terça-feira, 28 de julho de 2020

28 de julho de 2012: três shows, uma noite






Há exatos oito anos, acontecia em São Paulo, na mesma noite, praticamente ao mesmo tempo, três apresentações imperdíveis da free music...





Por Fabricio Vieira


O ano de 2012 foi um dos mais agitados na seara free jazz/free impro em nossos palcos. Naquele ano, essa música ganhava crescente força na agenda de Sesc e CCSP (Centro Cultural São Paulo), com artistas de diferentes lugares (muitos pela primeira vez) vindo ao Brasil. Em 2012, tocaram no país Matana Roberts, Ken Vandermark, John Zorn, ICP Orchestra, Roger Turner, David Torn/Tim Berne, Sun Ra Arkestra e alguns mais. E no meio disso tudo ocorreu até algo inusitado e inimaginável: Peter Brötzmann, Wadada Leo Smith e John Butcher tocando na mesma noite! Sim, inacreditavelmente houve três shows simultâneos imperdíveis de free music, mas tinha um problema: cada um deles tocou em um lugar diferente da cidade de São Paulo naquela noite, o que obrigou os entusiastas dessa seara musical a fazer uma difícil escolha: o que ver? Era 28 de julho, um sábado. A configuração dos concertos foi essa:

*28 de julho de 2012 - São Paulo*

*No CCSP, às 20h, se apresentaram os britânicos John Butcher (sax) e Eddie Prévost (bateria);
*No Sesc Belenzinho, às 21h, tocaram o saxofonista alemão Peter Brötzmann e os britânicos John Edwards (baixo) e Steve Noble (bateria);
*No Sesc Vila Mariana, também às 21h, se apresentou o trompetista norte-americano Wadada Leo Smith com o Golden Quintet (Susie Ibarra, John Lindberg, Anthony Davis, Pheeroan akLaaf);

Quem conhece São Paulo sabe que seria muito complicado ver o concerto de John Butcher e Eddie Prévost, que começava primeiro, e depois correr para tentar assistir Brötzmann ou Wadada – nada é perto na cidade. Assim, não havia muito o que fazer a não ser escolher um deles para ouvir naquela fria noite de julho de oito anos atrás. 
Olhando a agenda daquele fim de semana de forma mais ampla, existia algumas alternativas para o público. Isso porque se o show de Butcher e Prévost foi único, só aconteceu no dia 28/7, Brötzmann e Wadada tocaram também na sexta, dia 27, e no domingo, 29. Em tese, então, era possível ver Brötzmann ou Wadada na sexta, Butcher no sábado e Brötzmann ou Wadada no domingo, considerando que a pessoa em questão tivesse tempo e dinheiro para ir nos shows três dias seguidos. Mas mesmo quem tinha disponibilidade para isso não escapava de ter de fazer uma escolha dura: Wadada Leo Smith trazia ao país sua nova obra, Ten Freedom Summers; composta por mais de quatro horas de música, foi dividida em três partes, sendo executada cada uma delas em um dia (sexta, sábado e domingo). Ou seja, para apreciar a obra máxima de Wadada em sua totalidade era necessário sacrificar o resto da agenda e reservar sexta, sábado e domingo apenas para isso.
   
O contexto daquela época também deve ser lembrado. Brötzmann tinha vindo ao Brasil apenas uma vez, em 2008, com o Full Blast (voltaria com esse mesmo grupo em 2016 e 2018). Seu retorno era amplamente aguardado. Wadada nunca tinha tocado no país (retornaria em 2014, coliderando um projeto com HPrizm). John Butcher e Eddie Prévost nunca tinham vindo e não voltaram a tocar aqui. Como ninguém sabia qual deles retornaria e quando, deve ter pesado muito nas escolhas daquele fim de semana também a importância que a obra deste ou daquele artista tinha para cada pessoa. Conheço quem optou por ver Brötzmann sexta, sábado e domingo, por exemplo, deixando as outras opções de lado – eu, sob o risco de ser convocado para um plantão no domingo, decidi ver Brötzmann na sexta e Wadada no sábado; no fim, o plantão caiu e vi novamente Brötzmann no domingo. E isso acabou sendo particularmente especial: no domingo, cheguei cedo no Sesc Belenzinho, ainda tinha sol (o show começava às 18h), e encontrei Brötzmann, sozinho, fumando um charuto encostado na grade, olhando as piscinas lá embaixo; sempre receptivo, conversou amigável e atenciosamente, em um desses momentos memoráveis reservados pelo acaso (sobre o concerto daquela sexta-feira, há esta resenha escrita à época)...



A vinda de Brötzmann e Wadada se deu como parte de um festival, o Mostra Sesc de Artes, que ocorreu entre os dias 19 e 29 de julho de 2012 em diferentes unidades do espaço sócio-cultural. Talvez fosse um problema de agenda dos próprios artistas, mas, se não, a curadoria vacilou ao colocar Brötzmann e Wadada tocando no mesmo fim de semana. Afinal, o concerto especial trazido pelo trompetista exigia que o público assistisse às três apresentações para ter acesso à sua totalidade. E quem estava interessado no projeto de Wadada também não ia querer perder os concertos do saxofonista alemão. As apresentações do Ten Freedom Summers realmente foram um evento único: toda a potencialidade do projeto foi levada ao palco do Sesc Vila Mariana, com um grupo de câmara se unindo ao Golden Quintet, além do fino trabalho visual conduzido pelo videoartista Jesse Gilbert. O Ten Freedom Summers excursionou à época, em sintonia com o lançamento do disco, mas é aquilo: quem viu, viu, muito difícil isso voltar para os palcos e inimaginável acontecer por aqui de novo. Quem foi a ao menos algum dos três concertos dele, vivenciou uma experiência estética singular e pôde apertar a mão e trocar algumas palavras com o genial Wadada Leo Smith, que fez questão de, terminada a apresentação, ficar na beira no palco recebendo quem quisesse se aproximar. Sobre o concerto de John Butcher e Eddie Prévost, infelizmente nada posso dizer. Apenas lamentar que aquela tenha sido a única vez que eles estiveram ao país. De qualquer forma, aquele fim de semana de oito anos atrás foi realmente marcante, especialmente se pensarmos que concertos de free jazz estavam apenas começando a não ser algo muito raro na programação artística local.

E você, que apresentação assistiu no dia 28 de julho de 2012?




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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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