domingo, 7 de julho de 2019

PERELMAN: A necessidade de retratar um momento presente




ENTREVISTA  Quase seis anos após sua última apresentação no país, Ivo Perelman retorna trazendo seu duo com Matthew Shipp. O saxofonista falou com o FreeForm, FreeJazz sobre o projeto com Shipp, álbuns que gravaram, os shows no país...






Por Fabricio Vieira


O saxofonista Ivo Perelman retorna a São Paulo para duas apresentações em duo com o pianista Matthew Shipp nos próximos dias. Perelman comemora 30 anos de carreira (seu disco de estreia, "Ivo", foi lançado em 1989) e vem com seu atual mais importante projeto, com o qual editou vários discos nos últimos anos. Nas últimas duas vezes que tocou no Brasil, em 2010 e 2013, o saxofonista veio com Shipp, mas em outro contexto, em quarteto. Como duo, esta vinda é inédita no país. Vivendo em Nova York desde a década de 1980, Perelman, nascido em São Paulo, é uma das vozes mais expressivas do tenor em sua geração, contando com 90 álbuns editados. O mais recente de seus registros, que chega ao mercado em algumas semanas pelo selo britânico Leo Records, é exatamente o último título do duo, Efflorescence. Juntos, em discos de sax e piano, Perelman e Shipp editaram nove títulos: "Bendito of Santa Cruz" (97), "The Art of the Duet" (2013), "Callas" (2015), "Complementary Colors" (2015), "Corpo" (2016), "Live in Brussels" (2017), "Saturn" (2017), "Oneness" (2018) e agora Efflorescence. Um pouco dessa genial música será apresentada ao público brasileiro nos dias 11 e 12 de julho, no Teatro do Sesc Pompeia (SP). Além dos shows, Perelman fará uma exposição com quadros seus na Galeria Arte Aplicada entre os dias 13 e 23 de julho. Antes de embarcar para o Brasil, Ivo Perelman teve uma conversa, focada no trabalho do duo que mantém ao lado de Shipp, com o FreeForm, FreeJazz.



Como conheceu o Matthew Shipp lá nos anos 1990 e como se reencontraram mais de uma década depois?

Ivo Perelman: "Eu conheci o Matthew por meio da esposa dele. Ela era garçonete em um restaurante lá na década de 90, no East Village. Era um domingo de manhã e eu estava com amigos falando sobre música na mesa, e ela nos servindo ouviu a conversa e perguntou se eu conhecia o trabalho do marido dela, Matthew Shipp; eu disse que sim, conhecia a música dele, o tinha visto tocando com o Roscoe Mitchell no Knitting Factory (NY), havia gostado muito e estava na verdade pensando nele, na música dele. E ela me passou um contato e acabei marcando com o Matthew diretamente uma gravação, nos encontamos pela primeira vez em um estúdio, que deu origem ao CD 'Bendito of Santa Cruz' (registrado em janeiro de 96 e lançado no ano seguinte pelo Cadence Records). Após este CD, ainda fizemos algumas coisas na época que apareceram em disco (há um trio com William Parker, 'Cama de Terra', e alguns temas que entraram no álbum 'Aquarela do Brasil'). Depois, cada um cuidou de seus trabalhos até que em 2010, em um turnê na Europa organizada pelo baterista espanhol Ramón López, eu conversando com o Joe Morris, perguntei como estava o Matthew e ele recomendou que entrasse em contato com ele e, com esse empurrão do Joe, acabei chamando ele para fazer o The Hour of the Star (2011). E a partir daí foi uma espécie de renascimento muito forte e não parei mais de trabalhar com o Matthew. E você pode perguntar: porque esse reencontro se mostrou tão fértil e não logo de início, porque se mantiveram afastados por tanto tempo? A resposta é: não sei (rs). São assim os caminhos misteriosos da vida. Mas a força deste trabalho inicialmente já se sentiu ... logo no primeiro momento que toquei com ele senti a força, a originalidade dele, mas foi assim que seguiu o caminho da gente."
   

Entre a primeira gravação que fizeram em duo e a segunda, "The Art of the Duet" (setembro de 2012), se passaram mais de 15 anos. O quanto as possibilidades sonoras exploradas em dueto mudaram entre uma sessão e outra? Sentiram na hora de gravar "The Art of the Duet" que estavam desbravando outros campos sonoros?

