quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

ROSA PARKS: a nova obra de Wadada Leo Smith






CRÍTICAs  Em novo trabalho, programado para ser lançado em fevereiro, Wadada Leo Smith nos oferece mais um intenso capítulo de sua genial obra...










Por Fabricio Vieira


Wadada Leo Smith completou cinco décadas de criação musical. Foi ainda no fim dos anos 1960, sob a bandeira da AACM, que o então apenas Leo Smith começou sua trajetória, participando de seus primeiros registros ao lado dos parceiros Anthony Braxton, Muhal Richard Abrams e Maurice McIntyre. Pouco depois, em dezembro de 1971, grava seu primeiro álbum solo, "Creative Music - 1", dando início a um percurso de obras vitais da free music, que nunca perdeu seu ímpeto, mais ainda: algumas de suas criações de maior impacto inventivo datam do século XXI. Essa trajetória criativa mantém-se em ebulição, nos levando a seu mais recente projeto, Rosa Parks: Pure Love. An Oratorio of Seven Songs, que será lançado oficialmente no dia 15 de fevereiro pela TUM Records. O FreeForm, FreeJazz já deu uma escutada no material inédito e contamos um pouco do que essa nova grande obra de Simth reserva aos ouvintes...

O compositor e trompetista Wadada Leo Smith, 77 anos, tem trabalhado em seu novo projeto há algum tempo, intensamente desde que concluiu seus dois discos anteriores, "Solo: Reflections and Meditations on Monk" e "Najwa", ambos editados em 2017, mas registrados em 2014/15. Dedicado à memória de Rosa Parks (1913-2005), que se tornou símbolo da resistência e da luta pelos direitos civis com seu gesto de recusa, de não levantar do lugar em que estava sentada em um ônibus para cedê-lo a um homem branco, em Montgomery (Alabama), em 1955, ato que a levou a ser presa e abriu um período de protestos antirracistas iniciados com um boicote de 381 dias às empresas de ônibus. O novo trabalho de Smith tem uma ligação direta com sua obra-prima "Ten Freedom Summers" (2012). Naquele elogiado álbum, em que Smith prestava tributo e rememorava momentos marcantes das lutas pelos direitos civis e dos afro-americanos, havia uma peça dedicada a ela, "Rosa Parks and the Montgomery Bus Boycott, 381 days", que fazia alusão aos desdobramentos do gesto de Parks. Agora são 70 minutos de música, uma longa peça centrada em sete "Songs" entremeadas por oito temas (destaque para as quatro "Vision Dance"), totalizando 15 partes sequenciais que formam uma obra única que Smith chamou de oratório, provável referência ao gênero musical que marcou o período barroco, espécie de ópera sacra que teve entre seus principais cultivadores Johann Sebastian Bach e Georg Friedrich Haendel. 

Rosa Parks
"The oratorio is composed for the iconic Rosa Parks, a person of exceptional courage and wisdom, who made the right move of resistance at the right time. Her action generated a movement worldwide for liberty and justice for human beings. Rosa Parks: Pure Love employs the song form as composition to convey a philosophical and spiritual narrative about my vision of Rosa Parks," diz Smith, em texto divulgado pela gravadora. "The oratorio is concerned with ideas and my meditation on the Civil Rights movement, and through lighting, photographs and video images, reconnecting history in the present."

Smith começou a compor a obra em agosto de 2016 e uma primeira versão do trabalho foi apresentada em setembro daquele ano no Festival of New Trumpet Music (NY). Depois disso, o músico voltou à obra para atingir seu formato final, que teve sua estreia oficial em outubro de 2018, durante o Angel City Jazz Festival. A gravação do disco foi realizada em três sessões, nos dias 25 de setembro de 2016 e 24/25 de maio de 2017. Rosa Parks: Pure Love extrapola, até mais do que Ten Freedom Summers, as delimitações do universo free jazzístico e não só pelo seu vital processo composicional, mas também pelas opções de agrupamento e uso da instrumentação – aqui, o melhor seria falar mesmo em música contemporânea, apenas. Há quatro núcleos sonoros que sustentam a obra, formados por vozes, cordas, trompetes e bateria/eletrônicos. As vozes são uma novidade importante nesta composição; são três, representadas pelas cantoras Karen Parks, Min Xiao-Fen e Carmina Escobar. Depois vem o RedKoral Quartet, formado por Shalini Vijayan e Mona Thian (violinos), Andrew McIntosh (viola) e Ashley Walters (violoncelo). Daí é a vez do Blue Trumpet Quartet, composto por Ted Daniel, Hugh Ragin, Graham Haynes e o próprio Wadada. E complementam o grupo Pheeroan akLaff (percussão) e Hardedge (eletrônicos). É com esta inusitada formação que Smith desenvolve sua nova composição, trabalhando cada parte com uma organização distinta. As letras cantadas foram escritas por ele, sendo que em uma delas (Song 5: No Fear) há também palavras de Rosa Parks.        

O álbum começa com uma introdução, "Prelude: Journey", apenas instrumental, aclimatando os ouvintes ao universo que será apresentado, com trompetes e percussão abrindo os caminhos, seguidos pela entrada das cordas e o mergulho na segunda parte, "Vision Dance 1: Resistance and Unity". O quarteto de cordas irá concentrar o desenvolvimento sonoro da próxima faixa, "Rosa Parks: Mercy, Music for Double Quartet", marcada por tom liricamente sombrio. Apenas após esses três movimentos chegamos a "Song 1:  The Montgomery Bus Boycott – 381 days of fire", em que as vozes vão entrar em cena. Remetendo a um lied, formato musical ligado ao romantismo do século XIX, temos aqui apenas a voz de Min Xiao-Fen (ela também toca pipa) acompanhada pelas cordas – tocante e meditativo. A peça é seguida por "Song 2: The First Light, Gold", no mesmo clima, mas agora cantada por Carmina Escobar.  As sete "Songs" mantêm tal estrutura e vão se revezando (e revezando as cantoras) entre os outros movimentos, entremeando faixas com voz e instrumentais – "Song 3: Change It!" é a mais forte, contando com a adição da bateria às cordas e à intensa voz de Karen Parks. As letras, se falam de luta e resistência, destacam a importância da tolerância, do não revanchismo, de sentir o coração, Pure Love, como diz o título: "My life is action with love/ and with peace my will is strong/ No fear/ There is only truth/ If you feel the light you are right", canta Xiao-Fen em "Song 4: The Truth".
É por este percurso proporcionado pelas 15 faixas que se revela o oratório em sua plenitude, com as ondulações sonoras, das diferentes combinações de vozes, instrumentos e palavras, estruturando essa bela e profunda composição. Como solista, Smith está discreto no álbum; em "Vision Dance 4: A Blue Casa", temos a melhor oportunidade de ouvi-lo, em duo com Haynes, acompanhados pelo RedKoral Quartet. Algumas das peças contam ainda com a intromissão de trechos de obras de Anthony Braxton ("Composition 8D"), Leroy Jenkins, Steve McCall e do próprio Smith (em reprodução, não executados pelos músicos), todos remetendo aos primeiros tempos da trajetória artística de Wadada, citações resgatadas de quatro, cinco décadas atrás. E como em Ten Freedom Summers, nas apresentações ao vivo há também o trabalho visual, com projeções de vídeos e imagens em telões que, como vimos durante os concertos de Wadada no país em 2012, fazem muita diferença, criando uma outra relação entre ouvinte e obra.  







Rosa Parks: Pure Love  ****(*)
Wadada Leo Smith
TUM Records

















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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; e foi correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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