terça-feira, 6 de novembro de 2018

FREE JAZZ: protesto e conscientização







Em quase seis décadas de existência, o free jazz tem trazido aos ouvintes música enérgica e combativa, mantendo acesa uma voz  cada vez mais necessária...








Por Fabricio Vieira


O free jazz é um gênero revolucionário em sua essência, e não apenas considerando o campo estético. Essa música sobreviveu e se multiplicou no underground, desenvolvendo suas próprias estratégias, coletivos, selos independentes, uma realidade que antecipou a cultura do it yourself tão ligada ao movimento punk posterior. Não apenas em sua radicalidade expressiva e por suas ações como cultura anti-mainstream, o free jazz sempre esteve, desde seus tempos iniciais na década de 1960, envolvido com as lutas pelos direitos civis e causas sociais e minoritárias várias. Artistas como Archie Shepp e Amiri Baraka são alguns dos que estiveram na linha de frente desde os anos 60 e 70, envolvidos em diferentes trabalhos à época que poderíamos enquadrar como “de protesto”, além de serem porta-vozes centrais do movimento – o livro “This is Our Music: Free Jazz, the Sixties, and American culture”, de Ian Anderson, é um importante documento sobre esses primeiros combativos tempos.

O papel contestador da música, como evento de resistência, tem se manifestado historicamente por meio de diferentes gêneros, do punk ao rap, passando pela MPB e chegando mesmo ao campo erudito – olhe o trabalho de um Luigi Nono em peças como “La Fabbrica Illuminata” e “Intolleranza”. No universo do jazz, esse modo de fazer e existir não se restringe ao free, claro, apesar desse segmento ser subversivo por essência. Esse processo é especialmente interessante se pensarmos que esta é uma música de predomínio  instrumental: no free, a sonoridade por si mesma é um protesto contra a forma, contra os modos do bem polido fazer artístico. Aqui estamos numa seara onde a arte existe para ser apreciada em sua totalidade; se a arte não se revela como linguagem transformadora, reflexiva, combativa, se não abre novas percepções de mundo, de ser e estar no mundo, talvez ela não cumpra algumas de suas missões vitais – e o que no fundo interessa mesmo? Em tempos obscurecidos, quando as convicções parecem estar sob ameaça, os caminhos anuviados, a arte – a música – está lá como grito de sobrevivência; e em torno dela nos reunimos: como dizia Bill Dixon à época da criação do coletivo “Jazz Composers Guild”: “Você pode asfixiar um indivíduo, mas não um grupo organizado”.
É com essa música, que pode sacudir as coisas em tempos de incertezas e assombros, que nos agrupamos em reflexiva celebração: selecionamos 10 álbuns referenciais do universo da free music, discos de protesto e resistência que englobam quase seis décadas de arte, que permanecem atuais e discursivamente impactantes, por meio de suas capas e títulos, suas palavras e sons. Música para refletirmos o ontem e o hoje.






We Insist! Freedom Now Suite (1960)
Max Roach
Candid

Este sensacional manifesto comandado pelo baterista Max Roach (1924-2007) continua impactante tanto tempo após sua concepção. Aqui ainda é jazz, permeado de elementos proto-free, mas música em total sintonia com seus sucessores abaixo destacados. Juntando músicos jovens – como o trompetista Booker Little, então com 22 anos, e a cantora Abbey Lincoln – a já veteranos, caso do saxofonista Coleman Hawkins, Roach criou uma suíte em cinco partes que atravessam a história de exploração dos afro-americanos desde o período da escravidão. A peça começa com “Driva' Man”, que enfoca propriamente a escravidão e o trabalho forçado, seguida por “Freedom Day”, referência ao dia da “Emancipação”, mas mantendo o tom de “que liberdade é essa?”. O grande momento do álbum é “Triptych: Prayer, Protest, Peace”, na qual vemos a música, especialmente conduzida pela voz de Abbey, ir de seu momento mais reflexivo (Prayer) ao mais explosivo (Protest), com seu screaming arrepiante ecoando por muito tempo em nossa mente.






Liberation Music Orchestra (1969)
Charlie Haden
Impulse!
Liberation Music Orchestra foi uma big band organizada pelo baixista Charlie Haden (1937-2014) no fim dos anos 60, formada por um grupo multirracial representado por alguns dos melhores nomes do período, como Don Cherry, Dewey Redman, Gato Barbieri, Roswell Rudd, Andrew Cyrille e Paul Motian. A incrível primeira gravação do grupo tinha como ponto de inspiração inicial a Guerra Civil Espanhola e daí apontando para a Guerra do Vietnã e a América Latina – há até um tema-homenagem a Che Guevara (“Song for Ché”) –, em um painel adensado pelos arranjos muito bem elaborados por Carla Bley. Captado em abril de 69, no Judson Hall, o álbum trazia temas como "War Orphans" (de Ornette Coleman), sendo antes de mais nada um libelo antibelicista. Interessante lembrar que pouco depois do lançamento do disco, em 71, Haden foi preso em Portugal por, em uma apresentação no festival de Cascais, dedicar um tema aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique, que lutavam contra o ainda vigente sistema colonial português.






