domingo, 20 de outubro de 2019

COIN COIN Chapter Four: MEMPHIS







CRÍTICAs  O tão aguardado Coin Coin Chapter Four: Memphis, de Matana Roberts, finalmente é lançado e chega como candidato forte para encabeçar as listas de melhores discos do ano...







Por Fabricio Vieira


Em maio de 2011, a saxofonista de Chicago Matana Roberts lançou uma das obras seminais da década, aparecendo no topo de muitos Top 10 daquele ano: Coin Coin Chapter One: Gens de Couleur Libres. Já bem conhecida por quem acompanhava a cena free jazzística, especialmente pelo trio Sticks and Stones e por seu quarteto, Matana virou a cena de ponta cabeça com seu ambicioso e genial projeto que nascia com a promessa de alcançar 12 capítulos. Nos anos seguintes vieram Coin Coin Chapter Two: Mississippi Moonchilde (2013) e Coin Coin Chapter Three:  River Run Thee (2015). Depois, um longo silêncio... Mas quem segue o trabalho da artista sabia que nesses anos todos ela vinha tocando esporadicamente em concertos partes dos capítulos quatro, cinco e seis de Coin Coin  ou seja, o projeto se mantinha vivo e em ebulição. E eis que finalmente agora temos mais um episódio de sua saga pronto, com o recém-editado Coin Coin Chapter Four: Memphis.

Photo: M. Tarantelli
Em conversa com o FreeForm, FreeJazz em 2012, a compositora falou sobre sua obra máxima: “O projeto [Coin Coin] começou em 2005, graças a uma bolsa concedida pelo Roulette Intermedium, de Nova York. Eu tenho um grande interesse pela história americana e queria encontrar uma maneira de trazê-la ao meu trabalho (...). Eu gosto de ser uma compositora e também de criar sons conceitualmente. Acredito na liberdade sonora, mas realmente gosto de tocar música que tenha ambas as ideias [composição e improvisação] funcionando juntas o tempo todo”, disse Matana, sintetizando a ideia por trás do projeto.

Coin Coin era o apelido de Marie Thérèse Metoyer (1742-1816), histórica personagem que sempre fez parte das conversas familiares dos Roberts. Marie Thérèse viveu como escrava até seus trinta e poucos anos, tornando-se, depois de conquistar a liberdade, importante figura na Louisiana, se estabelecendo como destacada líder comunitária. Com família vinda da região, Matana sempre teve a figura de Coin Coin como arquétipo de mulher forte na sua casa, povoando as histórias que ouvia enquanto crescia. E por trás de seu projeto Coin Coin está o resgate da memória familiar e da ancestralidade, algo caro à múltipla sonoridade que encontramos na música desta série, passando por elementos de jazz, folk, gospel, blues, spoken word, composição e improvisação, em um complexo e inebriante resultado. Matana tem alterado a cada um dos capítulos de Coin Coin a instrumentação, os artistas convidados envolvidos e as formas exploradas para desenvolver suas ideias. E desta vez não é diferente. 

Ao lado de Matana Roberts (sax alto, clarinete, voz e composição) em Chapter Four: Memphis estão antigos e novos parceiros: Nicolas Caloia (baixo), Ryan Sawyer (bateria, harpa), Hannah Marcus (guitarra, acordeon), Sam Shalabi (guitarra, oud), Steve Swell (trombone) e os convidados em algumas faixas Ryan White (vibrafone), Jessica Moss, Nadia Moss e Thierry Amar (vozes). Esse conjunto pouco usual é utilizado com extrema desenvoltura e inventividade, se adequando e alternando possibilidades de uma peça a outra – mesmo que todas as partes formem um todo e o disco apenas se revele em sua potência máxima ouvido sem interrupções.
Como tem sido a tônica deste projeto, Matana conecta passado e presente, falando de exploração, esperança, medo e júbilo, violência, ódio e segregação: temas que inevitavelmente retornam, o ontem e o hoje tão entrelaçados, sempre tendo por trás disso tudo sua própria posição/condição de mulher afro-americana. Na capa do álbum, está a foto de uma de suas avós, que nasceu e cresceu em Memphis e contou muitas das histórias que serviram de inspiração para ela criar esta obra. Utilizando a voz talvez até mais que o sax, Matana canta, narra, rima, grita e nos leva nessa viagem profunda, da qual não se sai ileso, espiritual e esteticamente. "Jewels of the Sky: Inscription" abre o disco com um tocante solo de sax que nos convida a iniciar essa nova jornada por Coin Coin.


Uma personagem, uma protagonista nos guiará por todo o desenvolvimento de Coin Coin Chapter Four: Memphis. Seu nome é Liddie. Ela é uma garotinha órfã, os pais perseguidos, ele morto pela KKK, ela desaparecida, que nos acompanhará faixa a faixa. Liddie foi criada por Matana a partir das histórias contadas por sua avó, histórias que vêm do fim do século XIX para se embrenhar em nosso mundo atual. Racismo, segregação. Medo e ódio. Ontem e hoje.
Em algumas peças é mais palpável a presença de Liddie, como em "In The Fold", em que o pai manda ela correr ("Run, baby, run/ run like the wind") em um apelo para fugir de seus perseguidores. Em "In The Fold", ouvimos Matana narrar de forma circular e desconcertante, com as palavras indo e vindo e nossos sentidos rodando com sua voz, com a figura de Liddie como que uma sombra que tentamos tocar mas não conseguimos. Atordoante. "I am a child of the wind, even daddy used to say so, we would race and I would always win. And he’d say run baby run, run like the wind, memory is a most unusual thing"... E daí saltamos para um grito que abre de forma explosiva "Raise Yourself Up", arrepiante, com a bateria demolidora por trás e o sopro surgindo com uma melodia contagiante, cantarolável, e a voz que retorna repetidamente mais ao fundo.

Antes disso, em "Trail of the Smiling Sphinx", já tínhamos ouvido o refrão Run, baby, run/ run like the wind, mas ele não soava então tão explícito em sua mensagem. "Trail of the Smiling Sphinx", a faixa mais longa, com quase 10 minutos, soa como uma síntese do disco, com vários de seus elementos surgindo, além de trazer o mais potente solo de sax da obra. O sax está até que bem representado no disco, tendo diferentes momentos de destaque, como em "Fit To Be Tied", que cita a conhecida peça "The St. Louis Blues", de W.C.Handy (1873-1958), e especialmente em "How Bright They Shine", com seu solo sutil e lindamente tocante, de um lirismo dolorido que funciona como uma coda junto a uma atmosfera religiosa, que nos leva ao desfecho da obra.

No dia 17 de novembro, Matana apresenta Chapter Four: Memphis no Roulette, em Nova York. Lá no começo do projeto, quando editou o capítulo 1, Matana Roberts dizia que a ideia era no futuro apresentar todas as partes de Coin Coin juntas, sequencialmente, montando o extenso painel sonoro-imagético criado por ela. Isso ainda deve demorar, mas esperamos ter a oportunidade de ver acontecer. E, mais uma vez, ficamos ansiosos à espera do próximo capítulo de Coin Coin...






Coin Coin Chapter Four: Memphis  *****
Matana Roberts
Constellation



















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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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