FREE THE JAZZ!!!

IMPROVISED MUSIC, JAZZ ANARCHY, NEW THING, INSTANT COMPOSITION, OUT JAZZ, ALEATORY MUSIC, MODERN FREE, FIRE MUSIC, NOISE, AVANT-GARDE JAZZ, INTUITIVE MUSIC, ACTION JAZZ, FREE IMPROVISATION, JAZZCORE, CREATIVE IMPROVISED MUSIC. FREE THE JAZZ!!!

*SOBRE (about us)...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Jazz na Fábrica 2017: vem GUO, Abdullah Ibrahim, Annette Peacock...




SHOWS  A edição deste ano do Jazz na Fábrica, festival que ocorre no Sesc Pompeia (São Paulo) de 10 a 27 de agosto, mantém seu perfil de apresentar um amplo leque do jazz e arredores, com mais de 15 atrações programadas em três finais de semana de muita música. Os ingressos começam a ser vendidos dias 3/8 (site) e 4/8 (bilheteria).




O público do free jazz/free impro talvez sinta, como no ano passado, falta de mais nomes dessa seara (realidade vivenciada em edições anteriores, especialmente nas de 2014 e 2015). Mas o Jazz na Fábrica mantém a já tradição de trazer sempre algum nome fundamental do free: se em 2016 tivemos Matthew Shipp, em 2017 teremos a lendária Globe Unity Orchestra. Haverá ao menos outros dois artistas de trajetórias inovadoras obrigatórios, a ver: Abdullah Ibrahim e Annette Peacock. Inovação também é a palavra que se ajusta ao principal nome brasileiro no evento, mestre Hermeto Pascoal. Já quem promete esgotar os ingressos com maior rapidez é o incensado baixista e produtor Thundercat (17 e 18/8), no auge da fama e com muitos fãs fora do universo jazzístico. Haverá também um desfile de trompetistas, com apresentações dos grupos de Eddie Allen, Itamar Boroshov (11/8) e o mais conhecido nome do festival, Roy Hargrove (24 e 25/8), que teve seus shows programados para a edição de 2015 cancelados por motivos de saúde. 

Esta edição do Jazz na Fábrica contará com artistas de oito países, mantendo sua proposta original de exibir criações jazzísticas de diferentes cantos do mundo. O que chama atenção é mais uma vez a ausência de músicos de Portugal, indiscutivelmente uma das cenas mais inquietas e vibrantes da atualidade. A Argentina, outro pólo jazzístico contemporâneo de grande vitalidade, também continua subrepresentada. E isso não ocorre porque o “rodízio” de atrações mundiais ainda não alcançou esses extremos: basta ver o desfile de músicos de Israel que já passaram pelo festival: apenas neste ano, haverá dois representantes de lá: o trompetista Itamar Boroshov e a flautista Hadar Noiberg (que toca com seu trio dia 24/8). Pelas outras edições, passaram Shai Maestro, Omer Avital, Ester Rada, Avishai Cohen... Ou seja, depois dos Estados Unidos, a cena jazzística de Israel é a mais contemplada no Jazz na Fábrica. Mas nem de longe ela é mais efervescente que as cenas de Portugal, Argentina, Suécia, Inglaterra, Noruega... enfim. Outra crítica que se pode fazer é a falta de mulheres instrumentistas. Quase não se vê no festival, em todas suas edições, mulheres que não sejam pianistas ou cantoras. E nem precisamos abrir muito o leque instrumental: daria para fazer o festival apenas com (grandes!) mulheres saxofonistas. Críticas feitas, é importante frisar que o Jazz na Fábrica é o maior e mais interessante festival dedicado ao gênero no país hoje. Que venham outras muitas edições.




*Destaques*


GLOBE UNITY ORCHESTRA

A big band Globe Unity Orchestra (GUO) foi formada em 1966 pelo pianista alemão Alexander von Schlippenbach, fazendo sua estreia no Berlin Jazz Festival daquele ano. Seu primeiro álbum, “Globe Unity”, foi editado em 67 sob o nome de Schlippenbach; depois viriam mais de uma dúzia de títulos. Marco dos primórdios do free impro europeu, a GUO se manteve ativa durante cerca de duas décadas. Depois dos anos 90, passou a se reunir de forma mais esporádica, em festivais e datas especiais. Por suas fileiras, já passou a nata do free europeu (Evan Parker, Peter Brotzmann, Peter Kowald, Derek Bailey, Willem Breuker, Michel Pilz...). A GUO se reuniu para uma turnê em 2016, na comemoração de seus 50 anos, juntando grandes nomes como Paul Lovens, Manfred Schoof, Gerd Dudek, Tomasz Stanko, Paul Lytton e o próprio Schlippenbach. Em abril deste ano, tocaram no festival alemão “Saarbrucken”, com uma formação que contava de novo com Evan Parker, Ernst-Ludwig Petrowsky e Axel Dorner. Quem sabe não vemos um mix destas últimas formações por aqui?

