sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

PLAY IT AGAIN...







LANÇAMENTOs  Novos álbuns de diferentes partes do mundo. Experiências variadas, possibilidades múltiplas. Ouça, divulgue, compre os discos...








Por Fabricio Vieira





Events 1998-1999  *****
The Quintet
PNL Records

No fim da década de 1990, Paal Nilssen-Love era um promissor baterista norueguês de uns 25 anos. Não muito tempo depois, começaria a ser conhecido Europa e mundo afora, rumo a se tornar uma das maiores referências do free contemporâneo. Só por isso, ver o jovem Nilssen-Love em ação, já valeria a pena conhecer este box (com cinco CDs) de um grupo formado por artistas noruegueses de duas diferentes gerações. Mas o que encontramos nessas gravações realizadas em 98 e 99 é música de grande vitalidade e força indiscutível. The Quintet traz ao lado de Nilssen-Love os também noruegueses Carl Magnus Neuman (sax), Ketil Gutvik (guitarra) e os baixistas Eivind Opsvik e Bjornar Andresen (1945-2004). Os veteranos aqui são menos conhecidos fora de sua área e com discretas discografias: Neuman e Andresen são músicos que começaram a tocar em meados dos anos 60 e chegaram até os anos 2000 em atividade. Já Opsvik e Gutvik são da mesma geração de Nilssen-Love, com o guitarrista participando de sua Large Unit. Essa união de forças geracionais faz do The Quintet um grupo com uma sonoridade bastante particular, gestando um free jazz que pode soar melódico quando preciso, enérgico no tempo certo e destilando improvisação coletiva de grande vibração. Os cinco CDs trazem uma apresentação cada um, tendo sido captados em shows entre junho de 98 e outubro de 99 em Oslo, Voss e Bergen (sempre na Noruega: este é realmente um testemunho de uma cena local em determinada época). Apenas o CD 3 havia sido editado em disco anteriormente. Então, trata-se de música inédita, que soa bastante viva. Altamente recomendado.







Spirit in Spirit – Live at Zaal 100  ****
José Lencastre/ Onno Govaert/ Raoul Van der Weide 
FMR Records


O saxofonista português José Lencastre surge com dois novos trabalhos. Em trio, Lencastre uniu forças aqui aos holandeses Raoul Van der Weide (baixo) e Onno Govaert (bateria). A reunião ocorreu em outubro de 2018, no palco do Zaal 100 (Amesterdã), e de lá saíram as seis peças de Spirit in Spirit. Este trio soa completamente diferente do Nau Quartet, o principal projeto de Lencastre (leia sobre abaixo). Aqui sentimos mais uma vibração free impro, com diálogos nascidos espontaneamente, que por vezes parecem uma gig solta, descontraída, mas sem perder a seriedade. Não sei se tocaram juntos neste concerto pela primeira vez, mas há um sabor de encontro fresco. Após uma pulsante abertura com “Illogical Truth”, nos deparamos com uma peça mais densa, “A Call for Healing”, na qual Govaert  imprime certo peso arrastado sobre o qual o sax alto vai desenvolvendo suas ideias de forma espaçada, indo e vindo. Weide, de 70 anos, já fez de tudo um pouco na free music e deve ser interessante para seus pares, gerações mais novas, poderem dividir palco e ideias com ele. “Whispering Clouds” é onde o baixo de Weide brilha mais, sendo um tema especialmente potente.






Live in Moscow  ****(*)
José Lencastre Nau Quartet
Clean Feed

Aqui temos o saxofonista José Lencastre em outro contexto, com seu principal grupo, o Nau Quartet. A seu lado, os também portugueses Rodrigo Pinheiro (piano), Hernani Faustino (baixo) e João Lencastre (bateria), parceiros com quem já gravou dois belos exemplares anteriormente. O álbum traz, como indica o título, um concerto captado em Moscou em 20 de setembro de 2018, no DOM Cultural Center. A apresentação fez parte de uma turnê do quarteto pela Rússia, que também passou por São Petersburgo, Dubna e Yaroslavl. Com quatro temas, o disco abre com “Water Vodka”, marcada por uma linha de piano por sobre a qual o sax vai deslizando, adentrando aos poucos, atingindo ora pontos cortantes que despertam nossos sentidos (como ocorre lá pelos dois minutos,) ora passagens mais líricas, características do grupo. Pinheiro se mostra especialmente inventivo e envolvente neste primeiro tema, sempre preciso. Já “Old Metro” traz os momentos mais tocantes do concerto, com o sax entrando e saindo, vindo cada vez de forma mais intensa, enquanto piano e bateria vão ditando o clima de tensão que domina os espaços – tema inspiradíssimo. O Nau Quartet é um dos conjuntos mais interessantes da atualidade e mostra nesta gravação o quanto pode ser potente ao vivo – está aí um grupo que alguém poderia pensar seriamente em trazer para tocar por aqui. 







