quinta-feira, 26 de julho de 2018

Apresentando: Henry Threadgill





PERFIL  Henry Threadgill, um dos nomes maiores da free music, vem pela primeira vez ao Brasil  apresentar sua música, no Sesc Jazz. Em três concertos imperdíveis, mostrará um pouco de sua inventiva arte, ao lado do quinteto Zooid...






Por Fabricio Vieira


Seu nome já estava cotado para vir ao país no ano passado, não deu certo. Mas desta vez não falhou. Henry Threadgill desembarca pela primeira vez por esses lados para três apresentações em São Paulo, capital e interior, com seu quinteto Zooid. Quem acompanha o free jazz com interesse aguardava ansioso por este momento, tão marcante quanto as vindas de Anthony Braxton, William Parker e Muhal Richard Abrams.
Henry Threadgill, músico de Chicago de 74 anos, é um dos expoentes da AACM e tem desenvolvido um ininterrupto trabalho de importância fundamental para a música criativa desde meados dos anos 1970. Aliados a seu nome estão projetos que todos entusiastas da free music conhecem e admiram – Air, Sextett, Very Very Circus, Make a Move, Zooid – e poder ver um pouco disso ao vivo é algo histórico e de relevância indiscutível. Como sideman, participou do Octet de David Murray, tendo aparecido também em discos de Muhal Richard Abrams, Roscoe Mitchell (“L-R-G / The Maze”, “Nonaah”), Billy Bang (“Vietnam: Reflections”), dentre outros mais. Saxofonista (focado no alto) e flautista, Threadgill é um dos grandes compositores de sua geração, tendo sido um dos três únicos jazzistas, ao lado de Ornette Coleman e Wynton Marsalis, a receber, em 2016, o Prêmio Pulitzer de Música.

O início da trajetória de Henry Threadgill, nascido em Chicago em 15 de fevereiro de 1944, está intimamente ligado ao pianista Muhal Richard Abrams (1930-2017).  Ele se aproximou de Abrams quando tinha apenas 17 anos, no começo dos anos 1960, entrando para a sua Experimental Band. Permaneceu em seu entorno nos anos seguintes e viu nascer, em 65, a AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), a qual se associou desde seus primeiros tempos. Seu percurso seria interrompido em 67, quando foi convocado para o exército, onde entrou para a banda militar, tocando clarinete e sax. Inevitavelmente, considerando o que se vivia naqueles tempos, acabou sendo enviado para o Vietnã, onde os Estados Unidos alimentavam uma insana guerra que se estenderia ainda por muitos anos. Threadgill se feriu em combate em 68, podendo assim retornar a Chicago, ser dispensado da vida militar e passar a se focar integralmente na música.
Air
O percurso de Threadgill na música foi engrenando aos poucos: quando seu primeiro importante grupo, o Air, gravou o disco de estreia ("Air Song"), em setembro de 75, o músico já tinha adentrado os 30 anos de idade... Antes do Air, o saxofonista fez sua estreia em gravações participando das sessões que renderam o álbum "Young at Heart/Wise in Time", de Abrams, realizadas em julho e agosto de 69. Depois disso, teve de esperar o surgimento do Air para voltar aos estúdios. E o próprio estabelecimento do Air foi relativamente lento. O primeiro encontro entre Threadgill, o baixista Fred Hopkins (1947-1999) e o baterista Steve McCall (1933-1989) se daria em 71, quando foram convidados pelo Columbia College para apresentar um concerto com releituras de peças do pioneiro Scott Joplin (1868-1917). Mas McCall partiu depois para uma temporada na Europa e o grupo teve de esperar para se estabelecer. O interessante desse processo é que o trio já apareceu com uma sonoridade muito definida, precisa e solidamente inventiva. O free jazz do Air, se se aventurava pela improvisação mais livre, também tinha um respeito pela melodia e pelo lado composicional. Neste projeto vital para Threadgill se estabelecer como um nome forte do free, ele inicialmente variava mais os instrumentos: da família de saxes, partindo do alto, no qual se especializaria, também costumava tocar o tenor e o barítono; da flauta, sua outra base, ia até a flauta-baixo; passava pelo clarinete; e ainda explorava o musette e um particularíssimo instrumento de percussão metálica formado por calotas, o hubkaphone. Algumas dessas investigações ele levaria para a vida toda; no caso do sax, seria o alto que se tornaria sua voz central. É difícil dissociar o Air de Threadgill por mais que ele tenha buscado e produzido tantas coisas diversas incríveis depois. Tendo encerrado suas atividades em 1986 e deixado 11 álbuns, o Air é um dos marcos maiores do free setentista.

