domingo, 13 de setembro de 2020

PLAY IT AGAIN (cordas em destaque)





LANÇAMENTOs  Novos álbuns com participação protagonista de cordas. Experiências variadas, possibilidades múltiplas. Ouça, divulgue, compre os discos...






Por Fabricio Vieira



Lost and Found  ****(*)
J. Pavone String Ensemble
Astral Spirits

Menos de um ano após sua elogiada estreia (com "Brick and Mortar), o J. Pavone String Ensemble apresenta novo álbum. Com uma inusitada formação, o quarteto comandado pela violista de NY Jessica Pavone traz a seu lado Abby Swidler (também viola), Erica Dicker e Angela Morris (violinos) – ou seja, o violoncelo do quarteto de cordas tradicional é substituído por uma segunda viola. Gravado no Firehouse 12, em New Haven, em outubro de 2019, Lost and Found é um disco bastante centrado, com quatro composições que totalizam apenas cerca de 38 minutos. Algo minimalista, drone, hipnóticas linhas, a música do quarteto pode levar o ouvinte a diferentes experiências sensoriais (ouça com fones e depois em um bom estéreo com potentes caixas e descobrirá alcances outros dessa música), podendo soar angustiante, reconfortante ou inebriante a depender de como o espírito chega na hora de encarar e absorver esses sons. Pavone, uma das mais expressivas vozes da viola da free music atual (seu trabalho solista é especialmente forte), consegue nesse projeto traçar pontes com outras searas, dialogando com o mais inventivo da música de câmara concebida nas últimas décadas. Certa estaticidade que parece ecoar dessa música a princípio mostra, na verdade, uma constante, mas detalhista, transformação. E isso só pode ser apreciado em seu máximo escutando este disco sem interrupções ou distrações. Lost and Found será lançado no dia 8 de outubro em CD e K7.  





Unearth  ****
New Hermitage
Independente

Em seu quinto álbum, o quarteto canadense New Hermitage traz um pouco mais de sua música profundamente tocante e contemplativa. Formado por Andrew MacKelvie (alto, tenor e clarinete baixo), India Gailey (violoncelo), Ellen Gibling (harpa) e Ross Burns (guitarra) em 2017, o New Hermitage tem desenvolvido uma linguagem que adentra o universo da improvisação de forma muitas vezes pontilhista, com os sons pincelando o espaço, sempre atentos aos silêncios que nos cercam. Muito atmosférica, esta música se desenvolve sem protagonistas, tendo na interação entre os quatros instrumentos seu norte principal. Registrado em dezembro passado em Halifax, Nova Scotia, o novo álbum do quarteto traz 11 temas. Apesar de ter a improvisação coletiva como processo principal, há uma composição de Gailey, "Pine Bottle Skylight", e outra de Gibling, "In Amer", que abre exatamente com sua harpa, dedilhada espaçadamente, logo acompanhada por violoncelo (do qual vai surgindo melancólica melodia) e pontual sopro. "On this record we explore the process of improvising a series of shorter compositions while being true to our practice of moving patiently through discovered material", diz o o release.  Representando as vias mais relaxadas e certa herança spiritual do free jazz, o New Hermitage oferece uma música de delicadas e sensíveis linhas.   
  




Cascata   ****(*)
Guilherme Rodrigues
Creative Sources

Violoncelista de Lisboa atualmente vivendo em Berlim, Guilherme Rodrigues está envolvido com uma série de projetos com músicos de diferentes partes do mundo (já gravou/tocou, por exemplo, com os brasileiros Marco Scarassatti, Alípio C Neto e Yedo Gibson). Formado pelo Conservatório Nacional de Música de Lisboa, o ainda relativamente jovem (nasceu em 1988) mas muito experiente músico conta com algumas dezenas de álbuns em sua discografia, tendo investigado os mais diferentes formatos, de gravações solistas a participações em orquestras. Mostrando o lado mais íntimo de sua música, Rodrigues aparece neste Cascata acompanhado apenas de seu violoncelo. São 23 peças breves, muitas delas com menos de um minuto, registradas em março de 2019 no Tonus Arcus Studio, em Berlim. "The album came from the need to share the total freedom of my person as a cellist. With nothing programmed, arrived at the studio and played for almost two hours. It was fluid as a waterfall", explica o músico na apresentação do álbum. No decorrer do disco, os temas vão surgindo em uma sequência que explora técnicas e possibilidades múltiplas, em um vasto leque oferecido pelo violoncelo, com o resultado sonoro alcançado  variando consideravelmente de uma peça a outra. Como um mosaico, essas peças, apenas numeradas, sem nomes, arquitetam um todo que também pode ser apreciado em sua fragmentação. O violoncelo se revela em múltiplas faces, surpreendendo em diferentes pontos os ouvintes, com as variadas técnicas empregadas por Rodrigues fazendo com que cada tema tenha uma marca própria. Há desde faixas com motivações melódicas mais explícitas, como a tocante "IV", até outras em que a utilização de técnicas estendidas nos leva a territórios de sonoridades realmente novas.




