sexta-feira, 7 de agosto de 2020

PLAY IT AGAIN...






LANÇAMENTOs  Novos álbuns de diferentes partes do mundo. Experiências variadas, possibilidades múltiplas. Ouça, divulgue, compre os discos...








Por Fabricio Vieira



Unnavigable Tributaries  ****
Luís Vicente/ Olie Brice/ Mark Sanders
Spontaneous Music Tribune/Multikulti Project

Em maio de 2019, o trio formado pelo português Luís Vicente (trompete) e os britânicos Olie Brice (baixo acústico) e Mark Sanders (bateria) fez uma turnê por Portugal que passou por cidades como Coimbra, Vila Real, Caldas da Rainha e Lisboa. Foi nesta última parada que o trio decidiu gravar o álbum agora editado. Unnavigable Tributaries traz seis temas, em cerca de 45 minutos de música. O registro começa com uma peça com ar de introdução, "Côa", com os músicos aclimatando os ouvintes, Sanders testando a percussão de forma morosa enquanto o trompete vai destilando um tema que parece ainda meio que buscando seu rumo, sem pressa, crescendo para adentrar, já de forma mais impetuosa, "Tua", que vem na sequência. Aqui não tarda para que a música esteja mais quente, com Vicente lá pelos dois minutos nos conduzindo com um potente solo. Após a mais climática "Sabor", passamos por "Corgo" para alcançar a extensa "Tavora", onde a precisão do trio tem seu espaço mais dilatado para ser exibida. Com seus 14 minutos, a faixa permite que Vicente, Brice e Sanders improvisem coletivamente e também mostrem a singularidade de suas vozes. O disco fecha com a explosiva "Paiva", deixando no ar a vontade de poder vê-los atuando ao vivo. “I’m writing these liner notes during the madness of Covid 19, in social isolation and probably a few weeks before the height of the virus with what seems like a now inevitable huge loss of life. (...) at this point in time it’s hard not to despair, to keep pushing forward artistically… Listening to our recording is helping me look both back and forwards to happier times. So here’s to human interaction, to social collaboration, to things getting better and to a future when we can do what we do – come together to make music, to listen to music and to share in the joy of being alive”, escreve Brice no encarte, resumindo o sentimento de muitos neste momento.





Dental Kafka   ****
Akira Sakata/  Jim O'Rourke/ Di Domenico/ Yamamoto
Trost Records

Aos 75 anos, o saxofonista japonês Akira Sakata pode ser chamado sem exageros de lenda. O músico nascido em Hiroshima em fevereiro de 1945, poucos meses antes de os Estados Unidos cometerem em sua cidade uma das maiores atrocidades da história, iniciou sua carreira no free jazz no fim dos anos 1960 e nunca parou desde então. Com dezenas de discos em sua discografia, Sakata se mantém excursionando pelo mundo e se envolvendo com novos projetos. Neste novo álbum o vemos com o quarteto Bonjintan, ao lado dos mais jovens Jim O'Rourke, Tatsuhisa Yamamoto (bateria) e do pianista italiano Giovanni Di Domenico. A presença de O'Rourke pode gerar uma expectativa um tanto quanto errada em relação ao que se vai ouvir aqui. Isso porque O'Rourke, muito ligado a eletrônicos, guitarra e ruídos que bem tem explorado no rock e no free impro, aparece desta vez munido de um baixo acústico. Após abrir com tema mais abstrato, construído de forma não linear, o álbum nos lança em seu melhor, a potente faixa-título, que se revela por meio de sonoridade bem free jazzística. Até certa herança propriamente jazzística emerge do piano de Domenico, com um toque algo swingante aparecendo no caminho, enquanto Sakata sola ariscamente, mas sem deixar de soltar algumas pitadas melódicas em alguns pontos, lembrando sua sonoridade com seus trios na virada dos anos 70/80. Sakata surge com o clarinete no terceiro tema, "Koro Koro Donguri", que retoma um corpo mais free impro, sendo menos direta em sua construção, mais divagante, com os instrumentistas experimentando rumos para encontrar uma voz coletiva. Com Dental Kafka, o saxofonista japonês mostra que segue afiadíssimo.





Open Form For Society Live  ****(*)
Christian Lillinger
PLAIST (EDEL)