IP: "As possibilidades sonoras do 'The Art of the Duet'... gravamos antes a sessão do The Hour of the Star, mas o dueto apresenta soluções estéticas muito específicas em relação a quando toco com ele em outros contextos. A diferença disso para o primeiro duo, o Bendito of Santa Cruz, é enorme, é quase como, vamos dizer, um homem adulto não guarda muitas semelhanças com sua infância; digamos que o 'Bendito' é a infância do nosso duo. E mudamos tanto que na minha opinião é irreconhecível. Claro que a energia, a parte espiritual, essas coisas ficam intactas, mas o conteúdo mais pormenorizado, que tipifica o desenvolvimento de cada um de nós, é enorme, o que prova que esta música nunca é estanque, nunca está em um nível de conforto, o que a define é esta necessidade de desenvolver, de criar, de retratar um momento presente."       


Dos 9 discos que você e o Matthew Shipp gravaram em duo, alguma sessão foi mais truncada, menos produtiva? Há sobras de estúdio que poderão vir a ser lançadas?

IP: "Coisas de estúdio não, mas tem muita coisa que a gente fez ao vivo, algumas com gravações muito boas e que a gente ficou bem satisfeito com a performance. Por exemplo, em Israel (onde tocaram em outubro de 2018) e em Dusseldorf, na Alemanha, onde tocamos em uma sala muito bonita, a música fluiu muito bem, o próprio organizador do evento tem um selo e está pensando em lançar o concerto em CD. A gente tem um plano, eu e o Matthew, ainda não realizado, tentamos algumas vezes, mas não conseguimos levar para frente, que é gravar várias sessões e pincelar apenas o que parecer muito especial. Essa era a ideia inicial de Efflorescence, mas quando a gente ouviu os nove dias de gravações resolvemos lançar de uma vez praticamente tudo, sem desmembrar só porque tínhamos um conceito inicial. E agora, pela terceira vez estamos pensando em fazer isto de novo, só que desta vez focados no compromisso de gravar várias vezes, vários dias, e, mesmo 'sangrando', optar apenas por algumas das faixas, as melhores, as mais representativas. Então, novos CDs que surgirem devem ser frutos dessas opções que citei."
      

Uma diferença que noto no disco ao vivo que vocês lançaram, "Live in Brussels", e os registros de estúdio é a duração dos temas. No ao vivo, vemos apenas três longas faixas (fora o bis), entre 20 e 40 minutos. Os discos de estúdio trazem, de um modo geral,  vários temas, muitos inclusive curtos, em torno de 2 minutos. As coisas costumam ser mais centradas e diretas no estúdio?

IP: "São dois tipos de concentração diferente, tocar no estúdio e tocar ao vivo. O fato de o palco resultar em músicas mais longas é uma coisa curiosa. Frequentemente me pergunto isso e converso sobre com o Matthew. Acho que o fato de estar ali rodeado por outras pessoas cria uma certa tensão no ar e a gente não quer interromper a história que desenvolvemos, queremos falar tudo o que precisa do começo ao fim e uma interrupção nesse processo é como se abrisse um diálogo com a plateia, dá essa impressão abstrata... A gente meio que entra no palco preparados para dar o recado inteiro do começo ao fim, ao redor de uma hora, mais ou menos. Às vezes, a música dita um fim forçosamente, aí a gente precisa de uma pausa. Já no estúdio, a gente pode se dedicar a miniaturas, sendo uma espécie de exercício para a gente, em que aquilo que podemos falar por 20, 40 minutos, podermos dizer também de forma sucinta; é um bom desafio, quase que fazer um haikai, em 2 ou 3 minutos, como às vezes resulta no estúdio. O fato de não ter ninguém mais no estúdio, só nós e o engenheiro gravando... a predisposição do palco, que nos leva a querer dizer tudo de uma vez, não existe no estúdio, a música pode até resultar maior, mas se ela quiser ter 2 ou 3 minutos a gente não se esforça para que isso não aconteça."


"Efflorescence", que sai em algumas semanas pelo Leo Records, é um álbum quádruplo que traz o subtítulo "Vol. 1". A segunda parte será editada ainda neste ano? O disco vem daquelas 9 sessões que vocês fizeram em junho de 2018? Tudo gravado lá estará nesses dois volumes?

