domingo, 2 de setembro de 2018

Fred Frith Trio: a noite mais experimental





CRÍTICAs  O grupo comandado por Fred Frith protagonizou três intensas noites no Sesc Jazz. Um pouco do que vimos por lá...






Por Fabricio Vieira

O Sesc Jazz teve por esses dias suas noites mais experimentais, com as apresentações do Fred Frith Trio – quinta e sexta, no Teatro do Sesc Pompeia; sábado, no Sesc Araraquara. O guitarrista britânico Fred Frith tem nesse trio um de seus projetos mais novos, tendo sido iniciado em 2012 e estreado em disco com “Another Day in Fucking Paradise” (2016). O grupo desembarcou no Brasil no momento em que lança seu segundo álbum, “Closer to the Ground” (quem esteve nas apresentações do Sesc Pompeia pôde comprar o novo CD e ainda levar um autógrafo de Frith para casa). Junto a seus dois parceiros, Jason Hoopes (baixo) e o norte-americano Jordan Glenn (bateria), o guitarrista britânico trouxe como convidadas a trompetista portuguesa Susana Santos Silva e a artista visual alemã Heike Liss, formando um verdadeiro quinteto global. Interessante tratar-se também de um encontro de gerações: Frith tem cerca de cinco décadas de música e 69 anos de idade; Hoopes, Glenn e Susana são artistas que iniciaram suas trajetórias apenas nos anos 2000. E o que resulta desse encontro é um grupo coeso e ajustado, pronto para apresentar uma música improvisada de elevada temperatura e sedutora criatividade.
 
Fotos: Julay Baretti/Sesc
 
O Teatro do Sesc Pompeia foi armado utilizando-se apenas um de seus lados, como aconteceu em 2014, quando Wadada Leo Smith e HPrizm comandaram um grande show em que também foram exploradas projeções e imagens em um telão ao fundo. E o impacto do trabalho visual de Heike Liss, a forma como dialoga com a música do quarteto, mostrou ter sido muito acertada a disposição do espaço escolhida. Liss trabalhou com a manipulação de imagens arquivadas (a maioria captada por ela especialmente para as apresentações, como a cidade vista de um avião, árvores, ondas no mar, formigas no chão, em meio a cenas de algum filme antigo da Pathé...) sobre as quais fazia interferências ao vivo, riscos e linhas que iam se sobrepondo e dialogando com as imagens que se alternavam na tela, em um jogo improvisativo que ampliava as sensações do público. Aliás, um grande público, que lotou o teatro na sexta-feira e ficou, em sua maioria, até o fim do espetáculo. E não poucos presentes devem  ter sido atraídos pelo Fred Frith guitarrista do Henry Cow, mais interessados nele como um ícone do rock setentista mais inventivo: não faltaram camisetas de Frank Zappa, Pink Floyd e companhia circulando pelo teatro...

Frith e seus parceiros levaram ao público na noite de sexta uma experiência daquelas que não se esquece. Se a duração foi relativamente breve, o impacto, incisivo e certeiro. Por cerca de 55 minutos, os presentes permaneceram absortos, sugados por uma apresentação ininterrupta de improvisação inebriantemente livre, em meio a um trabalho de pontos inesperados e provocantes. Um momento que mesmo se fosse editado em disco não poderia levar aos ouvintes as sensações que ficaram daquela noite, com todas as sutilezas da genialidade de Frith e a tensão do free impro in loco, além do trabalho imagético complementar.

Frith é um mestre das técnicas expandidas e utilizou toda uma gama de interventores (pincéis, escovas, arco...) para criar a música que presenciamos, atacando ou acariciando as cordas, criando sonoridades desconcertantes, que ganhavam uma expressão ainda mais profunda quando apenas seus dedos conduziam a guitarra.  A interação coletiva é o núcleo do que o quarteto apresentou, mas é claro que todos os olhos passam grande parte do tempo atentos a Frith. E, com discreta condução, é ele quem leva seus parceiros a desbravar as vias que pretende explorar, indo de momentos de uma música mais fluida, com ideias e rastros de temas  desenvolvidos de forma por vezes quase pontilhística, a picos de intensidade mesmo agressiva, nos guiando por uma jornada de sons que ganham sentido com seus desdobramentos, uma narrativa fraturada que aos poucos desvenda seu sentido a quem aceita segui-los até o fim nessa empreitada de quase uma hora sem cortes. A maior parte do tempo sentado e olhando para seu instrumento, Frith joga com os pedais e os acessórios dispostos a seu lado em uma mesa para compor com seus parceiros o extenso painel que vai sendo construído à nossa frente. Glenn faz de seu aparato percussivo o fiel escudeiro de Frith, e Hoopes, se o mais discreto do quarteto, mostra que está ali sempre que o baixo pode crescer, tendo comandado um interessante solo enquanto o guitarrista parecia necessitar respirar por alguns segundos lá pelo meio da peça.

Aqueles que já ouviram o trio em ação (em vídeo ou disco mesmo) sabem o que a adição do trompete de Susana Santos Silva representou para esses concertos. A trompetista está em um momento iluminado de sua trajetória (basta ver aonde chegou com seu incrível disco solista “All The Rivers”, editado neste ano) e não atuou em nenhum momento como uma "convidada": era a quarta voz do grupo instrumental e somente juntos puderam nos brindar com o que trouxeram nesses dias. Seu trompete levou a música do trio original a universos inexplorados por eles antes, em uma simbiose criativa arrepiante. Com ou sem surdina, destilando longas notas climáticas ou extraindo faíscas de seu sopro, a trompetista foi muito ovacionada ao fim da apresentação. Não bastasse a equilibrada comunhão conjunta, Susana protagonizou o mais intenso solo da noite, lá pela parte final da peça exibida, mostrando o porquê de ser uma das vozes mais vivas de sua geração. 


Quem deixou de ir aos concertos do Fred Frith Trio perdeu um dos grandes momentos da free music apresentada em nossos palcos em muitos anos. E sabe-se lá quando poderemos ver esse incrível grupo em ação na nossa frente de novo...  






------------
*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi também correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista on-line portuguesa Jazz.pt. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

Os mais lidos...