domingo, 26 de julho de 2020

Made In... PORTUGAL




LANÇAMENTOs  Novos álbuns de diferentes artistas da intensa cena free impro/jazzística de Portugal. Experiências variadas, possibilidades múltiplas. Ouça, divulgue, compre os discos...






Por Fabricio Vieira



Solo Sessions IIII  ****
João Almeida
Independente 
Portugal conta com dois dos mais potentes e inventivos trompetistas da atualidade - Susana Santos Silva e Luís Vicente – e é especialmente interessante vermos surgir novas vozes vindas do país. Com seus 20 e poucos anos, João Almeida faz sua estreia com este desafiador disco solo. Licenciado em Jazz na Escola Superior de Música de Lisboa, Almeida, que é aluno de Peter Evans, mostra que já tem uma direção bem estruturada e focada para desenvolver a música que propõe. Solo Sessions IIII é realmente um álbum que pode ser chamado de pessoal: provável fruto da quarentena imposta pela pandemia, o disco foi todo executado, gravado e mixado pelo próprio artista em março deste ano, no Bairro das Colónias, Lisboa (como informa o release). O álbum traz oito temas em que temos a oportunidade de apreciar amplamente a técnica do trompetista. As faixas são de duração variável, indo de 1m46 a 9m28, com os tempos oscilando de acordo com as necessidades encontradas pelo músico para desenvolver suas ideias. Se as técnicas estendidas fazem parte da estética de Almeida, ele também se mostra interessado em desenvolver ideias nas quais certo melodismo marca presença, como na tocante "Alternate", verdadeiro contraponto à asfixiante "Points", com seus toques sussurrados que vem e vão deixando os ouvidos meio sem saber para onde estão sendo levados. Já "Train" provavelmente seja a melhor peça para descobrir o trabalho desse jovem artista; com seus mais de nove minutos, não apenas dá um tempo mais alargado para o ouvirmos sem interrupção, mas é onde ele melhor parece apresentar as amplas possibilidades que pode oferecer com seu trompete. 





akasa  ****
João Sousa/ José Lancastre/ Jorge Nuno/ Hernâni Faustino
Partículo Records 

Esse é mais um registro dos tempos atuais, reflexo da quarentena que nos confinou em nossas casas, tanto lá quanto do lado de cá do Oceano. A ideia partiu do percussionista João Sousa, que convidou, em março, José Lancastre (saxes alto e tenor), Jorge Nuno (guitarra acústica) e Hernâni Faustino (baixo e violoncelo) para a empreitada. Cada um em sua morada, os quatro músicos realizaram esta sessão de improvisação livre aproveitando as facilidades e possibilidades da tecnologia. Todos são músicos experientes da cena portuguesa e, só de ver o nome deles reunidos, já se cria a expectativa de algo forte vindo. Para quem conhece Lencastre, Nuno e Faustino de tantos variados projetos ligados à free music, o resultado de akasa surpreende. Há, sim, algum tema com linhas mais diretas e enérgicas, como "Quarto Crescente", com o sax tenor de Lencastre faiscando. Mas a maioria dos momentos exibidos nas 11 peças que compõem o álbum nos leva a mergulhar em outros universos, onde certo spiritual jazz dos anos 60/70 marca presença. Não conheço bem o trabalho de Sousa, mas talvez essa seja sua mão no quarteto pesando: além da ideia da gig virtual ter sido dele, Sousa toca sitar, bansuri, feng gong, alimentando a atmosfera oriental que marca, de um modo geral, o belo registro. Explica o release: "este quarteto nasce em quarentena, desafiado a gravar os seus instrumentos com os seus telefones ou dispositivos de gravação, para criar peças improvisadas como um hino ao que parece ser aleatório, mas que se mostra como verdadeira conexão".






