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sexta-feira, 18 de março de 2016

Play it again... (novas variadas experiências sonoras)






Apanhado de novidades imperdíveis da free music.
Sons de todos os cantos, experiências em várias formas. 
Ouça, divulgue, compre os discos.








GLASS SHELVES AND FLOOR  ****
Alex Ward Quintet
Copepod
O clarinetista e guitarrista britânico Alex Ward soltou no ano passado alguns de seus mais bem acabados projetos, editados em dois álbuns. O primeiro desses registros, Glass Shelves and Floor, traz Ward acompanhado de um quinteto executando duas vezes a composição que intitula o álbum. A primeira versão de “Glass Shelves and Floor”  foi gravada em estúdio, em 7 de março de 2014. A segunda é uma leitura ao vivo da peça, captada no Vortex Jazz Club dois dias antes. Ao lado de Ward, estão Rachel Musson (sax tenor), Tom Jackson (clarinete e clarone), Olie Brice (baixo) e Hannah Marshall (violoncelo). Para essa formação camerística, Ward compôs pela primeira vez. Trata-se de uma peça longa (31 e 35 minutos para cada versão), com partes compostas e amplos espaços para improvisação, coletiva e solista. O resultado é uma música quase de concerto, um tanto séria, com uma beleza sisuda em que cordas e sopros criam momentos de densidade e lirismo, sem nunca perder o foco. 




PROJECTED/ ENTITIES/ REMOVAL  ****(*)
Alex Ward Trios and Sextet
Copepod

Projected/ Entities/ Removal é bastante diferente. Dividido em três faixas, tem formações e resultados diversos. Projected abre o álbum com um fulminante trio, formado por Ward, Rachel Musson e o grande baterista Steve Noble – que tocou com Ward no Brasil em 2012. Aqui temos energy music de alta voltagem, com sopros e bateria apresentando momentos de grande ebulição. O tom muda no segundo tema, o mais sutil, e do qual Ward não participa; quem toca dessa vez é Hannah Marsall, Tom Jackson e Olie Brice. Sonoramente, o tema se mostra mais próximo a “Glass Shelves and Floor” – e aqui funciona como uma espécie de intermezzo. Para a última e mais extensa composição do disco, Removal, Ward convocou o quinteto do álbum anterior, adicionando Noble. Dessa vez, podemos ouvir  Ward também à guitarra (apesar de seus melhores momentos serem mesmo ao clarinete). A peça é bastante longa (43 minutos) e mostra talvez a plenitude da fase atual de Ward, na qual tem dado ênfase a seu lado de compositor. “Removal” foi registrada ao vivo, na mesma noite em que “Glass Shelves and Floor”  e marcou a estreia do Alex Ward Sextet.
  






SPAIN IS THE PLACE   ****(*)
Tejero/ Webster/ Serrato/ Díaz
RawTonk 

O trio de espanhóis formado por Ricardo Tejero (sax), Marco Serrato (baixo) e Borja Díaz (bateria) – o “Sputnik Trio” – recebe como convidado o saxofonista britânico Colin Webster para este novo projeto. E o resultado é realmente intenso. Há energy music, há muita improvisação criativamente livre, há diálogos intensos entre os saxes. Tejero e Webster são saxofonistas de trilhas diferentes dentro do universo free, mas mostram grande sintonia neste projeto. O baixo elétrico de Serrato e a quebradiça bateria de Díaz são especialmente importantes para a sonoridade una e por vezes áspera e ruidosa do quarteto – não se pode esquecer que os dois comandam a banda de doom metal “Orthodox” e, de alguma forma, trazem elementos rock para cá. “El Gordillo”, a mais longa do conjunto, também é a que traz o resultado mais intenso, explosiva de ponta a ponta. Não ficam atrás “Carrión” e “Humilladero”, ambas também em elevadíssima voltagem. A tensão apenas baixa na última faixa, “El Cuervo”, que fecha com menos fogo esse álbum de alta combustão. 






BLEED  ***(*)
Webster/ Dunning/ Underwood
Adaadat 

Com uma formação inusitada, Bleed traz uma sonoridade por vezes densa e sombria. O trio aqui presente é Colin Webster (sax barítono), Sam Underwood (tuba) e Graham Dunning (turntable, effects). Com essa mistura pouco usual de timbres, eles criam 11 temas, em que a improvisação livre comanda as atuações. “Dustbleedblip” e “Mootmiasmaballast” apresentam alguns dos melhores momentos do conjunto, com sua pesada atmosfera doom. Há também temas mais ásperos, como “Grapefleckserpent”, em que se nota o sax de Webster mais presente e vivo. Apesar das interessantes possibilidades abertas pelo trio, talvez o trabalho soe algo contido e é possível que apenas ao vivo eles consigam exibir todas as nuances e investigações sonoras detalhistas que parecem querer explorar.






OUTGOING  ****
François Carrier/ Beresford/ Edwards/ Lambert
FMR Records 

Os canadenses François Carrier (sax alto) e Michel Lambert (bateria) têm desenvolvido uma intensa parceria há já alguns anos, registrada em diversos álbuns. Aqui eles se unem ao baixista britânico John Edwards e ao veterano Steve Beresford (piano, em três faixas). O encontro ocorreu no Vortex Jazz Club, em Londres, em maio de 2014, e agora é editado. A parceria inédita nasceu durante uma turnê que Carrier e Lambert fizeram pela Europa em 2014, que rendeu também o álbum “Unknowable”, com Rafal Mazur. Este Outgoing  traz mais de uma hora de música, dividida em cinco temas, em que o quarteto apresenta improvisação livre de alta inventividade, com o lirismo característico do sax alto de Carrier – que também experimenta o oboé chinês em alguns momentos. A faixa título, que abre o disco, é um exemplar perfeito da estética free-lírica de Carrier, à qual Edwards se integra com perfeição. Tocando em duo com Lambert ou agregando outros parceiros, Carrier tem criado uma obra bastante coesa, com uma sonoridade precisa e sem arestas.







TVA ****
Apuh!
Palsrobot Records 
O jovem trio sueco Apuh!, que lançou seu disco de estreia (“Ett”) em 2014, apresenta agora TVA. É notável o quanto Adrian Sellius (sax e clarinete), Mats Dimming (baixo) e Hampus Ohman-Frolund (bateria) amadureceram seu som em tão pouco tempo, no sentido de produzirem uma música mais aberta, ambiciosa e focada. Dimming, por exemplo, toca piano em algumas passagens, trazendo novos elementos ao som do trio – como mostra a intrigante “En snigels liv”, em que o gotejante piano e o pulsar da bateria criam camadas hipnóticas por entre as quais o sopro ecoa muito sutilmente. Apesar da sonoridade contemporânea, em muito pelo toque da bateria, certa herança do free sessentista pode ser sentida, apesar disso ser mais explícito no álbum anterior. Para entrar no universo do Apuh!, nada melhor que começar pelo começo, pela faixa que abre o trabalho e bem sintetiza sua sonoridade, “Hoppaloppa”. Editado em K7, TVA mostra que esse trio ainda pode surpreender muito.







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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)