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sexta-feira, 26 de maio de 2017

A arte de Perelman-Shipp em 7 volumes





CRÍTICAs  Dividida em sete álbuns editados simultaneamente pela Leo Records, a série The Art of Perelman-Shipp é um testemunho fundamental da música e das pesquisas recentes de Ivo Perelman e Matthew Shipp...



 

Por Fabricio Vieira

Depois de gravarem cinco títulos em duo, o saxofonista Ivo Perelman e o pianista Matthew Shipp decidiram concretizar um projeto que vinham planejando há algum tempo: gravar uma série de discos tendo o duo como núcleo, mas adicionando diferentes parceiros para ver como sua música sofria alterações a partir desses encontros. O resultado é conhecido agora, distribuído nos sete volumes reunidos em The Art of Perelman-Shipp, editados há pouco pela Leo Records. Os sete álbuns foram gravados entre agosto de 2015 e novembro de 2016 e contaram com a partipação dos baixistas William Parker e Michael Bisio, e dos bateristas Whit Dickey, Andrew Cyrille e Bobby Kapp. A cada disco, os parceiros foram alterados, em variações que oscilam entre duo, trio e quarteto. “Eu e o Matthew Shipp já vínhamos pensando há algum tempo em fazer um projeto em que o núcleo central fosse o nosso duo, mas observando como a nossa dinâmica é alterada com a interferência de outros músicos”, afirma Perelman.

O início da parceria entre Perelman e Shipp data de muito. A primeira vez que tocaram juntos foi em janeiro de 1996, quando gravaram, já em duo, o álbum “Bendito of Santa Cruz”. Mas seria apenas após 2010 que passariam a trabalhar de forma constante e ininterrupta. Desde então, realizaram uma série de novos duos de sax e piano, registrados nos álbuns “The Art of the Duet – Vol. One” (2013), “Callas” (2015), “Complementary Colors” (2015) e “Corpo” (2016). Com “The Art of Perelman-Shipp”, essa parceria artística encontra sua expressão máxima.

Por uma decisão da gravadora, os sete álbuns foram lançados de forma independente e não em um box, como seria de se esperar. De qualquer forma, para aproveitar o projeto em sua totalidade o ideal é o ouvinte ter em mãos todos os títulos, já que foi assim que “The Art of Perelman-Shipp” foi concebido – sete volumes para serem apreciados de forma conjunta. A unidade do material é ressaltada em vários pontos, como nas capas, que trazem pinturas de Perelman que formam uma série; nos nomes das faixas, todas tituladas apenas como “Part 1”, “Part 2” etc.; pelos subtítulos dos álbuns (“Saturn”, “Titan”, “Tarvos”, “Pandora”, “Hyperion”, “Rhea” e “Dione”), com sua alusão astronômica a Saturno e suas luas; além do fato de todo o material ter sido gravado no mesmo lugar (o Parkwest Studios, no Brooklyn nova-iorquino) e mixado pela mesma pessoa (Jim Clouse). Apesar de os títulos serem justificados pelo saxofonista como uma referência ao atual momento de sua vida (“Descobri que estou entrando na fase de Saturno, astrológica”, diz), o que há por trás é a a ideia de “Saturno” representando o duo de Perelman e Shipp com as suas “luas” sendo as diferentes parcerias que giram em torno do planeta (ou deles, no caso).
O que parece meio aleatório é a distribuição das gravações do volume 1 ao 7. Independentemente da intenção dos músicos (Perelman afirma que a escolha da sequência surgiu após ele ouvir todas as gravações e intuir a ordem final), a sequência numérica cria uma expectativa de transformação e sucessão sonora que poderia guiar o projeto. Considerando que a ideia original de Perelman e Shipp era exatamente criar uma série que mostrasse as mutações provocadas pela adição de outros músicos ao som original do duo de sax e piano, pensamos que teria sido interessante ressaltar isso na sequência dos discos lançados – já que foi feita uma opção por uma organização dos álbuns a partir de uma numeração –, trabalhando, por exemplo, com as mudanças de parceiros e as variações de intensidade gestadas pelos novos conjuntos formados a cada álbum. Dessa forma, entendemos que talvez a mais proveitosa audição poderia ser feita na seguinte sequência:

O vol. 6 (“Saturn”) deveria abrir a série “The Art of Perelman-Shipp”. E isso parece óbvio: afinal, é neste volume que está o duo de sax e piano em torno do qual os outros álbuns irão gravitar. Especialmente se pensarmos que não necessariamente o ouvinte conhece os álbuns anteriores de Perelman-Shipp, podendo ser esta sua primeira experiência com o duo. Em linha com os últimos trabalhos da dupla, “Saturn” mostra o telepático diálogo de sax tenor e piano, com seu lirismo marcante, que tem caracterizado os encontros dos dois músicos. Nessa relação simbiótica, não há espaços para brilhos solistas, sendo que o resultado só se mostra pleno a partir do encontro das duas vozes. 

