segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Vibrações Portuguesas






LANÇAMENTOS  Quantas vezes já afirmamos que Portugal tem uma das cenas jazzísticas mais vivas e estimulantes da atualidade... Nada melhor que selecionar alguns álbuns editados nos últimos tempos com a participação de músicos portugueses para comprovar isso.
Ouça, divulgue, compre os discos...








Por Fabricio Vieira




The Fall of the Damned  *****
Albatre
Shhpuma/Clean Feed

Tendo estreado em 2013, o Albatre, trio formado em Roterdã pelos portugueses Gonçalo Almeida (baixo elétrico) e Hugo Costa (sax alto) ao lado do alemão Philipp Ernsting (bateria), tem um trabalho já bastante sólido e consistente. Neste seu novo disco, o trio, que tem deixado intensos e elogiados títulos pelo caminho, retorna com sua viva e criativa música. Quem conhece o Albatre sabe por onde eles andam, mas, mesmo assim, dificilmente não ficará excitado com The Fall of the Damned; a incrível faixa-título abre o trabalho com o sax de Costa martelando os ouvidos, sobre pulsante e repetitiva linha conduzida por baixo e bateria, em algo de propulsão ritualística que termina de forma explosiva. A pegada demolidora segue em "Goya", que já abre com a energia no pico e segue assim por quase quatro minutos, com um solo devastador de sax. O jazzcore do trio se mostra aqui mais aberto, trazendo sensações frescas (os três também adicionam pequenas intervenções eletrônicas/efeitos, que trazem algo climático a alguns temas, como "Peasant Dance"). Quando os ouvidos se mostram carregados por tamanha intensidade – e já sob a impressão deste ser o melhor trabalho do trio –, eis que chega a última faixa, "Horned Animal"; remixada pelo pessoal do Torture Corpse, apresenta denso e sombrio clima doom; funcionando como um epílogo, se revela o desfecho ideal para o explosivo disco.








Volcano Hour  ****
Anticlan
Creative Sources

Novo trio, este Anticlan traz em suas fileiras dois terços do Albatre, o saxofonista português Hugo Costa e o baterista Philipp Ernsting. A eles se uniu, em Roterdã, o guitarrista mexicano Josué Amador. Vendo a formação, seu DNA e a capa do disco, somos levados antes de ouvi-los rodando a esperar um explosivo jazzcore. Mas não é bem assim. O power trio traz sim uma potencialidade rock alimentando os  seis temas improvisados apresentados. No entanto, não é propriamente das vias da energy music que o som do Anticlan emerge. A proposta do grupo fica bem clara logo na primeira metade do disco, formada pela faixa-título dividida em três partes sequenciais. Essa peça-contínua inicia de forma até calma, com os sons chegando gradativamente após a entrada comandada pelas baquetas; certo fogo nos alcança lá pelos cinco minutos, com as coisas abrandando um pouco nos minutos finais. É mais como se contemplássemos a fumaça do vulcão subindo lentamente (como na capa) após sabe-se lá quanto tempo passada sua erupção. Claro que há momentos de subida de tom. As ruidagens da guitarra em “III”, por exemplo, são especialmente interessantes, criando texturas pelas quais Costa passeia seu sax de, por vezes, surpreendentes rastros melódicos. No que poderia ser o lado B de um vinil, começamos com “Mahakala”, que já vem com mais pegada, uma sonoridade jazzcore mais marcada. E assim seguimos até o fim, com a sensação de que um novo excitante projeto surge e merece ser acompanhado em seus próximos passos.








Oblique (trio)  ***(*)
Per Gardin/ Travassos/ Marco Franco
Ibnmusik


Em passagem por Lisboa, o saxofonista sueco Per Gardin se reuniu aos portugueses Travassos (eletrônicos) e  Marco Franco (percussão, o dono das baquetas em dois dos melhores lançamentos de seu país nos últimos anos, "The Attic" e "Clock and Clouds") para esta sessão de improvisação livre. O encontro se deu há algum tempo, em junho de 2014, no Namouche Studios, em Lisboa, e somente quatro anos depois é editado. São quatro extensas faixas, frutos de improvisação coletiva, em que a interessante combinação de sonoridades tem momentos realmente instigantes. "Cracked", além de a menos extensa com seus oito minutos, é a mais direta, com a percussão fraturada de Franco e as intervenções de Travassos criando o espaço certeiro para as improvisações de  Gardin ao sax. De tom mais contemplativo que energy, a música aqui apresentada  deve ter sua melhor apreciação ao vivo, com os detalhes eletrônicos e percussivos pulsando nos ouvidos e direcionando as atenções.









Ricardo Toscano Quartet  ****
Ricardo Toscano Quartet
Clean Feed

Representante da nova geração do jazz português, o saxofonista Ricardo Toscano faz sua estreia em grande estilo, pelo cultuado selo Clean Feed. Aos 25 anos, Toscano mostra muita personalidade neste álbum em que é acompanhado por João Pedro Coelho (piano), Romeu Tristão (baixo) e João Lopes Pereira (bateria), apresentando cinco temas próprios e uma releitura de “The Sorcerer” (Herbie Hancock). Não se trata aqui da free music que compõe muito do melhor da Clean Feed, mas de jazz, de pós-bop de fina fatura. "Almería" abre o álbum com um tema bastante climático destilado pelo sax, acompanhado ao fundo por toques às teclas, assim pelo seu primeiro minuto, até entrar em cena a cozinha rítmica, numa levada jazzística sobre a qual um irresistível piano passeia. Logo na sequência vem “The Sorcerer”; e talvez o melhor fosse essa releitura estar mais à frente, talvez fosse mais acertado continuarmos sendo apresentados ao som particular do quarteto – sim, é claro que não temos que escutar as faixas na sequência original, mas existe uma lógica ao se organizar uma obra.  Voltando aos temas originais, encontramos o quarteto em momentos de melancólica beleza e profunda sensibilidade estética, a destacar a balada "Song of Hope" e "Grito Mudo", o mais extenso tema apresentado, que fecha o disco e destaca tanto a inventividade solística de Toscano quanto a relevância expressiva de Coelho para a música do quarteto. Uma estreia de muita força.






