TOP 10: Destaques de 2018







Encerramos o ano com nosso Top 10, listando álbuns imperdíveis lançados em algum momento de 2018. Mais do que simplesmente querer apontar os melhores discos editados no ano, o que se pretende é indicar títulos que deveriam ser obrigatoriamente degustados pelos apreciadores da música livre e criativa...





Por Fabricio Vieira


Tivemos mais um ano de grande ebulição sonora no universo da free music. O difícil é criar uma lista dos "10 melhores do ano": não são poucos os discos de primeira linha que acabam ficando de fora. Seria mais tranquilo fazer um Top 20 ou mesmo Top 30, mas o desafio é exatamente apontar apenas 10 álbuns dentre os mais inventivos gestados em certo período. A lista do FreeForm, Free Jazz inclui discos editados, em qualquer formato, durante 2018. Todos os selecionados foram escutados repetidas vezes; por motivo de tempo, alguns acabaram não resenhados neste espaçoquem sabe façamos isso nas próximas semanas. Dos resenhados, apenas os que receberam 4 e meia ou 5 estrelas entraram na disputa final. Claro que esta é uma escolha pessoal. Dessa forma, é normal que os leitores discordem de posições ou de quem entrou na lista em detrimento de outros; mas uma coisa é indiscutível: os selecionados são todos álbuns sensacionais, que ajudaram a revitalizar o universo free jazzístico e da improvisação livre, mostrando o quanto ainda são amplas as fronteiras dessa música.
É interessante notar a abrangência da seleção final: o resultado nos mostra artistas com idades que variam mais de quatro décadas, dos 31 anos de Kaja Draksler aos 74 anos de Evan Parker, vindos de países como Estados Unidos, Portugal, Eslovênia, França, Alemanha, Inglaterra, Suécia,  Noruega, Áustria, chegando até à cantora Sofia Jernberg (The End), nascida na Etiópia, e ao guitarrista Tashi Dorji (Kuzu), que vem do Butão. Há grupos com alguns trabalhos na bagagem atingindo seu ápice, caso do Albatre, e nomes que estrearam neste ano, como o The End e que estreia! Este novo quinteto, formado por Mats Gustafsson, Kjetil Moster (saxes), Anders Hana (guitarra), Greg Saunier (bateria) e Sofia Jernberg, trouxe um ar realmente fresco à cena, juntando forças com perfis e enfoques variados e resultando em um registro desconcertante, que ficou no topo da seleção do FreeForm, FreeJazz. Já a pianista Kaja Draksler reuniu um novo trio, ao lado de Peter Eldh e Christian Lillinger, e nos surpreendeu com uma música encantatória, mostrando que mesmo este que é um dos formatos mais explorados na história do jazz ainda pode render possibilidades intrigantes. O encontro entre os lendários veteranos britânicos Dave Holland e Evan Parker foi uma das parcerias mais justas e certeiras dos últimos tempos, que atingiu o pico inventivo com a adição dos mais jovens Craig Taborn e Ches Smith. Mais uma estreia de grande potência foi protagonizada pelo Kuzu, trio de Chicago formado pelo saxofonista Dave Rempis, Tashi Dorji e Tyler Damon na percussão; free jazz de alta ebulição. Para quem tem acompanhado a guitarrista Mary Halvorson nesses seus cerca de 15 anos de carreira, ela não para de surpreender: com seu recente projeto Code Girl entregou um dos mais inventivos registros da década. Outro que veio com algo novo e inquietante foi Tyshawn Sorey e seu Pillars: juntando novas figuras, como o baixista Zach Rowden, a conhecidos como Joe Morris e Stephen Haynes, criou mais de três horas de música climática, hipnótica e que testa inéditas possibilidades expressivas. O trompete, um dos instrumentos mais vivos da cena atual, é representado neste TOP 10 pela genial Susana Santos Silva, com seu primeiro registro solo; a trompetista, que tocou pela primeira vez no Brasil em 2018, tem se mostrado cada vez mais incrível. Já o duo de baixo e piano de Joelle Léandre e Elisabeth Harnik, Tender Music, é encantamento puro, com certo ar camerístico que nos convida a apreciar a obra em silêncio. Em outro extremo, com dois portugueses (Gonçalo Almeida e Hugo Costa) e o alemão Philipp Ernsting, o Albatre, trio jazzcore formado em Roterdã, editou seu melhor título até o momento. E completamos este TOP 10 com três mestres do free, Matthew Shipp, Daniel Carter e William Parker, que gravaram ao vivo este Seraphic Light, mostrando que a inventividade do trio, cada um com algumas décadas de serviços prestados à free music, permanece em alto nível expressivo. Como relançamento do ano, Babi, incrível álbum do trio do percussionista Milford Graves, editado originalmente em 1977 e fora de catálogo até então. E na seara nacional, o duo Radio Diaspora, de Rômulo Alexis e Wagner Ramos, apresenta mais um capítulo de sua potente e vibrante música, voltando ao topo dos destaques locais. Finalizamos apontando o "show do ano", que em 2018 ficou com o inebriante espetáculo comandado pelo Fred Frith Trio na companhia de Susana Santos Silva. Boas audições.        




TOP 10 - 2018




10.  SERAPHIC LIGHT
Matthew Shipp/ Daniel Carter/ William Parker
Aum Fidelity




9. THE FALL OF THE DAMNED
Albatre
Shhpuma/Clean Feed






8. TENDER MUSIC
Joelle Léandre/ Elisabeth Harnik
Trost Records





7. ALL THE RIVERS - Live at Panteão Nacional
Susana Santos Silva
Clean Feed




6. PILLARS
Tyshawn Sorey
Firehouse 12 Records




5. CODE GIRL
Mary Halvorson
Firehouse 12 Records
 

 
4. HILJAISUUS
Kuzu
Astral Spirits/Monofonus Press





3. UNCHARTED TERRITORIES
Dave Holland/ Evan Parker/ Craig Taborn/ Ches Smith
Dare2 Records





2. PUNKT.VRT.PLASTIK
Kaja Draksler/ Peter Eldh/ Christian Lillinger
Intakt Records





1. SVARMOD OCH VEMOD ÄR VÄRDESINNEN
The End
RareNoise Records






*Reedição do ano

BABI
Milford Graves
Corbett vs. Dempsey





*Lançamento nacional do ano

RD3
Radio Diaspora
Sê-lo





*Show do ano

FRED FRITH Trio + SUSANA SANTOS SILVA
(Teatro do Sesc Pompeia, agosto)








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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi também correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)