quinta-feira, 4 de abril de 2019

MUJERES IMPROVISANDO






LANÇAMENTOS  Projeto reúne instrumentistas e cantoras argentinas em álbum que bem apresenta o que as mulheres estão fazendo na cena improvisada do país...









Por Fabricio Vieira


Em dezembro de 2017, a baixista francesa Joelle Léandre divulgou uma impactante carta em que criticava o machismo reinante no mundo do jazz, na entrega do prêmio Les Victoires Du Jazz. O gesto se amplifica se pensarmos que mulheres sempre estiveram presentes no universo jazzístico, ao menos desde a década de 1920 – ou seja, um século depois, ainda é necessário uma artista do peso de Léandre ter de bradar contra a marginalização da voz jazzística feminina. Se olharmos especificamente a seara do free jazz, a história se repete: pioneiras como Carla Bley, Alice Coltrane (1937-2007), Barbara Donald (1942-2013) e Irène Schweizer atuavam já nos anos 60, mas parece que somente no século XXI vemos um número maior de mulheres assumindo protagonismo na cena da música improvisada, sendo impossível pensar nela hoje sem citar Matana Roberts, Mary Halvorson, Ingrid Laubrock, Satoko Fujii, Susana Santos Silva, Kaja Draksler – apenas para lembrar alguns exemplos fundamentais da atualidade.
No meio desse caminho, houve um capítulo de especial relevância nos anos 1970, quando foi criado um pioneiro grupo de free improvisation formado apenas por mulheres, o Feminist Improvising Group (FIG). Reunindo nomes como Schweizer, Lindsay Cooper e Maggie Nicols, o FIG deixou poucos testemunhos, apenas um K7 e registros de apresentações ao vivo, tendo se desdobrado na década seguinte no European Women’s Improvising Group (EWIG), que contaria com a participação de Léandre. Ecos do FIG/EWIG vemos agora vindo da Argentina, país que com sua expressiva cena free/jazzística tem revelado importantes mulheres instrumentistas e improvisadoras. De lá vem um novo importante projeto coletivo, que editou seu primeiro álbum no simbólico dia 8 de março.
Comandado e produzido pela saxofonista Camila Nebbia, este La jaula se ha vuelto pájaro y se ha volado – Mujeres Improvisando apresenta 12 peças, a maioria captada em janeiro deste ano, frutos do trabalho de diferentes improvisadoras argentinas (o poético título foi extraído de um poema de Alejandra Pizarnik). Há uma multiplicidade de propostas, com cada peça conduzida por um grupo/artista, sendo que boa parte disso está embrenhado pelas vias do free impro/free jazz (onde estão os nomes que melhor conhecemos) e outra parte adentrando diferentes searas experimentais – estas, melhor representadas por trabalhos solistas, como os das artistas Barbara Togander, Carola Zelaschi e a cantora Luciana Boffo.



La jaula se ha vuelto pájaro y se ha volado inicia de forma certeira com “Luminiscencia”, faixa do trio SGN, formado pela pianista Paula Shocron, a violoncelista Vio Garcia e Camila Nebbia. Esta é uma peça de improvisação livre, infelizmente curta, que bem exibe a maturidade estética e expressiva das instrumentistas – Shocron é uma das mais importantes pianistas contemporâneas da free music e merece uma exposição internacional maior.
Outro nome obrigatório da Argentina, a saxofonista Ada Rave apresenta “House in the Tall Grass” com o trio Hupata. Vivendo na Holanda há alguns anos, Rave registrou sua colaboração por lá (a única vinda de fora da Argentina), ao lado da pianista polonesa Marta Warelis e da percussionista Yung-Tuan Ku, de Taiwan. Rave é uma sax-tenorista expressivamente sólida que tem desenvolvido na Europa interessantes parcerias, ampliando o alcance de seu trabalho. No sax, além de Nebbia e Rave, marca presença no projeto Ingrid Feniger. Especialmente tocante é sua lírica “Unum”, infelizmente muito breve (2 minutos), deixando vontade de ouvi-la mais – aliás, sentimos falta de não haver mais registros em seu nome; para quem não conhece Feniger, imperdível ouvir “Maleza”, gravado por seu quarteto em 2013 e disponível no Bandcamp.
Merece destaque também “Sin Rastro”, do duo “Resplandecencias”, formado por Fabiana Galante (piano) e Juliana Moreno (flauta). Esse tema é especialmente forte, com Galante utilizando técnicas expandidas para criar climas sombrios, enquanto a flauta se mostra rascante, quase agressiva. “Que te traigan” apresenta mais um duo vibrante, onde vemos em ação Rocio Gimenez Lopes (piano) e Luciana Bass (guitarra), que saem de uma abertura ruidosa para a exploração de linhas contemplativas, por vezes quase melódicas. Ainda no campo dos duos há “Arullo en el viento”, conduzida por Florencia Otero (voz) e a pianista colombiana radicada em Buenos Aires Tatiana Castro Mejía. Vozes são importantes no projeto, estando presentes em cinco temas, sendo dois deles (“El sueño de un pájaro” I e II) executados pelo Ensamble Vocal, grupo formado por um quinteto de cantoras. Sendo a maioria das peças representadas por solos, duos e trios, há espaço para um agrupamento maior, o quinteto “El devenir del rio”, do qual participam Camila Nebbia (sax), Vio Garcia (celo), Pía Hernandez (piano), Catu Hardoy (voz) e Diana Arias (baixo). O grupo apresenta a imponente “Kintsugi”, inquietante peça em que voz e piano criam climas contrastantes, atravessados pelo sax, em sete minutos de música muito bem construída.



Neste amplo espectro sonoro da música livre feita hoje por mulheres na Argentina, sentimos falta da violoncelista Cecilia Quinteros, uma voz importantíssima na atual cena latino-americana da música improvisada que, por algum motivo (agenda?), ficou de fora do projeto... Mas é importante frisar que La jaula se ha vuelto pájaro y se ha volado já nasce como um desses registros fundamentais que fotogravam um dado momento criativo e que ficam (com certeza ficará) como testemunho de um tempo. Álbum obrigatório tanto para quem já conhece como para aqueles que ainda não foram apresentados à cena argentina.



Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y se ha volado
y mi corazón está loco
porque aúlla a la muerte
y sonrié detrás del viento
a mis delirios


(Alejandra Pizarnik – “El Despertar”)









La jaula se ha vuelto pájaro y se ha volado
Mujeres Improvisando
Independente/ TVL REC



















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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como EntreLivros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)


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