quarta-feira, 19 de setembro de 2018

PLAY IT AGAIN...








LANÇAMENTOS  Apanhado de novidades da free music.
Experiências em diferentes possibilidades. 
Ouça, divulgue, compre os discos...









Por Fabricio Vieira



Karma Moxie  ****
Total Improvisation Troop
atrito-afeito
O coletivo canadense Total Improvisation Troop (TIT) foi criado em 2011 como um grupo mutável destinado a explorar diferentes vias, da sound art ao jazz acústico, sem ignorar a eletrônica, em meio a diferentes estratégias improvisativas. Após a coletânea “Man of War”, editada em 2014, o TIT edita agora Karma Moxie. O álbum é resultado de uma gravação realizada em setembro de 2017 no The Pines Studios, em Montreal, e traz cinco temas. Em septeto, o TIT está composto aqui por: Karoline Leblanc (piano), Vergil Sharkya’ (sintetizadores), Anne-F Jacques (objetos amplificados), Lawrence Joseph (guitarra elétrica), Alexandre St-Onge (baixo elétrico), Peter Burton (baixo acústico) e Paulo J Ferreira Lopes (cymbals). No campo da improvisação livre, aqui adentramos as esferas da música eletroacústica, onde os dois extremos se unem em equilibrada atmosfera, com piano em destaque de um lado, em diálogos contrastantes com a ampla esfera elétrico-eletrônica. Nesse processo, o papel do piano é fundamental, funcionando como uma espécie de liga, sendo a sonoridade do quinteto indissociável dele; muito presente, o dedilhado de Leblanc marca a abertura da maioria das faixas (1,3,4...), como que demarcando as vias que serão preenchidas pelos outros sons. O soturno início de “Under the Fickle Slate”, por exemplo, perderia sua profundidade sem os toques das teclas de seu primeiro minuto. O disco sai em edição limitada e numerada de 200 cópias.






Sunstroke   ****(*)
Brom
Trost Records

O Brom está em um de seus melhores momentos. O trio criado em Moscou em 2008 apresenta seu novo intenso trabalho, conduzido por Anton Ponomarev (saxes), Dmitry Lapshin (bass guitar) e Yaroslav Kurilo (bateria). O grupo costumava apresentar sua música como “uma explosiva mistura de jazz e punk” – e esta é mesmo uma boa definição para o que oferecem, como atestam temas como “Plunge into an Ice Hole” (a incrível faixa de abertura) e “Sunstroke“. Remetendo às vias mais ariscas de grupos como o The Thing, o trio russo apresenta em Sunstroke oito temas registrados em junho de 2017, no DTH Studios, em Moscou. A maioria trata-se de criação própria, mas há espaço para duas curiosas releituras de universos jazzísticos clássicos. Uma delas é “Mingus 30°C”, em que o espaço visitado é a música de Charles Mingus; a outra é “Tuna”, onde o universo do bebop, via Dizzy GIllespie, é homenageado. Tudo isso desconstruído e rearranjado pela sonoridade do Brom. Especialmente pelos temas próprios, vemos que esta década de estrada depurou o som do trio, com o novo baterista trazendo um pulso rocker que funciona com maestria para a proposta do grupo russo. Um disco forte, maduro e muito intenso.







Beyond Dimensions  ****
François Carrier/ Michel Lambert/ Rafal Mazur
FMR 

No quarto encontro registrado pelo trio formado pelos canadenses François Carrier (sax alto) e Michel Lambert (bateria) ao lado do polonês Rafal Mazur (bass guitar) somos apresentados a novos temas. Diferentemente dos títulos anteriores do grupo, que foram captados no Alchemia Jazz Klub, na Cracóvia, este Beyond Dimensions traz uma gravação ao vivo no Aethernativ, na Romênia, em 29 de maio de 2016. A noite resultou em quatro extensas faixas, improvisação livre que se desenvolve entre 9 e 29 minutos. Carrier se concentra aqui no seu original sax alto – vinha explorando o oboé chinês em suas últimas gravações –, o que dá uma lineariedade maior à proposta desenvolvida por ele no álbum. É bom vê-lo em momentos mais explosivos, em meio a seu lirismo característico, como o que emerge lá pelos 12 minutos de “Open Dream”, no que se revela seu melhor solo. Beyond Dimensions é prazeroso de ser ouvido em direto, sem interrupções, como um concerto mesmo, em que as ideias se desdobram e se complementam. Quem escutou os outros encontros do trio sabe o que vai encontrar aqui; não que eles se repitam, mas mantém uma coerência expressiva que liga os álbuns.






