segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Resgatando RASHIED ALI







CRÍTICAs  Dois títulos do grande baterista Rashied Ali, captados nos anos 60 e 70, acabam de ser editados em vinil, iniciando um importante projeto de resgate da obra do artista...







Por Fabricio Vieira


Morto há pouco mais de uma década, Rashied Ali (1935-2009) foi um dos nomes fundamentais da bateria free jazzística. Sua carreira, que começou a ganhar destaque quando passou a tocar com John Coltrane no fim de 1965, foi marcada por atividade ininterrupta até sua morte, deixando pelo caminho parcerias com nomes vitais como Alice Coltrane, Marion Brown, Leroy Jenkins, William Parker, Arthur Rhames, Charles Gayle, Peter Brötzmann e tantos mais. O percussionista também liderou e participou de diferentes grupos e projetos em sua trajetória, a destacar seu “Quintet” (em diferentes versões), o “Phalanx”, com George Adams, nos anos 80, e o “Prima Materia”, na década de 90. Além de uma carreira produtiva como baterista  deixou mais de cem álbuns com sua participação pelo caminho , Rashied abriu na década de 1970 seu loft-jazz club, o Ali’s Alley, que, antes de fechar em 79, foi um dos pontos de fervura do som radical do período. Ele fundou também um selo à época, o Survival Records, para editar sua obra.

Quem acompanha a discografia de Ali terá agora a oportunidade de descobrir gravações inéditas. A Survival Records acaba de (re)lançar dois álbuns, trazendo material nunca antes editado. Em LP duplo, os títulos mostram Ali no período em que foi começando a estruturar sua própria obra, após a morte de Coltrane. O primeiro título (re)editado é o disco mais celebrado de Ali: Duo Exchange. Registrado em 1972 no Watts Studios (NYC), este duo realizado ao lado do saxofonista Frank Lowe (1943-2003) foi publicado no ano seguinte, marcando a estreia do Survival Records. Hoje uma raridade, este vinil original chega a custar mais de US$ 300. Fora de catálogo por muito tempo, Duo Exchange só apareceria em CD em 1999, pelo selo Knit Classics. A versão original do álbum não era muito extensa, contando com duas longas improvisações que somavam menos de 30 minutos. A música é intensa e vibrante, sendo este um dos registros seminais dos duos de sax e bateria, que são um capítulo à parte no universo do free jazz. Esta nova edição de Duo Exchange tem vários atrativos, trazendo muito mais da sessão que aconteceu em 72. O LP que sai agora é duplo. O primeiro vinil traz as duas peças que conhecemos das edições anteriores, “Exchance Part 1/ Part2”, acrescentadas de mais um alternate take de 4 minutos, além de podermos ouvir Rashied Ali dando instruções sobre o que esperava da sessão e conversando com Marzette Watts, engenheiro de som (conhecido também como saxofonista) responsável pela sessão. No segundo disco, temos apenas material inédito. Há, além de conversas de estúdio, fragmentos e takes incompletos, três novas peças completas, com 12, 9 e 7 minutos. Para quem ouve este disco incrível há anos (ou mesmo décadas), é sensacional poder ter acesso às sobras da sessão e mais: os novos temas permitem que ampliemos o prazer que é escutar esse diálogo vital entre dois nomes maiores da free music.


O outro título lançado agora é First Time Out: Live at Slugs. Captada na primavera de 1967, esta gravação marca a primeira formação do Quintet de Ali, que teria diferentes encarnações até sua morte. Rashied havia marcado duas apresentações no Slugs na época final de sua parceria com Coltrane, em uma iniciativa que pontuava o início do desenvolvimento de sua própria obra. 
Para estes dois shows, o percussionista convocou jovens instrumentistas: Dewey Johnson (trompete), Ramon Morris (sax tenor), Stanley Cowell (piano) e Reggie Johnson (baixo), músicos talvez não tão lembrados, mas que fizeram parte da história do free e do jazz: Cowell e Reggie Johnson, por exemplo, ainda vivos, tocaram e gravaram com artistas como Marion Brown, Max Roach, Bobby Hutcherson, Archie Shepp, Kenny Burrell, Charles Tolliver, só para citar alguns. E Dewey Johnson (1939-2018) é uma dessas promessas que acabam tendo sua voz silenciada: tendo gravado com ícones como Coltrane (em “Ascension“) e Paul Bley (“Barrage”) quando ainda tinha 20 e poucos anos, acabaria progressivamente sendo menos visto e ouvido; nos anos 70, circulou pela cena loft, tocando com William Parker e Billy Bang, mas também foi nesta década que acabou ficando sem opções, indo parar nas ruas, vivendo como sem teto (algo que se repetiria na década seguinte). Há ainda algum registro de Johnson nos anos 80, ao lado do baterista Paul Murphy e de Jimmy Lyons, antes dele desaparecer de vez, até surgir a notícia de seu falecimento no ano passado... Voltemos a First Time Out: Live at Slugs. No mesmo esquema que a nova edição de Duo Exchange, o álbum sai em vinil duplo. Aqui estão quatro temas gravados no clube Slugs, todos com mais de 20 minutos e cada um ocupando uma face de um LP. A música ouvida aqui, mesmo criada na efervescência da cena free jazzística de então, não renega traços pós-bop, podendo ser até bastante melódica, como no tema “Ballade”, que está no lado B. Sem mergulhar propriamente na energy music, mais palpável em Duo Exchange, o concerto tem momentos de intensidade maior, como no saboroso solo de trompete de Johnson em “Study for As-Salaam Alikum” (lado C), com seu sopro direto e econômico escorrendo sobre a irresistível percussão multidirecional de Ali. A música ouvida aqui remete a títulos que Ali lançaria nos anos 70 e funciona como um primeiro capítulo do que encontraríamos em álbuns como “New Directions In Modern Music” (73) e “Moon Flight” (76).



Os dois títulos marcam o início de um projeto de relançamento da obra de Rashied Ali, conduzido por sua viúva, Patricia, com foco nos títulos da Survival Records. Ao lado de Patricia estão no projeto o engenheiro Joe Lizzi, responsável pela remasterização, o pesquisador Ben Young e o baterista George Schuller. “This team has exhaustively catalogued Ali’s voluminous recording library and will brig forward further treasures in coming years”, diz o release. Que venham os próximos capítulos!







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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