domingo, 4 de agosto de 2019

Made in PORTUGAL (I)







LANÇAMENTOs Da sempre viva cena portuguesa, apresentamos alguns títulos editados nos últimos tempos que merecem uma atenciosa escuta...







Por Fabricio Vieira




Volúpias  ****(*)
Gabriel Ferrandini
Clean Feed 
O baterista Gabriel Ferrandini é um dos nomes mais inventivos de sua geração, sendo não apenas uma figura central da cena portuguesa, mas também da free music contemporânea como um  todo. Ferrandini já esteve no Brasil, onde pudemos vê-lo em ação em 2013, em duo com Rodrigo Amado, e em 2014, quando se uniu a músicos locais em diferentes gigs. Parte de alguns dos mais interessantes grupos da atualidade, a destacar o Motion Trio e o Red Trio, Ferrandini tem tocado com artistas do mundo todo e já é bem experimentado apesar de ter apenas 32 anos. Para esta sua estreia como líder, o baterista convocou Hernâni Faustino (baixo) e Pedro Sousa (sax tenor), outros dois instrumentistas notáveis de Lisboa. Volúpias, há pouco editado pelo Clean Feed, estava esperando há algum tempo para vir à luz do dia, tendo sido captado em fevereiro de 2017 em Fonte Santa, Alandroal. O álbum traz nove temas, sete assinados por Ferrandini. A música apresentada é bastante coesa, nota-se logo que é um disco criado como um álbum, não como um agrupamento de peças independentes. A sonoridade, por vezes contemplativa, quase sussurrada (como em "Rua de O Século"), nos conduz quase que como por uma viagem embriagada madrugada adentro por Lisboa (todas as faixas têm em seu título a palavra "rua" ou "travessa"). Os temas breves, entre 1 e 5 minutos, nos conduzem até "Rua da Barroca", a última, com seus mais de 10 minutos e uma voltagem mais elevada, marcada por vivo solo de Sousa e uma crescente intensidade destilada por Ferrandini. Este disco é a culminação de um período de um ano de residência no clube ZBD, o que explica a sensível maturidade do projeto e a intimidade expressiva dos músicos. Com Volúpias, Ferrandini mostra que não é somente um grande percussionista, mas uma mente repleta de vivas ideias. 






Disquiet  ****
Gabriel Ferrandini/ Ilia Belorukov
Clean Feed

Aqui vemos uma outra face do trabalho de Gabriel Ferrandini. Em turnê pela Rússia no final de 2017, o baterista português se uniu ao saxofonista local Ilia Belorukov, encontro que resultou neste conjunto de temas em dueto. Esse clássico formato free jazzístico é explorado de forma intensa, com o sax alto de Belorukov soando em boa parte do tempo com uma urgência palpável. Sua intensidade expressiva tem na fantástica “The Big Passages” seus momentos mais explosivos – após cerca de três minutos introdutórios, o sax vai crescendo em potência, se abrindo em um solo de grande força. "Fragmented Matter" é outro ponto de destaque, com o sax e a bateria estabelecendo talvez seu mais íntimo diálogo. A gravação foi feita em São Petersburgo, nos dias 18 e 19 de dezembro de 2017, onde o saxofonista vive. Belorukov é uma voz contemporânea bastante interessante, mas que, por estar ligado mais à cena de seu país, acaba tendo dificultada a circulação de seus trabalhos por aí. O saxofonista conta com algumas dezenas de títulos em sua discografia, mesmo tendo apenas 31 anos, em colaborações que extrapolam o free impro, passando por noise, eletroacústica e rock. Ter seu nome em um disco editado pelo Clean Feed e ao lado de Ferrandini deve ajudá-lo a levar suas criações a ouvidos que estejam mais distantes.





Yellows  ****
Marialuisa Capurso/ Pedro Santo
Last Pork Records 

O baterista português Pedro Santo (Dead Vortex, Variable Geometry Orchestra) apresenta nesta gravação um curioso dueto com a cantora e artista sonora italiana radicada em Berlim Marialuisa Capurso. A sessão, registrada em novembro de 2017 no Last Pork Studio de Santo (que também é responsável pelo selo de mesmo nome, pela gravação, pela capa do disco... DIY!), traz três temas, que totalizam cerca de 30 minutos de criativa música improvisada. Capurso é uma artista de marca muito particular, que merecia ter mais registros em sua discografia, na qual se destaca o belíssimo "En Respirant" (2016). Em Yellows, a voz de Capurso e a percussão de Santo criam camadas inebriantes, que podem soar ritualísticas (como a partir do meio de "Ecru") ou nos envolver de forma desconcertante, como quando explorações silabares e toques percussivos fraturados nos rodeiam (algo que acontece em "Beige"). Duos menos usuais como este, de voz e percussão, geram sensações auditivas de estimulante estranhamento, algo mais difícil em instrumentações que ouvimos rotineiramente. Yellows  é uma instigante experiência.      






Love Song: Post-Ruins  ****(*)
Luís Lopes
Shhpuma 

Este é o segundo título da série “Love Song”, na qual o guitarrista Luís Lopes apresenta a face contemplativa de seu trabalho solo. Tal projeto é bem distinto de outras investigações solistas de Lopes, nas quais aponta para o noise, à ruidosidade de ar roqueiro e a pedais (como registrado no álbum “Noise Solo At ZBD”, 2013). Aqui vemos o guitarrista português em ação explorando as voltagens acústicas de sua música. Diferentemente do “Love Song” anterior, que apresentava diferentes breves peças, este Post-Ruins traz apenas um extenso tema, de cerca de 37 minutos captados no Teatro Maria Matos (Lisboa) no dia 18 de maio de 2016, no qual Lopes desenvolve uma música climática, por vezes soturna e minimalista, que vai progressivamente tomando os espaços e adentrando nossos ouvidos, sensação que, ao vivo, deve ter sido contagiante. A delicadeza dos acordes nos faz prestar atenção redobrada aos sons que surgem e desaparecem com vagar, quase que se diluindo na atmosfera –como diz Lopes, a ideia era ocupar o espaço como uma escultura, sem temporalidade ou qualquer sentimento de sequência. No Youtube dá para ver Lopes durante a apresentação agora editada, sentado sozinho em uma cadeira no centro do palco, de pernas cruzadas, cabeça baixa, os olhos nas cordas, o amplificador atrás dele. Se é impossível reproduzir a sensação de quem esteve lá, ao vivo, ao menos é possível para a gente ter uma imagem de como esta música quase estática, árida por vezes em seu belo marasmo, foi sendo criada.  





