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terça-feira, 14 de junho de 2016

Play it again... (Trios)






Apanhado de novidades imperdíveis da free music.
Nesta edição: Trios (em suas mais diversas configurações)
Ouça, divulgue, compre os discos.








Risc *****
Full Blast
Trost Records 
Após cinco anos desde seu título anterior, o Full Blast retorna com este registro feito em março de 2015 em Viena. Um dos trios mais intensos surgidos na última década, o Full Blast traz neste seu quinto álbum (afora bootlegs que soltaram) sete novos temas. Peter Broetzmann (reeds), Marino Pliakas (baixo elétrico) e Michael Wertmuller (bateria) nos lembram o porquê deste ser um dos projetos atuais da cena free mais incensados, mostrando-se aqui abertos mais do que nunca a novas possibilidades sonoras e conseguindo levar o grupo a pontos inexplorados, sem medo de correr riscos. Sim, o disco soa plenamente como um trabalho do Full Blast. Mas há de fato algo novo aqui. A faixa inicial, “Try Kraka”, mostra bem o que virá dali adiante, abrindo com Wertmuller soando tribal como nunca, toque que vai se transformando durante o andar da peça, que se constrói por desconcertantes quebras e viradas, marcadas por pontuais intervenções eletrônicas. “Doss House”, a mais longa com seus quase 12 minutos, escancara as novas investidas do trio (além de ser uma das melhores), com elementos que nos remetem ao universo do industrial (destacados também em “Roguery”), desaguando em um desfecho incrivelmente explosivo. Apesar de relativamente discreta, é fundamental a colaboração de Gerd Rische, trazendo efeitos eletrônicos aos temas, que perfeitamente se integram ao resultado final, como bem atesta especialmente a faixa “TTD”. Não falta também algo mais direto, em linha com o que conhecemos do Full Blast, como “Cafe Ingrid” e “Garnison Lane”. Importante destacar o fato de o trio ter convidado o produtor Gareth Jones para mixar o disco. Jones já trabalhou com artistas como o Einsturzende Neubauten (em seu clássico Halber Mensch) e, sem dúvida, trouxe algo extra ao sempre contagiante som do trio.






Semikujira ****(*)
Arashi
Trost Records 
Outro lançamento do selo austríaco Trost Records, Semikujira é o segundo título do trio “Arashi”. Formado em 2014, o Arashi uniu com equilíbrio perfeito as ideias de dois nomes da cena contemporânea a um veterano: de um lado, o saxofonista japonês Akira Sakata, na ativa desde os anos 70; de outro, os escandinavos Paal Nilssen-Love (bateria) e Johan Berthling (baixo). Em Semikujira, vemos mais um capítulo da visceral música que o trio apresentou em 2014 em seu álbum de estreia. Agora são novos cinco temas registrados em Estocolmo, em maio de 2015. A temperatura de Semikujira começa contida, com “Snowing on the Temple Garden” soando quase gélida, com uma percussão marcada por sinos e toques sutis acompanhada por um baixo hesitante, por entre os quais o clarinete suavemente vagueia. Esse clima de abertura gradual se dissipa de súbito com a entrada da faixa dois, “Blow of Humpback Whale”, já muito enérgica e em sintonia com o disco anterior. A intensidade se manterá assim elevada pelas outras faixas, até o desfecho com a mais elaborada “Semikujira”. Merece destaque “Saitaro-Bushi-Atlantis Version”, em que Sakata elabora vocalizações enquanto baixo e bateria improvisam à espera do sax alto, que entra rascante lá pela metade da peça, mantendo o pico de intensidade por bons minutos – o tema é inspirado em uma canção tradicional japonesa, aqui desconstruída, claro. O trio Arashi parece que começou como um encontro descompromissado, mas que, de tão certo, tem se transformando em um projeto fixo. Que continue trazendo música tão viva.
  





Be Strong  ****
JakobThorkild
Tyrfing Music

O guitarrista dinamarquês Jakob Thorkild mostra em seu novo trabalho, Be Strong, a força do trio que comanda ao lado de Nils Bo Davidsen (baixo elétrico) e P. O. Jorgens (bateria). Na linha do explosivo “Art Sleaze”, editado pelo trio em 2014, Be Strong exibe os elementos avant-rock e noise que estão em sua raiz, com os quais elabora um free muito sujo e intenso. As peças apresentadas (8) são breves e diretas, tendo sido registradas “ao vivo no estúdio”, totalizando menos de 30 minutos. Apesar de certa lineariedade expressiva, há temas mais rascantes, como “Eliza”, que abre o álbum, e outros um pouco mais densamente arrastados, como “George” – todas as faixas trazem o nome de alguém, quem sabe conhecidos dos músicos, cada um deles rememorados em sons... Thorkild talvez seja mais conhecido no mundo da free music por um outro projeto, o BodaBodaDuo, focado na improvisação livre e que já gravou com Peter Brotzmann e Fred Lonberg-Holm, com resultados bem interessantes.  Mas esse trio merece, sem dúvida, atenção.







Convallaria ****(*)
Thumbscrew
Cuneiform Records 

Este é um exemplar que, se mantém a mesma formação acima, guitarra-baixo-bateria, mostra um resultado completamente distinto do apresentado em “Be Strong”. Thumbscrew é um trio formado por Mary Halvorson (guitarra), Michel Formanek (baixo acústico) e Tomas Fujiwara (bateria) que traz o fino da improvisação livre. Nesse seu segundo disco, registrado em julho de 2015, o trio mostra 11 novos temas, sendo uma parte das composições assinada por cada integrante, com algo particular de cada um marcando as peças. “Cleome”, escrita por Halvorson, é uma das melhores do conjunto e abre o álbum com muita força (e um solo de guitarra arrepiante). “Sampsonian Rhythms”, de Fujiwara, é outra das mais empolgantes, trazendo um diálogo enredado envolvendo guitarra e baixo. O trio é muito harmônico e centrado, mas difícil não se encantar especialmente com Halvorson: basta ouvir o que ela faz em “Tail of the Sad Dog” para ter certeza de que se está diante de uma das vozes maiores da guitarra contemporânea.






