sexta-feira, 29 de maio de 2020

Made In CANADÁ





LANÇAMENTOs  Novos álbuns de músicos vindos do Canadá. Experiências variadas, possibilidades múltiplas. Ouça, divulgue, compre os discos...







Por Fabricio Vieira


Apesar de quem acompanha a free music poder citar um punhado de artistas vindos do Canadá, me parece estranha a sensação de que conhecemos mais as cenas escandinava ou japonesa, por exemplo, do que a canadense. Músicos canadenses são conhecidos desde o início do free jazz, mas devido principalmente àqueles que foram para outros países, como Paul Bley (1932-2016), no caso os EUA, e Kenny Wheeler (1930-2014), na Inglaterra. Alguns se lembrarão também de Michael Snow, multi-artista que trabalha com música, cinema, fotografia e instalação, tendo dirigido o famoso "New York Eye and Ear Control" (64), filme que recebeu trilha sonora de um incrível sexteto que contava com Don Cherry, Albert Ayler e Sunny Murray. Snow é um nome seminal na cena canadense, tendo sido um dos fundadores do CCMC (Canadian Creative Music Collective), grupo pioneiro da free improvisation no país que contava também com os saxofonistas Nobuo Kubota e Bill Smith e que deixou, a partir de 1974, diferentes registros. 
Lina Allemano, Andrew Downing, Nick Fraser, Brodie West
Antes disso, ainda na década de 1960, houve o Artists' Jazz Band (AJB). Formado por artistas ligados ao expressionismo abstrato, músicos não profissionais, o AJB teria apresentado seu pioneiro free jazz em público pela primeira vez em 1962 (há registro discográfico do AJB feito no começo dos anos 70, com a participação de Snow e Kubota). De pioneiros podemos citar ainda o Le Quatour de Jazz Libre du Québec, do baterista Guy Thouin e do saxofonista Jean Préfontaine, que lançou seu disco de estreia em 1969, e o The London Experimental Jazz Quartet, do saxofonista Eric Stach (London aqui se refere a uma cidade de Ontário). Isso sem falar no free noise do Nihilist Spasm Band. Ou seja, o free está presente no Canadá desde os tempos iniciais do gênero e nunca deixou de produzir importantes artistas. Na cena atual, chama atenção o número de destacadas mulheres instrumentistas vindas do país, como as pianistas Kris Davis, Tania Gill e Marilyn Lerner, as saxofonistas Karen Ng e Anna Webber, a trombonista Heather Saumer, a violoncelista Peggy Lee e as trompetistas Lina Allemano e Rebecca Hennessy. Enfim, a cena canadense está aí ativa há décadas, com nomes de peso no cenário da free music contemporânea, e merece ser ouvida com atenção. Abaixo, uma seleção de lançamentos que trazem artistas canadenses, tanto os que ainda vivem no seu país quanto aqueles que partiram para o exterior. Boas audições.




Lift Off  ****(*)
Mark Segger Sextet
18th Note Records


Formado em 2008 pelo baterista Mark Segger para tocar peças suas, este sexteto baseado em Toronto tem feito música de grande potência e inventividade. Junto a Segger nesta empreitada estão Tania Gill (piano), Heather Saumer (trombone), Jim Lewis (trompete), Peter Lutek (sax e clarinete) e Rob Clutton (baixo). As desafiadoras harmonias das faixas exploradas pelo sexteto são uma das marcas fortes da música aqui apresentada (que já eram bem presentes em seu disco de estreia, "The Beginning", de 2011). Lift Off é um trabalho verdadeiramente de conjunto, com a música pensada para o grupo, quer seja em sua estruturação, quer seja nos solos e improvisações coletivas. Isso fica claro tanto em peças mais baladas, como "Cluttertone News", quanto nas mais intensas, a destacar a forte faixa-título, uma das melhores compostas por Segger. 






