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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Rômulo Alexis: “O ruído ainda é uma potência expressiva”



ENTREVISTA  Atravessando um ponto destacado em sua trajetória artística, o trompetista Rômulo Alexis falou com o FreeForm, FreeJazz sobre seu percurso, ideias sonoras, planos e projetos...





Por Fabricio Vieira

Quem acompanha nossa cena free provavelmente já teve a oportunidade de ver o trompetista Rômulo Alexis em ação. Ligado a diferentes projetos e parcerias, o músico radicado em São Paulo é uma das vozes contemporâneas mais vivas e intensas (“um soprador abrasivo e acutilante”, como escreveu Rui Eduardo Paes na Jazz.pt) – para os que não foram apresentados a seu trabalho, recomendo começar pelo álbum solo “Phylum” (2014), no qual o artista apresenta múltiplas faces de sua ampla abordagem expressiva. O trompetista lançou há pouco “Radio Diaspora 2”, o segundo título do instigante duo que mantém com o baterista Wagner Ramos.
Rômulo, que acaba de embarcar para uma temporada na França, conversou com o FreeForm, FreeJazz...



Como chegou ao trompete e como se deu sua aprendizagem do instrumento?

"Comecei artisticamente como cantor em uma banda que se inspirava no Parliament/Funkadelic, em Mogi das Cruzes, no fim dos anos 90. Chamava-se Decidelic. Mas antes disso, durante a infância, eu toquei corneta na fanfarra no fim do ensino fundamental. Já em São Paulo, por volta de 2005, após o fim do Decidelic, eu não conseguia arranjar nenhum grupo pra cantar. Quando falava que era vocalista, os músicos saíam correndo. Morava com um amigo que tinha uma corneta e comecei a soprar ludicamente. Resolvi que queria comprar um sax. Juntei um dinheiro e quando vi os preços comprei um trompete mesmo. Morava em Pinheiros, a duas quadras de uma escola de música, na Teodoro Sampaio. Meu primeiro professor, quem me apresentou o instrumento, foi o Osmar Wagner, que está até hoje por ali. Fiz dois meses e segui me desenvolvendo empiricamente. Anos depois, fiz aulas pontuais com o trompetista cubano Jorge Ceruto e com o Maguinho D’Alcântara, pai do Daniel D’Alcântara. De 2010 a 2013, participei das oficinas de improvisação com músicos improvisadores promovidas na gestão de Juliano Gentile no Centro Cultural São Paulo (CCSP), mas o processo fundamental em minha formação como músico criativo se deu na banda Jazsmetak, em 2008."


Sei que já teve diferentes projetos de variadas visadas estéticas. Gostaria que falasse um pouco do seu percurso como músico.

"As primeiras bandas nas quais toquei trompete efetivamente foram o Jazsmetak e o Experimento Prosótypo. A segunda foi um projeto do coletivo Poesia Maloqueirista, algo como uma banda sarau-rocker. Já o Jazsmetak, banda na qual entrei a convite do baixista Rodrigo Gobbet, foi uma usina de invenção, formada por músicos pesquisadores que se interessavam pela confluência do free jazz multi-instrumental do Art Ensemble com as plásticas sonoras do criador suíço radicado no Brasil, Walter Smetak. Paralelamente, colaborava com performances, trilhas de dança e teatro. Fundei com a artista Leila Monsegur a Membrana Fiat Lux, que funciona como um coletivo colaborativo de criação multilinguagens. Me aproximei em meados de 2010 dos músicos Jorge Peña e Eduardo Contrera, com o qual estamos criando um novo projeto para 2018. Em 2011, após uma oficina da improvisadora e pesquisadora espanhola Chefa Alonso, surgiu o Circuito de Improvisação Livre de São Paulo, uma aglutinação dos participantes, cuja grande maioria se conheceu ali e sequer imaginava a existência de uma comunidade de praticantes de improvisação em São Paulo. O Circuito gestou alguns pequenos combos, como o Mnemosine 5, que gravou um disco. Anos depois formei o OgØ, com Rodrigo Gobbet, projeto que terminou antes de gravar. Já o Radio Diaspora surgiu em 2015."


E a descoberta do free jazz e da improvisação livre? Se considera um músico estritamente ligado a essas expressões sonoras – um free improviser, como diriam lá fora?

"Me considero sim um improvisador. Gosto dos processos de composição também. Sinto que os europeus têm um fetiche pela técnica, pela catalogação. Não tenho a inquietação de me restringir a uma definição estrita."


Muitos se esquecem ou desconhecessem que emblemas do underground musical estão diretamente associados aos tempos primeiros do free jazz, como o DIY ou a música como veículo de protesto e conscientização sócio-política. Você vê o free ainda hoje como um ponto de resistência política e cultural? Qual o papel desempenhado por esta música nos dias atuais?

