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terça-feira, 7 de março de 2017

Nem free, nem jazz...





Aproveitando alguns diferentes interessantes sons que chegam à redação do FreeForm, FreeJazz – mas que não fazem parte do núcleo sonoro que costumamos tratar por aqui –, fizemos uma breve seleção: álbuns lançados nos últimos tempos que representam outras possibilidades artísticas...







Por Fabricio Vieira



Três
Thiago Nassif
Big Papa records
Produzido por Arto Lindsay, o terceiro álbum do cantor e compositor Thiago Nassif apresenta dez novos temas que mostram sua peculiar investigação com a canção. Formado em engenharia de som e produção musical, Nassif tem explorado perspectivas sonoras variadas em busca do que chama de “sentido visual”. Nessa sua investigação, utilizou diferentes processos no estúdio durante a gravação de “Três”. Como disse em entrevista ao “O Cafezinho”: “Fui me formar em engenharia de som e produção exatamente para conseguir autonomia nestes processos. Gravar, editar e mixar, para assim chegar o mais próximo possível da imagem musical que existe na minha mente”. Além de voz, Nassif toca guitarra, baixo e cuida da programação eletrônica. Em diferentes temas, há a adição de convidados, sendo o mais presente Domenico Lancelotti (MPC, bateria), havendo também participações de Negro Leo e Roberta Zerbini. Lindsay, além da produção, participa com sua guitarra das faixas “Algodões” e “Desordem”, trazendo sua peculiar expressividade. Na linhagem da canção brasileira contemporânea, “Três” não se furta a algo de rock, pop e eletrônico, em uma combinação por vezes sinuosa, por caminhos ainda pouco explorados.







Costume Blue 
Costume Blue 
Independente/ Tratore
Grupo de blues estabelecido no interior paulista, na cidade de Bauru, o Costume Blue apresenta dez temas neste seu disco de estreia. Em meio a peças autorais, há releituras para três clássicos de Willie Dixon: “My Babe”, “Hoochie Coochie Man” (imortalizada na voz de Muddy Waters) e “Little Red Rooster” (provavelmente a favorita dos roqueiros, gravada por gente como Rolling Stones, Jesus & Mary Chain e The Doors). Os temas autorais são cantados em português – há ainda espaço para algo instrumental em “Palimpsesto Blues”, apenas para violão – e melhor exibem a proposta do grupo: fazer uma música que não seja apenas um aceno ao blues americano, mas buscando adicionar elementos vindos do rock, do pop e da música brasileira. Na gravação, o grupo era composto por Marcelo Bulhões (voz, harmônica, guitarra e violão), Celso ‘Blues’ Ferreira (contrabaixo), Messias Messa (guitarra) e Marcelo Cury (bateria) – houve mudanças desde então, ao que parece. Em algumas faixas, há a participação de convidados, agregando, por exemplo, órgão (em “Focos de Luz”), piano (em “Pequeno Blues para Mariana”) e sopros (em “Costume Azul”), o que ajuda a ampliar as possibilidades sonoras testadas pelo grupo.





O Cinema Invisível 
Percutindo Mundos
Independente
Projeto do coletivo vindo de Santos, liderado pelo artista Márcio Barreto (voz, composição, luthieria, sopros), o Percutindo Mundos surgiu a partir de pesquisas sobre a relação da identidade cultural caiçara com a contemporaneidade. Brasilidades, improvisação, artes visuais, tudo entra em cena para estruturar uma criação ousada e multilinguística, que provavelmente atinge sua totalidade apenas no palco. Ao lado de Barreto estão Célia Faustino (voz, percussão), Fernando Ramos (sax, percussão), Robson Peres (viola), Manoel Pio (bateria), Ghilherme Meduza (guitarra), dentre outros. O álbum traz ainda participações especiais de figuras centrais da cena contemporânea nacional: Gilberto Mendes (1922-2016) e Livio Tragtenberg. Em oito temas, feitos para serem escutados ininterruptamente, o ouvinte é convidado a um passeio sonoro, por estranhas possibilidades cancioneiras, improvisação, paisagem sonora e interferências que remetem ao universo visual-cinematográfico (como na voz de Glauber Rocha ecoando na abertura de “Nu”).





Kurious Eyes 
La Burca 
punklorecords!

Segundo álbum do duo formado em Bauru (interior paulista), Kurious Eyes traz nove temas gravados ao vivo no RMS Estúdio, em Agudos. La Burca é conduzido por Amanda Rocha (voz, violão, composição) e Lucas Scb (bateria) e estreou nos palcos em 2013 fazendo um som que eles chamaram de punklore (algo como o encontro do punk com o folk rock). Sobre o novo registro, eles citam elementos de pós-punk, punk rock, folk e “pitadas grungísticas”, que podem ser sentidos aqui e ali com variante intensidade. Há algumas participações especiais, mas o núcleo e o melhor do disco vêm exatamente do trabalho em duo. A faixa-título tem irresistível fatura pós-punk, nos remetendo ao melhor do estilo – vale o mesmo para a saborosa “Into the Wild”. Já “Goos” (esta com adição da guitarra de Marcos Tamamati) e “No-U” são duas potentes instrumentais que merecem ser ouvidas repetidamente. Música viva e com muito a dizer.








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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. Também colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)