Quando: 17/8 (qui) e 18 (sex), às 21h
Onde: Sesc Pompeia (Teatro)
Quanto: R$ 15 a R$ 50







----------------------
ABDULLAH IBRAHIM” 

O pianista sul-africano Abdullah Ibrahim, de 83 anos (que antes de se converter ao islamismo  assinava como Dollar Brand), conta com uma carreira de explorações múltiplas no universo jazzístico. Foi descoberto por Duke Ellington no início dos anos 60, que o ajudou a gravar para o selo Reprise, abrindo novas oportunidades a ele. Ainda naquela década, mudou para a Europa, onde se envolveu mais com o free, gravando com Gato Barbieri, Don Cherry, Hamiet Bluiett e Carlos Ward.  Depois, ampliou o mergulho em sonoridades africanas. Tudo isso desemboca em uma discografia com fortes álbuns como “The Journey” e “Ekaya”. Em 2014, Ibrahim editou o belíssimo “The Song is my Story”, que dá o tom do que deve ser apresentado por aqui. Em concerto de piano solo, representará um espaço ocupado com brilho por Matthew Shipp e Muhal Richard Abrams em edições anteriores do evento.

Quando: 19/8 (sab), às 21h; e 20 (dom), às 18h
Onde: Sesc Pompeia (Teatro)
Quanto: R$ 18 a R$ 60




--------------------------
ANNETTE PEACOCK

Nascida no Brooklin (NY) em 1941, Annette Peacock é uma bela surpresa da escalação. Todos os anos o evento traz cantoras, mas nunca tinha vindo uma de perfil tão ousado como Annette. Também compositora e pianista, trabalhou inicialmente bastante com Paul Bley e com seu ex-marido Gary Peacock, até começar a editar seus próprios trabalhos, chamando logo atenção com “I’m the One” (72), disco que conta com a participação de Airto Moreira e Dom Um Romão. Sua música traz elementos do universo do jazz, do avant-garde, blues, rock, em uma concepção bastante particular. Outro marco em sua discografia é “X-Dreams” (78), que traz a sensacional “Real & Defined Androgens”, uma de suas melhores composições. Depois de um período mais silenciado nos anos 90, retornou em 2000 com o lírico “Na Acrobat’s Heart” (ECM). Sua apresentação será de voz e piano.




Quando: 26/8 (sab), às 21h; e 27 (dom), às 18h
Onde: Sesc Pompeia (Teatro)
Quanto: R$ 15 a R$ 50




-----------------
EDDIE ALLEN


O trompetista Eddie Allen não é um representante do free, mas também não é um artista fechado a esse universo, tendo gravado com Lester Bowie (em seu Brass Fantasy) e Muhal Richard Abrams (em discos como “Think All, Focus One”). De qualquer forma, sua praia é mais o pós-bop e é isso que devemos ver em seus concertos, que abrem o festival. Allen vem com um septeto, que deve contar com Keith Loftis (sax), Dion Tucker (trombone), Misha Tsiganov (teclado), Mark Soskin (piano), Kenny Davis (baixo) e E.J. Strickland (bateria). Com esse pessoal gravou “Push” (2014), um de seus mais recentes registros, que bem dá o tom do trabalho que tem desenvolvido.

Quando: 10/8 (qui), 11 (sex) e 12 (sab), às 21h30
Onde: Sesc Pompeia (comedoria)
Quanto: R$ 18 a R$ 60




------------------------
HERMETO PASCOAL
Hermeto Pascoal é artista para se apreciar quantas vezes tiver oportunidade. O lendário multi-instrumentista chegou aos 80 anos mantendo imaginação e energia ainda elevadíssimas. Ele tocou em São Paulo neste ano como parte de sua turnê “Nave Mãe”. Agora pela primeira vez se apresenta no Jazz na Fábrica. Suas invenções sonoras contarão com a participação de um grupo formado por Fabio Pascoal (percussão), Itiberê Zwarg (baixo), Andre Marques (piano), Jota P. (saxes) e Ajurunã Zwarg (bateria).

Quando: 12/8 (sab), às 21h; e 13 (dom), às 18h
Onde: Sesc Pompeia (Teatro)
Quanto: R$ 12 a R$ 40





---------------
*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)