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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Thurston is Free





Há quase cinco anos, mais precisamente em novembro de 2011, o icônico Sonic Youth fazia o último show de sua história de três décadas no festival SWU, em Paulínia, São Paulo. Nesse período sem o SY, seus quatro integrantes tocaram vários projetos, de diferentes perfis sonoros. Para Thurston Moore, a nova fase representou a intensificação de sua imersão no universo da free music...


Nascido no underground nova-iorquino do início dos anos 1980, em meio às cinzas da no wave, o Sonic Youth nunca deixou de lado suas raízes emergidas do cenário experimental, mesmo que tenha vivenciado momentos de maior apelo indie-pop. Thurston Moore, Kim Gordon, Steve Shelley e Lee Ranaldo trabalharam em diferentes contextos com artistas experimentais e ligados ao free enquanto o SY existiu. A associação com Jim O’Rourke, os nove volumes da série SYR, a participação dos saxofonistas Jim Sauter e Don Dietrich na faixa “Radical Adults Lick Godhead Style” ou mesmo o álbum “In The Fishtank 9” (encontro do SY com nomes como Han Bennink, Ab Baars, Wolter Wierbos, Terrie Ex...) são claros testemunhos da relevância que a improvisação, o noise e a experimentação como um todo sempre tiveram para o Sonic Youth – além das camadas evidentes em seus próprios discos, claro.
Se esses rumos de criação mais inventiva interessam a todos os integrantes do SY, é indiscutível que Thurston Moore é o grande entusiasta da free music entre eles. O guitarrista começou a se envolver com o universo do free ainda em meados da década de 1980. Ele já contou em entrevista que não conhecia bem o free jazz e a improvisação livre quando o SY gravou seus primeiros álbuns. Mas passou a se embrenhar por essa seara de forma progressiva, divulgando essa música e fazendo parcerias cada vez mais com figuras do meio. O primeiro registro importante de Moore na seara free está no disco “Barefoot in the Head”, captado em junho de 1988, realizado em trio com os saxofonistas Jim Sauter e Don Dietrich, do mítico Borbetomagus. Daí por diante, o guitarrista tocou e gravou com uma ampla lista de figuras da free music, de diferentes gerações e expressões: Evan Parker, Mats Gustafsson, Susie Ibarra, Chris Corsano, Keiji Haino, John Zorn, Giancarlo Schiaffini, Joe McPhee, Cecil Taylor, Nels Cline, Rashied Ali, Han Bennink, John Russell, Bill Nace, Milford Graves, William Hooker, Wally Shoup, Merzbow, Derek Bailey, Paul Flaherty...
Em entrevista concedida a Fred Jung em 2003, Moore falou sobre seus primeiros contatos com o free jazz e a free improvisation:

"Improvised music as a genre, I was somewhat unaware of in the Eighties. (…) Kim Gordon  grew up listening to jazz with her friends on the West Coast, John Coltrane, etc. I became interested in it through her. I started really listening to classic Sixties jazz, to Coltrane and Mingus and to Ornette, and became very immersed in it, especially the New York school of it, and reading Leroi Jones’ writings on it.  That really opened up my ears to people like Frank Lowe and Rashied Ali and Milford Graves and some of the more expanded playing ideas. (…)
"At some point, I discovered, just by the fact that there was a record store in Manhattan that sold only jazz records and it was an extension of this record store on St. Mark's Place called Sounds and they opened up a store on 9th Street, which was where they shuffled all their jazz stock and sold it really cheap. I started going there because I was looking just for some more records that were akin to Coltrane and Mingus. Within all these records were a lot of European records by people on independent labels such as Peter Brötzmann, Derek Bailey, Evan Parker, and these were people I knew were sort of part of what was being presented at the Saint. I became curious about it and I picked up a couple of them because they were cheap enough. Nobody bought these records at all. There was no hip cache to them like there is now at all. It was pre-CD too. Especially Derek Bailey, they really made me curious in a way as to who these people were because their music was so open ended and all about these communications that they were dealing with each other and I didn't know how to look at it historically."

O guitarrista também sempre buscou ajudar a divulgar essa música (quantos fãs do SY será que converteu?), quer seja por meio de entrevistas, colaborações ou mesmo convidando músicos do free para abrir shows do Sonic Youth, tanto nos EUA (os saxofonistas David S. Ware e
Wally Shoup foram uns dos que tocaram com o SY) quanto em turnês por outros países, como o guitarrista Manuel Mota em concertos do SY em Portugal ou o Jooklo Duo na Itália.
Parece que com o fim do Sonic Youth – provavelmente com a agenda mais folgada – as parcerias e colaborações de Moore no meio free se intensificaram, basta ver o elevado número de gravações e shows nesse campo que fez nos últimos anos. Apenas considerando títulos a partir de 2012, o guitarrista lançou: “Play Some Fucking Stooges” (duo com Mats Gustafsson); “Last Notes” (com Joe McPhee e Bill Nace); “@” (com John Zorn); “Vi Ar Alla Guds Slavar” (com Gustafsson); “Live at Café Oto” (duo com Alex Ward); “The Rust Theier Throats” (duo com a baixista Margarida Garcia); “Sonic Street Chicago” (free impro solo); “Live” (com o The Thing); “Live at ZDB” (com Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini); “Hit the Wall” e “Live at Henie Onstad Kunstsenter” (novos duos com Gustafsson); “Custs of Guilt” (com Merzbow, Gustafsson e Balázs Pándi); “With” (com John Russell); “Jooklo Duo meets Thurston Moore and Dylan Nyoukis” (com Virginia Genta e David Vanzan)…

O novo registro nessa seara é um duo (atual formato favorito de Moore?) com o baterista Frank Rosaly. Os duos de bateria e guitarra parecem muito interessar a Moore, tendo já gravado (ou se apresentado) nesse formato com William Hooker, Susie Ibarra, Tom Surgal, Rashied Ali e John Moloney (com quem mais fez registros assim). E neste recém-lançado Marshmallow Moon Decorum, vemos free improvisation intensa, se desenvolvendo de forma crescente, mas bem centrada, com o pico de energia começando a ser destilado ainda no primeiro terço da peça – o álbum traz apenas uma improvisação, de pouco mais de 31 minutos, que fecha com um final explosivo. O encontro se deu no Neon Marshmallow Festival, em Chicago, em novembro de 2012. Um vídeo da apresentação (abaixo) circulou na época e nele podemos apreciar as nuances de Moore em ação (pedais etc.), a forma como cada estrutura sonora vai sendo criada, o que pode escapar na simples audição do disco. Não fica claro se a apresentação se resumiu a essa meia hora, não seria ruim se houvesse mais desse encontro. De qualquer forma, a intensidade que emana da peça deixa certo sentimento de satisfação, com os sentidos estimulados talvez o suficiente.   

Thurston Moore esteve em duas oportunidades recentes no Brasil, em 2012 e 2014, mas apresentando projetos seus de rock – ele nunca veio para mostrar sua faceta free improviser. Já se cogitou de trazê-lo em duo com Mats Gustafsson... Quem sabe a ideia não vinga mais à frente?




Marshmallow Moon Decorum ****
Thurston Moore / Frank Rosaly
Corbett vs. Dempsey















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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)