quarta-feira, 27 de março de 2019

INTERCONEXÕES SONORAS






LANÇAMENTOS  Em destaque, encontros entre músicos brasileiros e estrangeiros, com propostas que têm trazido interessantes registros ao universo da free music. Ouça, divulgue, compre os discos.








Por Fabricio Vieira




Multiverse  ****(*)
Yedo Gibson/ Gonçalo Almeida/ Vasco Furtado
Multikulti Project

O saxofonista paulistano Yedo Gibson está fora do país há uns 15 anos, com temporadas em Londres, Holanda e agora Portugal. Tendo já tocado e gravado com muitos músicos estrangeiros, se une aqui aos portugueses Gonçalo Almeida (baixo) e Vasco Furtado (bateria) para uma intensa sessão de impro livre. Gibson, um multi-instrumentista de grande inventividade, toca aqui apenas sax soprano. Gravado no SMUP, Parede (Portugal), o álbum traz quatro intensas faixas, a começar por “Chanty”, em que o baixo abre os trabalhos em densas linhas extraídas com o arco, enquanto o sax vai surgindo ao fundo, crescendo, como que convocando o público para a apresentação – em sopro contínuo e circular, Gibson mostra sua apurada técnica, mantendo o processo em ebulição por todos dez minutos da peça. Um intenso e inebriante início. “Quick Angles”, na sequência, é mais direta, com o sólido dedilhado de Gonçalo atravessado pelos solos do sax. “Slow Tachyon” mostra outras possibilidades do trio, soando até melódica em seus minutos iniciais, como que nos preparando para a contemplativa “Verdade ou Consequência”, que fecha o álbum em um tom bem distinto de sua abertura, mostrando a versatilidade criativa do trio – que, esperamos, não tenha sido apenas um encontro único entre amigos.  







The Out Off Session  ****
Alvin Curran/ Alípio C. Neto/ Schiaffini/ Armaroli
Dodicilune

Alípio C. Neto, saxofonista pernambucano, saiu do país há muitos anos, parando primeiro em Portugal (onde lançou discos pelos selos locais Clean Feed e Creative Sources) e depois se estabelecendo na Itália. Se o importante trabalho de Alípio é pouco conhecido por aqui, na Europa tem um merecido espaço maior. Este recente registro traz o saxofonista reunido a nomes de peso como o compositor e pianista norte-americano Alvin Curran (um dos fundadores do icônico Musica Elettronica Viva) e o trombonista italiano Giancarlo Schiaffini. A eles se junta o vibrafonista Sergio Armaroli para apresentar 78 minutos de música filmados em novembro de 2017, no Teatro Out Off (Milão) – este DVD faz par com um CD (“The Biella Sessions”) editado pelo mesmo grupo em 2017. Combinando elementos acústicos e eletrônicos, o grupo apresenta uma música que reflete as diferentes bagagens dos artistas, do universo free jazzístico às variantes da improvisação livre – ao quarteto central se juntam ainda Marcello Testa (baixo) e Nicola Stranieri (bateria). O fato de ser um DVD é bastante positivo: a apreciação da detalhística música ganha muito com a possibilidade de podermos ver os instrumentistas em ação.  






Cabeça de Cidade  ***(*)
Julien Desprez/ Bernardo Pacheco/ Nassif/ Vieira-Branco
Fábrica de Sonhos

O guitarrista francês Julien Desprez esteve no Brasil em dezembro de 2018, onde passou por São Paulo, Salvador e outros locais. O músico, que tem ganhado mais destaque nos últimos anos, com passagens em grandes grupos como a Fire! Orchestra e a White Desert Orchestra, de Eve Risser, dividiu os palcos com diferentes músicos brasileiros e deixou esta sessão registrada. Cabeça de Cidade mostra Desprez ao lado dos brasileiros Bernardo Pacheco, Thiago Nassif e Victor Vieira-Branco, em um curioso quarteto com três guitarras e um vibrafone. O material apresentado reúne 11 breves faixas para serem ouvidas sequencialmente (ou em qualquer ordem, mas juntas), compondo uma teia de ruídos controlados. O título facilmente pode levar o ouvinte a pensar em uma trilha sonora para a cidade, suas ruidosidades e vaivém incessante, mas é importante não cair na tentação de resumir o trabalho a tal função imagética ou ilustrativa do cotidiano urbano. O vibrafone se revela uma peça vital, conduzindo as linhas atravessadas pelas guitarras, ora em sintonia, ora por vias contrastantes, em um interessante jogo de traços sonoros que moldam um diálogo por vezes áspero, mas sempre coerente. Chama atenção a brevidade do registro, de 18 minutos, pois nossos sentidos poderiam continuar seguindo essas trilhas por muito mais tempo.







