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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Free-conexões latino-americanas






CRÍTICAs  Um breve passeio pela free music gestada por latino-americanos de diferentes partes desse nosso canto no mundo...






Por Fabricio Vieira

Desde o pioneiro argentino Leandro Gato Barbieri (1932-2016), que caiu no mundo na década de 1960 para desenvolver seu próprio free jazz repleto de elementos latino-americanos, músicos de diferentes países da nossa região surgiram (e surgem!) interessados em criar e levar a música livre adiante.

Há cenas locais dedicadas à free music já reconhecidas no exterior, a destacar a da Argentina; há outras que pouco conseguimos ter acesso, mesmo que vozes pulsem inevitavelmente. Fato é que existem artistas ligados ao free jazz e à improvisação livre em diferentes cantos da América Latina, mas que, infelizmente, muitas vezes tocam somente para seus pares. Olhando para figuras um pouco mais conhecidas e outras que podem ser verdadeiras novidades, destacamos aqui músicos de diferentes países que têm ajudado a fomentar a free music em pontos diversos da América Latina. Selecionamos discos relativamente novos de nomes (um ou dois por país, como forma de mostrar que o free está vivo e presente em muitas paradas) dos seguintes lugares: Colômbia, Peru, Cuba, México, Uruguai, Panamá, Chile e Argentina.
Alguns deles partiram de suas terras em busca de possibilidades de expandir sua arte; outros ficaram em seus países, mesmo com as restrições que isso impõe. Mas o mais importante, no fundo, é continuarem a criar sua música, a viver por aquilo que os move. Com tantos sons na vizinhança, o que falta mesmo é uma integração latino-americana... Free the Jazz!





* CHILE *


Luis Toto Alvarez/ Edén Carrasco/ Martín Escalante
Ñaca Ñaca
Sploosh Records
Este explosivo registro reúne dois dos nomes centrais da free music do Chile: Luis Toto Alvarez (guitarra) e Edén Carrasco (sax tenor). A eles se junta o sax alto de Martín Escalante, natural de Los Angeles, mas que passou grande parte da vida no México, estando sempre dividindo parcerias com músicos da América Latina. Toto Alvarez desenvolve um importante trabalho de divulgação e desenvolvimento da música livre em seu país há quase duas décadas, tendo criado em 2001 o selo Acefalo Records e comandado festivais e apresentações de free music nesse tempo. Também tem firmado parcerias com músicos de outras paradas latino-americanas, como os argentinos Cecilia Quinteros e Leonel Kaplan. Este Ñaca Ñaca foi registrado ao vivo no Bob Rose, em Valparaíso (terra de Toto e Carrasco), em setembro de 2014. Distribuído em vinil limitado (250 cópias numeradas, 45 rpm), o álbum é composto apenas por um tema de cada lado. A faixa-título mostra cerca de nove minutos de sopros faiscantes, que deslizam sobre ruidosas intervenções da guitarra, em um processo que adentra a esfera noise, em improvisos rascantes e de alta tensão. No lado B, “Mina Evangelista” traz mais 11 minutos de elevada ruidagem, com o tenor abrindo os trabalhos como que chamando os outros, que em instantes se juntam e esquentam nossos tímpanos. Furioso encontro.





Felipe Araya
Solo: Cajón
Independente

Percussionista nascido em Santiago, Felipe Araya tem desenvolvido um pulsante projeto de estudos do cajón peruano (afora a bateria, seu instrumento base), com o qual tem criado  verdadeiras investigações de possibilidades sonoras. Trabalhando com artistas de seu país (como o saxofonista Edén Carrasco, com quem tem o trio Fuerza Labor, e o trompetista Benjamín Vergara), mantém também parcerias estrangeiras, sendo a principal o duo Réplica, ao lado da trompetista alemã Birgit Ulher. Ativo na bateria e na percussão pelo menos desde 1998, passou a centrar suas investigações no "cajón" há cerca de uma década. Esse trabalho é bem apresentado no álbum Solo: Cajón, captado em 2013 e que mostra suas inquietantes explorações, que podem ir de ruídos mínimos a pancadas ásperas, de passagens de sons ininterruptos a períodos entrecortados por quase silêncios, em um processo que cria estranhas texturas e desconcertantes possibilidades.    








