domingo, 2 de junho de 2019

Vandermark: 'Nossa música evolui e muda constantemente'






ENTREVISTA  O saxofonista Ken Vandermark, que desembarca no país para uma série de shows nos próximos dias, conversou com o FreeForm, FreeJazz...








Por Fabricio Vieira


Logo serão duas décadas de parceria entre o saxofonista de Chicago Ken Vandermark e o percussionista norueguês Paal Nilssen-Love. Quem se interessa por free music, impossível não conhecê-los: são dois fundamentais artistas da cena contemporânea, com muitas e muitas dezenas de álbuns e variados projetos imperdíveis. Em duo, criaram discos excepcionais, como "Dual Pleasure" (2002) e "Milwaukee/Chicago Volume" (2010) – a primeira vez que os ouvi em duo foi com a peça "Anno 1240": profundo e imediato impacto. Vandermark já esteve no Brasil, em 2010 e 2012; Nilssen-Love veio pela primeira vez em 2013 e depois passou a nos visitar quase que anualmente. Mas ainda não tínhamos tido a oportunidade de vê-los tocando juntos por aqui. E isso faz toda diferença: não se trata apenas de dois grandes instrumentistas unindo forças; veremos um dos mais explosivos e inventivos duos em atividade, responsáveis por capítulos essenciais do free contemporâneo. Vale destacar que eles tocarão em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Pouso Alegre – e ainda deixaram o dia 10/6 em aberto, à espera de algum convite (ninguém?). Ou seja, os públicos de ao menos quatro cidades poderão apreciar um pouco do melhor do free mundial. Vai ver apenas um show da seara free jazzística neste ano? Então vá neste. Impossível não sair elevado depois dessa experiência...


Um pouco antes de embarcar para o Brasil, onde deve chegar nesta segunda-feira, Ken Vandermark arrumou um espaço na agenda (ele estava em turnê por Holanda e Bélgica antes de chegar aqui) para falar com o FreeForm, FreeJazz...       






Vamos começar falando sobre o seu duo com Paal Nilssen-Love. Quando iniciaram esta parceria? E quantos álbuns o projeto já rendeu?

Ken Vandermark: "Nós começamos a trabalhar como duo em 2002 e temos excursionado regularmente por Europa, Estados Unidos e Japão desde então. Lançamos cerca de dez registros, sendo 'Screen Off', que acaba de sair, o mais recente."


O que iremos ouvir nessas apresentações do duo no Brasil?

KV: "Os próximos passos do grupo. A música evolui e muda constantemente por que Paal e eu estamos continuamente trabalhando com outros músicos e projetos, descobrindo novas estéticas e territórios musicais, e trazemos isso de volta para o duo. De um modo geral, nossa música é baseada em ritmo e intensidade, tudo improvisado."


O duo de sax e bateria é um formato-chave da free music, desde que John Coltrane e Rashied Ali gravaram Interstellar Space, em 1967. Quais álbuns neste formato você considera essenciais?

KV: "Interstellar Space é fundamental. Eu também adoro o álbum de Ed Blackwell/Dewey Redman, Red and Black in Willisau; Evan Parker/Paul Lytton, Two Octobers; Anthony Braxton/Max Roach, Two in One - One in Two; Archie Shepp/Max Roach, The Long March; Jimmy Lyons/Andrew Cyrille, Burnt Offering; Willem Breuker/Han Bennink, The New Acoustic Swing Duo."


Você já tocou no Brasil duas vezes, em 2010 e 2012. O que se recorda daquelas passagens pelo país?

KV: "Ambas experiências foram excelentes. A primeira, com Mark Sanders e Luc Ex, foi minha introdução a São Paulo e à mais vibrante cena musical contemporânea do país. A segunda, quando trouxe meu duo com Christof Kurzmann, me deu a chance de ver mais cidades e ter uma percepção mais ampla da música e do público daí. Estou muito, muito animado por estar voltando e pela oportunidade de apresentar o duo com Paal no Brasil pela primeira vez."


DKV Trio, Territory Band, ALLY Trio, Caffeine, Fire Room, FME, Free Fall, Made to Brake, Marker, 4 Corners, School Days, Vandermark 5, DEK, Sound in Action, Spaceways Incorporated, Resonance Ensemble etc etc... Você esteve em sua trajetória envolvido com muitos diferentes projetos. Quais considera os mais importantes e por qual gostaria de ser lembrado no futuro?