Após a elogiada estreia em 2019 do projeto Open Form For Society, o baterista alemão Christian Lillinger retorna com um novo disco. Desta vez ao vivo, Open Form For Society Live foi captado na turnê do álbum de estúdio, em novembro de 2019, no Jazzfest Berlin. A banda, com dez instrumentistas ao lado das baquetas de Lillinger, sofreu alterações pontuais em relação ao grupo que gravou o disco em estúdio, contando aqui com Kaja Draksler, Cory Smythe, Ron Stabinsky, Antonis Anissegos, Elias Stemeseder (pianos e sintetizadores), Christopher Dell, Roland Neffe (vibrafones, marimba), Lucy Railton (violoncelo), Petter Eldh e Robert Landfermann (baixos). O grupo com integrantes de diferentes países (Alemanha, Eslovênia, Suécia, EUA, Áustria, Grécia e Reino Unido) amplia as possibilidades oferecidas pelas composições de Lillinger. “It was important to me to keep room for variation and improvisation, and thereby advance the musical ideas”, diz Lillinger no release. E é isso o que vemos aqui. A música se mostra mais enérgica e com improvisações mais intensas que o registro de estúdio, totalizando cerca de 52 minutos. O disco inicia com "OFFS", peça que tem a proeza de confundir nossos sentidos por entre múltiplas linhas conduzidas pelos vários pianos em uma textura envolvente. As teclas voltam a ser essenciais em "Sisyphos", que quase dobra de tamanho, indo dos três minutos originais para cinco nesta versão, um bom exemplo de como as composições se transformam do estúdio para o palco. Em "Laktat", outro destaque do conjunto, os vibrafones, junto com os pianos e a batida fraturada de Lillinger, criam um sedutor estranhamento, em viradas desconcertantes e vozes que se abrem a pontos múltiplos, fazendo a escuta ter que caçar no ar os elementos que compõem a música em sua roupagem final. Para quem gostou do trabalho de estreia do Open Form For Society, este ao vivo é obrigatório, com potencialidade para agradar ainda mais. O disco está sendo lançado em CD e vinil duplo.





Live at Scholes St. Studio  ****
Ras Moshe Burnett & Music Now! 
Nengo Dango Records

O saxofonista do Brooklyn (NYC) Ras Moshe Burnett começou a organizar o projeto Music Now ainda no fim dos anos 90. Sob essa etiqueta, tem organizado periodicamente gigs e feito alguns registros, reunindo diferentes músicos em sessões de improvisação livre. Esta gravação realizada três anos atrás, em 2 de agosto de 2017, no Scholes St. Studio, marca o encontro do saxofonista com os argentinos Paula Shocron (piano) e Pablo Díaz (bateria), que estavam então em NY. Junto a Moshe (sax, flauta, vibrafone) também estavam os locais Matt Lavalle (flugelhorn), Anais Maviel (voz) e Lee Odom (sax alto). O álbum traz dois temas, mas o núcleo está em “First Part”, com cerca de uma hora de duração; a outra peça, “Final Part”, com seis minutos, funciona mais como um bis. A apresentação começa de forma lenta, abrindo com voz e piano, alguns toques percussivos aqui e ali, tudo chegando aos poucos, se desenvolvendo de acordo com que as ideias vão, gradativamente, surgindo. Com vagar, sentimos o piano assumir algum destaque maior, lá pelos seis minutos, com linhas atmosféricas que nos conduzem a um ponto de energia maior. O solo de tenor que daí advém, percorridos uns dez minutos, se desdobra em excitante diálogo dos dois saxes, quando a música atinge outro nível de força. Entre elevações e recuos, a improvisação coletiva que se arma nessa hora de música tem momentos excitantes, outros mais relaxados, compondo um painel de cores variadas em um vibrante encontro.



   


Broken Shadows - Live  ****
Tim Berne/  Chris Speed/ Reid Anderson/ Dave King
Screwgun Records

Quando vemos o nome do saxofonista Tim Berne e o de Ornette Coleman em um mesmo release, inevitável não vir à mente o iconoclasta projeto Spy vs. Spy, do qual ele participou, ao lado de John Zorn, no fim dos anos 80. Mas Broken Shadows tem uma proposta um pouco diversa. Esse quarteto, que conta com Berne,  Chris Speed (sax), Reid Anderson (baixo) e Dave King (bateria) – os dois últimos, do trio The Bad Plus  investiga temas de Coleman em uma roupagem free jazzística que, se atualiza sua estética, não busca desconstruí-la como o Spy vs. Spy fazia. O Broken Shadows, que estreou no ano passado em disco, retorna agora com uma gravação ao vivo, na qual revisita temas de Coleman de diferentes períodos, como "Humpty Dumpty", originalmente registrada em "This Is Our Music" (1960); "Ecars", de On Tenor (62); "Toy Dance", de New York Is Now (68); e a faixa-título, já dos anos 70. Essa música é desenvolvida dentro de uma expressão free jazzística contemporânea, não se trata de improvisação livre ou algo assim. Dessa forma, os temas são desenvolvidos em sintonia com suas ideias originais, mas, claro, se abrindo a improvisações sintonizadas com a forma de cada um tocar. Afora as peças de Coleman, que centram o projeto e a apresentação, há alguns outros temas, como a surpreendente versão de "Dogon A.D.", de Julius Hemphill.






