar o seu máximo mesmo no palco, com a iluminação/aparato visual elevando a experiência inebriante que Ferrandini nos propõe. 

 

 

The Fall  ****(*)

Fail Better!

JACC Records 

Imagino que o quinteto Fail Better! ainda siga ativo. Mas este mais recente álbum do grupo, novidade após alguns anos sem registro, traz uma gravação realizada anos atrás, no Salão Brazil, em Coimbra, em outubro de 2017. The Fall apresenta duas mudanças na formação do quinteto: o catalão Albert Cirera assume os saxes no lugar de João Guimarães; e Marco Franco, a bateria, em substituição a João Pais Filipe. O grupo é completado com Luís Vicente (trompete), Marcelo dos Reis (guitarra) e José Miguel Pereira (baixo). De qualquer forma, o poderoso grupo mantém sua música em sintonia com o que conhecemos, marcada por forte herança free jazzística, algum peso rock e improvisação livre conduzida com muita vitalidade. É curioso que todos os álbuns do quinteto tenham sido gravados ao vivo e no mesmo local (é como se a casa oficial do grupo fosse o palco do Salão Brazil ). O álbum abre com "Ground Floor", que inicia com um breve preâmbulo, não tardando em mergulhar em um campo de elevada intensidade, com trompete e sax duelando enquanto a guitarra os vai circulando, alcançando seu máximo lá pelos 4 minutos, com um solo desconcertante de Cirera. "Rise Up", na sequência, joga trompete e guitarra a primeiro plano, mantendo a temperatura bastante elevada. O clima sofre uma quebra em "Falling Stars", quando um free impro mais exploratório dá o tom, voltando à tensão anterior com "Skyfall".

 


Glaciar  ****

Marcelo dos Reis

Miria Records

O guitarrista Marcelo dos Reis é um dos músicos mais inquietos de Portugal. Envolvido com projetos de diferentes perfis, já o vimos mostrar possibilidades diversas à guitarra (acústica, elétrica, preparada), inclusive com um intrigante álbum solista ("Cascas", 2017, Cipsela). Agora ele surge com uma nova proposta, bastante distinta das explorações no campo da free music que tem conduzido. Dificilmente alguém que ouvisse este Glaciar sem aviso prévio descobrisse que se tratava de um álbum de dos Reis. Glaciar é um novo trabalho solista, formado por nove peças tituladas apenas com uma sequência numérica (I-I, I-II, I-III...), que funcionam como uma continuidade que vai se completando com o passar das faixas, formando um painel único, em duas partes, totalizando cerca de 40 minutos. Entre composição e improvisação, dos Reis cria com uma guitarra acústica, alguns efeitos, uma voz que surge em alguns pontos (como em "II-III"), uma música de cortante delicadeza, bastante climática, que cria uma atmosfera gélida que dialoga com perfeição com a imagem da capa do disco. 

 


Free Speech ***(*)

João Sousa/ José Lencastre

Partícula Records

Free Speech é um encontro entre José Lencastre e João Sousa que adentra o clássico formato do duo de sax e bateria. Se a música do álbum não é tão energy como muitas vezes acabamos por  associar a este formato, ela amplifica sua potência discursiva ao nos lembrar dos riscos às liberdades que marcam o mundo contemporâneo. Não à toa, o disco foi lançado simbolicamente no dia 25 de abril, data marco da derrocada do salazarismo em Portugal. E os títulos das faixas não vão nos deixar esquecer que, sim, o free jazz também é arte de protesto (basta ver sua história), mesmo que às vezes o público não se atente a isso. A sequência dos temas nos chama a atenção para muitos pontos, desde o alerta mais amplo de "Hunting Witches", que remete a nossos e outros tempos, a "Cabo Delgado", referência à região no norte de Moçambique que vive uma tragédia humanitária em meio à explosiva crescente  violência. Há também "Marielle", faixa em homenagem à vereadora brutalmente assassinada no Rio de Janeiro em 2018. O álbum abre com a contagiante "Burmese Spring", com Lencastre duplicado, como se houvesse dois saxes em ação juntos. Já "Thawra" traz as linhas mais complexas e os melhores momentos do disco. Lencastre, um dos nomes mais inventivos do sax alto contemporâneo, cria com Sousa um álbum que, se não chega a ser conceitual, nos faz pensar além da simples degustação da música apresentada.

