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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Jazz al Sur: lançamentos argentinos






Destaques de álbuns de músicos argentinos editados nos últimos tempos.
Experiências em várias formas. 
Ouça, divulgue, compre os discos.






Tonadoda ****
Norris Trío
Independente 
Um ano após lançar seu último título, o trio do cornetista Enrique Norris volta com este Tonadoda. Gravado em março deste ano, o nono título do grupo formado há quase uma década traz Norris (corneta e piano) ao lado de Pablo Díaz (bateria) e Maximiliano Kirszner (baixo). O álbum abre com “Cornette”, com o sopro moroso de Norris soltando notas espaçadas que parecem ser empurradas pela pulsação constante de Díaz, até ceder espaço para um ligeiro piano, que se perde em um longo solo, que se estende até o retorno da corneta no minuto final. Esse tema de abertura bem sintoniza o ouvinte no universo do trio, que trabalha aqui com nove novos temas, todos com um ar mais relaxado, sem picos explosivos. “La fotógrafa sonora” é a faixa que soa um pouco diferente, contando com a participação da pianista Paula Shocron.






Give and Take ****
Luis Conde/ Fabiana Galante/ Frode Gjerstad
FMR 
Neste encontro registrado em Buenos Aires em setembro de 2015, os locais Luis Conde (saxes e clarinete) e Fabiana Galante (piano) se unem ao saxofonista norueguês Frode Gjerstad. O resultado aparece em oito improvisações em que as oscilações timbrísticas, entre choques e aproximações, são marcantes: de um lado, Gjerstad toca sax alto, flauta e Bb clarinete; de outro está Conde, com sax baixo, didgeridoo e também Bb clarinete. Nesse esquema, Galante parece sustentar uma linha que é justaposta, atravessada ou que acaba por se embrenhar pelos múltiplos sopros, que podem levar nossos ouvidos a extremos graves em meio a pontuações agudas (como em “Give I”, em que, enquanto os saxes alto e baixo são empunhados, o piano é explorado em suas cordas, com golpes/ruídos quebradiços). A alternância de instrumentos e possibilidades combinatórias sustentam o desenvolvimento do conjunto, criando peças de grande curiosidade auditiva, que devem ter seu aproveitamento máximo ao vivo, podendo ver cada lance e detalhe de execução dos instrumentistas.   




Tierra ****
Miguel Crozzoli/ Pablo Díaz
NendoDango Records 
O duo de sax e bateria no universo do free tem cerca de meio século de atividade constante. Aqui temos o encontro de Miguel Crozzoli (sax tenor) e Pablo Díaz (bateria e percussão), que rendeu as nove faixas que compõem Tierra. Diferentemente da energy music muito associada a esse formato, Crozzoli e Díaz optam por rumos mais concentrados, de desenvolvimento detalhista e por vezes até contemplativo – como nas duas “Abstracción” – ou mesmo com algo mais melódico – como em “Luz”. Claro que há momentos mais rudes, como nos minutos finais da faixa-título ou em passagens de “Dudas Cruciales” (uma das melhores), mas a atmosfera do álbum zela mais pelo equilíbrio de forças e o diálogo construtivo do que pelo embate, gestando empolgantes momentos.  

  



Destemporizador  ****(*)
Pablo Díaz Quinteto
NendoDango Records 
Este quinteto comandado pelo inquieto e muito solicitado baterista Pablo Díaz poderia ser encarado, em certo aspecto, como um SLD Trío expandido: afinal, estão aqui também Paula Shocron (piano) e Germán Lamonega (baixo), aos quais se juntam Enrique Norris (corneta) e Pablo Moser (sax tenor). Mas o resultado é bem distinto do obtido pelo SLD, provavelmente com menos foco improvisativo – no entanto, não menos interessante. Vendo os músicos envolvidos, difícil imaginar que não sairia coisa boa, sendo que aqui estão reunidos alguns dos mais empolgantes músicos da cena argentina contemporânea. São oito peças, registradas em dezembro de 2015, que vão de momentos mais saborosamente jazzísticos, como “Uno es Ritmo”, a possibilidades mais abstratas, como em “WuWei” (talvez a melhor do conjunto), tendo sempre nos diálogos de sax/corneta pontos realmente envolventes – basta ouvir “Serpiente de Fuego”, com sua abertura de ares free bop. A expressão coletiva é o núcleo do álbum, mas há espaços solistas importantes – na faixa-título, por exemplo, podemos ouvir sax, corneta e piano em solos inventivos. Todas as composições são de Díaz.