Foto: Luiz Galvão
"Enquanto apreciação, a música free ainda é uma expressão que está fora da área de conforto da cultura de massa. Não dá para ser usada como música ambiente ou receber visitas ouvindo um Frank Wright, por exemplo. A música oferece muitas experiências singulares. A ideia de free pra mim tem muito a ver com a liberdade de se reinventar criativamente. O trabalho com o Radio Diaspora entra um pouco neste lugar de protesto e conscientização das questões da diáspora africana no mundo. O ruído ainda é uma potência expressiva, principalmente quando trabalhado em relações musicais com dinâmicas e silêncios. Não sei se estas expressões artísticas cumprem um papel. Talvez cumpram infinitos papéis. Suas qualidades para mim, entre muitas, são as de: expressar as infinitas possibilidades de organização do som em música; a possibilidade de se ouvir os sons de modo mais amplo; a constatação de que a música não está restrita aos procedimentos acadêmicos e de que qualquer pessoa pode, se quiser, deixar fluir sua personalidade sensível através da improvisação/criação musical/sonora."


Queria que falasse especificamente do Radio Diaspora, o duo que mantém ao lado do baterista Wagner Ramos e com o qual acaba de editar um novo álbum. Como surgiu o projeto, como vocês trabalham as peças e, especificamente, como se deu a criação de “Radio Diaspora 2”?

"O Radio Diaspora surgiu em 2015 de um convite do baterista Wagner Ramos para iniciarmos um processo de improvisação livre sem fins lucrativos, ou seja, sem a pretensão de agradar nem o público leigo nem o especializado. O conceito do projeto foi surgindo aos poucos e dando voz a nossos incômodos com a invisibilidade de artistas pretos. É comum bandas só de músicos brancos, mas uma banda só de negros ainda causa desconforto. Na verdade, isto é um fenômeno social. Grupos só de pessoas brancas é algo visto como normal e só o fato de um grupo de negros se reunir já é visto como uma ameaça pela sociedade. Queremos investir nestas ameaças simbólicas. Estamos presenciando uma ascensão de atos de violência contra as minorias que se amparam na indiferença das pessoas de “bem” e na certeza da impunidade por parte de órgãos do Estado, principais promotores da violência, seja ativamente através da violência policial, seja através da negligência da justiça dos homens brancos. Resolvemos manifestar estes e outros desconfortos através desta fórmula de somar fonogramas diversos a uma estética enérgica de ruído, utilizando de muitos efeitos e somas de camadas. A intenção é a de criar um hipertexto sonoro pungente. Estas gravações que lançamos agora fizemos no primeiro semestre de 2016, depois disso nosso entrosamento cresceu muito. Acabamos de gravar para um lançamento previsto para janeiro de 2018. Fora isso, temos um álbum gravado no ano passado com os músicos portugueses Jorge Nuno e Francisco Trindade (Monsieur Trinité), que pretendo lançar na Europa, e um EP gravado com o rapper e ativista Ba Kimbuta, que lançaremos pelo Sê-Lo! Netlabel ainda este ano."




Um músico como você, ligado às searas mais radicais, consegue sobreviver de sua obra no Brasil?

"Apenas com atividades musicais não consigo. Transito desde sempre por outras áreas profissionais, como arte-educação, produção artística, ilustrações e trilhas sonoras. Trabalhei nos últimos três anos e meio como animador cultural no Sesc SP, na programação de música. Consegui, após um ano de insistência, emplacar um projeto dedicado à música experimental no Sesc Pinheiros, o Exploratório. Felizmente, acho que assistimos a um crescimento de público nestes últimos anos para a música free."
 
Ao menos desde 2010, vimos importantes mudanças em relação ao free na cena local, com músicos surgindo, selos, eventos e a formação de um público que, se não é tão grande, já existe. Como é fazer parte desse processo e vivenciar essa música sendo criada por aqui?

"É instigante sentir esta efervescência. Na Europa, esta é uma cena consolidada, embora ninguém enriqueça nesta seara. Aqui na América Latina, ainda falta um trânsito entre os artistas. Festivais como o Novas Frequências, FIME, Tsunami, a programação de Daniel Carrera à frente do IMPROVISE!, conseguem promover algum intercâmbio movimentando artistas e produções ignoradas pelas instituições culturais. Os selos independentes também colaboram com a disseminação destes valores sonoros. Acho que, a exemplo da Europa, uma rede internacional formada por artistas, produtores e instituições, com um olhar para formação de público, workshops, encontros entre improvisadores, gravação e distribuição de uma discografia será crucial para uma verdadeira consolidação destas vertentes junto a um público um pouco mais abrangente."


Você parte agora para uma temporada na França e esteve em Portugal no ano passado, onde se apresentou e tocou com músicos locais. Qual a importância desse intercâmbio internacional para você como artista? Pensa em se estabelecer no exterior?

