segunda-feira, 23 de abril de 2018

SOM NOS ARREDORES






LANÇAMENTOS  Destaques nacionais editados nos últimos tempos.
Experiências em várias formas. 
Ouça, divulgue, compre os discos.










Por Fabricio Vieira




5218  ****
Dentaduro
Fábrica de Sonhos
Novo trio com uma interessante formação conduzido por Bernardo Pacheco (baixo elétrico), Victor Vieira-Branco (vibrafone) e Pedro Silva (bateria), o Dentaduro faz esta sua estreia apresentando oito temas captados em fevereiro de 2018 no estúdio Fábrica de Sonhos (SP). Se à primeira vista, por sua formação, o Dentaduro remete a um trio como o "Sun Roons", sua proposta sonora é distinta, parecendo ser  menos aberto a solos ou ritmicidades de linhagem propriamente jazzística. Sua música se compõe de uma interação precisa e necessária entre os três instrumentistas, criando climas que ora destacam um elemento (como o pulso repetitivo e percussivo de baixo e bateria em "Déspota Esclarecido") ora outro (como a melodia quase dançante do vibrafone em "Curte-Curte"). A grande variação de duração das peças, que vão de um a dez minutos, aponta para uma concepção sonora na qual o que vale é o tempo preciso  para se desenvolver as ideias propostas, evitando devaneios desnecessários. O processo "em crescendo" que marca "Sus(surro)", por exemplo, com a bateria quase marcial acelerando a cada virada, enquanto o vibrafone passeia sem necessariamente acompanhar a pulsação cada vez mais intensa, chega a seu pico exatamente no 1m45 que faz a peça. No outro extremo está "Pai Amiga", na qual a construção se faz de forma mais dilatada, com as ideias surgindo e sendo concluídas (ou dando espaço a outras) sem pressa, como em um apanhado geral das propostas exploradas pelo trio.







Conduction BR#5  ****(*)
SPIO
Sê-lo
Um dos projetos mais interessantes em atividade na cena local, a SPIO (São Paulo Improvisadores em Orquestra) editou este seu primeiro registro oficial no fim do ano passado. Fruto de uma gravação ao vivo realizada em agosto de 2017, "Conduction BR#5" mostra a inventividade improvisatória deste extenso grupo marcado pela mutação de seus integrantes e, consequentemente, do que apresentam a cada vez em que se reúnem. Aqui, uma orquestra de 14 músicos é conduzida por Guilherme Peluci (tendo por base a teoria desenvolvida por Lawrence Butch Morris em seu trabalho "The Art of Conduction"), saindo deste encontro as quatro faixas reunidas no álbum. Tendo alguns dos principais nomes da cena free contemporânea nacional, o resultado é bastante empolgante, com momentos de muita vibração. Na linha de frente estão Romulo Alexis e Amilcar Rodrigues (trompetes), Richard Fermino (clarinete-baixo, flauta), João Ciriaco (contrabaixo), Natacha Maurer (ruídos) e Daniel Carrera (trombone, que tem assumido o comando da SPIO nos últimos tempos). Vale destacar a participação do experiente pianista Benjamim Taubikin que, por não lidar propriamente com a improvisação livre em seu trabalho cotidiano, traz uma percepção diferentes das possibilidades improvisatórias (além de ser um excelente pianista, toca um instrumento do qual a nossa cena free carece - e muito!), acrescentando um colorido distinto ao material, como mostra logo na abertura de "Tríptico I", com uma melodia sutilmente melancólica, à qual os outros instrumentos vão se agregando aos poucos, focando a coletividade do conjunto. As três primeiras peças, "Tríptico I, II e III", podem ser encaradas como uma pequena suíte, feita para ser ouvida integralmente, com as três partes dialogando diretamente, tanto em suas sutilezas harmônicas quanto nos momentos de maior destaque solista de um ou outro instrumento, como Firmino ao clarone em "II". Já a última peça, "Eric não Morreu", soa como um bis, sendo a mais curta e talvez a mais intensa do conjunto, com as ideias da SPIO trabalhadas de forma mais  compacta e direta. Participam também da gravação Filipe Nader  e Rafael Cab (saxes), Martin Herraiz e Daniel Mendes (guitarras), Rafael Ramalhoso (violoncelo), Edu Varallo (vibrafone), Jorge Amorim (bateria) e Daniel Puerto Rico (percussão).








