sábado, 13 de abril de 2019

Uma conversa com GERRY HEMINGWAY






ENTREVISTA  O percussionista Gerry Hemingway, que toca em diferentes cidades do Brasil neste mês, conversou com o FreeForm, FreeJazz...








Por Fabricio Vieira

Com mais de quatro décadas de vida musical, o percussionista e compositor norte-americano Gerry Hemingway, nascido em 1955 em New Haven, tem uma discografia com dezenas de álbuns e colaborações com muitos destacados nomes da free music, como Marilyn Crispell, Anthony Davis, Cecil Taylor, Ernst Reijseger, Mark Dresser, Michael Moore, John Butcher e, especialmente, Anthony Braxton. Tendo comandado vários projetos em sua longa trajetória, é importante destacar os trabalhos com seu Quartet e Quintet, além do trio BassDrumBone, que mantém em atividade desde o fim dos anos 80 ao lado de Mark Helias e Ray Anderson. Há ainda um outro ponto de relevo, seu trabalho solo, onde explora tanto sua bateria como só partes dela (como o cymbal), além do especial capítulo representado pela sua música eletroacústica – e Hemingway também é um habilidoso vibrafonista. Vivendo na Suíça há uma década, foi lá que conheceu o trombonista local Samuel Blaser, com quem mantém um duo e se apresentará no Brasil pela primeira vez – eles editaram no ano passado o inspirado álbum "Oostum" (NoBusiness Records). Antes de embarcar para o país, onde tem apresentações agendadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, em turnê organizada pelas produtoras Desmonta e Artéria, Hemingway falou com o FreeForm, FreeJazz.




Como sua trajetória como baterista começou? O sr. pode nos falar sobre sua relação com a bateria, a descoberta do instrumento, as primeiras gigs...

Photo: Dragan Tasic
"Comecei a tocar profissionalmente em 1972. E comecei a tocar bateria em 1965. Desde o início, antes mesmo de passar a ganhar a vida como músico, eu tocava explorando o que vinha daquilo que sentia e amava. Lá atrás, eu podia não ter grande conhecimento sobre a técnica do instrumento, mas compreendi como direcionar o que sentia para o que eu podia fazer. Em certos aspectos, isso é algo que não mudou, mas certamente se refinou ao longo desses muitos anos. New Haven em 1972 tinha uma comunidade musical vibrante com a qual eu me conectei, incluindo o pianista Anthony Davis, Wadada Leo Smith, George Lewis e logo depois Mark Helias e Mark Dresser. Meus primeiros shows foram com Anthony Davis, chegamos a  formar um grupo, que era uma espécie de coletivo (todos escrevíamos peças para ele), chamado Advent."


Qual a primeira gravação em que apareceu e quando começou a montar seus grupos e assumir o papel de líder?

"Meu primeiro registro já é uma gravação própria, “Kwambe” (78), na Auricle Records (que também era minha gravadora). Inspirado por músicos que me cercavam à época, particularmente Anthony Davis e Wadada Leo Smith, eu estava interessado em composição, e isso me levou a organizar meus próprios shows e liderar um grupo e esta primeira gravação."

Seu trabalho com o quarteto do Anthony Braxton é um importante capítulo em sua trajetória. Quando encontrou Braxton e como ele influenciou sua música? 

"Quando os músicos da AACM retornaram de Paris no início dos anos 70, Wadada Leo Smith se estabeleceu perto de New Haven, CT, e foi assim que o conheci. Eu conheci Anthony Braxton nesse tempo, ele eventualmente visitava Wadada em New Haven (ele vivia na época em Woodstock, NY, a aproximadamente duas horas de distância). Às vezes havia ensaios do Experimental Ensemble, em que Anthony participava com nossa crescente comunidade. Ele me convidou para o seu quarteto em 1983 e tocamos juntos nesse contexto por onze anos. Sua influência é multifacetada. Não está limitada à música. Ele é um ser humano notável e uma grande inspiração para o esforço criativo de uma vida de artista. O quarteto era uma família e cada um de nós contribuiu muito para o que fez do grupo um marco na progressão do pensamento e das possibilidades musicais."


O sr. tocou com o saxofonista brasileiro Ivo Perelman em diferentes oportunidades. Como foram essas colaborações?

"O que eu mais admiro no Ivo é sua sede por experimentação e inovação. Lembro-me de uma sessão de gravação em que ele apareceu com um saxofone sem chaves, controlado apenas por meio da palheta e da embocadura. Eu adoro sua coragem para explorar o desconhecido. Ainda há várias gravações (com ele) que, até onde sei, não foram lançadas, mas as que estão disponíveis mostram uma grande variedade de ousadias musicais."


O sr. é tanto improvisador quanto compositor. Quando compõe, alcança coisas que não consegue quando improvisa?

Photo: Gunnar Holmberg

"Estes termos, improvisador e compositor, não são, na minha opinião, separáveis, mas parte um do outro. Quando estou improvisando, há um aspecto das decisões que tomo que vem das minhas habilidades acumuladas como compositor. Como compositor, muitas vezes dependo do meu pensamento intuitivo e faço escolhas que se assemelham ao processo de improvisação. Estou interessado em ambos da mesma forma e também na integração da estrutura formal e do conteúdo com a improvisação. Eu não acho que realmente importa qual metodologia alguém emprega para criar música, o que importa é atingir um resultado que consiga realizar com sucesso a música que se tenta criar."