Counsel of Primaries  ****
Rob Clutton Trio
SnailBongBong Records

O baixista Rob Clutton está na estrada desde a década de 90 e mantém em atividade alguns interessantes projetos, como um duo com o saxofonista Tony Malaby e o quarteto de Cluttertones. Seu mais novo trabalho aparece agora com este trio, no qual é acompanhado pela saxofonista Karen Ng e pelo baterista Nick Fraser. Com nomes bem ativos na cena de Toronto, o trio mostra uma apurada integração, mesmo esta sendo sua estreia em disco. Counsel of Primaries traz 10 composições assinadas por Clutton, que mostram uma música que não se furta de ser melódica, elaborada antes de se abrir a improvisos mais livres. Um bom exemplo disso é a faixa "Festival", que tem o sax em destaque, conduzindo primeiramente um tema quase assobiável, acompanhado pelo baixo, antes de adentar um espaço solista mais aberto. Mas há também material com mais tempero free impro, como a faixa-título, em que os músicos parecem livres para explorar. "Thing One", que dá bastante espaço para Karen Ng mostrar a que veio, é a melhor do conjunto.       






Resist  ****(*)
Gordon Grdina Septet
Irabbagast Records

Gordon Grdina desenvolve uma música muito particular em Vancouver. O artista, que toca guitarra e oud, desenvolve um free impro camerístico com o qual gosta de trabalhar sonoridades da música árabe. Este seu septeto tem uma especial formação, contando com o sax de Jon Irabagon ao lado dos canadenses Peggy Lee (violoncelo), Jesse Zubot (violino), Tommy Babin (baixo), Eyvind Kang (viola) e Kenton Loewen (bateria). Ou seja, é praticamente um quarteto de cordas com sax e bateria trabalhando suas particulares composições.  As cinco faixas do álbum compõem uma suíte, sendo que ter tempo para ouvir o disco todo de uma vez é o cenário ideal. "Resist" abre o disco com seus 23 minutos, em que somos levados por uma viagem de complexas mudanças sonoras, iniciando com as cordas, que se mantêm protagonistas durante quase cinco minutos, quando, após um ataque da guitarra, adentramos um ponto mais free jazzístico, com sax e bateria trazendo nova potência (clima que vai atravessar toda a faixa "Varscona", a mais intensa do álbum), antes de nova virada. Já certa atmosfera oriental marcará presença mais detectável no último tema, "Ever Onward".






Intention  ****
Marilyn Lerner/ Ken Filiano/ Lou Grassi
Not Two Records


A experiente pianista Marilyn Lerner, de Montreal, tem construído uma sólida discografia desde o início dos anos 90, na qual mostra seus múltiplos interesses, indo do free impro ao jazz e passando pela música judaica. Com o trio que montou há cerca de uma década ao lado de Ken Filiano (baixo) e Lou Grassi (bateria) apresenta este novo registro. Intention, editado no fim do ano passado, mantém a envolvente precisão sonora do álbum anterior do trio, "Live at Edgesfest" (2016). São seis temas, gravados em novembro de 2018 no Michiko Studios (NYC). O disco abre com a faixa-título, a mais breve do conjunto, na qual os ouvintes são convidados a adentrar o universo sonoro do trio, já bem lapidado após todos esses anos juntos, que pode trazer momentos mais melódicos entre outros mais ousados, com os músicos podendo recorrer a técnicas expandidas no processo. "Eric's House", com seus 15 minutos, traz uma boa exibição do talento de cada instrumentista, com momentos solistas dedicados a cada um deles.





Bog Standards  ***(*)
See Through 4
All-Set!

