sexta-feira, 12 de junho de 2020

Sons nas Redondezas






LANÇAMENTOs  Em destaque, discos de artistas nacionais que exploram diferentes vias improvisativas e jazzísticas. Ouça, divulgue, compre os discos...







Por Fabricio Vieira



Temas Para Tempos de Guerra  ****
Conde Favela Sexteto
Independente

Vindo do ABC paulista, mais precisamente de Mauá, o sexteto Conde Favela está na estrada desde 2009 e agora chega a seu disco de estreia. O grupo, formado por alguns nomes bem ativos na cena paulistana, traz Alex Dias (baixo), Diego Estevam (guitarra), Edson Ikê (trompete), Harlem Nascimento (sax tenor), Mabu Reis (trombone) e Rafael Cab (bateria). O registro feito em dezembro de 2019 no C4 Studio originou as cinco faixas que compõem este Temas Para Tempos de Guerra, nome que não só ressoa a contemporaneidade do trabalho, mas o liga aos combativos anos 60, do free jazz como voz de protesto. O free é um dos elementos que fazem parte da expressividade sonora do sexteto, mas podemos identificar outras vias de interesse do grupo, com linhas pós-bop exercendo importante papel na apresentação das faixas, muitas delas focadas em temas que se desenvolvem sem chegar a adentrar a esfera da improvisação livre  como  "Zaíra", que inicia o disco com um tema contagiante, quase cantarolável. "Cozinhando Galo" também abre com um tema bem marcado, antes de mergulhar em passagens mais free, energy, com sopros e guitarra em potente diálogo (Nascimento está especialmente forte aqui). Em outro tom está a quase balada "Vira-lata Iluminado", com profundo solo de trompete.   





Formigaz Sessions - Vol. 01  ***(*)
Naaxtro
Independente

Com uma formação que atua junto há cerca de uma década, o quinteto Naaxtro lança seu novo registro, Formigaz Sessions. Focado na criação espontânea e coletiva, desenvolve sua sonoridade com perceptíveis elementos de jazz contemporâneo (algo do melhor electric jazz setentista pode ser detectável também), alguma experimentação ligada ao instrumental brasileiro e certa liberdade free jazzística aqui e ali. Formado por Leandro Archela (teclados, sintetizadores), Daniel Gralha (trompete), Cuca Ferreira (sax barítono), Iládio Davanse (baixo elétrico) e Cacá Amaral (bateria), o quinteto registra temas de forte colorido, sendo "Lamento das Rochas - Parte 1" o que traz os melhores resultados do conjunto, com o sax mais furioso ao fundo, a bateria fraturada e a linha do trompete atravessando o espaço (destaque para o belo solo de Gralha). Outra faixa que merece maior atenção é "Atmosfera G4.8901b35 - Parte 1", bastante climática, com um melancólico tema no teclado a se repetir em seus primeiros minutos enquanto o trompete alimenta um ar soturno. O Vol. 01 do título indica que novos capítulos estão por vir.





Gato Tosco  ****(*)
J.-P. Caron / Bruno Trchmnn
Seminal Records

Quando ouvi este novo trabalho de J.-P. Caron e Bruno Trchmnn,  dias atrás, coincidentemente andava escutando peças para cordas do romeno Horatiu Radulescu. Sem muito pensar sobre, uma natural afinidade entre as peças me chamou atenção. Claro que lá (Radulescu) trata-se de obras compostas, e aqui, de improvisação livre. Talvez seja a exploração sônico-espacial, notável em ambos trabalhos, que criou essa ilusória ponte possível (especialmente nos primeiros 18 minutos de "Gato"). Caron e Trchmnn exploram apenas viola e violino amplificados, respectivamente, e pedais. Mas levam o ouvinte a um espaço que parece por vezes tomado por outros instrumentos mais. A forma como as cordas reverberam, com sons ora alongados, que parecem infinitos, ora centrados em repetições de notas que lentamente se transformam, faz com que a experiência de escuta seja hipnótica e, por vezes, mesmo física, com os sons parecendo prontos a atravessar o corpo. Gravado em dezembro de 2018 em Campinas, este registro apenas agora vem a público, deixando, até por sua breve duração (menos de 40 minutos), a vontade de ouvir mais coisas do duo. Além da mais extensa "Gato", onde parecem estar dadas todas as propostas do duo, há uma pequena conclusão, "Tosco".





Ela  ****
Marco Scarassatti
Rata Sorda Rec

Quem conhece o trabalho do pesquisador e professor Marco Scarassatti sempre fica curioso para saber que instrumentos irá explorar/criar quando surge um novo disco seu. Scarassatti, incansável investigador de sons e desenvolvedor de instrumentos, surge neste Ela de forma bastante centrada. A ficha técnica indica que Scarassatti  está sozinho e munido apenas de um instrumento em cada peça. Mas nada é simples em sua música. "Gbo", que abre o disco, traz o artista munido de viola de cocho preparada e búzios (imagens da capa dão ideia do que se trata). A viola de cocho, de origem portuguesa e que se tornou característica da região mato-grossense, tem sido utilizada por Scarassatti em diferentes projetos, tendo ele se tornado um especialista em tirar desse instrumento uma infinidade de possibilidades sonoras. Trabalhando a viola de cocho de forma preparada e com técnicas estendidas, em meio a explorações timbrísticas várias, oferece sonoridades impensáveis quando vemos apenas a descrição da instrumentação do disco. Na outra peça, "Odé", o músico vem com outra instrumentação: pássaro-cocho e aguidavis. Trata-se de uma viola de cocho modificada, uma criação do próprio Scarassatti, com a qual trabalha auxiliado por aguidavis (varetas utilizadas em atabaques). As duas instrumentações até que não mudam tanto à primeira vista, mas os resultados das duas peças são bastante distintos. Lidando com a improvisação livre de uma forma bem particular, Scarassatti tem criado um universo expressivo único.  






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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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