Luminária  ****(*)
Frame Trio
FMR


Encontros de europeus de passagem por Portugal com músicos locais que rendem grandes trabalhos (ou projetos) têm sido uma constante. Aqui temos mais um capítulo desta fórmula: Frame Trio é seu nome e reúne o baixista belga Nils Vermeulen aos portugueses Luís Vicente (trompete) e Marcelo dos Reis (guitarra). A gravação editada pelo selo FMR foi realizada um ano atrás, em 28 de novembro de 2017, no Centro Norton de Matos, em Coimbra. E traz seis temas improvisados, seis faixas separadas apenas por pausas e números (I, II, III etc), formando um discurso uno e coeso. A música é contemplativa, mas intensa, com os instrumentistas dialogando de forma íntima, em camadas capazes de expressar sentimentos e pulsações profundas.  O dolorido trompete, rasgando lentamente as notas no tema de abertura, torna irresistível o convite a escutarmos o disco todo – difícil interromper a jornada uma vez iniciada. “Luminária III” é uma das melhores, com o baixo em arco, denso, sendo atravessado pelos toques do trompete e da guitarra, que atacam, até com vigor, o espaço entre 1 e 3 minutos, antes de as cordas assumirem o primeiro plano, até o retorno do trompete: um dos picos do belíssimo registro do trio.









For Cecil Taylor  ****
New Thing Unit
Creative Sources

O sexteto português New Thing Unit apresenta sua homenagem a Cecil Taylor com uma instigante sessão de improvisação livre coletiva. O grupo reúne destacados nomes ligados de uma forma ou outra a projetos associados ao importante selo Creative Sources: Ernesto Rodrigues (viola), Eduardo Chagas (trombone), Paulo Alexandre Jorge (sax tenor), Miguel Mira (violoncelo), Manuel Guimarães (piano) e Pedro Santo (bateria), que se juntaram em março de 2018, no Namouche Studio (Lisboa), para esta gravação. São quatro temas, variando de 6 a 25 minutos, que, se homenageiam Taylor no ano de sua morte, não soam necessariamente como herdeiros estilísticos diretos do mestre. É free impro muito bem executado, por músicos que conhecem bem a linguagem jazzística e a improvisação, com resultado sólido e inventivo. A música se constrói como um todo, deixando a sensação de ter sido captada de forma direta, sem pausas ou voltas, como se estivéssemos presenciando uma apresentação ao vivo. Cordas e sopros formam o núcleo duro dessa música, dando seu principal colorido. Rodrigues e Mira, em especial, mostram que estão em um nível profissional e artístico muito elevado. Os quatro temas provavelmente foram concebidos para serem ouvidos como uma peça só, mas quem quiser começar aos poucos, vá direto a "IV", boa síntese do trabalho.         








Eudaimonia  ****(*)
José Lencastre Nau Quartet
FMR

Após uma impactante estreia – com “Fragments of Always” (2017) –, o Nau Quartet, comandado pelo saxofonista José Lencastre, apresenta seu segundo título. Mantendo a mesma elevada inventividade expressiva de seu antecessor, este novo disco firma o Nau Quartet como um dos projetos mais sólidos e atrativos da cena contemporânea. Ao lado de José Lencastre, o grupo traz alguns dos nomes mais fortes da música criativa de Portugal: Hernani Faustino (baixo), Rodrigo Pinheiro (piano) – os dois, integrantes do genial Red Trio – e João Lencastre (bateria). Eudaimonia, o nome do álbum, é uma palavra grega que manifesta certo espírito de felicidade e bem-estar, sendo também lidada à prosperidade. E cada uma das sete faixas é titulada com uma letra (ou sílaba) da palavra, dando uma linha de unidade que nos conduz pela obra. Material fresco, gravado em 7 de abril de 2018 no Timbuku Studio (Lisboa), o álbum começa com “Eu”, a faixa mais extensa com seus 12 minutos, que chega muito delicadamente, pequenos toques esparsos que vão se encorpando com a entrada do sax alto; a densidade ameaça crescer a partir dos 3 minutos, com Faustino ao arco dando outro peso à execução, mas nada que destoe do modo da peça. O tom aumenta mesmo em “Da”, especialmente pelo vigoroso solo de alto de Lencastre. Vemos algo parecido em “I” – e desta vez o solo de sax é ainda mais arisco. Já em “Ni”, nossa atenção se volta mais ao piano. Certa potencialidade free jazzística se mostra mais presente que no álbum anterior do quarteto, mas sem perder o lirismo que marca a música idealizada por Lencastre. São apenas dois álbuns, mas o Nau Quartet já se firma como um dos mais interessantes grupos da atualidade.










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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; e foi correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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