EarthSeed  *****
Nicole Mitchell / Lisa E. Harris
FPE

A obra da escritora Octavia Butler mais uma vez serve de inspiração para Nicole Mitchell. Desta vez em parceria com a compositora e vocalista Lisa E. Harris, Mitchell lança a terceira parte de uma trilogia que tem em livros de Butler sua motivação primeira (os dois discos anteriores são "Xenogenesis Suite" e "Intergalactic Beings"). A flautista e compositora ligada à AACM mostra mais uma vez um trabalho de grande inventividade composicional, amparada pelo grupo Black Earth Ensemble, que aqui traz Tomeka Reid (violoncelo), Ben LaMarGay (trompete), Zara Zaharieva (violino), Julian Otis (voz) e Avreeayl Ra (percussão). A peculiar instrumentação, que tem ainda a flauta de Mitchell e Harris no theremin e eletrônicos, ajuda a criar um clima onírico, traçando uma sintonia com o universo afrofuturista/science fiction caro a Butler. As envolventes linhas criadas por Reid, com destaque a temas como "Yes and Know" e "Elemental Crux", com as vozes declamando e a flauta rasgando o espaço, trazem alguns dos momentos mais sedutores da obra. Os textos de Butler, ora recitados, ora cantados, são essenciais para o desenvolvimento da música: poder acompanhar as palavras eleva as possibilidades de apreciação da desafiadora obra. Nicole Mitchell e Lisa E. Harris se encontraram no New Quorum Composers Residency, em New Orleans, e foi daí que surgiu a ideia de trabalharem juntas, resultando neste instigante projeto. Primeiramente apresentado ao vivo no Art Institute de Chicago, em junho de 2017, essa importante criação agora pode ser degustada por todos.





Koneko  ****
Gato Libre
Libra Records
O grupo japonês Gato Libre apresenta seu novo inusitado registro. Criado pelo trompetista Natsuki Tamura no começo dos anos 2000, o Gato Libre foi obrigado a se reinventar para seguir em atividade. Primeiramente um quarteto, trazia Tamura, a pianista Satoko Fujii (que neste projeto toca só acordeom), o baixista Norikatsu Koreyasu (1954-2011) e o guitarrista Kazuhiko Tsumura (morto em 2015). Com a perda da metade de seus integrantes, o Gato Libre se recriou como trio, com a adição do trombonista Yasuko Kaneko. E é com essa formação de trompete, acordeom e trombone que o trio apresenta este novo título. Koneko, o oitavo álbum do grupo, foi gravado em 5 de dezembro de 2019 no UEN Studio, em Tóquio, e traz oito temas, todos compostos por Tamura. Se a música segue a linha originalmente pensada por Tamura, com um núcleo free jazzístico permeado por elementos folk e improvisação coletiva, é claro que a sonoridade mudou bastante com troca de baixo e guitarra por trombone. Com a formação anterior ou com a atual, a sonoridade do Gato Libre é muito particular, trazendo inevitável estranhamento para quem se depara pela primeira vez com o projeto. Se o nome do grupo e as capas de seus discos sempre remetem ao universo felino, essa marca se acentua ainda mais aqui. O título do álbum, Koneko, significa algo como “gatinho”. E as faixas seguem com “Noraneko” (gato de rua), “Yamaneko” (gato selvagem), “Ieneko” (gato doméstico) e assim por diante. O clima das faixas busca acompanhar o título delas, soando ora mais divagante, ora mais arisca, ora mais aconchegante. Noraneko, por exemplo, tem certo ar noir, com os dois sopros atravessando o ar de modo letárgico. Já Yamaneko, em que o arcordeom ganha maior destaque, tem um clima mais ríspido, indomável. Destaque para Bakeneko, com os momentos mais fortes do trompete e seu solo mais potente, quebrado com agudeza por intromissões diretas do acordeom.






Aura  *****
Camila Nebbia
ears & eyes

Aura é o novo instigante trabalho da saxofonista argentina Camila Nebbia. Potente voz da nova geração que faz da cena do país vizinho uma das mais excitantes da atualidade, Nebbia (sax tenor e composição) reuniu para este projeto um grande grupo que conta com Ingrid Feniger (sax alto e clarinete baixo), Violeta García (violoncelo), Valentin Garvie (trompete), Daniel Iván Bruno (trombone), Juan Bayón (baixo), Mariano Sarra (piano), Damián Bolotín (violino), Axel Filip e Omar Menendez (baterias). Com esta formação, apresenta cinco composições em que complexas harmonias, interações improvisativas coletivas e texturas marcadas por tensões constroem um conjunto sonoro altamente inventivo. A composição nuclear do trabalho provavelmente seja "Algunos rastros de la memoria". Com seus 18 minutos, mostra toda a criatividade composicional de Nebbia, com a peça sendo marcada por uma linha melódica que aparece em diferentes momentos, se desenvolvendo cada vez de uma forma um tanto quanto distinta. A orquestração aqui é explorada em maior complexidade, com as cordas tocando um marcante melancólico tema antes de sermos despertos por ataques potentes da banda. Mais surpresas: no meio da peça surgem vozes a recitar versos de Federico García Lorca, antes de mergulharmos em sua segunda parte, rumo ao potente desfecho. Outra faixa de forte impacto é “La Desintegración”, em que o diálogo coletivo fraturado que abre a peça, antes de nos levar ao tocante solo de sax tenor, é desconcertante; este tema utiliza algumas técnicas de regência criadas por Butch Morris, que ditam as paradas e ataques que elevam sua tensão. Camila Nebbia está em seu ponto máximo e este é sem dúvida seu mais importante trabalho até o momento; espero que tenha oportunidade de levá-lo aos palcos (e ouvidos) mundo afora.  





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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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