Psychogeography, An Improvisational Derive ****(*)
Otomo Yoshihide/ Marco Scarassatti/ Hartmann/ Gianfratti
Not Two Records

O mito japonês Otomo Yoshihide realizou sua primeira turnê latino-americana em 2017 e tocou em diferentes contextos no Brasil, com parcerias e locais variados. Um dos encontros com músicos acabou virando este álbum. Ao lado de Yoshihide (guitarra, turntables), nomes experimentados do país, a ver: Antonio Panda Gianfratti (percussão), Marco Scarassatti (viola de choco, instrumentos “self-made”) e Paulo Hartmann (guitarra, gambelão, efeitos). Seis temas saíram do encontro, gravado no Red Bull Studios, durante o Improfest, em São Paulo. E aqui podemos ver improvisação coletiva de elevado nível, com cordas e percussão estando na base dos temas apresentados, em um universo que atravessa timbres inusitados, técnicas expandidas, rumos inusuais onde as quatro vozes podem soar múltiplas, parecendo por vezes um grupo maior. A primeira faixa mostra um tom de batalha colaborativa, onde todos atacam por todos os lados, mas em prol de um resultado coletivo maior, elevando a temperatura em pouco tempo (algo que veremos em destaque novamente na faixa de encerramento). Já o segundo tema traz algum respiro, com os instrumentos sendo tratados de forma mais detalhista, permitindo que o ouvinte aprecie nuances e variações mais delicadas –características que reencontraremos no quarto tema. Merece destaque o fato de o trabalho ser editado pelo fundamental selo polaco Not Two Records, o que permitirá que mais gente mundo afora tenha acesso a essa inventiva música.
  





New Brazilian Funk  ****(*)
Paal Nilssen-Love/ Zenícola/ Bicolor/ Dinucci/ Gjerstad
PNL

Paal Nilssen-Love é hoje o músico estrangeiro da free music mais ligado à cena brasileira. Vindo regularmente ao país nos últimos anos, o percussionista norueguês tem se aproximado de artistas locais e tocado projetos com eles. Este New Brazilian Funk reuniu Nilssen-Love, o também norueguês saxofonista Frode Gjerstad e os brasileiros Kiko Dinucci (guitarra), Felipe Zenícola (baixo elétrico) e Paulinho Bicolor (cuíca). Não sei se o nome do grupo é uma brincadeira de Nilssen-Love e seus parceiros ou se ele é um apreciador e quis homenagear o gênero carioca ou achou que “funk” melhor representa certa brasilidade hoje do que falar em “samba” ou “bossa nova”, mas sonoramente o que temos aqui é inventiva e ruidosa improvisação livre. Sim, há o que críticos internacionais podem chamar de “brasilidade” em algumas passagens – Eyal Hareuveni, do “Free Jazz Collective”, por exemplo, falou em momentos de wild samba dances. Captado ao vivo no Roskilde Festival (Dinamarca), em julho de 2018, New Brazilian Funk traz sete temas, que começam com a furiosa “Biggles and the Gun-Runners”, com baixo e sax em alta ebulição sem rodeios; a entrada da cuíca causa interessante estranhamento, que atinge seu melhor lá pelos sete minutos, com Bicolor travando excitante duelo com Gjerstad. Cá e lá, Nilssen-Love demonstra que tem ouvido (na verdade, sempre o fez) bastante música brasileira, como fica bem marcado no início de “Five Dollars and a Jugo f Rum”. Dinucci, que fez sua história em outras vias, tem se integrado bem à cena free e Zenícola está especialmente inspirado, com seu baixo pulsante dando corpo robusto ao conjunto. Há realmente algo de novo aqui e é bom saber que o projeto segue – tocam em junho no Ljubljana Jazz Festival. (Ps: há exemplares deste CD disponíveis no Big Papa Records, na Galeria Nova Barão/SP.)







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como EntreLivros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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