quinta-feira, 30 de abril de 2020

PLAY IT AGAIN... (duos, trios e uma voz)






LANÇAMENTOs  Novos álbuns de diferentes partes do mundo. Experiências variadas, possibilidades múltiplas. Ouça, divulgue, compre os discos...







Por Fabricio Vieira




Amalgam  ****
Ivo Perelman / Matthew Shipp
Mahakala Music

Quando colocamos hoje para tocar "Bendito of Santa Cruz", o primeiro registro em duo realizado por Ivo Perelman e Matthew Shipp no longínquo 1996, vemos o quanto a música feita por um artista pode se modificar. Com a mesma formação (apenas sax tenor e piano) e sob  o mesmo guarda-chuva do free jazz, Perelman e Shipp pensam e vivem a música de outra forma e, consequentemente, nos oferecem mundos sonoros distintos. Lá atrás, havia temas e o cancioneiro popular pairando o trabalho que desenvolviam. Agora, apenas a máxima liberdade, um diálogo construído no momento, a arte da improvisação em sua melhor roupagem. Projeto constante e muito frutífero, o duo Perelman-Shipp tem um punhado de belos discos editados  é necessário parar para contar, se quisermos enumerar os frutos da parceria. Amalgam, nova gravação de estúdio da dupla, dá continuidade a essa discografia que já forma um corpo próprio dentro da discografia de cada um deles. Mantendo a característica de outros registros de estúdio do duo, é dividido em diferentes pequenas peças, em um total de 12 temas, que vão de três a cinco  minutos (bem diferente dos discos ao vivo, que costumam ser desenvolvidos em uma única longa peça contínua). Pode soar repetitivo dizer que a interação entre os dois atinge níveis telepáticos, como só acontece com certas parcerias, e que as duas vozes trabalham de forma incrivelmente conectadas, amalgamadas, marcas que são detectáveis desde ao menos "Callas" (2015), um dos registros mais importantes do duo. Para quem tem acompanhado o trabalho deles, aqui temos mais um capítulo para avaliar seu desenvolvimento e transformação. Para os que ainda não adentraram esse universo, está aí uma boa apresentação.         






An Evening in Houston ****
Patty Waters
Clean Feed

Patty Waters é uma das figuras mais icônicas do free jazz quando se fala em canto. Ela surgiu na década de 1960 em um rompante, lançando dois discos impactantes pelo ESP-Disk em 1966 ("Sings" e "College Tour"), logo colocando seu nome dentre as maiores novidades do gênero então. Com uma proposta inovadora de canto, criou algumas das linhas vocais free jazzísticas que serviriam de referência para essa música no futuro. Mas já na década seguinte acabou por deixar de lado a carreira de cantora, que retomaria esporadicamente a partir da década de 90. Em anos recentes, tem feito apresentações e editado algum material. É empolgante vê-la trazendo um novo registro, por um destacado selo, acompanhada de antigos importantes parceiros. An Evening in Houston, captado em abril de 2018, traz Waters ao lado de Burton Greene (piano), Mario Pavove (baixo) e Barry Altschul (bateria), interpretando temas clássicos do repertório jazzístico ("Nature Boy", "Strange Fruit", "Lover Man"), free ("Lonely Woman") e um tema seu ("Moon, Don't Come Up Tonight"). Patty Waters está com 74 anos e, claro, sua voz não é capaz das proezas que a notabilizaram cinco décadas atrás. Mas ela encontrou uma via interessante para seguir cantando, com maior profundidade e emoção latente, conseguindo dar atraente roupagem a temas já tão gravados. Um disco em certo sentido soturno, de uma beleza noturna e bastante tocante.





Survival Situation  ****
Sabir Mateen/ Patrick Holmes/ Federico Ughi
577 Records

O veterano saxofonista Sabir Mateen se une aqui aos mais jovens Patrick Holmes (clarinete) e Federico Ughi (bateria) para criar uma música de interessantes aberturas sonoras. Mateen toca sax, flauta e clarinete, como sempre o vimos fazer, mas exibe também sua voz e experimenta teclados (farfisa matador). É na primeira das quatro faixas que compõem o relativamente breve álbum (sai apenas em vinil, colorido, em edição limitada) que Mateen explora essas novas possibilidades. "Freedom of Souls", a mais extensa, com seus 14 minutos, traz uma atmosfera afrofuturista, na qual o teclado tem grande relevância climática. A peça abre com um melancólico tema ao clarinete, que logo recebe, mais ao fundo, o acompanhamento de notas alongadas vindas do farfisa, que vão crescendo aos poucos  junto com a percussão, até chegarmos ao clímax lá pelo meio da faixa, com os sons se elevando e a voz de Mateen entrando em cena. Os outros temas são mais normais, digamos assim, com a improvisação livre se desenvolvendo a partir dos dois sopros e da bateria (os teclados voltam muito pontualmente), com bons momentos, como o diálogo de clarinete e sax em "Carifying", seguido do melhor solo de Mateen no álbum, que foi gravado no ano passado em Pisa, Itália, onde o músico tem vivido. A versão digital do disco oferece uma faixa bônus.