Out of Orden ***(*)
Santiago Leibson/ Gress/ Gray
Kuai Music 
O jovem pianista Santiago Leibson se une aqui aos norte-americanos Drew Gress (baixo) e Devin Gray (bateria) para executar nove de suas composições. Registrado em novembro de 2015 em Nova York (onde, ao que parece, o pianista vive atualmente), Out of Orden apresenta um elegante piano-trio, com música para ser ouvida sem dificuldades ou sobressaltos. Apesar de equilibrado, a temperatura do disco pode oscilar razoavelmente, indo de temas mais swingantes (“Oak Street”) a melancólicos (“Situation 1”), sem ignorar algo de abstrato, como “A los Tumbos”, ou mesmo dar um sabor mais contemporâneo, especialmente pelo toque da bateria de Gray em “Uniendo puntos distantes”.






Vol. V  ****
Underground Mafia
Kuai Music 

Agora um quarteto, com a adição do sax tenor de Hernán Samá, o anteriormente trio Underground Mafia chega a seu quinto álbum mostrando grande vitalidade. O grupo liderado pelo trombonista Fernando Salgado, que conta ainda com Ivan Viaggio (baixo) e Sebastián Groshaus (bateria), apresenta dez novos temas próprios. Quem já conhecia o trio verá como a entrada de Samá ampliou as possibilidades sonoras do grupo, levando o Underground Mafia realmente a uma nova etapa. Uma boa mostra é “Sr. Anderson”, que abre com o trombone sozinho e logo desemboca na sonoridade do antigo trio para, um pouco antes de chegar ao segundo minuto, receber a adição do sax, que surge para nos lembrar que hoje são quatro os músicos em ação, com seu colorido vibrante e empolgante. No conjunto registrado, há temas mais vivamente jazzísticos em meio a outros em que as vias da improvisação livre se mostram mais presentes.






Coils on Malbec ***
Alan Courtis/ Cyrus Pireh
Shinkoyo 
O guitarrista portenho Alan Courtis, que esteve no Brasil em 2015, tem experimentado na música desde os anos 90, tendo desde então já registrado cerca de 300 álbuns e trabalhado com gente como Keiji Haino, Jim O’Rourke e Otomo Yoshihide. Courtis se une aqui ao norte-americano de origem iraniana Cyrus Pireh para uma experiência intrigante: a dupla decidiu captar o eletromagnetismo presente no vinho, especificamente um feito com uvas malbec. Aproximando uma bobina à taça de vinho, captaram o que depois serviu de base para criar as duas peças que compõem o disco. Como Courtis já explicou, o projeto tem mais a ver com o eletromagnetismo presente em tudo do que com o vinho em si. O problema é que se ficarmos na simples audição do disco – sem saber suas motivações e concepções –, provavelmente nos deparemos com algo um tanto quanto plano, que perde motivação se não soubermos o que há por trás daquilo.  É o tipo de obra que deveria ser ouvida em seu formato original (um vinil cor de vinho) e com um texto introdutório de acompanhamento – além de uma taça de malbec, claro. Talvez valha mais pela experiência do que pela música em si.
  





Temporal  ****(*)
Cuarteto Instantáneo
Independente 
Comandado por Guillermo Roldán (baixo elétrico), o Cuarteto Instantáneo edita este seu disco de estreia, que apresenta cinco temas desenvolvidos tendo em foco a improvisação livre. A Roldán se juntam Enrique Norris (corneta e sikus, um tipo de flauta andina), Francisco Salgado (trombone) e Tatiana Castro Mejía (piano), em uma criação coletiva bastante detalhística e centrada, que pode ir de pontos introspectivos a passagens de intensidade mais marcada. O resultado das peças é bem coeso e coerente, podendo ser visto como cinco movimentos de uma obra maior. Apesar dessa harmonia, “El azar Intencionado” se revela como o tema central, trazendo os melhores momentos e bem exibindo as possibilidades criacionais do quarteto, sendo enriquecido ainda pela voz de Tatiana, recitando um poema seu no início da peça. Vale notar que a surpresa inerente à improvisação extrapolou os temas registrados: Roldan levou ao estúdio de gravação a bailarina Carmen Pereiro Numer, sem que os outros músicos soubessem – Carmen improvisa ao lado dos músicos nos temas 3 e 5. Os músicos se conhecem de outros projetos e encontros, o que favorece o desenvolvimento improvisativo do grupo, que se molda sem arestas. Música livre de alta inventividade.  






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*o autor:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. Também colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)