It’s Nation Time (1972)
Imamu Amiri Baraka
Black Forum

Imamu Amiri Baraka (1934-2014), nascido Leroy Jones, foi poeta, dramaturgo e ativista. Muito próximo da cena free jazzística, gravou também alguns discos, onde entrava com composições e seu feroz spoken word. Partindo dos textos de seu livro “It’s Nation Time”, Baraka criou esse álbum muito denso e musicalmente contagiante. Contando com a participação de percussão, vozes e de jazzistas como Gary Bartz, Reggie Workman e Lonnie Smith, Baraka não apenas deu seu recado, mas criou uma peça ritualística realmente intensa, resgatando elementos de blues, soul, spirituals e jazz vários, em uma viagem sonora de grande e sedutor apelo rítmico. O disco deve ser ouvido de forma ininterrupta, como uma longa viagem pela mensagem afirmativa e contestatória do poeta, passando por temas como "How Africans", "Who Will Survive" e "Bad News". It’s Nation Time é um trabalho de grande vigor, fora de catálogo há muito, que deixa a voz de Baraka ecoando na nossa cabeça: Who will survive in America? / Very few Negroes / No crackers at all...







Force (1976)
Archie Shepp / Max Roach
Uniteledis
Este duo explosivo reúne dois dos nomes mais significativos do universo jazzístico e dialoga com seu tempo tanto na capa do disco (com o punho cerrado em riste, marca do movimento Black Panther, em primeiro plano, e Mao Tsé-Tung, o “grande timoneiro” morto à época da gravação, boiando no oceano mais ao fundo), quanto nos títulos que exibe. Com apenas dois temas, o saxofonista Archie Shepp e o baterista Max Roach criam uma peça de força única, revitalizando as possibilidades do clássico duo-free de sax e percussão. Originalmente um vinil duplo, Force é dividido em dois temas: “Sweet Mao”, formado por três partes, “La Préparation”, “La Marche” e “Le Commencement”, que ocupam cada uma das faces do LP; e “Suid Afrika 76”, com título que faz referência ao massacre de estudantes/manifestantes em Soweto, na África do Sul. Versões em CD dos anos 90 que saíram na Europa suprimiram o título “Force” e alteraram a impactante capa para algo insípido, com apenas os dois músicos em destaque, em gesto que, se não for explicado por algum problema de direito autoral que desconhecemos, ilustra bem o espírito censório sempre à espreita.






The Peoples’s Republic  (1976)
The Revolutionary Ensemble
Horizon
Quem vê um trio formado apenas por violino, baixo e percussão não faz ideia da potencialidade e força possibilitadas por tal agrupamento. The Revolutionary Ensemble foi um grupo formado por Leroy Jenkins (1932-2007), Sirone (1940-2009) e Jerome Cooper (1946-2015) que teve seu auge na década de 1970, com um epílogo nos anos 2000. A república popular do título deste álbum pode ser interpretada como uma referência direta à China, lembrando que o disco saiu exatamente no ano de morte de Mao Tsé-Tung, mas a capa amplia as possibilidades dessa expressão: pessoas representativas de diferentes culturas, povos de muitos lugares juntos em um globo utopicamente irmanado. Conta-se que quando a gravadora viu o disco pronto (capa, música...) cogitou não lançá-lo; acabou fazendo, mas boicotou sua divulgação; até hoje, não foi reeditado. Além do próprio nome “revolucionário” do trio, eles deixaram outras gravações com palavras mensageiras fora esta, a destacar “Vietnam”, de 72, lançado durante a insana guerra.






Feminist Improvising Group (1979)
Feminist Improvising Group
Independente


Pioneiro grupo da free improvisation formado apenas por mulheres, o Feminist Improvising Group (FIG) mandava recado também para o próprio universo jazzístico, rotulado não poucas vezes em diferentes tempos como machista – lembremos que recentemente, em 2017, a baixista francesa Joelle Léandre divulgou uma impactante carta tratando do machismo no jazz na entrega do prêmio Les Victoires Du Jazz. Reunindo aqui alguns nomes destacados da cena – Irène Schweizer, Lindsay Cooper e Maggie Nicols – a outras instrumentistas envolvidas em diferentes graus com o free, como  Angele Veltmeijer (saxes), Anne-Marie Roelofs (trombone) e Georgie Born (violoncelo), o FIG foi um importante marco do grito feminista na música livre. Este trabalho é um raro testemunho do grupo, editado apenas em K7, reunindo apresentações ao vivo. O FIG se desdobraria nos anos 80 em outra importante banda feminista, a European Women’s Improvising Group (EWIG), que contaria com a participação de Léandre.