* PANAMÁ *


Aquiles Navarro (Ortiz Duo)
Pulsations I
Neurosis Divina
O diminuto Panamá não é acanhado quando pensamos no universo jazzístico. De lá vem nomes destacados como o pianista Danilo Perez e o saxofonista Carlos Garnett. O Panamá também é a terra de um jovem trompetista que vem realizando um trabalho repleto de coisas interessantes: Aquiles Navarro. Ele descobriu o jazz na adolescência e estudou com Garnett e o famoso trompetista local Victor “Vitín” Paz. Depois, foi continuar sua formação nos Estados Unidos, tendo passado pelo New England Conservatory. Entre idas e vindas, Navarro vive hoje no Harlem e participa de um dos projetos mais intensos da atualidade, o quinteto Irreversible Entanglements. A crescente discografia de Navarro mostra a atenção que dá ao formato duo: há diferentes registros assim ao lado dos percussionistas Tcheser Holmes, Toni Drums e Miguel Ortiz, além do disco “Windows to the World Beyond”, com o pianista Eric Plaks. Neste Pulsations I vemos Navarro em duo com Miguel Ortiz, em registro recente captado no Panamá e editado pelo selo local Neurosis Divina, dedicado à música experimental. Além do núcleo trompete-bateria, os dois passeiam pelo moog e criam efeitos climáticos variados. Com sete temas, o duo panamenho mostra logo na peça de abertura suas potentes investidas, com o pulso firme e dinâmico de Ortiz sendo atravessado pelo sopro profundo de Navarro, em uma competente introdução à proposta do duo. Para descobrir o alcance das possibilidades exploradas por Navarro e Ortiz, vale ir direto a “Third Node Attendance” que, com seus 20 minutos, sintetiza essa parceria.








* PERU *

Trío Nuna
07.06.2014
Buh Records
Formado por Teté Leguía (baixo elétrico), Marco Mazzini (clarinete) e Pedro Fukuda (bateria), o Trío Nuna é um interessante testemunho da atual free music feita no Peru. Aqui há uma amostra do trio ao vivo, em concerto captado em junho de 2014 na Casa Shenan, no distrito de Barranco (Lima); apesar de ser apenas uma improvisação de pouco mais de 22 minutos, os instrumentistas demonstram uma linguagem já bem desenvolvida e com momentos fortes. Leguía tem se envolvido com diferentes projetos, tendo conduzido uma viva parceria com o saxofonista Martín Escalante e investido em um trabalho solista que rendeu o recente registro “Inoculación Fantasma”, no qual explora sonoridades ímpares em seu baixo, que por vezes soam como sopros ou investidas eletrônicas. Já o clarinetista Mazzini é um músico de sólida formação, que vem do campo erudito, e isso transparece em seus muito bem trabalhados solos e inventivas linhas melódicas (ouçam o que surge a partir dos oito minutos). Infelizmente há muito pouca informação sobre o projeto por aí, não fica claro nem se estão na ativa ainda nem se contam com registros de estúdio. O disco foi lançado pelo selo peruano Buh Records, que reúne músicos experimentais de diferentes frentes (improv, rock, eletrônico), sendo um importante documentador do que tem sido feito no país. 
 




Manongo Mujica
Huaca Sonora 
Independente
Este é o cume do trabalho do percussionista Manongo Mujica, pioneiro da free improvisation no Peru. Em atividade desde os anos 70, Mujica fez parte do seminal grupo "Perujazz", que ainda na década de 80 criou fama ao unir o jazz contemporâneo a elementos musicais peruanos. Neste Huaca Sonora, o percussionista apresenta sua obra em evolução, reunindo um conjunto de sete CDs e dois DVDs, captados em diferentes momentos de sua carreira, desde meados dos anos 90, englobando mais de duas décadas de pesquisa sonora na qual apresenta sua concepção de free impro ritualístico, repleto de elementos, sonoros e espirituais, da cultura popular. Vale destacar a explicação que acompanha o trabalho: “Huaca quiere decir cosa sagrada. La huaca es un objeto, fenómeno, lugar o ser en la cual se han concentrado las fuerzas de lo sagrado”. Nesta retrospectiva de sua arte, há discos solistas ("Ceremonia para Nadie", onde ele explora elementos percussivos de África, Índia e Austrália) e outros com parceiros, que podem ir de duos com piano – como "Poemas Instantáneos", ao lado de Martin Joseph, ou "Aeolico", com Mariano Zuzunaga – a trabalhos com sopros, cordas, voz e percussão (como "Zona Neblina" e "Autorretrato Sonoro"). Uma longa e instigante viagem pela inventiva história deste artista infelizmente pouco conhecido por aqui.








