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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Susana Santos Silva: à espera de um convite


A trompetista portuguesa Susana Santos Silva é uma das vozes mais expressivas da cena contemporânea. Desde que editou seu primeiro trabalho, “Devil’s Dress”, em 2011,  espalhou sua música por diversos projetos, em uma discografia que já conta com 11 títulos. Em entrevista ao FreeForm, FreeJazz, Susana Santos Silva falou sobre sua trajetória, projetos e a vontade de tocar no Brasil: “Estou à espera do convite!




Atualmente, há muitas mulheres tocando saxofone, com algumas estando entre os mais importantes artistas contemporâneos ligados à música livre, como Matana Roberts e Ingrid Laubrock. Já o trompete tem sido menos procurado pelas mulheres. O que a levou ao trompete, como começa essa história? Tocou outros instrumentos antes?

Eu comecei imediatamente pelo trompete. Tinha 7 anos. O meu avô tocava trompete numa banda filarmónica e ensinou música a todos os netos. Foi ele o meu primeiro professor. Não sei se foi essa a razão que me levou a escolher o instrumento, mas sei que nessa altura não queria outro. As dúvidas surgiram muitos anos mais tarde quando o trompete e a música passaram de ser um hobbie a ser uma forma de vida.


Você é uma trompetista que estudou formalmente, passando pela faculdade de música (ESMAE), depois fazendo mestrado em “Jazz Performance” em Roterdã... Qual a importância de sua formação acadêmica para a música que faz? Sei que, a princípio, estudou trompete clássico. Quando houve uma virada em sua trajetória rumo ao universo do jazz?

O meu percurso académico foi um pouco sinuoso e peculiar. Durante muitos anos estudei trompete no Conservatório, quando ainda planeava ser Engenheira Civil. Ao mesmo tempo, e quando tinha 17 anos, comecei a tocar na que viria a ser a Orquestra Jazz de Matosinhos. Entretanto, desisti de Engenharia e entrei na Escola Superior de Música (ESMAE) onde estudei, de facto, trompete clássico. Durante estes anos, cheguei a pensar em desistir até que, no último ano, fui para Karlsruhe estudar com um dos grandes solistas europeus, Reinhold Friedrich, que teve uma importância fulcral na minha vida. Além da parte técnica de tocar o instrumento, mostrou-me o que de facto é importante na música, tudo com muita entrega e paixão. Mas, apesar disso, eu sabia que o meu caminho teria mais uma vez que mudar e, quando regressei ao Porto, decidi voltar à ESMAE, desta vez para ingressar no curso de Jazz. Assim fiz. Foi um período de muitas mais interrogações e de tentativas de integração. Sem grandes resultados satisfatórios. Em seguida fui para Roterdão, onde fiz o mestrado em Jazz Performance. Também não foi um período incrível para mim em termos acadêmicos, mas foi nessa altura que comecei a descobrir novos mundos dentro do jazz e da música improvisada que, finalmente, me colocaram no caminho certo, caminho esse que continuo, ainda hoje, a percorrer, mas agora com muita paixão e com uma paz interior de saber que o que faço hoje é o que sou.



“Devil’s Dress”, de 2011, não é apenas seu álbum de estreia, mas um marco em sua trajetória – afinal, sua obra se desenvolveu muito rapidamente após aquela gravação. Como foi sua carreira até Devil’s Dress? Tentou gravar antes, muitos projetos ficaram para trás?

O ‘Devil's Dress’ foi a primeira coisa que fiz quando estava a acabar o curso de Jazz no Porto. Foram as primeiras composições que me atrevi a escrever, foi a primeira banda que tive, foi o primeiro disco que gravei. E aconteceu porque tinha que acontecer. As dúvidas eram todas. Não tinha a certeza de nada... ainda hoje não tenho! Mas, olhando para trás, fico contente que o tenha feito, e que tenha tido o privilégio de, na altura, ter tocado com músicos que eram uma inspiração para mim.  Tudo aconteceu depois disto.


Dentre os diferentes projetos de que participa hoje, alguns contam com músicos residentes em outros países, como o Lama Trio, cujos dois outros membros vivem na Holanda, e o duo com a pianista eslovena Kaja Draksler. Vivendo no Porto, como mantém em atividade essas parcerias? Entre quantos projetos se divide atualmente?