There It Is (1982)
Jayne Cortez
Bola Press

A poeta Jayne Cortez (1936-2012) desenvolveu um trabalho de grande impacto discursivo especialmente a partir dos anos 80. Aliando spoken word a instrumentação jazzística, grooves e elementos do hip hop nascente,construiu discos de grande expressividade. Neste There It Is é acompanhada pelo "Firespirits", grupo que contava aqui com seu filho Denardo Coleman (bateria), Jamaaladeen Tucuma (baixo) e Bern Nix (guitarra), dentre outros. Mais contemporâneo do que nunca, o álbum abre com a faixa-título, crítica à exploração capitalista, dando o tom do que essa viagem sonoro-poética nos oferecerá. As palavras de Jayne são certeiras: “My friends, they don’t care if you’re an individualist, a leftist, a rightist, a shithead or a snake, they will try to exploit you, absorb you, confine you, disconnect you, isolate you… or kill you”. Quando mesmo isso foi escrito?







Current Trends in Racism in Modern America (1985)
Butch Morris
Sound Aspects

O título deste trabalho de Butch Morris (1947-2013) mira o racismo na contemporaneidade, sendo infelizmente ainda tão atual passadas três décadas desde sua publicação, mostrando o quanto essa é uma questão em aberto, que ainda pulsa. Dividido em duas extensas partes, o álbum funciona sonoramente como uma peça única, com movimentos que se complementam e criam um todo com uma mensagem de direção única e certeira. Uma música reflexiva de profunda e incomodante beleza, executada por um extenso grupo formado por nomes conhecidos do free, pretos e brancos, homens e mulheres, como a harpista Zeena Parkins, o guitarrista Brandon Ross, o celista Tom Cora, Frank Lowe e John Zorn, união de forças várias, diferentes focos e tempos. Com esse grupo e esse título em mente, Morris apresenta aqui o primeiro capítulo de um work in progress, que se transformaria no projeto "Conduction", que guiaria o principal de sua obra até o fim de sua vida.   






Ten Freedom Summers (2012)
Wadada Leo Smith
Cuneiform Records


O trompetista Wadada Leo Smith quis com esse trabalho criar um painel sonoro em homenagem à luta pelos direitos civis, destacando passagens e personagens centrais nessa história ainda não concluída. São quase quatro horas de música divididas em 19 temas, em uma viagem crítica que começa com “Dred Scott: 1857”, em referência ao “Caso Dred Scott”, em que a Suprema Corte decidiu que as pessoas de ascendência africana não deveriam estar protegidas pela Constituição dos EUA. Esse painel vai desvendando outros capítulos nesse percurso, demarcados por títulos como "Rosa Parks and the Montgomery Bus Boycott", “Martin Luther King, Jr.: Memphis, the Prophecy” e “Buzzaw: The Myth of a Free Press”. Ao vivo com seu Golden Quintet, cordas e projeções de vídeo (como tivemos o privilégio de ver no Brasil, no Sesc Vila Mariana, em 2012) esse projeto atinge sua plenitude.






Irreversible Entanglements (2017)
Irreversible Entanglements
International Anthem


Comandado pela poeta e compositora Camae Ayewa (conhecida como Moor Mother), o Irreversible Entanglements foi formado em 2015, a partir de uma apresentação no evento Musicians Against Police Brutality – o que demonstra bem as raízes do projeto. A princípio um trio, estruturado em quinteto já na gravação deste álbum de estreia, o Irreversible Entanglements deve algo aos trabalhos de Jayne Cortez, com a voz em spoken word de Ayewa sendo peça vital para o resultado sonoro e discursivo alcançado, uma música urbana com muito vigor e intensidade crítico-poética. “Chicago to Texas” é um tema que bem sintetiza o trabalho do grupo, abrindo com uma linha percussiva que introduz um quase lamento ao trompete, por sobre o qual a voz surge em narração profunda, impactante: “Not only do we disappear/ we hang ourselves and come up with other ways to find ourselves murdered/ since the Southern flag came down ain’t nothing left but jails and burning churches...”. Música de hoje em sintonia com nossos tempos. 






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