"Estes trânsitos são muito enriquecedores. Ampliam nosso horizonte cultural. Enquanto improvisador, me interesso por tocar com pessoas que não conheço. Sinto que nestes contextos, onde você não sabe com que materiais terá de interagir, a improvisação se dá de modo mais livre, pois você tem que lidar com materiais não previstos. É diferente de tocar com alguém cujo estilo você já conhece. Existem recursos utilizados em improvisação livre que são clichês iguais aos utilizados no jazz. Não se sentir refém destes recursos é talvez a assinatura de liberdade que desejo imprimir em minha expressão. A princípio, não tenho interesse em me estabelecer na Europa. O que desejo é estar em trânsito. Conseguir levar meus trabalhos um pouco mais longe. A pulsão é esta."


Como ouvinte, por onde andam seus interesses? Poderia citar 5 discos de free jazz/ free impro que considera essenciais?

*The Great Concert Of Eric Dolphy (1974, Eric Dolphy e Booker Little)

Ainda dentro da esfera jazzística, mas já com arestas free em suas abordagens, esta coletânea reunindo as gravações deste quinteto de Booker Little e Eric Dolphy no clube Five Spot, em 1961, é um material sonoro ao qual eu sempre retorno. Eric Dolphy revolucionou o jazz tanto em sua abordagem musical quanto timbrística. Ele reinventou o clarinete-baixo na música popular. Booker Little era dono de um estilo de trompete que remetia ao gênio de Clifford Brown, mas com uma assinatura singular em composições cheias de saltos melódicos e harmônicos delirantes.



*Mu (1969, Don Cherry e Eddie Blackwell)
Don Cherry para mim é a figura fundamental da música free e daquilo que posteriormente foi chamado de world music. Em sua prolífica discografia fiquei em dúvida entre os discos dele com Naná Vasconcelos (nosso Pelé do free), dele com Ornette, mas me decidi pelo clássico Mu, com Ed Blackwell. A linguagem de duo em improvisação é das que mais tem me interessado. Neste formato, existe espaço para uma comunicação mais sutil e direta entre os improvisadores. Em Mu, Cherry e Blackwell desfilam em timbres com liberdades e silêncios inspiradores. A flauta de Cherry na faixa Omejelo, acompanhada da percussão de Blackwell, é um dos momentos mais bonitos da música free.



*Resonant Spaces (2008, John Butcher)
Já no free europeu este disco do saxofonista John Butcher é um exemplo de música exploratória. Aqui cada take explora a relação acústica do instrumento com um ambiente. Em julho de 2012, ele e Eddie Prévost ministraram um workshop de improvisação e se apresentaram no Centro Cultural São Paulo. Foi possível ouvir no espaço da biblioteca, onde ocorreu o concerto, esta exploração ao vivo. No disco, destaco a faixa Simpathetic Magic (Stone), que apresenta uma miríade atmosférica abstrata de sons gerados no saxofone através de uma multiplicidade de técnicas.


*Lingual Music (2007, Lily Greenham)
A dinamarquesa Lily Greenham é uma das figuras seminais da música eletrônica e experimental. Lily produziu suas obras através da manipulação da voz tanto em performances ao vivo quanto eletronicamente, através dos procedimentos de estúdio e eletroacústica. Este disco é uma coletânea de trabalhos radiofônicos e registros ao vivo de toda sua carreira. São faixas radicalmente heterogêneas, com infinidades de abordagens sonoras. Tilid é uma vinheta de jazz modal com abordagens vocais de poesia sonora. Já Polar Polaris é um longo take onde a paisagem do som vai se transformando lentamente através de um acúmulo de informações sonoras. Não é exatamente um disco de free, mas é um trabalho que expande a audição radicalmente.


*Coin Coin Chapter One - Gens De Couleur Libres (2011, Matana Roberts)
A saxofonista, cantora e compositora Matana Roberts conseguiu neste trabalho fazer algo como que um resumo para o vestibular das tradições musicais do black jazz avant-garde norte-americano. Há aqui ecos de Duke Ellington, Mingus, Roach, Abbey, Coltrane, Ella, entre outros, que longe de surgirem frios e catalogados, aparecem como informação trabalhada com elementos contemporâneos. A orquestração free do take Rise, que se desenvolve em ondas de silêncio e intensidade abre o álbum nos enchendo de expectativa, que explode em tema em Pov Piti. A abordagem vocal de Matana Roberts é maravilhosa e foi encorajadora para buscar um lugar para minha voz no trabalho com o Radio Diaspora. O tema Libation For Mr. Brown: Bid Em In... é dolorosamente lindo e se relaciona diretamente com obras como Freedom Now Suite, de Max Roach, ao servir de veículo cultural de resistência contra as violências seculares cometidas contra a população afro-descendente.


**Mais infos:


(Foto 1: Daniele Queiroz)





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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)