As ideias de Threadgill extrapolavam o veículo representado pelo Air bem antes deste se desintegrar. Ansioso por explorar novas possibilidades sonoras, o músico não demorou a  começar a desenvolver projetos paralelos. O primeiro fruto desse processo está registrado no álbum “X-75 – Volume 1”, de 1979. Sob seu nome, Threadgill juntou um grupo heterogêneo para realizar a obra, tendo por base quatro baixos e quatro flautas! A eles se juntou em algumas peças a voz de Amina Claudine Myers, em uma experiência bastante singular. Esse seria apenas o primeiro passo de Threadgill fora do Air. A fórmula de “X-75” não foi repetida – nunca houve um Vol. 2 –, mas a experiência abriu de vez a inventividade de Threadgill, que nunca deixou de testar possibilidades novas dali para frente.
Os anos 1980 marcam a estruturação de seu Sextett – com dois “T” no final, indicativo da formação do grupo: um sexteto + Threadgill... Esse grupo também tinha uma formação bastante particular, com duas baterias, baixo, violoncelo, trombone e trompete – além de sax e flauta do líder. Sob a assinatura do Sextett, ficaram algumas de suas obras mais incríveis, como “You Know the Number”, “Easily Slip Into Another World” e o derradeiro "Rag, Bush and All". Fred Hopkins e seu fantástico baixo sempre estiveram presentes nessa fase, além de Pheeroan akLaff, que havia assumido as baquetas no Air em seus últimos anos (quando foi renomeado como New Air). O violoncelo de Deidre Murray, que se juntou ao grupo em 83, é uma peça de destaque indiscutível ao colorido do sexteto, marcado pelas diferentes possibilidades oferecidas pelos múltiplos sopros.
O próximo passo na obra do saxofonista foi a criação do Very Very Circus. Interessante notar que esses projetos vão se estruturando muito mais como um desdobramento de um a outro do que uma ruptura, sempre com mudanças de formação, mas mantendo uma linha onde podemos acompanhar a evolução da linguagem de Threadgill, sendo que em todos eles sua face de compositor ocupa primeiro plano. O que vemos em todos esses trabalhos é a criação de uma mistura ideal de espaços amplos para a improvisação em meio à complexidade de arranjos nos quais Threadgill consegue levar ao limite as habilidades de seus parceiros. Como na maioria do trabalho dele, não se trata de energy music nem de free impro, mas de algo capaz de ir de elevada intensidade improvisativa a equilíbrio de perfil quase camerístico, sempre em um espaço jazzístico detectável, absorvendo elementos de origens variadas, que podem ir da música de rua de New Orleans ao calipso ou mesmo o erudito, em um caldeirão sempre muito bem conduzido. Vale dizer que, desde os anos 90, ele sempre gostou de recarregar as ideias passando temporadas em Goa, ilha da Índia que foi colônia de Portugal por algum tempo... O Very Very Circus também é um septeto, mas com uma formação bastante diversa do Sextett: ao lado do saxofonista estão (inicialmente, algumas mudanças ocorreram pelo caminho) duas guitarras, duas tubas, trombone e bateria, sendo a marca principal da obra do artista na primeira metade dos anos 90. A entrada da guitarra elétrica muda bastante a sonoridade buscada por Threadgill, que até então trabalhava centrado em sons acústicos, oferecendo algo que dialoga com o Prime Time de Coleman. O grupo é testado no palco logo de cara, rendendo o intenso disco “Live at Koncepts”, captado em maio de 91. É nessa época que Threadgill assina com uma grande gravadora, a mesma Columbia que tinha colocado em suas fileiras David S. Ware, Arthur Blythe e Tim Berne – tempos interessantes... Em não muitos anos, o Very Very Circus se desdobraria no Make a Move, um quinteto com baixo, guitarra, acordeão (vibrafone depois) e bateria, que o acompanharia até o novo milênio.


Os anos 2000 marcam o surgimento de seu mais longo e, em certo aspecto, sólido grupo, o Zooid – com quem virá ao Brasil no próximo mês. Em sexteto, estreia em álbum com “Up Popped the Two Lips”, de 2001, que o artista considera como um registro de transição, ainda com elementos do Make a Move. O grupo era formado por tuba (com o sempre presente desde então José Davila), guitarra (Liberty Ellman, outro destacado parceiro contemporâneo), violoncelo, bateria e sax/flauta do líder – no começo, havia também o oud de Tarik Benbrahim, formando um sexteto; com a saída dele, o Zooid virou quinteto. Mais do que nunca, o processo composicional de Threadgill se refinou, com a estética do Zooid passando a trabalhar com elementos seriais (sem ser dodecafônico) e as composições se tornado mais estruturalmente complexas. Espalhada por seis álbuns, a criação feita para o Zooid atingiu seu ápice no último registro do grupo, “In for a Penny, In for a Pound”, de 2015, que rendeu ao músico o Pulitzer.
(Photo: Peter Gannushkin)

Threadgill tem comandado dois novos projetos, pós-Zooid.  Um deles é o Ensemble Double Up, criado em 2015 para apresentar uma composição do músico feita em homenagem ao trompetista Butch Morris (1947-2013). Em septeto (um de seus formados favoritos), o  Double Up conta com piano, sopros, celo e percussão – aqui Threadgill participa do projeto apenas como idealizador, compositor e condutor –, tendo rendido os álbuns “Old Locks and Irregular Verbs” (2016) e “Plays Double Up Plus” (2018). A outra novidade é o 14 or 15 Kestra: AGG, uma big band que estreou com “Dirt... and More Dirt” (2018), onde Threadgill toca sax e flauta e apresenta novas peças em que integra seu processo de composição e improvisação grupal, seguindo o sistema criacional baseado em séries intervalares, como vem fazendo também com o Zooid.

