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sexta-feira, 3 de junho de 2016

5x Mats Gustafsson





O que dizer de Mats Gustafsson? O saxofonista sueco, em três décadas de trajetória, criou uma obra ampla, diversificada e inventiva como poucos. Impossível pensar em música criativa hoje, em qualquer seara, e ignorar o trabalho de Gustafsson. Neste ano, o músico segue ampliando sua vasta discografia, já tendo editado, como líder ou colíder, um punhado de discos novos... e ainda nem chegamos à metade de 2016...



Aos 51 anos e muitas dezenas de discos lançados, Mats Gustafsson parece nunca encontrar seu auge, sempre nos surpreendendo com novas possibilidades criativas, música sempre viva que nos faz esperar com ansiedade por seus próximos capítulos. No Brasil, tivemos a oportunidade de ver Gustafsson em duas ocasiões: em maio de 2011, com o trio Fire!, e em junho de 2013, com o The Thing – cogitou-se trazer o The Thing novamente em 2014 e também foi colocada na mesa a possibilidade de vir o duo Gustafsson/Thurston Moore  (o próprio Moore citou isso em entrevista quando tocou por aqui em 2014 com sua banda), mas infelizmente nenhuma dessas propostas foi fechada. Com a seca de músicos da free music global tocando por aqui nesses tempos, parece mais distante a chance de voltarmos a ver o saxofonista no Brasil...
Apresentamos aqui 5 novos álbuns de Gustafsson, editados nos últimos meses com diferentes projetos, títulos com resultados inventivamente diversos que bem comprovam a relevância de sua criação.


(Photo by Micke Keysendal)




Melt ****(*)
Gustafsson/ Pupillo/ Chippendale
Trost Records
Esse trio nasceu do encontro entre Mats Gustafsson, Massimo Pupillo (Zu) e Brian Chippendale (Lightning Bolt) no palco dois anos atrás. A parceria ao vivo funcionou tão bem que os três resolveram registrá-la: isso aconteceu em agosto de 2014 na Radialsystem, em Berlim, gravação editada apenas no começo deste ano pela Trost Records. São três longas faixas de improvisação rascante, em que Gustafsson investe bastante em suas incursões eletrônicas – ele também toca sax tenor e o peculiar fluteophone. O baixo elétrico de Pupillo é fundamental para a tensa pulsação da música apresentada, esquentando as coisas a níveis elevadíssimos com a acelerada pegada de Chippendale. O encontro dos três cria momentos de intenso free noise, como registra bem a primeira faixa, “Faces of Fear. Transformed. Melted”; com 32 minutos, começa com ruídos (Mats/ live electronics) que vão crescendo gradativamente até incendiarem após uns 4 minutos; Gustafsson leva o sax tenor a primeiro plano lá pelos 10 minutos – e pelos cinco seguintes o trio solta faíscas! Intervenções vocais de Chippendale  podem ser ouvidas aqui e ali em todo o disco e, apesar do intenso Gustafsson a seu lado, parece que é ele quem mais adiciona energia extra ao encontro. O segundo tema, “Flesh. Transformed. Melted” é ainda mais extenso, com 46 minutos, e mantém o mesmo esquema da primeira metade do disco. Uma última pequena (neste contexto) peça fecha o conjunto, deixando ruídos reverberando nos ouvidos por um bom tempo.







This is From the Mouth **** 
Mats Gustafsson
Utech Records
Este é um trabalho bastante específico, desenvolvido por Mats Gustafsson em meio a seu envolvimento com o projeto teatral “Das Fliegende Kind”. São apenas 18 minutos de sombria improvisação, para a qual escalou dois bateristas suecos, Andreas Werliin (seu parceiro de Fire!) e David Sandstrom. Registrado no Orion Theatre, em Estocolmo, This is From the Mouth se desenvolve lentamente, crescendo progressivamente em intensidade até seu desfecho realmente bruto. Talvez seja o tipo de peça que mostra sua plenitude apenas ao vivo, mas esse registro consegue despertar os sentidos, deixando a sensação de que “poderia ter um pouco mais disso”...






