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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sons de Portugal – I (Marcelo dos Reis)




LANÇAMENTOS  Da intensa cena free de Portugal, destacamos discos recentes lançados pelo guitarrista Marcelo dos Reis, só e com grupos dos quais faz parte...




Por Fabricio Vieira


Um dos nomes centrais da novíssima música improvisada de Portugal, o guitarrista Marcelo dos Reis, 32 anos, tem apresentado uma excitante discografia que ganhou corpo rapidamente nos últimos anos. Primeiramente tendo se dedicado mais à seara rock, passou a explorar o universo do jazz e da free impro depois de estudar música formalmente, focando-se na guitarra clássica. Envolvido com projetos diversos (Open Field, Fail Better!, Chamber 4, Pedra Contida, Staub Quartet, In Layers), dos Reis também comanda o selo Cipsela Records, responsável por lançamentos de fina fatura com títulos inéditos de nomes destacados do free português e global (como Joe McPhee, Joelle Leandre e Rob Brown). Radicado em Coimbra, dos Reis trabalha com guitarra acústica, elétrica e preparada, explorando um universo sonoro muito particular e de inventividade múltipla. Mais um nome que aguardamos com ansiedade poder ver em nossos palcos...




Cascas  ****(*)
Marcelo dos Reis
Cipsela
Começando com seu título mais recente, Cascas apresenta Marcelo dos Reis em versão solística. Munido de guitarra com cordas de nylon (preparada em algumas faixas), ele explora sete temas em que exibe amplos aspectos de sua música. “Sónica” abre o trabalho com um repetitivo toque, algo de sabor quase minimalista que prepara os ouvidos para a viagem pelas cordas a que o músico nos convida. À sonoridade limpa de “Molusco”, o próximo tema, segue-se a mais inquietante peça, “Crina”. Construída por um ranger crescente, como que um serrote cada vez mais acelerado, a desconcertante peça nos deixa sem rumo e fôlego, em uma exploração de elementos acústicos pouco usuais e de grande efeito. Daí chegamos a “Bostik Azul”, outro tema inebriante, em que parece que estamos percorrendo as sendas abertas por John Cage e seus “preparados”, em que sons parecem não vir de onde vêm. “Minerva” e “Corvo” nos remetem mais à experiência do tema de abertura, indo a campos mais límpidos. Cascas resulta em um trabalho de grande força expressiva, que exibe bem a amplitude da obra deste artista.






Amethyst  ****
Pedra Contida
FMR Records
O quinteto Pedra Contida volta neste seu segundo título com a particularíssima sonoridade que tem rendido elogios desde seu aparecimento. A curiosa formação do grupo é: Nuno Torres (sax alto), Angélica V. Salvi (harpa), Miguel Carvalhais (computador), João Pais Filipe (bateria) e Marcelo dos Reis (guitarra elétrica). O álbum foi gravado ao vivo no Salão Brazil, em Coimbra, em novembro de 2015, e traz cinco novos temas. “Scree” inicia o conjunto com a encantatória harpa de Salvi, que funciona como uma introdução, abrindo os espaços para os outros instrumentos irem chegando; logo faz-se notar uma discreta guitarra (e é interessante se atentar a dos Reis em seu modo elétrico) e, aos poucos, a entrada do sax de Torres, que vai ganhando protagonismo após o meio da peça. “Chalk”, na sequência, surge em outro modo, algo mais propriamente free jazzístico, mais enérgico e vibrante especialmente pelas atuações de guitarra e sax, que fazem deste o tema mais intenso do conjunto. Outro grande momento é “Obsidian”, em que dos Reis e Torres mais uma vez concentram as voltagens mais elevadas, com destaque para a segunda metade da faixa.