In Igma  ****(*)
Pedro Melo Alves
Clean Feed 
Fazia algum tempo que não tinha notícias do baterista e compositor Pedro Melo Alves, ao menos desde o lançamento de seu premiado "Omniae Ensemble", de 2017. E eis que Melo Alves reaparece, e com um novo ambicioso projeto: In Igma. Este é um trabalho que foi desenvolvido no verão de 2019, em meio a apresentações em diferentes palcos, partindo de uma encomenda da Fundação Serralves para o festival Jazz no Parque. O compositor partiu de uma pesquisa que passa pelo erudito contemporâneo e tem nas vias da improvisação um importante canal. Para tanto, reuniu um fantástico grupo que conta com Eve Risser (piano), Mark Dresser (baixo), Abdul Moimême (guitarra) e as vozes de Aubrey Johnson, Beatriz Nunes e Mariana Dionísio, além de Alves na bateria e percussão. Ou seja, temos basicamente, entre contrastes e interações, duas sessões, a de vozes e a de cordas e percussão. Aqui o melhor é não falarmos em faixas, mas em partes (cinco) nas quais se dividem a obra. Não sei se Alves a concebeu assim, uma obra para ser ouvida de forma ininterrupta, mas é dessa forma que soa. Parece um erro ouvir apenas um ou outro tema: In Igma é uma composição para ser degustada  sem interrupções em seus quase 40 minutos de duração, percorrendo cada parte com ouvidos focados, para não perder cada detalhe que faz o encanto do álbum. As vozes têm papel de grande importância, muitas vezes trabalhando no núcleo dos sons, em uma esfera fonética, além das palavras, em uma exploração poética que nos abre universos encantatórios e oníricos. O piano de Risser é outro ponto central. A artista francesa tem feito de seu instrumento um campo de exploração sem limites e isso se encaixa com perfeição à proposta de In Igma. É tocante vê-la protagonizando o final de "Organum", com um breve belo solo que serve de transição a "In Igma II - On Meaning", que abre com delicadas investidas ao teclado acompanhadas pela percussão. Pedro Melo Alves reafirma aqui a poderosa impressão deixada antes em "Omniae", mostrando que realmente é um compositor de refinadas ideias.






The Book of Spirals  ****
Pedro Carneiro/ Ernesto Rodrigues/ G. Rodrigues / R. Pinheiro/ H. Faustino
Creative Sources 

Pedro Carneiro, destacado percussionista ligado às vias eruditas, se une aqui a quatro dos principais nomes da cena free impro portuguesa: Ernesto Rodrigues (viola), Guilherme Rodrigues (violoncelo), Rodrigo Pinheiro (piano) e Hernâni Faustino (baixo acústico). Carneiro esteve no Brasil em algumas oportunidades, sendo a mais recente no ano passado, quando se apresentou com a Orquestra Sinfônica Brasileira (RJ). Essa sua bagagem musical ajuda a fazer com que novos horizontes sonoros se abram nesta gravação realizada em dezembro de 2019 em Algés, onde fica a sede da Orquestra de Câmara Portuguesa, idealizada e comandada por ele. Munido apenas de marimba, Carneiro mostra nas três longas peças (que vão de 13 a 22 minutos) que compõem o álbum também ser um fino improvisador, em um rico diálogo de ideias que faz com que o quinteto exale a precisão de um conjunto de câmara que há muito toca junto. A desafiadora música elaborada pelo quinteto exige uma atenção de quem vai a uma sala de concerto: os detalhes pinçados em cada instrumento, a construção lenta das peças, de rumos nem sempre explícitos, a intromissão ora de uma corda, ora de uma tecla, surgindo e desaparecendo no ar, o silêncio atuante como sexto elemento.  É música para se ouvir com tempo e foco. E se encantar. 






The Darkness Of The Unknown  ***(*)
Miguel Moreira
Carimbo Porta-Jazz 

O guitarrista do Porto Miguel Moreira participou no ano passado de uma residência artística promovida por Porta-Jazz e Guimarães Jazz. Foi nesse contexto, que rendeu uma semana de trabalho ao lado de Rui Rodrigues (percussão), Mário Costa (bateria) e do suíço Lucien Dubuis (clarinete baixo), além do bailarino Valter Fernandes (do qual só sabemos da existência pelo texto de apresentação), que surgiu este álbum. The Darkness Of The Unknown, captado em novembro passado, traz nove temas que apresentam, apesar da coesão, propostas um tanto quanto variadas. Enquanto "How Do You Rehearse The Unknown?" abre o disco de forma mais abstrata, com sons fantasmagóricos indo e vindo, em modo mais climático, "The Monster II" apresenta algo grooveado, com uma pitada fusion no tema desenvolvido pela guitarra. Já o melhor fica com "Future Loops From The Past", peça na qual clarinete baixo e guitarra conseguem travar seus diálogos mais intensos, com ataques e respostas de grande versatilidade. Uma interessante amostra de outras possibilidades que vêm sendo desenvolvidas na cena free impro portuguesa.