She Sleeps, She Sleeps **** 
Fire!
Rune Grammofon

O trio Fire! apresenta seu quinto álbum, mantendo a força hipnotizante dos títulos anteriores. Formado por  Mats Gustafsson (saxes, eletrônicos), Johan Berthling (baixo) e Andreas Werliin (bateria) em 2009, o trio tem estruturado  uma sólida discografia, mantendo o padrão expressivo em todos os títulos já apresentados. Em quatro temas (curiosamente, apenas um dos álbuns do Fire! não é formado por quatro faixas), o trio traz mais de sua soturna envolvente música, com Gustafsson desta vez concentrado nos saxes (tenor, barítono e baixo). A dolorida e quase melancólica “She Owned His Voice” abre o álbum, com Gustafsson praticamente cantalorando com o sax durante quase a peça toda. Esse clima está ligado ao do último tema, “She Penetrates the Distant Silence. Slowly”, em que baixo e sax conduzem a audição em seus longos 18 minutos. O título She Sleeps, She Sleeps não é gratuito e o álbum é, em certo aspecto, o mais sereno do trio. Há pontuais participações especiais (o guitarrista Oren Ambarchi, na faixa 2, e o violoncelista Leo Svensson Sander, que toca com Berthling no grupo “The Tiny”, na 3), mas que não chegam a alterar o clima do álbum.







Ritual ****(*) 
Fire! Orchestra
Rune Grammofon
A Fire! Orchestra surgiu como uma ideia de mesa de bar. Conta Mats Gustafsson que estava com Johan Berthling e Andreas Werliin às 3h da manhã bebendo no encerramento de uma turnê do Fire! quando veio o lampejo: “vamos juntar um pessoal que conhecemos aqui da Suécia para tocar as peças do Fire!”. Pouco depois, um impressionante grupo de quase 30 músicos se reunia para dar início a esse incrível projeto. Com novas propostas sonoras – que fazem da Orchestra um bicho bem distinto do Trio –, estreou em 2013 com “Exit”, trazendo uma energia contagiante gestada pela ampla palheta de metais e madeiras, junto a baixo, guitarra, teclado, baterias (no plural) e vozes. O receituário se mantém neste Ritual, para o qual foram convocados novos brilhantes nomes da cena free, como Mette Rasmussen e Susana Santos Silva – parte dos envolvidos com a Fire! Orchestra tem sido mantida e parte alterada a cada disco/turnê. Dividido em cinco partes, Ritual foi registrado em 17 e 18 de dezembro de 2015 em Estocolmo. Apesar de não ter o mesmo impacto imediato de “Exit”, que soava completamente novo, este Ritual traz momentos de grande força e beleza (a destacar a abertura de Part 1, explosivamente contagiante). As cinco faixas de Ritual devem ser ouvidas como segmentos de um todo, que formam uma peça de complexas nuances, com o sedutor groove que marca o grupo ligando as sequências, de um extremo a outro, a quente primeira parte de um lado e a mais contemplativa Part 5 no outro. A Fire! Orchestra é, dentre os projetos com que Gustafsson está envolvido, o que a composição tem papel mais relevante, ficando seu lado de improvisador em segundo plano, mas sem que isso diminua a relevância do trabalho em sua obra.






MG 50 - Piece & Fire **** 
Mats Gustafsson and Friends
Trost Records
Em 2014, Mats Gustafsson completou 50 anos de idade (nasceu em 29 de outubro de 1964, em Umea, na Suécia). Como parte das comemorações, Gustafsson reuniu muitos de seus parceiros de diferentes projetos e épocas para uma série de concertos no “Porky & Bess”, em Viena. Os encontros aconteceram em três noites, entre 26 e 28 de outubro de 2014, com Gustafsson se apresentando em duo, quarteto e outras formações maiores. Para quem não esteve presente à celebração, um box com 4 CDs chega ao mercado reunindo muito do que de melhor aconteceu no evento. Gustafsson se apresentou com alguns de seus projetos (The Thing, Fire!, Swedish Azz) e recebeu convidados como Ken Vandermark, Agustí Fernandez, Paul Lovens e Sven-Ake Johansson. A versão do Fire! em “micro-Orchestra” traz um pouco do melhor do box. Ao trio Fire! se juntam: Erwan Keravec (bagpipes), Fernandez (piano/órgão) e Mariam Wallentin e Sofia Jernberg (voz). O resultado para temas conhecidos, como “Exit”, é bastante diverso e empolgante. Gustafsson é o centro de tudo, mas não chega a participar de todas as faixas: o disco 4, por exemplo, é composto basicamente por solos de diferentes músicos, como Anna Hogberg (sax), Kjell Nordeson (percussão) e Per Ake Holmlander (tuba).








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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)