City of Light  ***** 
Chamber 4
Clean Feed
Após sua impactante estreia em 2015, o quarteto Chamber 4 retorna com este álbum ao vivo. Ao lado de Marcelo dos Reis formam o grupo o também português Luís Vicente (trompete) e os irmãos franceses Théo Ceccaldi (violino e viola) e Valentin Ceccaldi (violoncelo). Esta singular formação oferece, mais uma vez, alguns dos momentos sonoros maiores do ano, mas aqui em um enfoque um pouco diferente do álbum de estreia, com a tensão centrada em três temas extensos e ideias desenvolvidas de formas mais amplas. Dividido em três partes (de 14, 16 e 19 minutos), City of Light foi captado ao vivo em abril de 2016, no Le Soirées Tricot Festival, em Paris. O álbum inicia de forma serena, com a guitarra em dedilhado pontual e os arcos pelas cordas sendo atravessados pelo sopro profundo e doído de Vicente, que vai puxando os músicos em crescente tensão, com um tema triste emergindo com vagar do violino. Essa abertura inebriante começa a adentrar esferas mais rascantes após os cinco minutos, com ataques aqui e ali nos instrumentos crescendo até explodirem em uma massa ruidosa lá pelos oito minutos, até perder intensidade gradativamente. A “Part II” já começa em outro modo, iniciando em alta tensão que se dilui mais à frente, em meio ao solo de violoncelo que se desenha a partir dos quatro minutos. A mais breve “Part III” abre com um ar mais camerístico, com as cordas centrando os ouvidos e nos conduzindo a um final em que o trompete vai como que apagando os vestígios mais explosivos que ficaram pelo ar. Mais um belo registro desse fantástico quarteto.  




 

House Full of Colors  **** 
Staub Quartet
JACC Records
Este quarteto de cordas estelar português traz Marcelo dos Reis, Carlos Zíngaro (violino), Miguel Mira (violoncelo) e Hernani Faustino (baixo). Neste seu álbum de estreia, o grupo adentra o universo camerístico em seis improvisações coletivas de elevada inventividade. Os sugestivos títulos ajudam o ouvinte a pré-imaginar o que irão escutar – mesmo que os temas soem surpresivos em seu desenvolvimento. Como na introspectiva “Quiet Arcs”, que abre o disco. Da algo soturna “Opacity Rings”, desembocamos em “Knots of Light”, tão incrivelmente explosiva que por vezes parece que as cordas estão sendo atacadas por imaginários sopros e percussão. Já em “Resonant Shades” brilha o dedilhado de dos Reis, com a guitarra acústica em quase-canto contrastando com os arrastados sons extraídos com os arcos pelos parceiros. Este tocante encontro, também registrado ao vivo no palco do Salão Brazil (Coimbra), em setembro de 2015, fecha com “Discrete Auroras”, de ruidosa intensidade crescente que apenas se dissolve no minuto final, deixando nossos ouvidos apenas com o eco das cordas.






Timeless  *****
Marcelo dos Reis / Eve Risser
JACC Records
Nesta parceria genial entre duas figuras brilhantes da cena free contemporânea, Marcelo dos Reis une sua guitarra ao piano da francesa Eve Risser em um duo desconcertante. Captado ao vivo em 20 de outubro de 2016, no festival Jazz ao Centro (Coimbra), Timeless nos leva a um universo de sons improváveis e cortantes, em um diálogo de inventividade infinita. Munidos de seus instrumentos nas versões acústica e preparada, dos Reis e Risser criam sete temas marcantes, bastante distintos entre si, mas que formam um todo indiscutivelmente coeso e uno. Até por ser um registro ao vivo, o ideal seria ouvi-lo na íntegra e na sequência. Mas é grande a tentação de sugerir o início da audição pela fantástica “Timewheel”, marcada pela exploração do piano preparado sobre a qual o toque da guitarra ora ataca ora se une, em uma conversa que parece soar por vezes múltiplas vozes – impossível parar a audição após estes atordoantes momentos. Voltando ao início, temos “Sundial” abrindo o álbum com bastante vagar, com toques esparsos, quase solenes, nos teclados e nas cordas, em um jogo detalhístico que vai se repetir em “Hourglass”, com sons que nos envolvem e convidam os sentidos a se perderem. No caminho, nos deparamos com o contraste dos pingos acústicos de “Chronometer” e as impressionantes cascatas sonoras que eclodem no meio de “Pendulum”, chegando a soar como intervenções eletrônicas. Espera-se que esta não tenha sido uma parceria de ocasião: que outros capítulos deslumbrantes como este possam surgir...  

 




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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)