* CUBA *


Aruán Ortiz 
Cub(an)ism
Intakt Records
O pianista cubano Aruán Ortiz é o nome mais conhecido desta lista latino-americana. Tendo já trabalhado ao lado de Wadada Leo Smith, Chad Taylor, Gerald Cleaver, Nicole Mitchell, quem se interessa por free jazz deve tê-lo ouvido por aí. Nascido em 1973 em Santiago de Cuba, vive hoje no Brooklyn nova-iorquino e tem cada vez mais direcionado seus interesses à free music. Ele gravou pela primeira vez ainda nos anos 90, quando se mudou para a Espanha para prosseguir com sua formação pianística. Mas passou a aparecer mesmo apenas em meados dos anos 2000, quando já estava em Nova York, em meio a incursões por variadas vias jazzísticas. Nesse percurso, inegável a importância do ano de 2006, momento em que tocava com o trio de Esperanza Spaulding, quando ela era mais ligada ao jazz, participando de seu elogiado álbum “Junjo”. Daí começaria a desenvolver de forma mais centrada sua própria música e a ter sua voz crescentemente ouvida. Seu álbum “Cub(an)ism”, lançado no ano passado pela Intakt Records, é um belo exemplar do atual ponto da carreira deste vigoroso e inventivo pianista. Registro em piano solo, “Cub(an)ism” mostra um Ortiz no auge da maturidade e da inventividade, apresentado uma sonoridade própria e muito livre, mas sem ignorar suas  raízes cubanas e seus estudos na música erudita. "Louverture Op1 (Château de Joux)" abre o álbum de forma contundente, difícil escapar ileso e não querer prosseguir nessa descoberta.







* ARGENTINA *

Haiti
Haiti
Independente
Haiti é um potente trio de improvisação livre de Buenos Aires formado por Cecilia Quinteros (violoncelo), Sergio Merce (sax tenor) e Marcelo von Schultz (bateria). Essa formação em trio com um violoncelo no lugar do baixo tem gerado destacados projetos em tempos recentes (como o Motion Trio e o Ballister), e o Haiti mostra com este trabalho que deve ser juntado a tal lista de revelações. Cecilia Quinteros, que esteve no Brasil para o FIME 2015, tem desenvolvido um trabalho cada vez mais sólido e sua voz é vital neste projeto (quem quiser entender o porquê, vá direto ao minuto cinco do segundo tema e verá as assombrosas camadas de densidade criadas por ela; ao vivo deve vibrar nos ossos!). Com a firmeza e inventividade mostradas também por Merce e von Schultz, o Haiti se revela nesta estreia como um projeto pronto para estar em qualquer palco dedicado à free music, seja onde for. Os quatro temas apresentados no álbum se chamam “Region” (1, 2 etc.) e formam um conjunto uno, uma longa peça dividida em quatro seções. Mas o núcleo do álbum é “Region 3”, a mais extensa com seus 21 minutos e a peça na qual os músicos não só têm mais folga para desenvolver suas ideias improvisativas como para exibir a elevada comunicação que caracteriza o trio, além dos momentos mais ariscos e explosivos. A unidade do trio é “invadida”, mas sem choques, em dois dos temas registrados que contam com a participação do suíço Christoph Gallio (saxes alto e soprano), que estava de passagem pela Argentina quando a gravação ocorreu. O registro foi feito em abril de 2017, no Estudio Libres (BsAs), e é obrigatório para quem quiser conhecer um pouco mais da cena free argentina.
 