Na sua obra, encontramos também  trabalhos eletroacústicos. Como surgiu seu interesse nessa seara?

"Desde que eu tinha dez anos me encantei e me envolvi com a música eletroacústica, ou talvez pudéssemos dizer 'música que usa uma variedade de técnicas que dependem da eletricidade para alterar as propriedades do som'. Isto desempenhou um papel importante em meus projetos de composição, talvez mais substancialmente em meu trabalho solo, onde pode servir como uma extensão orquestral da minha paleta sonoro-expressiva. Estou muito interessado em criar ilusões entre o som (emitido) e a acústica e também nas opções de espacialização."

Este é um caminho para a evolução do jazz como música criativa?

"Bem, eu não acho que a música eletrônica seja mais criativa do que qualquer outra forma de fazer música. Há também certamente uma grande quantidade de péssima música eletrônica. As ferramentas disponíveis hoje em dia tornam o acesso à música eletrônica tão imediato que muitos não entendem esse processo como se tivessem que aprender um instrumento acústico. Com o computador como uma ferramenta central, há também uma espécie de desfoque na nossa percepção do que o computador faz por nós diariamente, esperamos que o computador tome decisões... O jazz, de qualquer forma, é um complexo de muitas vias nos dias atuais. Sua evolução e os meios eletrônicos fazem parte dessa discussão."

Quais suas referências e influências na música eletrônica?

"Na maior parte do tempo, continuo fazendo descobertas nas primeiras escolas concretas, Mimaroglu, Schaeffer, Maderna, Parmegiani. Também tenho um querido amigo que me influenciou muito, Earl Howard, que acredito estar fazendo algo verdadeiramente inovador – ele tem realizado um árduo trabalho de se aprofundar nas sérias possibilidades que uma máquina pode oferecer –, sua ferramenta principal é o Kurzweil. E uma gravação recente que me agradou muito é 'Soft Channel', do Giant Claw."


Vamos falar sobre seu duo com Samuel Blaser, com quem tocará no Brasil. Quando esta parceria teve início?

"Pouco depois de eu me mudar para a Suíça, em 2009, acho que no começo de 2010. Ele estava na época trabalhando com o Paul Motian (1931-2011) e o Consort in Time, e essa era uma cadeira que eu muitas vezes ocupava quando o Paul não podia fazer uma turnê naquele período. Samuel é um músico renomado e aberto a muitas formas de pensamento musical. Quando o conheci, ele ainda estava fazendo a transição de seu antigo treinamento (clássico e jazz), à procura de um caminho próprio. Cada vez mais ele foi ficando aberto à improvisação, e isso em particular nos levou à nossa dupla, que começou há uns seis ou sete anos."



Esta é a primeira vez que tocará no Brasil. Quais suas expectativas para a turnê?

"Fui sondado para ir ao Brasil em diferentes ocasiões, com outros projetos, uma vez com o Ivo Perelman, mas nenhuma dessas tentativas se concretizou. Então demorou muito, mas finalmente terei a oportunidade de tocar e colocar o pé na imensa e profunda cultura do Brasil. Eu não tenho expectativas em particular, apenas curiosidade."


Photo: Nuno Martins
Dada sua longa experiência na cena da música criativa, como compara os dias atuais com o que rolava há 30, 35 anos?

"Está mais diversificado, as mulheres estão mais presentes, o que é algo bom. Eu tenho sentido onde toco que as pessoas estão reconhecendo o valor de se experimentar a improvisação. Uma espécie de antídoto para o mundo virtual, talvez. Economicamente e cotidianamente existem desafios significativos para muitos de nós, os recursos destinados à cultura diminuíram, o que significa que as oportunidades para as pessoas ouvirem essa música são limitadas. A internet preenche uma lacuna, mas não coloca comida na mesa dos artistas. Então, como artista, nossos recursos criativos estão frequentemente envolvidos em como sobreviver e, de alguma forma, progredir."


O que vem agora para Gerry Hemingway? Discos, novos projetos...

"Eu vou retomar o projeto "Songwriting". Será um pouco diferente do meu primeiro passeio nessa seara, em 2000 (“Songs”, editado pelo Between the Lines), desta vez eu vou cantar. Tenho trabalhado no desenvolvimento das minhas habilidades vocais já há algum tempo e feito estudos sobre os compositores que admiro, ocasionalmente fazendo minhas versões para canções que gosto, a fim de aprofundar o que busco liricamente, vocalmente e com a maneira que vou compor e produzir."


Muito obrigado pela entrevista.
"Obrigado pelo interesse."






*GERRY HEMINGWAY / SAMUEL BLASER Duo*


Quando: 18/4 (qui), às 20h
Onde: Audio Rebel (Rio)
Quanto: R$ 20

Quando: 20/4 (sab), às 21h
Onde: Clube do Choro (Brasília)
Quanto: R$ 40

Quando: 22/4 (seg), às 20h
Onde: Instituto Ling (Porto Alegre)
Quanto: R$ 50

Quando: 24/4 (qua), às 20h30
Onde: Sesc Pinheiros (SP)
Quanto: R$ 25 (inteira)








--------
*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como EntreLivros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

Os mais lidos...