quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ZORN & New Masada: show do ano?







CRÍTICAs O saxofonista John Zorn trouxe seu novo projeto, o New Masada, para quatro apresentações no Brasil. O FreeForm, FreeJazz foi na noite de estreia e conta um pouco do que viu por lá...







Por Fabricio Vieira


(pôster: Carlos Bêla)
Passados sete anos, John Zorn finalmente retornou ao país. Desta vez, para quatro apresentações em um espaço mais adequado à música que veio nos ofertar. O Teatro do Sesc Pompeia (SP), com bom público na noite de terça-feira, quando aconteceu o primeiro dos concertos agendados para o grupo de Zorn no festival Sesc Jazz, foi perfeito para a música do New Masada Quartet ser apreciada em todas suas nuances.
Em 2012, com a formação clássica do Masada – Dave Douglas (trompete), Joey Baron (bateria) e Greg Cohen (baixo) –, Zorn tocou no Cine Joia. Com o público em pé, mais descontraído, não poucos conversando enquanto eles tocavam e tirando fotos e filmando indiscriminadamente (algo considerado pecado maior pelo artista). Naquela ocasião, Zorn se irritou com alguém do público que atingia seguidamente seu rosto com flash/luz infra e chegou a cuspir de cima do palco no cidadão... Desta vez, o clima não poderia ser mais diferente.

Acompanhado de Julian Lage (guitarra elétrica), Kenny Wollesen (bateria) e do peruano Jorge Roeder (baixo acústico), Zorn mostrou-se não só muito à vontade como empolgado e bem-humorado, deixando uma imagem bem distinta da do artista genioso que para muitos muitos é indissociável dele. Com seu fulminante sax alto, Zorn comandou o New Masada de forma cirúrgica, com gestos, olhares e palavras, regendo cada entrada e saída dos músicos (...sole agora, ataque agora, pare, espere, agora só você e ele e assim por diante...), mas deixando a música fluir com vida e vigor, com solos pontuais e, o mais importante, mantendo o quarteto em diálogo preciso e vibrante o tempo todo. Os quatro músicos optaram por formar uma roda no meio do palco, sem ficar virados para nenhuma das partes em que se divide o teatro (quem nunca foi lá não faz ideia do quanto interessante é seu desenho). Em alguns momentos, a leveza que o quarteto emanava fazia com que parecesse que estávamos assistindo um ensaio, um encontro íntimo e descompromissado, desses em que coisas grandes acontecem sem serem previamente acertadas. O fato de o grupo ser novo deve ajudar a manter a empolgação deles, afinal, muito do que está acontecendo ali, na nossa frente, é inédito para eles também. 

Em conversa com Zorn na semana passada, antes de embarcar para o Brasil, ele falou como que esse novo quarteto surgiu. “O Julian Lage tocou durante uma semana no The Stone, no ano passado, e uma noite ele me chamou para participar como convidado do seu trio. Eu levei algumas peças do Masada e, quando tocamos, imediatamente me senti superconfortável e inspirado. Julian e Jorge [Roeder] cresceram ouvindo essa música, então está no DNA musical deles. Nunca me senti tão à vontade em um grupo. Quando escrevi música para o Masada pela primeira vez, em 1993, minha ideia era ter uma banda com guitarra, baixo e bateria – mas a magia do quarteto clássico assumiu o controle. 25 anos depois, com Julian, Jorge e Kenny, isso parece tão verdadeiro e oportuno.
Zorn também antecipou que o New Masada se concentraria, nos shows do Brasil, no “Book One”, com “novos arranjos” adaptados à “nova formação”. “Cada show terá algumas peças novas. E também revisitaremos alguns temas do quarteto clássico”, disse.

(foto: Henry Ho II)

Quem acompanha Zorn conhece a história do Masada. Este é um projeto que começou em 1993, quando buscava um novo rumo em sua trajetória musical. Tateando as possibilidades de diálogo entre suas raízes judaicas e o jazz mais livre iniciou uma série de composições e formou um novo quarteto. A feitura dessas composições seguiu pelos 25 anos seguintes, terminando em 2018 com um total de 613 peças – o mesmo número dos mandamentos (“mitzvoth”) encontrados na Torá –, que formaram o Masada Songbook. Esse conjunto de composições se tornou o núcleo da obra de Zorn, tendo sido gravadas por diferentes músicos e formações várias nesses anos. O Masada Songbook é dividido em três partes: “Book One”, com 205 temas; “The Book of Angels”, com 316 peças; e “The Book Beriah”, com 92. Como Zorn explicou, nos concertos do Brasil o foco está nos temas do “Book One” – apesar de ter tocado também temas do “The Book of Angels”.

O concerto de terça-feira foi bastante concentrado: foram apresentadas sete peças, em um total de 57 minutos de música. Apenas quase uma hora, mas de muita intensidade; na saída do espetáculo, havia no ar uma atmosfera vibrante, de satisfação, de que um especial momento musical havia acontecido na nossa frente. Zorn parecia descontraído e empolgado como nunca, quase iniciando dancinhas em alguns momentos, rindo e falando repetidamente com Lage, que demonstra ser um novo importante parceiro seu. Zorn não chega a conversar com o público, não é para tanto, mas agradeceu muito e dirigiu duas palavras aos presentes, que os aplaudiam de pé, com entusiasmo: “obrigado” e “beijinhos”. Por aí dá para sentir o clima da noite... O quarteto iniciou o concerto sem rodeios, já deixando o público desnorteado com o tema de abertura, com sax e bateria em alta ebulição, com aplausos efusivos explodindo logo na primeira pausa, após seis minutos de música. O quarteto conseguiu manter a vibração elevadíssima durante toda a apresentação, mesmo nos momentos mais climáticos, melódicos até, como na belíssima "Rahtiel". O auge da noite aconteceu passado pouco mais da metade do concerto, quando o sax alto anunciou o início de “Katzatz”. Zorn comandou o quarteto como nunca, fazendo triangulações excitantes, tocando por breves períodos apenas sax e bateria, intercalando, a um gesto seu, para o duo de guitarra e baixo, voltando a sax e bateria, trocando de novo as combinações, sempre em explosivas intervenções. Momento sensacional.

O New Masada não é formado por músicos desconhecidos, mas talvez menos incensados que os membros do Masada “clássico”, até por suas idades: Lage (muito ovacionado) tem apenas 31 anos; Roeder, 39. Só Wollesen é mais rodado, na estrada desde os anos 90. Mas com certeza, após essa passagem pelo país, ganharão novos ouvintes interessados em seus trabalhos. A sonoridade do New Masada é bastante distinta da do quarteto clássico. Além de instrumentistas outros, há a sensível mudança harmônica e timbrística resultante da troca do trompete pela guitarra. Os arranjos levam essa música a soar realmente nova, o que deixa o concerto ainda mais fresco.
O projeto Masada não navega nas águas do free impro. Composições estão no centro dessa música, mesmo que haja espaço para solos enérgicos e certa liberdade improvisativa. Essa música está mais ligada a ecos dos tempos primeiros do free jazz, devedora das ideias iniciais de Ornette Coleman em conversação combinatória com escalas da música judaica, em nome do desenvolvimento de uma radical Jewish music. Há, inclusive, partituras abertas na frente dos músicos. Mas, como mostraram, mesmo com um norte os guiando, sempre podem surpreender, sendo recomendado, a quem puder, ver mais de uma apresentação – com certeza, uma será bem diferente da outra. Hoje e quinta-feira o quarteto volta ao palco do Teatro do Sesc Pompeia. Na sexta-feira, o local é o Sesc Santos. Sem dúvida, o show imperdível do ano.







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)


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