segunda-feira, 11 de novembro de 2019

DAVID S. WARE: mais um capítulo resgatado







CRÍTICAs  O saxofonista David S. Ware tem gravação inédita com seu quarteto, realizada ao vivo em maio de 2008, lançada pelo selo AUM Fidelity...







Por Fabricio Vieira



David S. Ware estaria completando 70 anos de idade neste mês. Mas o saxofonista de New Jersey morreu bem antes desta data, no dia 18 de outubro de 2012, aos 62 anos, depois de enfrentar por longo tempo crônicos problemas renais, que inclusive o haviam levado a fazer um transplante poucos anos antes. David S. Ware é sim um músico conhecido. Mas a grandeza e genialidade de sua arte deveriam colocá-lo em um patamar mais elevado no mundo da música livre e criativa. A beleza e força de sua música ficaram estampadas em cerca de 30 álbuns, com destaque para sua produção na década de 1990, sendo que parte disso está fora de catálogo. 

Seu legado tem sido mantido vivo especialmente pelo trabalho feito pelo selo nova-iorquino AUM Fidelity. Ware tinha um relacionamento já antigo com o selo, iniciado com o disco “Wisdom of Uncertainty” (1997). Depois de sua morte, o AUM Fidelity tem lançado uma série de álbuns inéditos do saxofonista, resgatando gravações (basicamente ao vivo) ainda desconhecidas, dentro de uma coleção chamada “David S. Ware Archive Series – DSW-ARC”. Um novo capítulo neste catálogo surge agora com a edição de Théâtre Garonne, 2008. Este novo álbum (DSW-ARC 05) traz o sax tenor de Ware ao lado de um grupo formado por William Parker (baixo), Joe Morris (guitarra) e Warren Smith (bateria). Chamado de “New Quartet”, este grupo com Parker, Morris e Smith foi montado após o fim do clássico David S. Ware Quartet, que existiu de 1990 a 2007, e que contava com Matthew Shipp (piano), Parker e um baterista (pelas baquetas passaram Marc Edwards, Whit Dickey, Susie Ibarra e Guillermo E. Brown).


O “New Quartet” entrou em estúdio pela primeira vez em 9 de maio de 2008. Ware, Parker, Morris e Smith tinham a missão de apresentar algo novo, que mostrasse aos fãs do clássico Quartet que muita música boa podia ser produzida neste novo contexto. O local escolhido foi o Systems Two Studios, no Brooklyn (NY), e de lá saíram as seis faixas que viraram o álbum “Shakti” (2009). Pouco depois de realizar a gravação, o New Quartet embarcou para a Europa. E foi lá, no dia 24 de maio de 2008, que realizaram a apresentação que agora é editada. Captado no Théâtre Garonne, em Toulouse (França), o disco apresenta seis temas, desenvolvendo composições e ideias que apareceram no álbum “Shakti”. E a atmosfera do grupo remete ao universo deste disco de estúdio, à época do show ainda inédito. Interessante que a sonoridade do período tenha um claro elo com “Renunciation”, um dos últimos registros do quarteto clássico, que trazia um concerto de junho de 2006. Ou seja, o que temos é mais uma continuidade que uma ruptura com o quarteto clássico.
Théâtre Garonne, 2008 é ainda marcado pelo esquema de temas que se abrem a improvisações mais livres, algo bem característico do principal da obra do saxofonista. A música de Ware sempre foi devedora dos tempos clássicos do free jazz, com uma herança jazzística inegável – nos últimos anos de vida, adentraria mais diretamente as vias do free impro, como fica bem marcado em seus álbuns solistas, talvez um reflexo da urgência imposta pela deterioração de sua saúde à época. Seguindo a religiosidade indiana que tanto impactou artistas como Alice Coltrane, devoto de Ganesh, Ware desenvolveu uma obra na qual a música se revela como celebração ritualística, com melodias funcionando como mantras e atingindo, com seus solos, momentos de êxtase devocional.


É interessante ver uma apresentação de uma década atrás sendo resgatada. Quem viu o show lá, ao vivo, e quem ouve a gravação agora tem, sem dúvida, sensações completamente distintas. Isso porquê quando o concerto aconteceu, em 2008, tudo o que foi apresentado no palco era inédito, nunca antes ouvido. Para nós que escutamos o novo álbum agora, os temas apresentados são em sua maioria – “Crossing Samsara” (que ganha uma Part 2), “Namah” e “Reflection” – antigos conhecidos. “Durga” (apesar de ter o mesmo nome da primeira parte da suíte Shakti, que fecha o disco de 2009) é uma novidade. É claro que as versões apresentadas em “Théâtre Garonne, 2008” são expandidas, com solos mais fluidos e arranjos um tanto quanto distintos, mas as peças são, claro, reconhecíveis – impossível não ficar cantarolando depois a melodia executada pelo sax que marca a abertura de “Crossing Samsara” (vale destacar que a Part 2 tem uma genial seção solista, de quase quatro minutos, em que Ware sozinho mostra muito de sua inventividade improvisativa, seguido por solo matador de Morris). A troca de Shipp por Morris em 2008 trouxe uma outra beleza ao som do quarteto, mas, para quem acompanhou o grupo clássico de Ware pelos tantos anos que sobreviveu, a mudança gerou algum estranhamento inevitável. Importante aqui Ware ter criado novas composições, que ajudaram a começar a formar a cara e a voz do novo quarteto.

Uma pena que o New Quartet tenha tido uma vida tão breve, não tendo podido expandir suas investigações ou deixado outros testemunhos do que vinham fazendo. O New Quartet se apresentaria ainda em 11 de julho de 2008 em Roterdã, no que parece ter sido seu último suspiro. Nas liner notes de “Théâtre Garonne, 2008”, Joe Morris escreve: “I remember my experience on stage during this performance. As I played and listened I was aware that I was awed by the unlimited power in the sound and the melodies coming out of David’s horn. David’s playing here transcends his struggles, and like every one of his performances offers us a means to overcome our own”.

David S. Ware é um dos nomes maiores da free music em todos os tempos. E termos esses seus registros desconhecidos resgatados é algo que só engrandece nossa escuta e percepção da música e da arte. Não conhece bem a obra de David S. Ware? Não perca mais tempo...   






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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e a portuguesa Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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