sexta-feira, 15 de junho de 2018

Revisitando JULIUS EASTMAN





LANÇAMENTOS  Pianista e compositor, Julius Eastman é uma dessas vozes inspiradas e inspiradoras que receberam em vida menor atenção do que deveriam e que, após sua morte, tem aos poucos sido redescoberto. Um novo capítulo nesta história surge agora com o lançamento de álbum do Kukuruz Quartet, pela Intakt Records, que revisita quatro peças do artista...






Por Fabricio Vieira 


Afro-americano, homossexual e sem-teto em seus últimos anos de vida, Julius Eastman (1940-1990) foi uma figura à margem que morreu abandonado e esperou um bom tempo para começar a ser redescoberto. Pianista e compositor que cresceu em Ithaca (Nova York), Eastman começou a estudar piano na adolescência, passando pelo Curtis Institute of Music, na Filadélfia, e tendo aulas com o conhecido pianista de música erudita Mieczyslaw Horszowski. É exatamente como pianista que Eastman começou a se destacar na cena avant-garde nova-iorquina dos anos 70, se aproximando do núcleo ligado ao minimalismo, tocando com Morton Feldman, trabalhando com Meredith Monk e Pauline Oliveros, polemizando com John Cage. No começo daquela década, participa dos tempos iniciais do S.E.M. Ensemble, criado por Petr Kotik para executar música contemporânea. Também data deste tempo suas primeiras gravações, como “Eight Songs for a Mad King” (71), do compositor inglês Peter Maxwell Davies, onde vemos Eastman mostrando ainda sua faceta de vocalista. De gravações em que podemos ouvir Eastman como instrumentista, importante conhecer seu trabalho em “For Frank O’Hara”, de Feldman (Columbia Odyssey, 1976), e “Dolmen Music”, de Meredith Monk (ECM, 1981).

Mas o que sedimenta Eastman como um artista obrigatório é, de fato, seu trabalho como compositor. Sua criação abrange peças gestadas entre os anos 60 e 80, em quase três décadas de produção, com umas quatro dezenas de títulos onde se destaca o período que vai de “Piano Pieces” (68) a “Our Father” (89). Parte de seu trabalho foi perdida no trágico desfecho de sua vida: no fim de 1981, Eastman foi despejado do apartamento onde morava no East Village, em um momento em que já sofria com o alcoolismo e descobria o crack. Uma vez na rua, nunca mais se estabilizou e viveu como homeless até seus últimos dias, quando morreu de ataque cardíaco aos 49 anos no Millard Fillmore Hospital, em Buffalo (NY). Muitos de seus originais (e provavelmente peças inéditas) se perderam neste seus últimos duros anos. Com sua morte, veio um longo silêncio que já rondava sua arte...

O renascimento da obra de Julius Eastman ocorreria apenas em meados dos anos 2000. Marco nessa redescoberta foi a edição do álbum “Unjust Malaise”, em 2005, pelo selo New World Records. Disco triplo, trazia algumas das mais importantes peças do artista, com gravações históricas feitas entre 73 e 80, muitas delas tendo o próprio pianista como executante. É, sem dúvida, a mais importante introdução a seu universo artístico. Lá estão temas que podemos chamar de clássicos, como “Evil Nigger”, “Gay Guerrilla”, “Crazy Nigger” (todos para pianos, no plural), “Stay on It” e “Femenine”.

(“Evil Nigger”, MinSoc International Conference, June 23, 2017)



No resgate do nome de Julius Eastman, merece destaque o trabalho de pesquisa e divulgação feito pela compositora Mary Jane Leach. Tendo conhecido o músico no início dos anos 80, Leach foi a responsável por catalogar sua obra, sendo uma incansável defensora de seu legado. O trombonista George E. Lewis, da AACM, também tem sido um dos relevantes nomes envolvidos com a preservação da memória de Eastman. Lewis conviveu com o músico nos anos 80 e tem participado, ao lado de outros artistas, de apresentações dedicadas ao compositor e sua obra, como pôde ser visto neste ano em eventos na Europa, como o MaerzMusik Festival e o Savy Contemporary Berlin, além de ser autor de artigos sobre o músico. Mais recentemente, os interessados em Eastman tiveram a oportunidade de aprofundar seu conhecimento sobre ele com a edição do livro “Gay Guerrilla: Julius Eastman and his music” (University of Rechester Press, 2015), coletânea de ensaios organizada por Leach e Renée Levine Packer.