At ZDB, Lisboa 2006  ****
Carlos Zíngaro/ Vitor Joaquim
Independente 

Somente agora este encontro de muitos anos entre os dois artistas portugueses é editado. Carlos Zíngaro e Vitor Joaquim são dois veteranos da cena experimental portuguesa e essa associação não poderia ser menos excitante. Zíngaro é um dos pioneiros do free impro em Portugal, tendo iniciado suas aventuras sonoras ao violino ainda no fim dos anos 60, com o grupo Plexus. Joaquim, nome central da cena de Setúbal, é um multi-artista que trabalha com eletrônica, filme, dança, instalações, em projetos de arte visual e sonora de amplo alcance. Neste encontro do duo que aconteceu há 14 anos no espaço ZDB, em Lisboa, temos cerca de 40 minutos de apresentação, divididos em quatro temas, de música livre que teve como condutor um processo no qual Zíngaro ia improvisando com seu violino enquanto Joaquim absorvia eletronicamente os sons com seu laptop, os desconstruía e relançava o resultado no espaço, dialogando com os novos sons que as cordas ia criando. Atmosférica e inebriante, a música gestada leva os ouvintes a uma viagem sem linhas diretas ou melódicas para se apoiar, se perdendo em um labirinto auditivo. O trabalho faz parte da "Live Series +" que Joaquim tem editado a partir de arquivos de apresentações suas nunca antes lançadas.





Recognition  ****(*)
Sara Serpa
Biophilia Records

A vocalista e compositora Sara Serpa, natural de Lisboa e radicada há mais de uma década em Nova York, apresenta este seu novo desafiador projeto, Recognition. Para a empreitada, na qual se propõe a mergulhar na longa e impactante (em múltiplos sentidos) presença de Portugal na África, com seus desdobramentos e reflexos perversos que se estendem até hoje, montou um singular grupo como Zeena Parkins (harpa), David Virelles (piano) e Mark Turner (sax tenor). Partindo de arquivos Super 8 de sua família, especialmente de imagens de Angola na década de 1960, quando o país ainda vivia sob o jugo colonialista português, Serpa compôs um filme mudo, auxiliada pelo diretor Bruno Soares, e depois criou o que seria sua contraparte musical, que é o que podemos ouvir agora. Utilizando palavras e textos de diferentes nomes importantes ligados à guerra colonial, como Amílcar Cabral, símbolo da resistência em Guiné-Bissau e Cabo Verde, e o escritor angolano José Luandino Vieira, Serpa ora recita, ora narra, ora canta, criando as linhas que vão conduzindo o ouvinte pela obra. "The Multi-Racialism Myth", "Control and Oppression" e "Unity and Struggle" são alguns dos temas que compõem o álbum, com os títulos indicando o que a artista quis trazer para a mesa, revolvendo esse sombrio capítulo da história portuguesa.






Maré  *****
Luís Vicente
Cipsela Records 
Este é um registro captado ao vivo originalmente algum tempo atrás. Em seu primeiro disco solo, o genial trompetista Luís Vicente mostra toda a amplitude estética da potente linguagem que tem construído e aprofundado especialmente na última década. Maré se origina de uma apresentação na "Anozero - Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra", em novembro de 2017. O disco foi captado no Mosteiro de Santa Clara a Nova (curioso o par que forma com outro lançamento da Cipsela, de 2015, um solo de Carlos Zíngaro gravado no Mosteiro de Santa Clara a Velha, também em Coimbra). O espaço ganha inegável importância no resultado do registro, com os ecos e reverberações que oferece fazendo com que a música alcance seus contornos e brilhos finais. É como se Vicente travasse um diálogo consigo mesmo, ou melhor, com os rastros que a música que vai sendo criada deixa pelo caminho. São três os temas apresentados, em um total de quase 40 minutos, de uma música que podemos ouvir repetidamente sempre encontrando detalhes novos. "Lage Fria" abre o registro de forma mais letárgica, surgindo aos poucos, aclimatando os ouvidos. "Rampa", na sequência, vem com uma proposta mais melódica, de tom melancólico e nostálgico. Assim chegamos ao núcleo do álbum, "Quebra Mar". Com seus 23 minutos, é onde Vicente apresenta toda a potencialidade de sua encantatória sonoridade, soando profunda, tocante e de inventividade sem amarras; mais do que nunca, as reverberações assumem papel destacado, fazendo com que nossos sentidos se percam, mergulhem em um universo muito particular. E o poema de Fernando Pessoa que acompanha o release nos remete a outras paragens: Tudo que vemos é outra cousa./ A maré vasta, a maré ansiosa/ E o eco de outra maré que está/ Onde é real o mundo que há.
 





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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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