Vol. II ****
No Project Trio
FMR Records 

Aqui temos o segundo capítulo apresentado pelo português No Project Trio, que traz João Paulo Esteves da Silva (piano), Nelson Cascais (baixo) e João Lencastre (bateria). Como no anterior “Vol. I”, todos os temas recebem apenas o nome Improvisation seguido de um número. Afinal, é disso que aqui se trata: improvisação livre, em que os instrumentistas exibem a maturidade de seus percursos musicais – todos têm longa vivência no mundo jazzístico. Registrado em setembro de 2014 no Timbuktu Studio, em Lisboa, Vol. II apresenta oito novas faixas, cada uma se desenvolvendo de acordo com seu tempo. Desse esquema resultam temas breves ('Improvisation III', por exemplo, conta com apenas 1m34) em meio a outros bastante extensos ('Improvisation VIII' se alonga por 21 minutos), totalizando cerca de uma hora de música coesa mas bem variada, podendo oscilar entre momentos de maior robustez (III), de certo pontilhismo minimalista (II) ou mesmo de maior lirismo (IV). Se essa música é criada no momento, sem linhas demarcadas, ao a ouvirmos deveríamos buscar o mesmo, deixando os sentidos serem guiados sem saber para onde seremos levados.






Unity ****
Samo Salamon Bassless Trio
Samo Records 

Mantendo o formato “bassless” que tem explorado ao lado de diferentes parceiros, o guitarrista esloveno Samo Salamon apresenta neste Unity dez temas em trio, acompanhado do saxofonista britânico Julian Arguelles (tenor e soprano) e do baterista John Hollenbeck (do The Claudia Quintet). Os temas de Salamon, registrados durante uma turnê europeia do trio em março de 2014, exibem as variadas possibilidades de suas composições, sempre dando relevância ao aspecto melódico. Faixas como “Asking for a Break” e “Kei’s Venice” mostram bem arquitetados exemplares que poderiam ser enquadrados em algum ramo do jazz contemporâneo. Mas Salamon sabe também esquentar as coisas, usando pedais de forma mais ativa e criando peças nas quais a improvisação e o ruído ganham maior intensidade, como “Soundgarden” e “Drop the D”: é exatamente daí que extrai os momentos maiores do conjunto. 





Jengi ***(*)
Alforjs
Silent Water 

Alforjs é um trio de Lisboa formado por Mestre André (sax alto e eletrônicos), Bernardo Álvares (baixo) e Raphael Soares (bateria) – todos tocam também percussão. O nome deste álbum de estreia, Jengi, faz referência a uma entidade espiritual das florestas dos pigmeus Baka. E o título não é gratuito. Elementos percussivos são fundamentais para o som do trio e estão na estrutura das duas longas faixas que compõem o álbum. “Natura Ruidosa”, por exemplo, se embrenha por uma ritmicidade quase ritualística, de intensidade crescente, que conduz nossos ouvidos como se caminhássemos rumo a uma clareira na mata, onde encontramos um sax em ebulição, chamando quem ainda não chegou para participar da celebração. O outro tema, “Homem Lobo”, mantém o clima mas busca outras formas de dizer a que veio: aqui, é a contínua linha de baixo atravessando, em seus 12 minutos, a base percussiva que molda o ritualismo tribalista característico do trio. Apesar de a audição ter momentos intensos, a experiência oferecida pelo Alforjs é daquelas que deve alcançar sua plenitude apenas ao vivo.







Star-Spangled Voltage ****(*)
Mette Rasmussen / Paul Flaherty / Chris Corsano
Hot Cars Warp 

O baterista Chris Corsano escalou dois importantes saxofonistas parceiros seus, um de ontem e um de hoje, para esse encontro: o veterano Paul Flaherty (tenor e alto), com quem toca desde o fim dos anos 1990, e a dinamarquesa Mette Rasmussen (alto), ao lado de quem lançou no ano passado o elogiado “All the Ghosts at Once”. O trio se encontrou no Never Ending Books, em New Haven, em junho de 2014 (é daí que vem essa gravação). Alta voltagem é o que esse encontro de sax-sax-bateria traz, em cinco temas de improvisação livre de elevada intensidade. Editado em vinil, o lado A abre com “Salvaged” e logo denuncia o furioso diálogo que invadirá nossos ouvidos dali adiante. Rasmussen e Flaherty tocam linhas que por vezes se chocam, por vezes se complementam, em uma sucessão de sons que se sobrepõem e se imbricam parecendo em alguns momentos virem de todos os lados, tendo a impetuosa percussão de Corsano por trás. “Salt” encerra a primeira metade de Star-Spangled Voltage em um tom mais contido, mas, virando o disco, as coisas esquentam rapidamente com “Reckonings”. Corsano, que está no centro do trabalho, reunindo o grupo e editando o disco por seu selo, sai de cena em “In the Light of Things”, deixando que apenas os dois saxes encerrem a noite. Em meio à marca energy music que pontua o registro, há também brechas para alguns momentos mais relaxados, com traços quase melódicos. O melhor de Star-Spangled Voltage, enfim, é poder apreciar uma parceria daquelas que funcionam de cara, em que a improvisação livre revela o porquê de ser tão encantatória. 







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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)