domingo, 14 de julho de 2019

Perelman-Shipp: “The Art of the Duet”







CRÍTICAs Ivo Perelman e Matthew Shipp, que preparam o lançamento de novo álbum, trouxeram ao palco do Sesc Pompeia sua encantatória música...







Por Fabricio Vieira


Quando o saxofonista Ivo Perelman e o pianista Matthew Shipp adentraram o palco do Teatro do Sesc Pompeia (SP) na última sexta-feira quem estava presente e conhecia o trabalho deles com certeza foi tomado por grande expectativa. Dois dos mais destacados nomes da cena free desde a década de 1990, Perelman e Shipp engataram uma sólida parceria em anos recentes, que rendeu álbuns realmente brilhantes, como “Callas” e “Corpo”. Ambos já tocaram no Brasil em outras oportunidades, inclusive juntos no quarteto de Ivo, em 2010 e 2013 (esta, a última vez que Perelman tinha tocado no país). Mas foi a primeira vez que trouxeram esse projeto, o duo, para o público brasileiro.

(Photos: Edson Kumasaka)
Quem lá esteve viu o Teatro em sua meia configuração, apenas um lado da plateia, com um telão no fundo onde imagens de quadros de Perelman subiam e se alternavam lentamente, ajudando a criar uma atmosfera imersiva. A apresentação de sexta-feira se estendeu por cerca de uma hora, dividida em dois grandes temas. O duo costuma entrar no palco para trabalhar sem interrupções, gestando uma apresentação direta, desde que o clima e o diálogo permitam isso, claro – tanto que, quando a música foi rareando até sumir, encerrando o primeiro tema, Perelman respirou fundo e falou brevemente com o público, indicando que tinha a expectativa de que a noite se desenvolvesse sem cortes. Enquanto recuperava o foco, Perelman ficou no canto, tomando água, com Shipp iniciando de repente a segunda parte sozinho; por breves minutos pudemos sentir o mágico solar de Shipp, até que o sax voltasse sem muita demora a seu encontro, em um dos momentos mais líricos da apresentação. Nesse ponto de quebra e retomada, veio à mente o que Perelman disse em entrevista ao FreeForm, FreeJazz: a dinâmica entre a música que eles fazem em dueto no palco e em estúdio é bem distinta.

Saindo do concerto, com a apresentação fresca nos ouvidos, fui escutar o novo disco, “Efflorescence”, a ser editado pelo Leo Records nas próximas semanas. Lá encontra-se música para adentrar a noite: afinal, o álbum é composto por 4 CDs, ou seja, algumas horas de sons. Escutar “Efflorescence” após o show deixa clara a diferente dinâmica que envolve os dois atos: nos deparamos com temas bem mais breves e diretos que os criados ao vivo, num total de quase 50 peças espalhadas pelos CDs. Sim, são os mesmos músicos e explorando os mesmos universos sonoros, tendo sempre como arma a improvisação livre. No entanto, se o desenvolvimento dessa música ao vivo e no CD parece (ou é de fato) distinto, podíamos fazer um teste: ouvir as faixas dos discos sem interrupção; o resultado é poder notar uma unidade mais fina entre as duas experiências. Vale neste ponto fazer um outro jogo: colocar para tocar “Bendito of Santa Cruz”, primeiro encontro deles no longínquo 1996 (eu nem havia descoberto o mundo do free nesta época!). Este álbum marca os momentos derradeiros da primeira fase da obra de Perelman, que chamamos de “ciclo brasiliano”, quando ele explorava o universo musical popular brasileiro, partindo daí para improvisar livremente. É curioso que no álbum gravado em 96 o duo toque temas, como “Zé do Vale” e “Cana Fita”, com uma pitada de música popular dando um norte melódico e narrativo aos improvisos, algo impossível de se imaginar agora. E pelo que sei, não fizeram shows à época.

Aqueles que estiveram nos concertos desses dias no Sesc Pompeia viram que a comunicação telepática do duo faz com que a música flua sem arestas, como se seu caminho fosse preestabelecido. Essa é a mágica da free improvisation feita com maestria. A música está longe de ser linear, mas as mudanças climáticas que vemos se desnudar na nossa frente são feitas sem sobressaltos. Houve momentos de maior energy por parte de Perelman, respondidos (ou em resposta, dependendo do momento) com um vigor martelante pelas teclas, uma robustez que Shipp sabe imprimir sem soar agressivo; em outras curvas nesse caminho, nos deparamos com atmosferas climáticas, quase delicadas, onde os ouvidos aguçam a percepção para alcançar os toques mínimos do piano, acompanhados por um sax sussurrante. Em meio a essas ondulações, praticamente não há momentos solistas; as duas vozes atuam em diálogo contínuo, com certas vezes parecendo surgir algum protagonismo de um dos instrumentistas (ao menos nossos ouvidos são levados a acreditar nisso, focando a percepção aqui e ali em um ou outro). Em “Efflorescence”, essas nuances e alterações parecem ser menos profundas, com as faixas como que se centrando em aspectos mais coesos a serem desenvolvidos em menos tempo – daí aquela proposta de ouvir as faixas do disco sem intervalos, gerando uma experiência talvez mais conectada com a performance ao vivo...

Alguns pontos de conexão são interessantes entre o disco a ser lançado e os concertos que tivemos o prazer de assistir. “Efflorescence” é o último registro feito pelo duo em estúdio, em junho de 2018. O passo seguinte após as sessões (foram 9 dias de gravações, editados em dois boxes, sendo o segundo volume programado para sair mais para o fim do ano) foi uma turnê, que passou por diversos países (Alemanha, Bélgica, Israel, Áustria, Holanda, Rússia, Inglaterra), culminando com o show de sexta-feira em São Paulo, sendo a próxima etapa neste processo o lançamento do CD: ou seja, é como se esse capítulo último do duo iniciasse (a gravação) e fechasse (o lançamento) com “Efflorescence”, recheado por shows no meio, concluindo mais uma etapa do trabalho magistral que Perelman e Shipp vêm realizando. O show do dia 12 de julho encerrou a turnê do duo, tendo como efeméride a comemoração dos 30 anos de carreira do saxofonista, iniciada profissionalmente com a edição do disco “Ivo”, em 1989. Esperamos que não fiquemos mais tantos anos sem poder ouvir a música de Perelman ao vivo.






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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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