O See Through é um grupo comandado pelo baixista Pete Johnston. Criado há alguns anos em Toronto, com artistas locais, tem formações variáveis, de duo a quinteto. Aqui o vemos em formato de quarteto, com Johnston, Jake Oelrichs (bateria), Rebecca Hennessy (trompete) e Karen Ng (sax) – estas, duas instrumentistas envolvidas com diferentes projetos que merecem ser conhecidos. A música apresentada é mais devedora de certa via free jazzística do que da improvisação livre. "The Answer Is Slow" abre o disco com uma atmosfera até algo bop. Na sequência somos encaminhados para um dos pontos fortes do quarteto, o diálogo entre sax e trompete, muito bem representado na faixa "Slim Margins". Já "A Little To The Left" foi feita para os instrumentistas mostrarem um pouco do que podem melhor em momentos solistas.






Inland Empire  ****(*)
Kris Davis/ Fredrik Ljungkvist/ Vagan/ Skarbo
Clean Feed 

A pianista Kris Davis provavelmente seja hoje a mais celebrada artista do Canadá dentro da free music. Nascida em 1980 em Vancouver, Davis já sedimentou seu nome na cena com muitos projetos e parcerias de grande destaque. Neste novo registro, a pianista aparece ao lado dos músicos escandinavos Fredrik Ljungkvist (sax), Ole Morten Vagan (baixo) e Oyvind Skarbo (bateria). O disco recém-editado foi registrado já há algum tempo, em setembro de 2016, na Noruega. Com seis faixas, apresenta uma atmosfera free jazzística um tanto quanto gélida às vezes, com a música começando quase que tímida com a breve faixa-título, mas alcançando logo seu melhor ao surgir o tema "Truffle Pigs and Katmandu Stray Dogs". Nesta peça, com solos justos de sax, Davis tem generoso espaço para mostrar a amplitude de sua arte pianística. Já a mais potente "Fighter" traz o seu melhor solo, com linhas realmente envolventes extraídas do piano.





Fortunes  ****
Ways
Lorna Records

Ways é um duo de Toronto formado por Brodie West (sax alto) e Evan Cartwright (bateria). Para este Fortunes, registrado no Village Studio, em Copenhague, receberam como convidado o pianista dinamarquês Simon Toldam. Fortunes escapa da ideia convencional que costumamos ter ao falar em duo de sax e bateria, pensando logo em energy music  não é este o caso. A música desenvolvida por West e Cartwright traz uma marca de free impro europeu, com o duo explorando sonoridades como a tatear rumos sem ignorar a importância dos silêncios (a faixa "Luck" é exemplar desse processo) e dando atenção à espacialidade. A participação de Toldam não poderia ser mais precisa. Com suas técnicas expandidas, o piano (que por vezes parece preparado, mas isso não é indicado) se integra perfeitamente à proposta do duo. É uma música que gera estranhamento, mas que chama o ouvinte, o leva a percorrer o disco todo sem interrupção. Há temas relativamente breves, com seus dois minutos (como a sequência "Money I, II, III"), que acabam antes de compreendermos totalmente o que aconteceu, para onde estávamos indo. Então, talvez o melhor seja começar ouvindo "Health", com seus 13 minutos: se não for pego aqui, não há motivo para seguir em frente.





My Magic Dreams Have Lost Their Spell  ****
Nick Storring
Orange Milk

Nick Storring é um artista de Toronto que tem no violoncelo seu instrumento principal. Mas ele está aberto a investigações sonoras diversas, como mostra este seu novo álbum, apresentado como uma homenagem à cantora Roberta Flack  apesar de a música não remeter em nada ao trabalho dela, salvo trechos de letras que inspiram os títulos das peças. O disco traz seis composições, tocadas e gravadas em seu home studio entre 2014 e 2018, usando uma variedade de instrumentos acústicos e eletromecânicos, com um muito discreto processamento eletrônico (dentre os instrumentos estão violoncelo acústico e elétrico, baixo, fender rhodes, um Yamaha CP60M Stage Piano, sinos, melodica, percussão e por aí vai). Difícil o trabalho de identificar em cada peça os instrumentos utilizados (e talvez essa não seja a ideia por trás do projeto), mas é interessante saber, por exemplo, que "Tonight There Will Be No Distance Between Us" foi criada primeiramente apenas no violoncelo elétrico, explorado por meio de diversas técnicas. A música experimental apresentada por Storring é bastante climática (vale notar que não se trata de free impro ou free jazz), se desenvolvendo por entre paisagens sonoras e ambientações, ruidagens sutis e uma atmosfera por vezes psicodélica.