A redescoberta de sua música ganha neste mês um novo capítulo. A Intakt Records lança hoje, 15 de junho, Julius Eastman: piano interpretations, álbum do Kukuruz Quartet. O grupo formado na Suíça pelos pianistas Simone Keller, Philip Bartels, Duri Collenberg e Lukas Rickli tem se dedicado à obra de Eastman desde 2014 e neste disco apresenta quatro temas, escritos entre 1979 e 1984: “Evil Nigger”, “Gay Guerilla”, “Buddha” e “Fugue no.7”. As peças aparecem em interpretações para quatro pianos, sendo que parte delas foi escrita para piano e outras não. “Buddha” é um desses exemplos: a peça, de 1983, não tem em sua partitura indicação de instrumentos ou de duração – há interpretações deste tema em versão para voz e coro, por exemplo.
A gravação do Kukuruz Quartet agora editada foi registrada em três dias em novembro e dezembro de 2017, no Radio Studio, em Zurique. O mesmo repertório foi apresentado ao vivo pelo grupo no evento documenta 14, em Atenas, também no ano passado.
O álbum abre com a menos conhecida e pouco executada “Fugue no.7”. Sendo a mais breve da seleção, com seus oito minutos, serve como uma introdução à sonoridade do quarteto e ao universo do compositor, com seu repetitivo e letárgico tema lentamente se desenvolvendo, em meio a esparsos clusters que aprofundam seu lado sombrio. Eastman chamava sua criação de “organic music” – críticos já rotularam seu trabalho como “minimalismo orgânico”. Pode soar vazio e impreciso falar em minimalismo hoje, em meio ao impressionante desgaste que o termo sofreu nas últimas décadas, com uso abusivo e superficial feito dele no mundo da moda, do pop e até da gastronomia. Mas, com um pouco de esforço, podemos isolar o termo para pensar na música minimalista surgida nos anos 60 nos EUA e que teve em Steve Reich talvez seu nome mais criativo. É com esse núcleo inventivo que Eastman dialoga, com sua própria visão das possibilidades estéticas desenvolvidas e oferecidas no período, trazendo para o ouvinte um universo hipnótico e de encantamento sensorial. O hipnotismo da música de Eastman se evidencia nestas interpretações para quatro pianos, com suas pulsações constantes que se desdobram em lentas transformações em meio a repetitivos motivos mínimos que ecoam nos ouvidos muito tempo depois de terem deixado de tocar.




“Evil Nigger”, o segundo tema apresentado, é um dos pontos máximos da obra de Eastman. Sendo uma de suas peças mais conhecidas e executadas, conta com versões que vão até 6 pianos, ampliando os seus efeitos únicos. Os dedos altamente ligeiros que abrem a peça agarram os sentidos e nos levam por uma ininterrupta viagem de pouco mais de 20 minutos da qual não se sai ileso. Escrita em 79, “Evil Nigger” costuma ser executada com quatro pianos – há inclusive uma versão neste formato com Eastman tocando um dos pianos –, mas sua partitura não traz instrumentação específica. Na sequência vem a menos conhecida “Buddah”, que provoca verdadeira quebra de escuta. Após o torvelinho de “Evil Nigger”, encontramos uma peça de detalhes mínimos, de silêncios e uso de técnicas expandidas para criar particulares ruidosidades. O álbum fecha com outro clássico de Eastman, “Gay Guerrilla”, criado na mesma época de “Evil Nigger” e, como esta, composta para instrumentos não especificados, mas normalmente tocada em quatro pianos. Com uma abordagem diferente de seu par, “Gay Guerrilla”, apresenta um melancólico lirismo, que se desenvolve de forma progressiva até atingir o ápice em sua segunda metade. São 30 minutos de música profundamente dolorida, que se apresenta especialmente comovente nesta leitura do Kukuruz Quartet. Um desfecho arrebatador para um dos mais importantes lançamentos do ano.





Julius Eastman: piano interpretations  *****
Kukuruz Quartet
Intakt Records


















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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)


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