Roi Maziaz
Xaxaxaxax
Adaptador Records
O saxofonista Roi Maziaz tem desenvolvido sua música distante da capital argentina, onde está o núcleo da free music do país. É em San Luis que Maziaz tem reunido seus grupos e criado seus esteticamente variados projetos, com algumas dezenas de títulos já editados. Além de saxofonista, ele também toca guitarra e piano, sendo um verdadeiro adepto da cultura DIY. Nesta gravação realizada em fevereiro de 2017, Maziaz, que toca saxes barítono e soprano, clarinete baixo e piano, é acompanhado por Yon Manuell (baixo), Emilius Bertha (percussão) e Nando Csiama (teclados) para explorar seis novos temas. O som apresentado, de um modo geral, é um pouco mais contido, diferente da energy music que marca boa parte da produção de Maziaz – isso fica bem marcado em temas como “Santos-Locos” e “Gnitaheidr”. A versão mais pulsante do instrumentista aparece na faixa-título, com o baixo em ondulante linha entrecortada pelo sopro crescentemente arisco. Infelizmente é difícil ter acesso à interessantíssima obra de Maziaz; já que seus discos, majoritariamente artesanais, são quase impossíveis de serem encontrados, ele deveria reuni-los em alguma plataforma de streaming para poder levá-los a mais ouvintes.








* URUGUAI *

Alvaro Rosso (Basso 3)
Meia Catorze
Pássaro Vago
Da pequena e sempre agradável Montevidéu vem um baixista que tem se destacado nesses tempos na intensa cena portuguesa: Alvaro Rosso. Vindo da capital do Uruguai, Rosso primeiramente estudou baixo na Escuela Universitaria de Musica de Montevideo. Formado, decidiu aprofundar seu conhecimento técnico do instrumento na Europa, a partir de 2006, chegando primeiro à França – onde se aproximou mais intensamente da improvisação livre –, indo depois para a Espanha fazer mestrado e, finalmente, desembarcando em Portugal. Vivendo em Lisboa há alguns anos, tem tocado com importantes instrumentistas locais, em projetos de variados enfoques, que o levaram a participar de vários discos, a maioria editado pelo selo Creative Sources.  É membro do Lisbon String Trio, ao lado de Ernesto Rodrigues e Miguel Mira, tendo também já gravado com Carlos Zíngaro, Blaise Siwula e a Variable Geometry Orchestra. Rosso aparece neste "Basso 3" junto a dois outros contrabaixistas (como sinaliza o nome do grupo), os portugueses José Miguel Pereira e Miguel Campos. Os três criam música de alta categoria, feita para ser ouvida com atenção aos detalhes e à rica harmonia, desenvolvida em seis temas de colorações variadas. Já muito integrado à cena portuguesa, Rosso é uma voz que encontrou seu espaço na Europa e será muito bom se gerar (já estaria?) ecos em sua terra natal.



 




* COLÔMBIA *


Duo Brutus
Libre de Soya
MitHFotU Records
Grupo colombiano formado por Jairo Rodriguez (sax alto) e Santiago de Mendoza (bateria), o Duo Brutus retoma esse clássico formato do free em um encontro por vezes bem intenso. Rodriguez também é baixista (curiosamente tendo feito mestrado em música focado em baixo elétrico no jazz), mas não traz esta sua faceta ao Duo Brutus. Em atividade, ao que parece, há quase uma década (não há muitas informações por aí), o duo colombiano parece ter apenas este álbum, registrado em 2015 no Ahum Studio (Bogotá). Há vídeos de outras sessões, inclusive com a adição de outros parceiros, como uma curiosa participação de Sebastian Rozo no eufônio. Libre de Soya tem nuances variadas, sendo a intensa “Escaleras & Toboganes” o melhor cartão de visitas ao duo. “Para Albert”, provavelmente uma homenagem ao mítico saxofonista, já é mais melancólica, com algo que remete até a uma marcha fúnebre. “Siglo XXII” tem um clima diferente, com Rodriguez tirando sons também de um sintetizador, que dão um outro tom ao duo. O disco fecha com a faixa-título, de forma quase relaxada, nos afastando dos momentos mais ariscos do duo. Um projeto interessante que vai além da energy music que bem caracteriza muito da música criada neste formato.