KV: "Eu dou importância a tudo que faço (ao menos para mim) e escolho cuidadosamente como gasto meu tempo e energia criativa em relação à música. Então, estou 100% em tudo com que trabalho e com quem colaboro. O tempo vai decidir pelo o quê serei lembrado, isso está fora das minhas mãos. Todo impacto que eu posso causar é com o que estou envolvido agora – então eu levo tudo muito a sério, já que o tempo é bastante curto."



Sua forma de tocar muda de um projeto para outro? Isso é uma escolha consciente ou as particularidades estéticas de cada projeto conduzem naturalmente sua sonoridade?

KV: "Com certeza, minha forma de tocar sofre mudanças dependendo de com quem estou tocando e isso é parte da alegria de fazer o que faço. Sim, eu tenho um vocabulário e coisas que desenvolvi que são, espero, pessoais, mas também flexíveis e abertas para que eu possa me adaptar a variadas situações e contribuir com coisas diferentes baseadas no que é mais eficaz e essencial musicalmente."  

Uma questão mais técnica: queria que falasse sobre os seus instrumentos...

KV: "Eu toco um sax tenor Selmer Mark VI, um barítono Selmer Balanced Action, um Bb clarinete Buffett R13 e um velho clarinete baixo Leblanc."

O que você acha dos bootlegs? Eles mais prejudicam ou ajudam os artistas?

KV: "Depende de como você está envolvido com isso. Gravações bootleg inevitavelmente vão acontecer. A primeira vez que toquei no Brasil, o público conhecia minha música por causa do YouTube e estava informado e (espero) animado por causa disso. Há frustração quando pessoas lucram com as vendas dessas gravações e os músicos não. De certo modo, essa foi a concepção por trás do novo álbum do duo, Screen Off – nós utilizamos material pirateado e montamos um álbum a partir de colagens [o disco foi montado tendo por base registros do duo do YouTube feitos entre 2008 e 2018], 'tomamos as gravações de volta', vamos dizer assim."


Em sua discografia, encontramos uma série de gravações, "Free Jazz Classics", em que você resgata importantes peças e artistas referenciais deste gênero. O quanto conhecer os artistas pioneiros do free é importante para ouvintes e jovens músicos adentrarem esse universo sonoro?

KV: "Acho que a entrada vem de ouvir essa música ao vivo – foi assim que aconteceu comigo. Para os ouvintes que são curiosos e apaixonados, a busca começa descobrindo a história, os diferentes artistas, como a música chegou aqui e vinda de onde. Mas acredito fortemente que essa música, apesar de ser improvisada e independente, trata-se realmente de música, e falará de sua própria maneira aos ouvintes que estão na sala quando ela acontece."

Photo: Andy Moor

Pode um artista permanecer fiel à sua arte mantendo alguma viabilidade comercial?

KV: "Não acredito que isso seja possível se por viabilidade comercial você quer dizer popularidade e esse tipo de sucesso. Mas se por viabilidade você quer dizer economicamente sustentável, então sim – um artista pode permanecer intransigente, e ambas as conquistas são o que eu busco."

Sei que você é um entusiasta da música brasileira (inclusive dedicou um dos discos do Marker a Elza Soares). Pretende assistir algum show de música brasileira enquanto estiver no país?

KV: "Certamente, tantos quanto for possível!"


Obrigado por falar com o FreeForm, FreeJazz. Gostaria de deixar algumas últimas palavras para nossos leitores?

KV: "Essa oportunidade de voltar ao Brasil, e de tocar com o Paal em seu país pela primeira vez, tem muito significado para mim. Espero que a independência que aplicamos a nossa música e pensamentos ecoe no público para o qual tocarmos, porque quero viver em um mundo que seja aberto, não fechado."






"KEN VANDERMARK / PAAL NILSSEN-LOVE Duo (Brasil Tour)"

Datas:

5/6 - Audio Rebel (RJ)
6/6 - Audio Rebel (participação de Cadu Tenório e Paulinho Bicolor)
7/6 - Sesc Belenzinho (SP)
8/6 - Espaço Coaty (Salvador)
9/6 - Teatro do Fórum (Pouso Alegre/MG)
10/6 - TBA




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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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