See this language affords people to play in such a way where they're forced to play ideas rather than play licks and patterns and things like that, because the traditional harmonic stuff from the major/minor language is not there, so you can't play all that stuff that people generally play, so you have to create more in the moment, really fresh ideas in the moment, there's no formulas that you can apply in the moment. Playing formulas and stuff is one thing but that is not playing a musical idea, it's playing formulas and playing a whole lot of quasi-exercises and a lot of other things of that nature, and things that you've already been playing over and over, rather than being able to play right in the moment from your ear, based on the intervallic information available”, explicou Threadgill, em entrevista a The Wire, a linguagem trabalhada com o Zooid.



Nos concertos que fará no Brasil, o músico apresentará o projeto Zooid, provavelmente em quinteto com Threadgill (sax alto, flauta, condução), José Davila (trombone, tuba), Liberty Ellman (guitarra), Christopher Hoffman (violoncelo) e Elliot Kavee (bateria). Precisa dizer que é imperdível?







*5 discos essenciais de Henry Threadgill*



Air Time (1977)
Air
O trio Air se tornou um grupo icônico do free setentista, sendo formado por Henry Threadgill, Fred Hopkins e Steve McCall (substituído depois por Pheeroan akLaff). Desde sua estreia em 75, o grupo enfileirou uma sequência de clássicos do free jazz. Air Time é o terceiro título do trio. Não se trata aqui de energy music, apesar da alta voltagem de alguns temas, e a base composicional já é relevante. A gravação mostra bem a filosofia do trio, onde não havia protagonistas: a música só existia a partir da conexão entre os três. Um dos maiores grupos do free em qualquer tempo. Destacamos este, mas é difícil escolher uma dentre as gravações do Air, especialmente as primeiras, todas excelentes e obrigatórias. 




Just the Facts and Pass the Bucket (1983)
The Henry Threadgill Sextet

Este sexteto ainda não é oficialmente o "Sextett" que faria o principal da música de Henry Threadgill durante os anos 80, mas já carrega os mesmos elementos. Aqui está o onipresente Fred Hopkins ao lado de Olu Dara (corneta), Deidre Murray (violoncelo), Craig Harris (trombone) e Pheeroan akLaff e John Betsch (baterias). Um dos atrativos é Threadgill passeando por vários sopros, saxes alto e barítono, clarinete e flauta. É seu terceiro registro solo e traz seis temas próprios, em um total de apenas 39 minutos.   






Rag, Bush and All (1988)
Henry Threadgill Sextett

O “Sextett”, que marcou a obra de Threadgill nos anos 80 e deixou alguns de seus melhores momentos, apresentava uma espécie de avant-jazz camerístico. Em meio a grandes álbuns que editou com o grupo, com algumas variações de formação, Rag, Bush and All (com violoncelo, trompete, trombone, sax, baixo e duas baterias) tem um brilho especial. Com apenas quatro temas, mostra o grupo em equilíbrio perfeito, sintetizado em sua melhor faixa, “Sweet Holy Rag”. Foi o último registro realizado pelo Sextett, tendo sido captado em dezembro de 1988.






Spirit of Nuff... Nuff (1990)
Very Very Circus 

Nesta sequência, vemos a rápida transição de ideias que marca a virada do “Sextett” para o “Very Very Circus”. O septeto apresenta aqui uma nova sonoridade e novas possibilidades harmônicas, sendo formado por duas tubas, trombone, duas guitarras e bateria, além de sax/flauta. O primeiro disco com esse grupo é este intenso Spirit of Nuff... Nuff, que mostra uma nova visão de Henry Threadgill sobre o rumo de suas composições. A entrada da guitarra elétrica é um ponto fundamental para a nova proposta estética apresentada.






In for a Penny, In for a Pound (2015)
Zooid
O Zooid marca o trabalho de Threadgill nos anos 2000. Em quinteto, estão, ao lado de sax e flauta, José Davila (tuba e trombone), Liberty Ellman (guitarra), Christopher Hoffman (violoncelo) e Elliot Kavee (bateria). São seis composições de Threadgill, reunidas sob o nome de “Epic”, com algumas delas dedicadas especificamente a um instrumentista, como “Tresepic (for trombone)" ou “Unoepic (for guitar)”, em um conjunto que representa o ápice de seu processo composicional para o grupo – é o último registro do Zooid até o momento. Foi exatamente por este álbum que Threadgill ganhou o Pulitzer de Música em 2016, consagração de uma inventiva trajetória de quatro décadas.








*HENRY THREADGILL ao vivo no Sesc Jazz*

Quando: 16 (qui) e 17/8 (sex), às 21h
Onde: Sesc Pompeia (Teatro)
Quanto: R$ 12 a R$ 40 (inteira)

Quando: 18/8 (sab), às 20h
Onde: Sesc Ribeirão Preto (Galpão)
Quanto: R$ 15 a R$ 50 (inteira)







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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi também correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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