Revoada!  ****(*)
Radio Diaspora
Independente

Pouco tempo após o brilhante "Cachaça!", o duo Radio Diaspora já está aí com título novo (afora este, foi editado neste ano ainda "Caos!", com o baixista João Ciriaco, do Otis Trio). Revoada! tem um ponto de apelo extra: aqui estão apenas Romulo Alexis (trompete) e Wagner Ramos (bateria) em ação, após as diferentes parcerias que têm marcado o empolgante trabalho desta dupla. Oitavo título de estúdio, Revoada! mantém a linha exploratória que marca a força estética do Radio Diaspora: a sopro e percussão, são adicionados efeitos e samplers, que ampliam os significados e processos expressivo-imagéticos criados pelos instrumentistas. Tudo isso para desenvolver uma música "enquanto arma, campo de força e núcleo pesado de representações e sentidos da luta contra violências físicas e simbólicas que a população negra enfrenta secularmente". O disco já começa com uma porrada, "MLK", em que a potência do duo está em suas voltagens mais elevadas. Gravado em julho de 2019 no C4 Estúdio (São Paulo), o álbum traz 12 faixas. Dessas, 6 são um tipo de intermezzo, com pouco mais de 1 minuto cada (exceção de "Revoada 4"), sempre potentes, que funcionam como um chamamento ao tema mais extenso que vem em seguida. Vemos esse esquema funcionar perfeitamente logo na transição entre o primeiro tema e o terceiro, "Elza Passos", que começa com um sampler da voz da cantora Rosa Passos. Mais um grande trabalho deste que é um dos projetos mais inventivos e expressivos da cena brasileira.






Crystalline  ***(*)
Lisa Ullén / Johan Arrias / Angharad Davies
Ausculto Fonogram

A pianista sul-coreana radicada na Suécia, Lisa Ullén, começou a trabalhar em trio com o  saxofonista Johan Arrias (um antigo parceiro seu) e a violinista britânica Angharad Davies em 2014, projeto que culminou com um concerto no Cafe Oto (Londres) à época. Depois se encontraram um pouco à frente, em 2017, e desde então passaram a trabalhar a ideia de gravar um disco. A culminação deste projeto vemos agora com o lançamento deste Crystalline. Captado em setembro de 2018, em Estocolmo, o álbum traz seis temas, com as autorias das composições se alternando entre os instrumentistas. O trio funciona de maneira bastante integrada, com o coletivo se sobrepondo aos virtuosismos individuais (é uma música mais dependente da conversa entre eles do que de solos ou brilhos pessoais). "Undercurrent" abre o álbum dando o tom do que virá, uma música feita de detalhes, em que o (quase) silêncio como elemento expressivo tem importância inegável. A potência até sobe um pouco aqui e ali, como em "Rituals", mas nada que altere substancialmente a atmosfera. 






Morph  *****
Whit Dickey
ESP-Disk

O baterista Whit Dickey tem lançado discos com uma frequência maior nos últimos tempos – ele, que gravou pela primeira vez em disco em 1991, lançou até hoje apenas cerca de uma dúzia de álbuns em seu nome.  Após o brilhante "Tao Quartets" (AUM Fidelity, 2019), sai agora Morph, sua primeira gravação pelo ESP-Disk. Álbum duplo, traz Dickey em duo no primeiro CD, ao lado do piano de Matthew Shipp, e em trio no segundo disco, com a adição do trompetista Nate Wooley. Os discos, gravados em março e junho do ano passado, podem ser ouvidos como complementares, parte 1 e 2 de um projeto expandido. Os trabalhos abrem com uma peça, "Blue Threads", de sabor mais jazzístico, swingante até. Mas, na sequência, "Reckoning" (que peça incrível!) apresenta um ar mais abstrato, sombrio, indicando que percorrer o disco poderá trazer diferentes surpresas. Em "Dice", o piano hipnótico de Shipp, em toques ligeiros e pontilhistas, tem seu som abraçado pela percussão detalhista de Dickey, em uma conexão absoluta, que mantém a tensão, sem forçar, elevada até seu minuto final, quando as notas vão rareando até desaparecer. O segundo disco tem a entrada de Wooley para ampliar as possibilidades já inicialmente exploradas por Shipp e Dickey. E em trio, eles mantêm a força força expressiva e inventiva, em temas que podem ser mais contemplativos (como a encantatória "Noir 2") ou mais intensos, como "Pulse Morph". Mais um inspirado disco que comprova a grande fase que Dickey atravessa. O CD está programado para ser lançado no dia 29 de maio.





Purple Dark Opal  ****(*)
Kuzu
Aerophonic Records

O novo registro do trio Kuzu, que reúne o saxofonista Dave Rempis (barítono, tenor e alto), Tashi Dorji (guitarra) e Tyler Damon (bateria), mantém a elevada potência que tem exibido desde seu concerto de estreia, que aconteceu em setembro de 2017. Tendo aparecido em 2018 com um dos melhores discos daquele ano ("Hilljaisuus"), o Kuzu apresenta improvisação livre de altíssima potência e inventividade exploratória. Aqui ouvimos o trio em registro captado ao vivo em outubro de 2018, no Sugar Maple (Milwaukee), apenas uma extensa faixa de 55 minutos na qual os três músicos alternam momentos de improvisação coletiva e destaques individuais. A bateria aceleradíssima de Damon serve de catapulta ideal para os diálogos de complexas linhas de Rempis e Dorji (ouça o que acontece lá pelos 36 minutos), que podem se revelar altamente intensos. Rempis é um dos grandes do sax nesses tempos e merece ser acompanhado com atenção redobrada.







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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