Live at Heck  ***
Kenny Millions/ Damon Smith/ Weasel Walter
Muteant Sounds


O saxofonista Kenny Millions (que já assinou durante um tempo com seu nome de batismo, Keshavan Maslak) teve maior visibilidade na cena free nos anos 80 e 90, quando gravou com Paul Bley, Otomo Yoshihide e Sunny Murray. Depois sumiu um pouco do mapa, montou um bar na Flórida, mas nunca parou de tocar – multi-instrumentista, passeia por saxes tenor e alto, clarinete baixo e guitarra. No ano passado, o saxofonista de Detroit andou se apresentando com o baterista Weasel Walter e o baixista Damon Smith. E é desses encontros que vem este registro, realizado no Heck, Brooklyn (NY), em fevereiro de 2018. Aqui vemos energy music, em uma longa sessão de free impro de 47 minutos. Millions, de 72 anos, ainda mostra bastante vitalidade (toca aqui sax alto e clarinete baixo), formando um trio bem intenso com os potentes Walter e Smith. Esta gravação circulou anteriormente em K7, em edição limitada de 100 cópias, pelo selo Unhinged.

   





To Whom Who Buys A Record  ****
Gard Nilssen Acoustic Unity
Odin

É no mínimo curioso que o baterista norueguês Gard Nilssen tenha vindo duas vezes ao Brasil em pouco mais de um ano. Com seu Acoustic Unity, ao lado de Petter Eldh (baixo) e André Roligheten (sax), tocou em outubro no Sesc Jazz; em 2018, fez uma pequena turnê passando por SP, Rio e Brasília. Nilssen é um nome do século XXI, tendo estreado há pouco mais de uma década. Prolífico, tem participado de diferentes projetos de vertentes diversas (big band, jazz, rock, fre impro...), mostrando uma amplitude estilística e criativa, com seu nome já aparecendo em mais de 70 títulos. O Acoustic Unity, que lança agora seu terceiro álbum, é seu principal projeto hoje, com o qual tem mostrado o quanto é um baterista sólido e preciso. Eldh é um baixista que está em seu auge (faz parte de um dos melhores trios contemporâneos, o Punkt.Vrt.Plastik) e funciona em sintonia perfeita com Nilssen. O saxofonista Roligheten, aos 34 anos, é uma das novas faces da cena norueguesa. Ele toca saxes tenor e soprano, além de clarinete baixo, e costuma chamar atenção do público ao tocar dois instrumentos de uma vez, na melhor linha Roland Kirk. Este novo álbum do trio foi registrado em fevereiro de 2019 no Amper Studio, Oslo, e traz 12 novas composições originais. Elementos jazzísticos são bem perceptíveis no desenvolvimento deste álbum, marcado pela oscilação entre temas mais reflexivos (“Broken Beauty” e “Elastic Circle”) e outros mais vigorosos (“Masakrake” e “Cherry Man”).







Fly or Die II: bird dogs of paradise  *****
Jaimie Branch
International Anthem

A trompetista norte-americana Jaimie Branch está em seu auge. Ela não é propriamente uma novata, tendo participado de muitos discos e projetos na última década, mas seu nome explodiu apenas recentemente, quando seu álbum “Fly or Die” (2017) foi lançado e causou grande impacto. Agora Branch retorna com uma segunda parte deste projeto – e a repercussão não tem sido menos positiva. Com um quarteto onde é acompanhada por Lester St. Louis (violoncelo), Jason Ajemian (baixo) e Chad Taylor (bateria, xilofone), Branch aparece também cantando, trazendo a voz para ampliar as possibilidades de sua música. Alguns convidados também aparecem em uma ou outra das nove faixas que compõem o álbum. Após uma abertura climática (“Bird of Paradise”), que funciona como uma introdução mesmo, o ouvinte já é jogado para o melhor momento do disco. “Prayer for Amerikkka pt. 1 &2” é incrivelmente sedutora e impactante, com as cordas (há a adição de Matt Schneider com uma guitarra de 12 cordas) e a percussão ditando uma ritmicidade envolvente, com algo bluesy no ar, que será atravessado pelas linhas cortantes do trompete. Isso antes de a voz de Branch surgir, para nos contar sobre uma imigrante salvadorenha que tentou entrar nos EUA, foi expulsa, violentada e tenta retornar anos depois; ouvimos um solo incrivelmente dolorido do trompete e a voz que grita: “We get a bunch of wide-eyed racists”, rasgando o ar e nossas consciências. Se fôssemos escolher “a faixa do ano”, está ela aqui... Difícil seguir no disco depois de tanta intensidade (interessante que o terceiro tema seja um breve interlúdio de violoncelo, perfeito para a gente respirar). Há depois ainda outros grandes momentos à nossa espera, sim, neste que é um dos grandes lançamentos do ano.







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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