A sequência poderia continuar com o vol. 4 (“Hyperion”), trio ao qual é adicionado o baixo de Michael Bisio. Esta formação específica de piano-sax-baixo não é inédita, tendo gravado antes “The Gift”. Bisio é o baixista atualmente mais próximo da dupla: ele faz parte, há um tempo razoável, do trio de Shipp; e tem tocado constantemente, em diferentes formatos, com Perelman. O trio soa uno e equilibrado, destilando uma música precisa em 10 temas, no que é o registro mais antigo da série, feito em agosto de 2015. O álbum começa de forma intimista, com um sax dolorido navegando sobre piano e baixo delicadamente pulsantes. Algo um pouco mais áspero ao sax vem na sequência (com “Part 2”), mas sem quebrar o lirismo (acentuado em “Part 7”) e certo ar intimista que dá o tom geral da sessão.

O próximo disco em nossa jornada auditiva seria o outro trio com baixo, conduzido desta vez por William Parker, que originalmente é o vol. 1 (“Titan”). Esta é a terceira gravação que Perelman, Shipp e Parker realizam em trio, sendo a primeira no longínquo 1996 (“Cama de Terra”) e a segunda, de 2014 (“Book of Sound”). Como uma continuação de “Book of Sound”, este “Titan” traz novas sete faixas. Talvez o ideal seja começar a audição pela “Part 3”, que apesar de ser a mais curta, com 4 minutos, sintetiza perfeitamente essa parceria, com o trio entrando de pronto em uma improvisação de muitas sinuosidades (destaque para o piano no meio da peça).




Em nossa proposta de escuta, o quarto disco seria o vol. 2 original (“Tarvos”), em que passamos ao trio de sax-piano-bateria, com a participação de Bobby Kapp. O único músico desta série com o qual Perelman nunca havia trabalhado (Shipp gravou com ele recentemente “Cactus”), Kapp é um sobrevivente da cena free jazzística dos anos 1960, tendo gravado com Gato Barbieri, Marion Brown, Dave Burrell, dentre outros. O convidado Kapp abre o disco sozinho, em breve introdução, à qual se une o sax antes do primeiro minuto, sendo seguido pelo piano apenas mais à frente (fica uma instigante impressão do que seria um duo de Kapp e Perelman). A adição da bateria oferece combustível novo ao duo, apesar de não ser um disco propriamente de alta tensão –aliás, a cantante melodia do sax em “Part 3” é um dos momentos maiores de “Tarvos”.

O próximo disco seria o outro trio com bateria, aqui a cargo de Andrew Cyrille, que é o vol. 7 (“Dione”). Se o disco com Kapp chama atenção por seu ineditismo, este com Cyrille se destaca por trazer alguns dos momentos mais vibrantes do conjunto. Cyrille traz um novo colorido e realmente desafios singulares ao duo. O álbum abre com vagar, com Cyrille repercutindo os pratos e espaçadamente tocando a caixa, como que chamando os outros dois músicos, que entram somente após um minuto, abrindo nossos ouvidos a uma tensão crescente que marca a faixa inicial (uma das melhores gravadas nesta série), bem diferente do tema seguinte, mais relaxado. Essa oscilação entre temas mais quentes e outros menos tensos é uma marca constante deste empolgante álbum.

Daí poderíamos passar aos quartetos, onde as vozes de Perelman e Shipp se diluem mais em meio a baixo e bateria. A começar pelo que aparece como o vol. 3 (“Pandora”), formado por Perelman, Shipp, Parker e Whit Dickey. Este grupo já foi a sustenção do quarteto de David S. Ware (1949-2012) – um dos conjuntos maiores dos anos 90. Mas a “simples” mudança de Ware por Perelman (e mesmo que os dois sejam tenoristas) provoca uma alteração brutal na sonoridade do quarteto e na música apresentada/desenvolvida por Shipp, Parker e Dickey junto ao sax. São seis longas faixas gravadas em outubro de 2016, algo bem fresco, que poderiam soar incríveis no palco (ao que parece, nunca tocaram assim ao vivo). O álbum começa com vagar, com o sax destilando uma contida melodia, que vai crescendo progressivamente (destaque para o belíssimo solo de Parker). As coisas esquentam um pouco a partir da “Part 2”, tendo seu auge na “Part 6”, mas sem ultrapassar os picos explosivos de “Rhea” (o outro disco em quarteto).

E fecharíamos o conjunto com o vol. 5 (“Rhea”), que traz Perelman, Shipp, Bisio e Dickey. Este quarteto, que gravou antes “The Edge”, “The Other Edge” e “Soul”, é considerado por Perelman como um grupo fixo seu – no próximo mês, estarão, por exemplo, se apresentando no clássico Vision Festival (NY). Tendo dividido palco e estúdio em diferentes oportunidades, este quarteto soa mesmo como um grupo fixo, acostumado a tocar junto. As quatro vozes estão perfeitamente integradas, não havendo líder e “sidemen” aqui, sendo fundamental cada uma delas para que o todo se estruture. São sete temas em que a “Part 1”, com seus 16 minutos, representa o núcleo e o melhor cartão de visitas, atingindo passagens faiscantes (ouçam o que começa a acontecer lá pelos seis minutos de música). Vale destacar ainda “Part 5” e “Part 6” – esta, uma das mais enérgicas dentre todas executadas. Um dos grandes momentos do quarteto.





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*quem assina: 
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)