Japan Suite  ***(*)
François Carrier/ Masayo Koketsu/ Daisuke Fuwa/ Takashi Itani
NoBusiness Records

Provavelmente François Carrier seja o artista canadense que mais apareceu no FreeForm, FreeJazz. Conheci o trabalho do saxofonista lá para 2012, quando ele enviou alguns álbuns seus. Desde então, boa parte de seus lançamentos foram resenhados aqui. Carrier, até onde sei, ainda mora em Montreal, mas tem excursionado, tocado e gravado com gente de fora sempre que pode, como mostra este novo disco. Fruto de uma excursão pelo Japão em dezembro de 2019, o álbum traz Carrier (sax alto) ao lado dos locais Masayo Koketsu (sax), Takashi Itani (bateria) e do experimentado baixista Daisuke Fuwa (da incrível Shibusashirazu Orchestra). O registro, feito ao vivo no Yamaneko-ken, Saitama, traz seis temas, improvisação livre que se desenvolve sem rompantes, com a música surgindo no seu tempo. Um pouco do melhor alcançado pelo quarteto está na faixa "Kacho-fugetsu", com boa interação grupal e solos (e diálogos) mais ariscos dos saxes. 






Rats and Mice  ****(*)
Lina Allemano's Ohrenschmaus
Lumo Records

Trio formado em 2017 pela trompetista canadense Lina Allemano ao lado do norueguês Dan Peter Sundland (baixo elétrico) e do baterista alemão Michael Griener, o Ohrenschmaus apresenta seu disco de estreia. O álbum traz sete composições de Allemano, que divide seus dias entre Toronto e Berlim, escritas especialmente para o trio. "Year of The Eye", marcada pela batida fraturada da percussão, abre o álbum de forma precisa, com Allemano atacando solos justos, como fará durante todo o álbum, estando sempre presente, mas nunca além do que a música demanda. Essa forte presença, sem ser invasiva, de Allemano marca fortemente o trabalho. "Ostsee", com seu baixo cadenciado e linhas envolventes do trompete, traz alguns dos mais saborosos momentos do disco. "Hooray Norway" fecha o álbum com uma atmosfera sufocante, com o trompete, agora com surdina, trazendo outras propostas. Um trio bastante sólido, potente sem ser propriamente energy music, com muito a dizer.




Glimmer Glammer  ****
Lina Allemano
Lumo Records

Este outro título lançado há pouco por Lina Allemano mostra diversas possibilidades expressivas da trompetista. Registro para trompete solo, Glimmer Glammer é um veículo onde podemos ver a maturidade de sua arte. Discos solistas, especialmente para instrumentos de sopro, exigem do artistas um domínio elevado e profundo  dificilmente um instrumentista, com suas técnicas e ideias, fica mais exposto do que em uma situação desse tipo. Com sólida formação, tendo estudado trompete clássico e jazzístico, Allemano mostra-se segura tanto criando linhas mais melódicas quanto explorando técnicas expandidas. O ouvinte vai conhecendo seu universo por meio de diferentes rumos sonoros. Se a primeira faixa, "Portrait of Sticks (for Nick)", se desenvolve com vagar, com um tema repetitivo por entre o qual ela vai solando sem pressa, à sequência tudo muda: "Clamour" é um labirinto de ruídos alimentado por técnicas muito particulares exploradas por ela. "Shimmer" é quase dolorida em suas reflexivas linhas (clima que retorna no final do disco, com "One Man Down"). No meio do álbum, está a faixa-título, a mais exploratória do conjunto, onde entendemos o "trumpet, mutes & materials" que consta no encarte.







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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