Neste momento, vivo entre o Porto e Estocolmo, e um pouco por todo o lado, de facto. Tenho, cada vez mais, tocado e trabalhado com músicos da Escandinávia, com os quais me identifico muito musicalmente. Tenho uma relação com a Holanda desde que fiz o meu mestrado e desde que o trio Lama, lá sediado, se formou. Também o duo com a Kaja Draksler intensifica essa relação, visto que ela mora em Amsterdão. Tenho também trabalhado com um trio belga durante os últimos três anos, o que me leva algumas vezes à Bélgica, e não só, claro. Na realidade, depois dos projectos estarem montados não interessa muito onde se vive, ainda que viajar de Portugal se torne muitas vezes dispendioso porque estamos muito longe do resto da Europa. Além do duo com a Kaja Draksler, tenho um duo com o contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg (e uma versão em trio com o organista Hampus Lindwall), um duo com o baterista Jorge Queijo e um duo com a Alexandra Nilsson (Radio Two), o trio LAMA, com o Gonçalo Almeida e o Greg Smith (que ultimamente tem sido transformado num quarteto com a adição do clarinetista/saxofonista Joachim Badenhorst), lidero o meu quinteto português (ou quase) Impermanence, com o João Pedro Brandão, Hugo Raro, Torbjörn Zetterberg e Marcos Cavaleiro, e um outro quinteto, Life and Other Transient Storms, com a Lotte Anker, Sten Sandell, Torbjörn Zetterberg e o Jon Fält. Faço parte de um quarteto com a Christine Wodrascka, Christian Meaas Svendsen e o Håkon Berre. Como sidewoman, faço parte do sexteto do Torbjörn Zetterberg, do Coreto Porta-Jazz e do Octeto do João Guimarães.
Fora isso, outros concertos pontuais acontecem um pouco por todo o lado. Agora em maio, por exemplo, vou tocar em trio com o Fred Frith e o Chris Cuttler, no Festival for Contemporary Sound, em Zagreb.




Você ainda não gravou um disco de trompete solo. O formato solista é algo que lhe interessa ou prefere tocar sempre acompanhada de alguém?

Interessa-me, de facto, como uma oportunidade de me desafiar, de correr riscos que me podem levar a sítios ainda por explorar. Encontra-se o máximo de liberdade possível quando se toca a solo e isso é muito interessante, até porque a liberdade total levanta outras questões, nem sempre fáceis de resolver. Mas, na realidade, prefiro a interacção com outros músicos. Para mim, improvisar passa, em grande parte, por essa conversa com o outro, passa por descobrir o outro músico em cima de um palco e, juntos, criarmos algo completamente novo, que não poderia soar igual com mais ninguém. E por isto mesmo gosto muito do formato duo, onde não há espaço para distracções ou refúgios, é uma conversa directa e de uma intimidade que às vezes pode ser até constrangedora. Acho que mais cedo ou mais tarde isso vai acontecer, gravar um disco solo. Até agora tive três experiências a tocar ao vivo, a última foi em Estocolmo em dezembro passado. Gravei e toquei um concerto com a Fire! Orchestra, no Fasching, e a primeira parte do concerto foram três solos de músicos da orquestra. O meu foi um deles. Foi uma experiência incrível.





A cena jazzística e improvisada de Portugal vive um momento realmente vibrante, com muitos músicos de destaque e boa repercussão mundo afora. Para você, que é um dos nomes destacados dessa cena, é possível viver em seu país apenas da música que faz?

Não, claro que não. É preciso sair, procurar outros públicos e outros palcos. 

Vemos hoje uma geração que conta com grandes trompetistas (Peter Evans, Nate Wooley, Luis Vicente, Jonathan Finlayson, Niklas Barnö, Taylor Ho Bynum e outros mais). Como se sente fazendo parte dessa geração e como sua música se aproxima ou se distancia da que esses outros trompetistas têm feito?

Há de facto, neste momento, muitos trompetistas fantásticos que muito admiro e que são fonte de inspiração de há uns anos para cá. Tento sempre que possível tocar ou trocar ideias com eles, porque este instrumento não é fácil e é muito saudável perceber que há questões relacionadas com o instrumento e com a música transversais a todos os trompetistas. Estou agora em contacto com o Peter Evans a propósito de um concerto em NY, convidei-o para tocar e quase que aconteceu... Mas vamos acabar por partilhar uma noite de três sets, organizado pela trompetista Jaimie Branch, em que vou tocar duo com a saxofonista Ingrid Laubrock. A primeira vez que vi o Peter Evans tocar a solo vieram-me as lágrimas aos olhos! E não preciso de dizer mais nada. :) Também já tive o grande prazer de tocar com o Nate Wooley. Estou algumas vezes com o Niklas Barno, tocamos duo uma vez e gravamos com a Fire! Orchestra em dezembro. O Taylor Ho Bynum também admiro muito e ainda estou a ver se o apanho em NY, já temos tentado tocar um bocadinho quando estamos no mesmo sítio ao mesmo tempo, mas nunca aconteceu. Mas há mais trompetistas muito bons como, por exemplo, o Magnus Broo e o Eiving Lonning, entre outros.


Na sua música, a improvisação é um elemento fundamental, mas parece que também lhe interessa o processo composicional – ou seja, nem tudo o que faz é improvisação livre. Qual a relevância da composição para sua obra?