IP: "Esses dois volume retratam tudo o que foi gravado naquelas duas semanas. Optamos por um número redondo, 8 CDs (divididos em dois volumes), então o primeiro dia de gravação resolvemos eliminar, sentimos que a partir do segundo dia o trem entrou melhor nos trilhos, digamos assim. O segundo volume está programado para sair até o fim do ano."


Não tem medo de que gravando tão seguidamente como tem feito com esse duo – são 7 lançamentos em menos de 5 anos – acabe por desgastar a parceria, se repetir ou cansar o ouvinte com tantos discos no formato? 

IP: "Não, não há medo nenhum, não passa pela cabeça algo como desgastar o duo (rs). Na verdade isso tudo exercita mais as engrenagens pelas quais conversamos. O que tenho com Matthew é um reservatório quase infinito de diálogos. Meu modus operandi é o mesmo do dele, em que buscamos captar o momento presente. Sinto que estamos blindados do risco de esgotar nosso relacionamento musical, seja lá quantos CDs gravarmos... E, pelo contrário, quanto mais gravamos, acho que mais incrível fica, mais flexível, veloz, e espiritualmente gratificante porque quando a gente toca vamos cada vez mais para dentro de nós mesmos. E o público que acompanha a gente é um público que conhece o que há de especial no duo. Tenho tocado com músicos incríveis, mas o tipo de dinâmica que temos juntos é muito raro."    


O duo, não só de sax e piano, é um formato muito explorado no universo do free jazz/free impro. Quais álbuns neste formato considera essenciais?

IP: "O duo é um formato muito especial na música criativa porque possibilita o encontro íntimo, direto, entre dois pensadores musicais. Na minha formação de músico e muitas décadas ouvindo jazz, um que me marcou e acho essencial são os duetos do Rashied Ali com o John Coltrane, o Interstellar Space (1967), que tem um peso histórico muito grande, além de ser muito forte e ter influenciado tantos músicos por décadas."  


Sei que os músicos costumam preferir o último trabalho ou dizer que todos os registros têm  importância igual. Mas queria que apontasse um dentre os álbuns do duo que recomendaria a um ouvinte que ainda não conhece o trabalho de vocês e deseja iniciar a exploração desse universo.

IP: "Por sermos muito focados na transcrição do momento, cada CD é uma história totalmente diferente, como o dia em que despertamos e fomos ao estúdio, é tudo radicalmente diferente. Então é muito difícil dizer qual seria meu filho preferido nessas criações que tenho realizado com o Matthew. Mas posso tecer algumas considerações. Por exemplo, o 'Callas'. Este foi um disco que teve a gestação mais longa, conceitualmente, que todos. A história é conhecida, tive um problema na laringe, mais de seis meses em tratamento, período em que passei a estudar canto e ouvir Maria Callas. O resultado dessa gestação excepcionalmente longa deu ao álbum uma cor muito diferente, inconfundível. Eu e o Matthew, a gente sempre fala do Callas como 'o nosso CD'. Se me desse uma segunda opção, além do Callas, o 'Corpo' é muito especial também. Por outros motivos, saiu de uma forma poética, destilada, composicional, eu estava estudando na época a influência dos intervalos musicais e isso se refletiu em uma gravação mais cerebral, um pouco mais conceitualmente elaborada, e então Corpo seria o segundo disco que, talvez, pudesse ser a melhor introdução ao duo."    

 
 

A quantos países vocês já levaram o duo? Como é poder tocar agora no Brasil com esse projeto?

IP: "O duo já foi a Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, Israel, Itália, Inglaterra e Rússia (fora os  concertos nos EUA, onde ambos moram). Tocar no Brasil agora é muito especial, tocar aí sempre é um motivo que me emociona. A energia no palco é muito específica aí no Brasil, a plateia é muito receptiva, a energia que recebemos de volta no palco é muito intensa e muito propícia ao que acontece lá em cima. O que a gente faz ali, a maior parte recebemos do público e uma pequena porcentagem é entre eu e Matthew, tocando para a gente mesmo, nosso prazer de conversar. Mas a situação que nos rodeia, a energia do público e do país onde a gente está, é muito importante. Então a oportunidade desses dois shows nos dá muita alegria."    







*IVO PERELMAN e MATTHEW SHIPP Duo*





-Serviço:
Quando: 11 (qui) e 12 (sex) de julho, às 21h
Onde: Teatro do Sesc Pompeia (SP)
Quanto: de R$ 9 (comerciário) a R$ 30 (inteira)













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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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