quinta-feira, 14 de março de 2019

Redescobrindo... ANATOLY VAPIROV





GARIMPO  Saxofonista que surgiu para o mundo via Leo Records no começo dos anos 80, Anatoly Vapirov continua na ativa...







Por Fabricio Vieira


O free jazz começou a florescer na então União Soviética na década de 1970. Músicos que vinham adentrando o universo jazzístico desde meados da década anterior, como Vladimir Tarasov e Vyacheslav Ganelin – que formariam o mítico e pioneiro GTCh ou Ganelin Trio –, estariam na base do desenvolvimento desta música no país comunista. Na primeira onda do new jazz soviético estava também o saxofonista Anatoly Vapirov. Como muitos de seus companheiros de geração, Vapirov (nascido em 1947, em Berdiansk, Ucrânia) foi, primeiramente, estudante de música clássica. No ano de 1971 se graduou como clarinetista no Conservatório de Leningrado, onde seguiu seus estudos para, cinco anos depois, receber o título de Mestre naquele que se tornaria seu instrumento principal, o saxofone. No mesmo conservatório atuou como professor de jazz e música clássica, entre 76 e 81. Paralelamente à vida acadêmica, Vapirov foi se envolvendo com diferentes projetos musicais underground, num casamento cada vez mais intenso com o avant-garde. 

O saxofonista montou o “Vapirov Jazz Quartet” em 76, período em que gravou seus dois primeiros trabalhos pelo selo oficial soviético, o Melodia. Nessa primeira etapa, destaca-se “Mysteria”, registrado em 1977 e editado em 1980. Nesse período, a música de Vapirov (ao menos o pouco que chegou até nós) carregava elementos fusion, em meio a um sopro que já mirava o universo free, como bem podemos ver em “Mysteria”. Outra curiosidade desse álbum é a participação de um coro, que remete a certo espiritualismo eslavo, algo marcante em certas obras futuras. Nessa etapa inicial, seu primeiro grande parceiro seria o pianista Sergey Kuryokhin (1954-1996). A seu lado, Vapirov registraria seus primeiros trabalhos que chegariam ao Ocidente. “Sentence To Silence” e “Invocations”, que traziam os dois músicos, foram publicados pelo selo Leo Records em 83 e 84, apresentando o nome de Vapirov a um novo público. A parceria com o Leo Records viria em um momento bastante particular em sua vida: em 1981, Vapirov foi preso – atenção ao título de seu primeiro álbum editado pelo Leo: Sentence To Silence. O mundo estava sob a sombra da guerra fria e palavras como “repressão” e “censura” estavam no ar... Nas poucas entrevistas que encontramos de Vapirov, não fica claro o motivo exato de sua prisão, mas no AllMusic fala-se na acusação de private enterprise... A condenação foi de dois anos de encarceramento e, um tempo após recuperar sua liberdade, ele decidiu, ainda em meados dos anos 80, que o melhor a fazer era imigrar para a Bulgária, onde vive até hoje.

Vapirov, um ucraniano nascido cidadão soviético, se tornaria símbolo do new jazz na Bulgária. Por lá criaria seu selo discográfico, o AVA Records, pelo qual tem lançado desde os anos 90 a maior parte de sua produção. Também ajudaria a criar o “Varna Summer Internacional Jazz Festival”, tornando-se seu diretor artístico entre 1992 e 2005. Vapirov está na ativa até hoje, mais de quatro décadas de história musical, e tem algumas dezenas de títulos em sua discografia. Mas, se nunca parou de criar, o isolamento de Vapirov na Bulgária fez com que seu nome ficasse meio à sombra. O fato de registrar sua música basicamente pelo seu selo independente, em edições limitadas e de distribuição restrita (praticamente não há nada seu oferecido nem em Spotify, nem Amazon, Bandcamp ou outros meios de divulgação global), sem dúvida prejudica a exposição dessa obra. 
Lá nos anos 1980, Leo Feigin já o chamava de “lobo solitário” e essa parece ser mesmo uma marca sua. Importante frisar que a música de Vapirov é esteticamente bastante ampla. Compositor, arranjador, improvisador, Vapirov, de 71 anos, explora elementos do universo jazzístico, do free impro, algo do folclore eslavo, alcançando o erudito contemporâneo (destaque nesta seara ao tocante “Slavonic Requiem”, de 2007). Com algumas dezenas de discos em seu currículo – apenas o catálogo reunido no AVA conta com quase 50 títulos editados –, é difícil para o ouvinte iniciante em sua música se guiar a princípio. E, em meio a muita coisa de grande relevância artística, há algumas obras de menor interesse, que podem dar uma impressão inicial errada de seu trabalho – dois exemplos desses são “Long Road to Home” e “Sopraniada”, nos quais o músico parte de honestos duos de sax e bateria, mas, sabe-se lá com qual intenção, adiciona em estúdio duvidosos efeitos climáticos de teclados e arranjos de cordas que comprometem o resultado final. Mas vamos nos atentar à parte valiosa de sua obra, que merece atenção dos interessados na música livre e criativa. Destacamos alguns álbuns, de diferentes épocas, que bem apresentam a obra de Anatoly Vapirov. 
   