Lake of Light: Compositions for AquaSonics  ***(*)
William Parker
Gotta Let It Out
William Parker há muito é mais que “apenas” um baixista (lembrando que ele é um dos nomes maiores que o instrumento já viu). Seu trabalho como compositor, extrapolando a linhagem free jazzística de onde vem, tem crescido e se expandido, sem fronteiras, especialmente neste século. Este é um ano interessante em sua carreira neste sentido, em que já editou “Voices Fall From The Sky”, focado em trabalhos para voz, com ou sem acompanhamento. Agora nos deparamos com este singular Lake of Light, álbum em que há apenas um instrumento em foco: o “AquaSonic waterphone”. Para interpretar as sete composições do disco, Parker montou um quarteto ao lado de Anne Humanfeld, Jeff Schlanger e Leonid Galaganov. Todos eles tocam o tal do AquaSonic waterphone, um instrumento de percussão (aqui construído pelo baterista Jackson Krall) feito de metal que cria um som etéreo, algo de sabor oriental. Há peças mais inquietantes, desconcertantes até, como “Purple Heartbeat” e “Helium Butterfly” (as melhores do conjunto), dentre outras mais serenas, com algo world music ecoando no ar... De qualquer forma, às vezes é difícil entender os estímulos de Parker, se ele quer apenas variar suas investigações sonoras, mostrar que a música não deve ter limites ou apenas se divertir fazendo algo diferente. O resultado é interessante, mas não parece ser um item obrigatório, mesmo para quem costuma acompanhar com atenção o trabalho de Parker.







A Glorious Monster  ****
Sloth Racket
Luminous
O quinteto britânico Sloth Racket chega a seu terceiro registro de estúdio mostrando grande intensidade. Comandado pela saxofonista Cath Roberts (barítono) traz ainda Sam Andrear (sax alto), Anton Hunter (guitarra), Seth Bennett (baixo) e Johnny Hunter (bateria). A Glorious Monster apresenta quatro temas, todos assinados por Cath Roberts, tendo sido captados em novembro de 2017, no Blueprint Studios, em Salford. “Animal Uprising” inicia o trabalho com um belo tema executado por sopros e guitarra, que desemboca em um momento solista do sax alto, enquanto barítono e guitarra seguem desdobrando o tema de abertura, já sobre uma base percussiva – bela forma de descobrir a que veio o conjunto. A faixa-título, na sequência, adentra com maior foco o campo free impro, mais abstrata, quase contemplativa, evitando faíscas, com a percussão dominando os espaços em meio a entradas pontuais, que crescem com vagar, dos sopros. Se saltamos para “Octopus”, que fecha o disco, nos deparamos com uma faceta mais intensa, com o sax uivando como que chamando o restante do grupo, que vai chegando aos poucos; nesse processo, encontramos o solo de barítono, com Cath em modo mais melódico, antes de alcançarmos a etapa derradeira, marcada por um repetitivo tema, que encerra o percurso em modo mais swingante, com um leve arroubo final.







Uncharted Territories   *****
Dave Holland/ Evan Parker/ Taborn/ Smith
Dare2 Records

Dois dos maiores nomes da música criativa do Reino Unido se uniram para este fantástico registro. O baixista Dave Holland, 71 anos, e o saxofonista Evan Parker, 74 anos, estão na ativa desde a década de 1960, tendo traçado caminhos diferentes que se cruzaram em poucas oportunidades neste meio século de música que cada um tem nas costas – há exatos 50 anos, estavam lá os dois então novatos instrumentistas na sessão do Spontaneous Music Ensemble que rendeu o clássico “Karyobin”. Para Uncharted Territories, a dupla britânica convidou dois músicos norte-americanos representantes de gerações mais jovens: o pianista Craig Taborn e o percussionista Ches Smith. E o resultado obtido pelo quarteto é brilhante. As gravações ocorreram em 2 e 3 de maio de 2017, sendo editadas apenas um ano depois. Das sessões saíram 23 temas, se tratando em seu núcleo de improvisação livre, mas abrindo espaço para explorar uma ou outra composição, sendo duas de Smith (“Thought On Earth” e “Unsteady As She Goes”) e uma de Holland (“Q&A”, que apareceu anteriormente em “Conference of the Birds”, de 73). São cerca de duas horas de música em que a criatividade improvisativa se espraia por diferentes horizontes, de fúria marcante a divagações detalhistas, em temas em que os músicos se unem ou se alternam a depender do efeito buscado. As faixas ondulam entre duos, trios e o quarteto todo em ação, em encontros como “tenor-baixo”, “piano-baixo-percussão”, “tenor-piano-baixo”, “baixo-percussão” e outras combinações. A multiplicidade de possibilidades sonoras se desdobra em um todo coeso, uma obra construída pensando-se em sua totalidade, resultando em um álbum (CD duplo ou vinil triplo) sólido e expressivamente marcante. 









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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi também correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista on-line portuguesa Jazz.pt. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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