sábado, 18 de agosto de 2018

O organismo vivo de HENRY THREADGILL






CRÍTICAS  Henry Threadgill trouxe seu quinteto Zooid ao país pela primeira vez e nos apresentou, no palco do Teatro do Sesc Pompeia, um pouco do que de melhor a música tem produzido neste século...






Por Fabricio Vieira


Nos últimos anos, alguns dos nomes maiores da free music vieram pela primeira vez ao país apresentar sua criação. Nunca é demais constatar que, apenas nos últimos cinco anos, de 2014 para cá, passaram por aqui Anthony Braxton, William Parker, Alexander von Schlippenbach e sua GUO, Muhal Richard Abrams, Annette Peacock e Matthew Shipp, todos eles no palco do Teatro do Sesc Pompeia. Se o festival que acontece no espaço mudou de nome neste ano, o importante é que seu conceito permaneceu: e assim, tivemos a oportunidade de vivenciar a experiência única de ver Henry Threadgill. O Sesc Jazz trouxe nesta sua primeira semana dois concertos, ontem e quinta-feira, de Threadgill com seu quinteto Zooid – hoje (sábado, 18), eles ainda fazem uma última apresentação, no Sesc Ribeirão Preto. Ao lado do compositor e saxofonista estavam José Davila (tuba e trombone), Liberty Ellman (guitarra), Christopher Hoffman (violoncelo) e Elliot Kavee (bateria). E o que se viu em cerca de 70 minutos de música foi um pouco do que Threadgill tem feito de melhor nos anos 2000. 

O Zooid, que fez sua estreia em 2001 com o disco "Up Popped The Two Lips", é um organismo que tem em Threadgill seu núcleo: dele vem as composições, a condução, a forma de fazer música. Mas cada um dos outros quatro instrumentistas que o cercam são células que permitem esse organismo viver e, consequentemente, fazer a música proposta se desenvolver. 
Fotos: Julay Baretti
A intimidade e a interação telepática do quinteto fizeram com que as apresentações em São Paulo fluíssem de forma envolvente, deixando o público presente absorto. E a música centraliza tudo: nem Threadgill nem seus parceiros falam ou se dirigem ao público, salvo algum sorriso (pareciam muito satisfeitos com a noite) ou aceno de agradecimento.    
O setlist dos concertos dos dias 16 (quinta) e 17 (sexta) foram muito parecidos – mas quem presenciou as duas noites não deve ter se preocupado com isso; difícil não mergulhar na mágica criação de Threadgill. Na quinta-feira, a sequência foi: Bells (intro); Tommorow Sunny; Unoepic; To Undertake My Corners Open; Off the Prompt Box; Not the White Flag; e A Day Off (bis). Na sexta-feira, o que se viu foi: Cymbals (intro); Tommorow Sunny; Cenopic; To Undertake My Corners Open; Sap; Off the Prompt Box; Not the White Flag; e A Day Off (Bis). Mesmo o Zooid contando com seis álbuns em sua discografia, as apresentações se centraram em temas dos títulos mais recentes, "This Brings Us To I" (2009), " Tommorow Sunny" (2012) e "In For a Penny, In For a Pound" (2015). Essa decisão aumentou ainda mais a coesão do material apresentado, que poderia compor um álbum sem arestas.  

Na  noite de sexta-feira, Threadgill se mostrou relativamente metódico no que se refere à intensificação do concerto. A noite abriu em tom bastante moderado, com Kavee explorando os pratos de sua percussão, com sons metálicos entremeando o silêncio, como sinos chamando o público para o ritual que iria se iniciar. Neste jogo, interessante notar que Threadgill passa a primeira metade do concerto apenas tocando flauta; o sax alto entra em ação apenas passados já uns 35 minutos e segue em primeiro plano até o bis – para quem acompanha o músico, isso não chega a ser novidade, já que desde os tempos de Air, nos anos 70, a flauta tem sido parte obrigatória da música de Threadgill. À flauta, Threadgill tem um som que parece mais controlado e equilibrado, preciso mesmo, que entra em ação nos momentos em que a música exige exatamente tal intervenção. Com o sax alto se mostra mais arisco, com temas e breves solos de expressão mais tortuosa, surpreendentes em sua feitura de alinhamento menos preciso, desconcertantes, até, por vezes. Se o músico é o centro do que vemos, é fato que ele não brilha sozinho: o peso de cada instrumentista é bem equilibrado no que o quinteto exibe, um organismo no qual cada um tem seu papel vital.   
Elman tem seus momentos maiores em "To Undertake My Corners Open", peça marcada por um tema em que um repetitivo e hipnótico fraseado, com uma dicção que remete ao melhor do esquema de Joe Morris, deixa o público em suas mãos. Aqui Davila apresenta saboroso solo ao trombone, mas parece inevitável que seu melhor venha mesmo das composições em que trabalha com a tuba, trazendo uma cor particularíssima ao som do grupo – esse singular instrumento que, apesar de estar ligado ao jazz desde seus primórdios, acabou assumindo papel secundário na história do gênero. Davila é um músico extremamente sólido e versátil e uma voz fundamental para o Zooid. Especial também é o papel do violoncelo, com Hoffman explorando todas as possibilidades do instrumento, entre arco e pizzicato, podendo ser o propulsor rítmico do conjunto, sua base melódica ou solar com a intensidade de um baixo.    

Threadgill é a discrição em pessoa. De gestos contidos, conduz cada detalhe da apresentação. Se dirige aos músicos com algumas palavras, inaudíveis ao público; estala os dedos algumas vezes para marcar o início de cada tema; vira as páginas das partituras à sua frente de forma concentrada, sendo seguido por todos os instrumentistas, cada um com suas cópias. Os quatro têm os olhos nele o tempo todo, para não atravessarem a precisão demandada pelo condutor. Não há nada fora do lugar nessa música detalhista e minuciosa. Há espaços solistas em cada composição, e é quando Threadgill parece se descontrair mais, deixando seus parceiros mostrarem sua individualidade criativa, sorrindo discretamente quando parece satisfeito com o que foi apresentado por cada um deles. Quem conhecia Threadgill, aguardava este momento há muito; quem não conhecia, deve ter saído seduzido. Uma noite de arte maior de um dos grandes nomes da free music.  







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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi também correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista on-line portuguesa Jazz.pt. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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