*5 álbuns para conhecer ANATOLY VAPIROV*




Invocations (1984)
Leo Records

Neste álbum, podemos apreciar três longas peças de Anatoly Vapirov, que funcionam como movimentos que formam uma única composição, mesmo tendo sido realizadas em tempos distintos: “Invocation of Spirit”, “Invocation of Fire” e “Invocation of Water”. A primeira composição, que forma o lado A do vinil, foi captada em outubro de 83; o lado B traz os outros dois registros, feitos antes, no fim de 81. Ao lado de Vapirov estão Sergey Kuryokhin (piano preparado, percussão), Vladimir Volkov (baixo) e Alexander Alexandrov (fagote). Há também a participação da cantora Valentina Ponomareva em “Invocation of Spirit”, fundamental para o resultado obtido por esse tema desconcertante, que leva o ouvinte a um universo improvisatório de estranhas sensações. Gravação mais conhecida de Vapirov, recebeu versão em CD pelo AVA anos depois, além de aparecer na coletânea “Forgotten Ritual” (SoLyd Records).




Macbeth (1986)
Leo Records
Esta obra começou a ser escrita quando Anatoly Vapirov estava na prisão. O disco apresenta uma extensa peça, de cerca de 40 minutos, repartida metade em cada lado do vinil original (em versão em CD, aparece como peça única). Aqui Vapirov utiliza uma agrupação bastante particular: ao lado de seu sax tenor estão percussão (tímpano solo) e uma orquestra de câmara. A música tem no sax seu elemento condutor e solista principal, com cordas e percussão conduzindo as principais linhas. Por vezes dramática, por vezes soturna, a música é inquietante em seu lirismo bastante singular – Vapirov está em grande momento solista aqui. O álbum foi gravado em Leningrado, em 1985, ainda antes de o músico partir para a Bulgária.  





NESQ - New European Saxophone Quartet (1997)
AVA/Objet-a

Grupo ativo na década de 1990, alinhado à estética dos grandes quartetos de saxofone (WSQ, Rova), o New European Saxophone Quartet reunia Anatoly Vapirov (saxes soprano e tenor), o italiano Gianni Gebbia (sopranino, alto, soprano) e os lituanos Petras Vysniauskas (alto, soprano) e Vitas Labutis (barítono, alto e soprano). Explorando o amplo universo harmônico oferecido pela grande variedade de saxofones envolvidos no projeto, indo dos extremos agudos do sopranino aos graves profundos do barítono, o NESQ infelizmente teve menos repercussão que muitos de seus pares, apesar de trazer uma música de inquietantes explorações sonoras. Este álbum foi captado ao vivo em agosto de 1997, no Jazz Festival Mulhouse (França) e traz seis temas, sendo uma boa síntese das propostas do grupo. 





AV Quartet featuring Tomasz Stanko (2003)
AVA

Sob o nome Anatoly Vapirov Quartet, o saxofonista reuniu antigos parceiros seus – Vladimir Volkov (baixo), Vladimir Tarasov (bateria) e Antony Donchev (piano) – para este concerto realizado em maio de 2003 no Barbican X-Bloc Festival, em Londres. A eles se juntou como convidado o trompetista polonês Tomasz Stanko (1942-2018). Nos mais de 70 minutos de música apresentados, temos a oportunidade de apreciar fino free jazz conduzido por instrumentistas de ampla experiência e maturidade artística. Stanko se integra bem ao quarteto, cujos integrantes tocavam juntos há tempos. Um grupo sólido que poderia ter passado por qualquer grande festival de jazz/free.





No/Net (2015)
AVA

Este é mais um capítulo assinado pelo Vapirov Project, rubrica que estampa ao menos quatro álbuns do músico. O registro foi captado ao vivo no “Varna Summer Jazz Festival” de 2014 e traz apenas uma peça contínua, com cerca de 52 minutos. Vapirov está armado de sax tenor e soprano, atuando junto a um octeto, que conta com nomes como Vladimir Tarasov, o trompetista alemão Matthias Schriefl e a cantora búlgara Yldiz Ibrahimova – com quem o saxofonista gravou em duo “Hard Way To Freedom”, lá no começo dos anos 90. A composição de Vapirov executada pelo grupo traz em seu desenvolvimento trechos de canções do folclore armênio, estando aberta a improvisações mais ariscas, especialmente dos sopros, em uma empolgante peça amparada em linhas jazzísticas contemporâneas. Uma interessante amostra do trabalho de Vapirov em tempos recentes.







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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como EntreLivros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)


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