Aluê  ****(*)
Airto Moreira
Selo Sesc

Este último registro de Airto Moreira tem muitas particularidades. Tendo trocado o Brasil pelos Estados Unidos no fim dos anos 1960, para nunca mais retornar definitivamente, Airto nunca tinha gravado um disco seu em território nacional - apenas fez isso com grupos dos quais participava em seus primeiros tempos, como o Quarteto Novo e o Sambalanço Trio. Captado em novembro de 2016 no Estúdio Gargolândia, em Alambari, interior de São Paulo, Aluê marca o retorno do mais internacional e reconhecido percussionista brasileiro ao país. A seu lado na empreitada estão: Vítor Alcântara (saxes tenor e soprano, flauta), Sizão Machado (baixos acústico e elétrico), Fabio Leandro (piano e teclados), João Neto (violão e guitarras), Diana Purim (voz) e Carlos Ezequiel (bateria). Com oito temas, Aluê soa bastante fresco e atemporal: a deliciosa faixa-título, por exemplo, poderia estar em algum de seus melhores trabalhos da década de 1970. O que o disco traz é música brasileira feita por alguém que esteve ligado ao melhor do jazz fusion, com Airto, no alto de seus 76 anos, soando muito solto e inventivo, explorando a percussão em suas múltiplas possibilidades (ouça a bela introdução de "Rosa Negra", uma das melhores do conjunto), além de tocar bateria em um tema ("Aluê"). Importante destacar a participação de Vítor Alcântara, muito seguro e inventivo, quer seja na flauta (como em "Misturada") quer seja nos saxes. O melhor momento de Airto nos anos 2000.





Onírico  **** 
Moksha Trio
Independente
O Moksha Trio chamou bastante atenção quando lançou seu disco de estreia, "Introspection", uma década atrás. Depois andaram meio sumidos, mas nunca deixaram de tocar o projeto. O trio original sofreu uma mudança no meio do caminho, com a troca de Felipe Alves por Anibal Garcia no baixo; mas o núcleo se mantém com Gilberto Ferri (piano) e Lauro Lellis (bateria). Captado em 2014, Onírico dá continuidade à empolgante proposta do primeiro álbum, de apresentar temas instrumentais com “elementos oriundos do jazz e da música erudita contemporânea, tendo como suporte estruturas rítmicas afro-brasileiras”, como explicavam quando surgiram. O disco é composto por seis novos temas (e mais dois bônus), sendo que o CD é acompanhado ainda por um DVD ao vivo. A faixa-título abre o conjunto e bem sintetiza o Moksha Trio, com uma música que extrapola o que se convencionou chamar de instrumental brasileiro, bebendo bastante no universo jazzístico contemporâneo, com muita liberdade improvisativa e tendo no inventivo piano de Ferri um de seus pontos centrais de apoio e ideias. Já a inventiva bateria de Lellis tem seu melhor momento em "In Música",  com um pulso potente e uma pegada quebradiça vibrando no corpo do ouvinte. O trio voltou ao estúdio no ano passado, mas saiu de lá apenas com uma seleção de revisitações a temas da música brasileira (sob o  duvidoso título "Brazilian Jazz"), se afastando de seu principal diferencial e marca mais forte. Esperamos que voltem ao rumo de onde extraem seu melhor.  