Kita, Rodrigues & Yamagishi  ****
Naoki Kita/ Guilherme Rodrigues/ Naoto Yamagishi
Creative Sources

Este encontro Japão-Portugal ocorreu em setembro de 2019 no Barber Fuji, em Saitama. Naoki Kita (violino), Naoto Yamagishi (percussão) e Guilherme Rodrigues (violoncelo) se uniram para uma sessão de improvisação livre, que rendeu cerca de 40 minutos de música repartidos em quatro temas. Aqui temos perceptíveis influências do free impro japonês, inclusive com elementos noise sensivelmente presentes. A gravação mostra o trio em áspero diálogo, que tem nos momentos mais ríspidos seu melhor. A música oscila entre passagens mais detalhistas e pontos de ataques ruidosos mais explícitos, em sequências que guiam os ouvintes por labirintos sem muita clareza de para onde se está indo. De um modo geral, as peças começam de forma mais calma, com os sons vindo e crescendo aos poucos, sendo por vezes um processo muito imagético, chegando a parecer ter sido desenvolvido com o propósito de dialogar com imagens. A faixa III  é a que melhor condensa a proposta do trio, com a música logo rumando para seus picos, soando especialmente cortante passados menos de três minutos. De pizzicato delicado a linhas rascantes, violino e violoncelo compartilham trilhas entrecortadas pela percussão em uma sonoridade que pode oscilar na mesma peça entre ecos meditativos e ataques penetrantes.





Pentahedron  ****
Carlos Zíngaro/ Ernesto Rodrigues/ Hernâni Faustino/ G. Rodrigues/ J. Oliveira
Creative Sources

Alguns dos nomes mais representativos da cena de Portugal se uniram neste quinteto. Em gravação ao vivo que aconteceu em novembro de 2019, durante o Creative Fest XIII, no O'Culto da Ajuda, em Lisboa, Pentahedron concentra essas vozes em uma peça de improvisação coletiva altamente madura e perfeitamente equilibrada. Formado por Carlos Zíngaro (violino), Ernesto Rodrigues (viola), Hernâni Faustino (baixo), Guilherme Rodrigues (violoncelo) e José Oliveira (bateria), o quinteto exibe apenas 29 minutos de música (não sei se ao vivo rolou mais). No que poderia ser um quarteto de cordas, temos a interessante adição do trabalho percussivo de Oliveira, que oferece outras possibilidades rítmicas ao desenvolvimento da música apresentada. A peça já começa com força, com a percussão rasgando o ar em entradas e saídas precisas, enquanto as cordas vão encontrando seus rumos, se preparando quer seja para interações entre elas, quer seja para momentos de protagonismo deste ou daquele instrumento. Sólido exemplar da potência atual da música improvisada portuguesa.   





Deep Resonance  *****
Ivo Perelman & Arcado String Trio
Fundacja Sluchaj (FSR)

O saxofonista Ivo Perelman faz sua estreia pelo selo polonês Fundacja Sluchaj (que tem consolidado um destacado catálogo) com um excitante trabalho ao lado de um grupo muito especial, o Arcado String Trio. Formado por Mark Feldman (violino), Hank Roberts (violoncelo, aqui grafado como William H. Roberts) e Mark Dresser (baixo), o Arcado String Trio foi bastante atuante entre o fim dos anos 80 e meados da década de 90, tendo deixado pelo caminho uma meia dúzia de álbuns. Mas não gravava há duas décadas, voltando a se reunir especialmente para esta sessão, realizada em abril de 2018 no Parkwest Studios (NY). Perelman já tinha gravado em outras oportunidades com Dresser ("Suite For Helen F."), Feldman ("Strings 1") e Roberts ("Strings 2"), mas nunca com este trio junto. E a sintonia entre cordas e sopro aqui foi perfeita. Quem acompanha a trajetória do saxofonista sabe o quanto as parcerias com cordas são especiais para ele, estando presente em diferentes momentos de sua carreira de mais de três décadas – e não esqueçamos que no disco "Strings", de 97, um duo com Joe Morris, Perelman toca violoncelo, instrumento que estudou quando jovem. Deep Resonance é um dos mais bem ajustados encontros do sax tenor de Perelman com cordas. "I have had the privilege of playing with some of the best String improvisers in the world but never before with a established String trio with such far reaching sound tentacles that many a time to this day I still feel that I am playing the cello", diz Perelman. A música neste álbum, dividida em quatro partes ("Resonance I", "Resonance II"...), pode ser encarada em seu desenvolvimento como uma peça de câmara em que a improvisação coletiva é o núcleo do processo criacional. Claro que no universo do free impro ter tocado junto não garante uma sessão bem-sucedida, mas nesse caso parece que o fato de os músicos se conhecerem de palcos e sessões de gravações anteriores apenas jogou a favor, fazendo com que a música soe precisa, com as ideias se desenvolvendo em harmonia sem deixar que surpresas sonoras surjam de tempos em tempos.

       



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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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