Boa Tarde  ****
Luís Lopes/ Julien Desprez
Shhpuma 

Luís Lopes se une em Boa Tarde ao francês Julien Desprez, em um pouco usual duo de guitarras. O som apresentado, com os instrumentos eletrificados mergulhados e destilando camadas de efeitos, ruídos e texturas, é completamente distinto do que ouvimos no trabalho solo de Lopes acima destacado. São quatro temas, dois extensos (totalizando cerca de meia hora) e dois mais curtos, em que o duo vai de momentos mais climáticos nos minutos iniciais do disco a verdadeiras explosões sonoras (a ruidosidade na segunda parte de "Iris", que pode chegar a ser incômoda a tímpanos mais sensíveis, indica o rumo que dominará o restante do álbum). A mais breve "Adelaide" (cada peça tem o nome de uma mulher), que fecha o lado A do vinil, é uma experiência noise concentrada, dessas que podem desnortear os ouvintes, sendo talvez o pico dos ataques acústicos conduzidos pelo duo. No lado B, "Gracinda" e "Constança" mantêm o tom, mesmo que buscando nos levar a campos de novas ruidosidades. Gravado no Namouche Studios em agosto de 2016, Boa Tarde é uma experiência de intensidade física e acústica, que deve ser especialmente inquietante quando degustada ao vivo.





{ Lithos } ***(*)
Ernesto Rodrigues/ Luís Lopes/ Guilherme Rodrigues/ Parrinha/ Trilla
Creative Sources 

O português Creative Sources é um dos selos mais ativos do free no século XXI e desvendar seu catálogo  significa conhecer uma parte relevante do que vem sendo realizado em Portugal e arredores por esses tempos. Focado na free improvisation, o selo foi criado pelo violinista Ernesto Rodrigues em 1999 e não apenas distribui seus projetos, mas o de outros tantos artistas inventivos da região – e o melhor: os álbuns ainda são editados em formato físico. Este { Lithos } reúne um quinteto de nomes bem conhecidos por aqueles que acompanham a produção portuguesa. Ao lado de Ernesto Rodrigues estão Luís Lopes (guitarra), Guilherme Rodrigues (violoncelo), Bruno Parrinha (clarinete baixo) e o espanhol Vasco Trilla (percussão). O álbum foi gravado em 24 de fevereiro de 2017, no sempre presente Namouche Studios (Lisboa) e traz cinco temas (I, II, III...). A música aqui apresentada representa bem o perfil do selo, com improvisação livre detalhista, com intervenções por vezes pontilhistas que se desenvolvem sem arroubos, sem fúria, em uma tateante exploração de caminhos improvisatórios coletivos. Música para ser ouvida com calma e atenção.   






Jorge Nuno Connection: São Paulo  ****
Nuno/ Alexis/ Vieira-Branco/ Cab
Creative Sources/ Big Papa Records


O guitarrista Jorge Nuno (Signs of the Sillouette, Dead Vortex) dá início a seu projeto “Connection” com este São Paulo. Como indica o título, Nuno gravou com músicos brasileiros, mais precisamente, artistas residentes em São Paulo. Ao lado da guitarra de Nuno estão trompete (Rômulo Alexis), vibrafone (Victor Vieira-Branco) e bateria (Rafael Cab) – todos instrumentistas bem ativos que têm ajudado a cena local a se manter viva e produtiva. Nuno é o artista português que mais passa pelo Brasil, devido a seu trabalho extramusical, em uma companhia aérea, e por isso é especialmente gratificante vê-lo desenvolvendo projetos com músicos daqui, ou seja, suas passagens pelo país têm sido produtivas artisticamente – anteriormente, gravou um instigante duo com o baterista paulistano Marcio Gibson, "Hãl". Sobre a série Connection, diz Nuno: "Is a serie of connections with musicians from several places around the world and the perception of each of them when playing together... The knowledge of the place and the people we meet along the way is the most important of all". Esta conexão com a cena paulistana rendeu cinco temas, em pouco mais de 40 minutos de improvisação livre. Logo na abertura, "Deus-Fim", somos levados por um tema de profunda beleza, em que as intromissões pontuais e espaçadas da guitarra e o trompete tocante de Alexis nos remetem a cenários entorpecentes, espécie de câmera lenta de uma cidade ritmicamente insana como a que vivemos. Esse tom marca também "Tiro-Viola", a mais extensa com seus 16 minutos, apesar de tanto trompete como guitarra estarem em voltagens mais faiscantes (os efeitos criados por Nuno são especialmente impactantes, a destacar quando a música esquenta lá pelos 3 minutos, com cordas e sopro em seus momentos mais furiosos). Por trás disso tudo, o vibrafone de Vieira-Branco pincela a atmosfera com sons por vezes enigmáticos, entrecortados pela bateria detalhista de Cab, que ocupa os espaços sem se sobrepor de forma muscular. As conexões Portugal-Brasil deveriam ser, sem dúvida, muita mais intensas e rotineiras.







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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