quarta-feira, 27 de junho de 2018

PLAY IT AGAIN...






LANÇAMENTOS  Apanhado de novidades da free music (pianos e pianistas em destaque!).
Experiências em possibilidades variadas. 
Ouça, divulgue, compre os discos...





 





Por Fabricio Vieira


Poschiavo  ****
Cecil Taylor
Black Sun
A poética única do mestre Cecil Taylor (1929-2018) reaparece aqui em uma gravação realizada duas décadas atrás. Neste concerto de piano solo, Taylor apresenta apenas uma longa improvisação captada em 14 de maio de 1999 no Uncool Festival, em Poschiavo (Suíça). Os aficionados provavelmente já tinham ouvido esses 54 minutos de música em alguma versão pirata ou radiofônica (a gravação original é da RSI Radiotelevisione Svizzera), mas agora tem a oportunidade de ter o registro em CD para a coleção. Taylor foi um pioneiro dos concertos de piano solo improvisados, tendo explorado profundamente o formato a partir da década de 1970, deixando pelo caminho obras-primas como “Silent Tongues” (75) e “For Olim” (86). Quem teve a oportunidade de ver Taylor ao vivo (ele esteve no Brasil em duas oportunidades, em trio em 1989 e em concerto solista em 2007) sabe que esta era uma experiência única, daquelas que se guarda na memória reservada a momentos maiores. Ouvir Taylor é sempre uma forma de homenagear este que foi um dos mais geniais artistas do jazz, da improvisação, da música, enfim.






Movements in Freedom  ****(*)
João Lencastre’s Communion 3
Clean Feed

Communion é um projeto comandado pelo baterista português João Lencastre há mais de uma década, que conta com cinco diferentes registros feitos com formações variadas (quinteto, septeto etc.). Agora vemos esse seu projeto em versão intimista, com este Communion 3 trazendo ao lado de Lencastre apenas o pianista norte-americano Jacob Sacks e o baixista norueguês Eivind Opsvik. Apesar de estar envolvido com um outro grupo de piano-baixo-bateria (o No Project Trio), Lencastre mostra o quanto o formato pode ser fresco e surpreendente, apresentando uma visada muito distinta e particular – o que não é nada simples neste tipo de formação, uma das mais exploradas na centenária história do jazz. O trio apresenta aqui dez temas, sendo apenas a faixa de abertura, “Street Woman”, uma releitura (de peça de Ornette Coleman, do álbum Science Fiction, de 72). “Street Woman” funciona como uma introdução ao som do grupo, sendo que após ela mergulhamos nos temas criados e improvisados pelo trio. A belíssima “Rain Drops” inicia esse percurso, com o piano de Sacks em acordes esparsos e repetitivos, entrecortados por silêncios que vão sendo tomados pela percussão e o dedilhado do baixo; de intensidade crescente, como uma chuva que vai tomando os telhados, o piano chega a ecoar uma harpa, com os dedos cada vez mais acelerados, em meio ao toque de Lencastre que vai se encorpando e dominando os espaços, antes de o trio recuar ao modo sussurrante na última parte da peça – difícil começar de forma mais tocante. No caminho encontramos as breves “Movements in Freedom I e II”, que soam como intermezzos improvisativos que nos levam à delicada “Walk in Clouds”, marcada por profundo solo de baixo. “Your Free Will Lies Here” fecha o álbum mostrando toda potencialidade do trio, com Sacks inspiradíssimo em suas explorações. O título Movements in Freedom bem ecoa a proposta do trio, como ela se revela faixa a faixa. Para quem se deliciar com o álbum, há um extra disponível no Bandcamp de Lencastre, com quatro outras faixas, entre alternate takes e peça inédita.








Situations ****(*)
Simon Nabatov String Trio
Leo Records
O pianista russo radicado na Alemanha Simon Nabatov apresenta este seu novo inspirado projeto, o “String Trio”. A seu lado estão na empreitada o britânico Ben Davis (violoncelo) e o sul-africano Gareth Lubbe (viola). E o que eles nos oferecem é um encontro de grande inventividade que, se tem na improvisação livre sua base, bebe intensa e inegavelmente na música de câmara contemporânea. O registro demorou um pouco para sair (foi captado em novembro de 2015 no Loft, em Colônia), mas valeu a espera. O trio apresenta seis extensos temas inéditos, todos chamados “Situation” e mais alguma coisa – a faixa 1, por exemplo, é “Situation 1 Unfold-fold”. Após uma abertura lenta, que nos chega aos poucos, sem pressa, como se tateando em seus primeiros cinco minutos, saltamos para o intenso início de “Situation 2 Reverie”, marcado pelo violoncelo em melodia dolorosamente profunda acompanhado pelo piano. A explosiva abertura de “Situation 3 Sterne Looks” acende nossos sentidos, mas desce logo ao modo lírico, saltando depois a picos de intensidade e assim vai pelos seus quase nove minutos – aqui estão algumas das passagens maiores do álbum. Algo que provavelmente colaborou para o sucesso da empreitada foi o fato de os músicos terem trajetórias distintas: enquanto Nabatov é um experiente free improviser com cerca de três décadas de estrada, Lubbe é alguém que se criou no mundo erudito, sendo inclusive integrante da importante Orquestra Gewandhaus, de Leipzig, mas que já tocou também com artistas de rock e jazz. Já Davis tem como seu principal projeto o quarteto de cordas “Basquiat Strings”: tal encontro gerou um grupo inventivamente coeso e cativante, responsável por momentos de forte impacto.