 


Melt  ****

Ernesto Rodrigues/ Joana Sá/ Luisa Gonçalves/ Santos

Creative Sources

Algo que chama atenção na intensa cena da free music portuguesa é a relativamente baixa participação de mulheres instrumentistas. Claro que há artistas que têm gravado e tocado, como a violinista Maria do Mar e a violoncelista Joana Guerra  afora Susana Santos Silva, artista de renome internacional. Mas essa presença ainda parece tímida. Por isso, sempre gera interesse extra se deparar com um trabalho como Melt, que traz duas inventivas instrumentistas: Joana Sá, no sax soprano, e Luisa Gonçalves, no piano. Melt é um quarteto, completado por Carlos Santos (eletrônicos) e Ernesto Rodrigues (viola). A música apresentada foi captada muito recentemente, no dia 1º de junho, no Lisboa Incomum, o que eleva o frescor do álbum. Em sintonia com a proposta do selo Creative Sources, temos aqui improvisação livre camerística, desenvolvida sem pausas, em uma única faixa, "Sous Les Bois", de 54 minutos. Trata-se de improvisação coletiva feita de muitas sutilezas, mesmo nos extratos eletrônicos de Santos, em que o diálogo, acima de solos ou destaques individuais, centraliza o desenvolvimento da extensa peça. Melt se revela um álbum para ser ouvido em silêncio e com atenção, com suas nuances se desvelando progressivamente, tendo seu cume de intensidade próximo ao meio da peça, gradativamente depois baixando o tom até encontrar seu algo sombrio desfecho.

 


Chanting In The Name Of  *****

Luís Vicente Trio

Clean Feed

Chanting In The Name Of apresenta um trio com alguns dos nomes mais instigantes da cena portuguesa: o trompetista Luís Vicente, o baixista Gonçalo Almeida e o baterista Pedro Melo Alves. Sob o comando de Vicente, o projeto faz sua estreia com este belíssimo álbum, de registro bastante fresco, feito em janeiro deste ano no Soundinnovation Studios. Tendo ganhado maior projeção de seus trabalhos na última década, esses três instrumentistas estão em seu melhor e a união de suas vozes não poderia ter ocorrido em momento mais propício. "Anahata" abre o disco em modo bastante contido, com um tema simples sendo desenvolvido com vagar pelo trompete, sem indicar para onde o trio nos conduzirá a partir da metade da peça, quando o solo de Vicente se expande e ganha intensidade, impulsionado por baixo e bateria em acelerada dicção. "Keep Looking" traz um cortante solo de Vicente, que ganha sabor extra com o baixo conduzido com arco por Almeida. Esse baixo com arco tem seus momentos máximos na abertura da faixa-título, marcada por uma introdução arrepiante de Almeida; Alvez aqui também apresenta uma exploração percussiva de amplas ideias, extrapolando a expressão-base da bateria, enquanto Vicente vai desenvolvendo uma lírica melodia: este tema mostra toda a técnica e inventividade do trio em seu máximo. "Connecting the Dots", na sequência, muda o tom, trazendo uma atmosfera jazzística mais palpável. O modo mais contemplativo da abertura do disco volta em seu fim, com a última peça, "May's Flavour" funcionando como um epílogo que nos convida a retornar ao início, a adentrar esse fascinante registro outra vez mais. "The way in which the trio captures those rare moments of creative genius deserves our listening, our attention. Not just once but manny times", diz Hamid Drake no texto do encarte. "The music echoes of hope, compassion, beauty and understanding that the human spirit cries out for not only in the times we are now living in, but at all times."

 


--------

*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)