Pacho Dávila
Invisible Fire Multitongues
Independente
O saxofonista colombiano Francisco 'Pacho' Dávila tem se destacado por seus variados projetos jazzísticos e ligados ao free impro, que tem desenvolvido de forma ampla a partir dos anos 2000. Dávila é um saxofonista que sabe explorar linhas melódicas e elementos populares em meio a investigações de vigor free jazzístico mais demarcado. Inquieto, tem quando pode ido a países onde o free pulsa mais fortemente, tendo já colocado para funcionar vários projetos, espalhados em álbuns de resultados distintos, como "Canto Mestizo" (2004), em que a improvisação encontra o folclore colombiano, e "Invasores del Espacio " (2006) e "Pendulum" (2009), mais centrados na herança free jazzística, sendo este último registrado durante uma passagem sua por Nova York e contando com a participação do grande percussionista Pheeroan Aklaff. Seu mais novo projeto, "Invisible Fire Multitongues", foi desenvolvido na Alemanha, para onde foi em anos recentes. Um quinteto, reúne, ao lado dos saxes de Pacho Dávila, Nils Ericson (trompete), Mia Dyberg (sax), Anette Wizisler (piano), Marcello Busato (bateria) e Adam Woodwin (baixo). O disco que apareceu há pouco com este grupo (ao que parece, a estreia) traz de faixas com uma linha temática bem marcada, como a dançante “Freedom Kebab", a outras bem diretamente explosivas, como "Multitongues".  A gravação do quinteto disponibilizada por Pacho, um free impro coletivo que sabe mostrar muito vigor, foi realizada no ano passado e não ganhou edição física (parece o álbum não ter mesmo nem uma capa propriamente dita), apenas digital. Uma interessante amostra do que o músico colombiano tem feito.   






* MÉXICO *


Germán Bringas
Tank Tromp
Jazzorca Records

O saxofonista Germán Bringas (Cuidad de México, 1965) é um dos nomes centrais da cena free jazzística mexicana. E não apenas por seu trabalho como músico: Bringas está por trás do café  Jazzorca, pico onde acontecem apresentações de free music desde os anos 90, sendo também criador do selo Jazzorca Records, responsável pela edição de algumas dezenas de títulos de free, com destaque para músicos locais. Bringas, em atividade desde os anos 80, tem levado sua música para além fronteiras, com sua trajetória trazendo parcerias com Evan Parker, Chris Corsano, Akira Sakata, dentre outros. Seu projeto mais conhecido é o Zero Point, trio que conduz ao lado do baixista  também mexicano Itzam Cano e do baterista suíço Gabriel Lauber, com quem editou na Europa o álbum "Plays Albert Ayler" (2006), pelo selo Ayler Records, sendo um grupo no qual a herança free jazzística é basilar. Tank Tromp, projeto originalmente registrado em 2009, é uma investida solo de Bringas na qual, além do sax, toca trompete e objetos percussivos desenvolvidos por ele, como o criado a partir de botijões de gás. O registro foi feito em uma ponte, sendo que sons da cidade acabam se integrando às composições. Bringas é uma figura fundamental não só em seu país, mas na cena free latino-americana como um todo.






Remi Álvarez
Intuición y Resistencia
Lengua de Lava

Na ativa desde os anos 80, o também saxofonista mexicano Remi Álvarez tem em sua trajetória parcerias com grandes baixistas como Mark Dresser (com quem gravou em duo "Soul to Soul"), Joe Fonda e Ingebrit Haker-Flaten, além de ter estudado com Steve Lacy e Evan Parker. Ao lado de German Bringas e da pianista Ana Ruiz, é um dos mais antigos e ativos músicos ligados à improvisação livre em seu país. Dentre os destaques de seu currículo, vale citar que em 2006 participou do Vision Festival, em grupo comandado por Dennis González. Nascido na Cidade do México, Álvarez toca grande parte da família dos saxofones, partindo do tenor e passando por alto, barítono, soprano, além de flauta, instrumento que estudou na universidade. Sua primeira incursão solo é este Intuición y Resistencia, que apareceu em 2015. Com 10 temas, vai de faixas com traços melódicos mais explícitos (como "A la Resistencia") a outros em que explora ruidosidades improvisatórias mais extremas, como nas seis partes chamadas "Intuición".  






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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)