Sim, é verdade, a composição é algo que me interessa, mas que não me é naturalmente fácil de concretizar. Não gosto do processo de composição porque vive muito de decisões e eu sou muito má a tomar decisões. Mas eu gosto de desafios e este de pôr música em papel é um daqueles que valem a pena, especialmente quando chega a hora de ouvir o que escrevemos e, melhor ainda, se o resultado final vai para além daquilo que foi escrito. Isso é, de facto, o que me agrada particularmente, o de tentar escrever algo que não seja estanque, que se expanda e se transforme a cada novo concerto. Não é fácil chegar a um equilíbrio entre a composição e a improvisação de uma forma orgânica e visceral, mas é esse o meu objectivo final, que vou tentando sempre alcançar... mas demora tempo.


Você criou uma página no Bandcamp onde é possível ouvir um pouco de cada disco que gravou, além de oferecer versões digitais de seus álbuns para quem quiser comprar. Sente que isso tem ajudado a difundir sua música? E no caso de arquivos digitais compartilhados sem autorização dos envolvidos, por blogs e fóruns, por exemplo? Acha que isso acaba por ajudar a levar sua música a mais pessoas ou entende que é algo predatório, que prejudica seu trabalho?

O Bandcamp e todos os meios digitais, online, ajudam a difundir a música, isso é um facto. Todas estas questões à volta dos downloads ilegais é uma faca de dois bicos, por um lado ajuda a que a nossa música chegue aos quatros cantos do mundo e a muito mais gente do que seria possível de outra forma. Por outro lado, claro que isto é muito prejudicial para os músicos que trabalham muito e gastam muito dinheiro a gravar discos para depois não serem pagos devidamente por esse trabalho e não conseguirem, muitas vezes, viver daquilo que fazem.


Como ouvinte, o que foi importante em sua formação? E o que gosta de ouvir quando não está ocupada com a sua própria música?

Tudo. Acho que foi muito importante, para me tornar no músico que sou hoje, ouvir e absorver ao máximo diferentes músicas. Como em tudo na minha vida, não gosto de ficar fechada em prisões que nos limitam o pensamento e as emoções. Gosto de ouvir música que me surpreende, que me emociona, que me faz levantar questões, que me desassossega, às vezes que me tranquiliza... depende do dia, depende da hora!



Você já tocou aqui ao lado, na Argentina e no Uruguai, em 2014. Foi a única oportunidade que teve de se apresentar na América Latina? E o Brasil? Quando poderemos vê-la em nossos palcos?

Sim, foi a única vez que estive na América Latina. Adorei a experiência e gostava muito de voltar e, claro está, ir ao Brasil também. Não sei quando vai acontecer, mas espero que seja em breve! Tenho muita curiosidade de conhecer o país, mas também de me apresentar enquanto músico. Estou à espera do convite!


Quais são os próximos projetos que estão na lista de Susana Santos Silva? O que vem por aí?

Este é o meu futuro próximo: Tenho dois discos a sair em breve. Um deles vai ser editado pela Clean Feed e é o meu novo quinteto escandinavo, Life and Other Transient Storms, com a Lotte Anker, Sten Sandell, Jon Fält e o Torbjörn Zetterberg, que foi gravado ao vivo no Tampere Jazz Happening no ano passado. O outro chama-se Rasegan! e vai ser editado pela Barefoot Records. É um quarteto com a Christine Wodrascka, Christian Meaas Svendsen e o Håkon Berre, fruto de um convite que nos foi feito o ano passado pelo festival Blow Out em Oslo. O disco será apresentado em julho no Copenhagen Jazz Festival e Kongsberg Jazz Festival.
Em maio vou tocar em trio com o Fred Frith, a convite dele, e o Chris Cutler no Showroom of Contemporary Sound em Zagreb, toco em duo com a Kaja Draksler no Moers Jazz Festival (e em julho no Molde Jazz Festival) e a partir de 16 de maio estarei em Nova Iorque e Chicago. A primeira semana estou a tocar com a Orquestra Jazz de Matosinhos e o Kurt Rosenwinkel na Blue Note. Na segunda semana, tenho  cinco concertos em NY e dois em Chicago com vários músicos da cena local. Toco em trio com o Craig Taborn e o Thomas Morgan, trio com a Kris Davis e o Mat Maneri, duo com a Ingrid Laubrock, quarteto com o Dave Rempis, Torbjörn Zetterberg e o Tim Daisy, trio com o Zetterberg e o Jim Baker, e ainda estão três outros por confirmar. Vai ser uma experiência incrível tocar pela primeira vez com todos estes músicos que muito admiro. Fora isso, a vida vai acontecendo de forma misteriosa e surpreendente!






 
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. E colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)