The First!  ***(*)
Lilian Carmona
Selo Sesc

Com 45 anos de carreira, a pioneira baterista brasileira Lilian Carmona ganha apenas agora a oportunidade de editar um disco como líder. Não à toa, o título escolhido para o especial registro foi  The First. Carmona revisita aqui 10 temas de compositores importantes em sua trajetória, com quem trabalhou nesse seu longo tempo em atividade. Para a empreitada, convocou um extenso grupo, com um amplo naipe de sopros. Juntam-se à bateria de Carmona: Paulo Jordão (trompete), Maycon Mesquita (trompete), Chiquinho de Almeida (flauta e sax tenor), Valdir Ferreira (trombone), Jorginho Neto (trombone), Daniel D'Alcântara (flugelhorn), Mauricio de Souza (sax alto e flauta), Bruno Alves (piano), Rodrigo de Oliveira (baixo) e Marcos Pedro (guitarra e violão). Há na seleção temas pinçados de Eliane Elias ("Barefoot"), Toninha Horta ("Aquelas Coisas Todas"), Débora e Dani Gurgel ("Dá Licença"), dentre outros nomes conhecidos da música nacional. Tudo é muito equilibrado, com arranjos bem conduzidos, nenhuma nota fora do lugar. Mas talvez falte um pouco de risco, de faísca...






Brazen Wolf  ****
Castro/ Los Santos/ Hill/ Rex
ASREC
Este álbum marca o encontro de músicos brasileiros e britânicos que resultou em um interessante quarteto. Formado por André de Castro (clarinete, piri coreano, drones), Leandro De Los Santos (baixo, harpa de metal, drones e ancinho), Timothy Hill (sax barítono) e Wayne Rex (bateria), o grupo apresenta três improvisações livres - infelizmente não é indicado quando e onde foi realizado o registro, mas provavelmente em Porto Alegre, de onde vem Castro, Santos e o selo ASREC, de Al Sand. O disco começa bastante climático, com "Howling Lakes of Lakota" em meio a ruídos e sax, como que em uma introdução, acompanhados logo pela bateria e o clarinete, criando uma atmosfera soturna que envolve rapidamente os ouvintes e vai crescendo em densidade. "Carpathian Killing Fields" mantém o esquema, mas especialmente com o rumo tomado pelos sopros (na realidade, eles estão algo mais profundos, algo mais contidos), pois Rex leva sua bateria a outras possibilidades, agora com uma ritmicidade mais marcada, acompanhado por uma linha de baixo bem definida; os dois sopros dialogam sem embates, entrando ora um, ora os dois em cena, tudo com muito equilíbrio. Em "Bergmann's Rule", que fecha o disco, Rex parece ainda mais solto, sendo acompanhado logo pelos dois sopros, com o clarinete assumindo o primeiro plano em solo de Castro entrecortado pontualmente pelas intervenções de Hill, que vão crescendo até termos os dois duelando pelo espaço. O nome do grupo vem dos dois projetos/duos que unem os britânicos ("Brazen Head") e os brasileiros ("Quinta do Lobo").
 





Lenho  ****(*)
Honorável Harakiri
Mansarda Records
Passados alguns anos desde que surgiu com sua energy music sem concessões, o trio Honorável Harakiri, de Porto Alegre, lança mais um título. O terceiro álbum do grupo formado por Diego Dias (sopros), Marcio Moraes (guitarra) e Michel Munhoz (bateria) é considerado por eles como uma "sessão perdida". O registro, realizado em março de 2016 no Musitek Estúdio, na capital gaúcha, foi considerado por eles insatisfatório por diferentes motivos e acabou arquivado e esquecido. Mas agora ele é desenterrado para satisfação de quem havia se empolgado com seus dois discos anteriores ("Honorável Harakiri" e "Os surdos herdarão a terra", ambos de 2013). Em  sete temas, o trio apresenta sua música de elevada tensão e ruidosidade. "Entalhe" abre o álbum em movimento aceleradíssimo, com Dias e Moraes como se estivessem em uma disputa de ataque-resposta, até a guitarra abrir espaço para o sopro (após pouco mais de 1 minuto) e, na sequência, o sopro ceder às cordas o primeiro plano, antes de voltarem a duelar. A mais curta "Farpa", na sequência, traz um esquema diferente, com Dias centrando a peça, atravessando-a de ponta a ponta. Já "Tora", a terceira faixa, é a mais potente, com o sax e a guitarra em solos enérgicos, de picos explosivos. Com mais este título, o Honorável Harakiri marca bem seu lugar na cena free nacional, com sonoridade e ideias bastante intensas.   




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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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