Tender Music  *****
Joelle Léandre / Elisabeth Harnik
Trost Records

Duo que surgiu em 2016, o encontro entre a baixista francesa Joelle Léandre e a pianista austríaca Elisabeth Harnik ganha agora seu primeiro registro. Esta gravação marca o terceiro encontro entre as duas instrumentistas e o que temos é um resultado de altíssimo nível interpretativo e criativo. O equilíbrio entre as duas vozes encanta os ouvintes de uma faixa a outra, sendo o disco dividido em seis partes, todas chamadas de “Ear Area”. Ouvindo-as na sequência, sem interrupções, essas partes se revelam como parcelas de um todo uno, uma suíte na qual as ideias se desenvolvem de forma interconectada – mesmo que com certa autonomia expressiva. Léandre e Harnik criam aqui uma belíssima música de câmara, feita para ser apreciada em silêncio em um teatro ou sala de concerto, sem distrações. Léandre é um dos nomes maiores do baixo hoje, e ela mostra logo na faixa “I” a força de seu arco, algo que se aprofunda na faixa “III”, com técnicas expandidas gestando uma gama que parece infinita de sons perturbadores e desconcertantes, com o mais potente solo de Harnik surgindo entre o demolidor baixo. Antes disso, há a doçura do canto entremeando os instrumentos em “II”. E depois há o piano protagonista em grande parte de “IV” (Harnik – que já esteve no Brasil, com o Barcode Quartet, em 2015 – lançou no começo do ano um belo álbum de piano solo, “Ways of my Hands”, que merece ser ouvido). As liner notes são assinadas por Ken Vandermark, com quem Harnik tem trabalhado no DEK Trio. Um álbum imperdível.








Los Vínculos  ****(*)
Paula Shocron
Nendo Dango Records
Criação complexa, que se apresenta como uma “obra para cinta (o montaje sonoro) basada en las Variaciones Goldberg de J.S. Bach e improvisaciones en piano solo”, este ambicioso projeto da pianista argentina Paula Shocron é um desafio aos ouvidos. Peça pós-moderna por excelência, que une universos distantes mas com interconexões maiores do que a princípio podem parecer, Los Vínculos mergulha no manancial das Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), e, a partir e em meio a elas, desenvolve improvisações e intervenções montando, colando, unindo e intercambiando trechos de um espectro a outro, mas tudo de forma sutil e precisa – nada é gratuito ou aleatório. Para quem não conhece, a peça original de Bach é dividida em 32 seções. A obra começa com uma “Ária” e daí seguem 30 breves variações (muitas com apenas cerca de 1 minuto) desenvolvidas a partir desta Ária. O conjunto fecha com a retomada da Ária inicial e seu desfecho. Los Vínculos apresenta dezessete partes, não ficando claro o processo adotado por Shocron (podemos deduzir que ela gravou a peça toda de Bach e depois retirou e uniu fragmentos, adicionando suas intervenções) nem precisamente o quanto de cada “variação” original é resgatada em cada uma de suas peças. De títulos muito significativos, as faixas nos jogam ora no passado ora no presente ou nos remetem a um espaço-tempo indeterminado – como indica logo o tema de abertura, "El pasado-ahora"; curioso notar que a última peça é "Pasado-presente", como que retomando o início para fechar o ciclo, como ocorre nas Variações Goldberg. Uma boa síntese da proposta da pianista é "Sonido Primordial", que começa nos conduzindo pelo cenário barroco e nos arrasta por outros territórios, com um sombrio e fugidio tema surgindo por entre notas esparsas – uma variação da variação –, aos poucos se impondo sobre o sabor passado. Desconcertante.  A reflexão demandada pelo projeto fica bem representada no título "Hablar, Escuchar, Insistir, Transformar" (nesta peça vemos o tema bachiano preso em certo momento a um processo de repetição, em loop agredido por potente improvisação). E assim essa viagem vai se estruturando, nos arrastando por universos sonoros múltiplos... Ouvir Los Vínculos nos remete a um mundo imagético e não é difícil vislumbrar essa criação associada à dança ou mesmo a um filme, um vídeo. Shocron já mais do que provou ser uma sólida pianista e improvisadora, e agora nos mostra que é uma artista de grande inventividade composicional, de fina expressividade.











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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi também correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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